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domingo, 25 de dezembro de 2011

Santo domingo

Há muito tempo, desisti das noites de sábado. Tudo cheio, confusão, gente bêbada, cinema e teatros mais caros, blitz de Lei Seca... enfim, todos os motivos para ficar em casa.

Mas nenhuma dessas razões é mais forte que dormir cedo para poder aproveitar o domingo.

Faço questão de aproveitar o único dia da semana que nos é dado para curtir a vida desde o primeiro raio de sol. Se o final do domingo é melancólico para aqueles que não gostam da profissão que escolheram, a manhã desse dia dedicado ao ócio é um bálsamo, uma bênção para quase todo mundo (excluo apenas os que acordam de ressaca).

A seguir imagens de um dia especial, pois além de ser domingo, é dia de Natal, o que deixa as ruas da cidade ainda mais desertas.

As primeiras luzes do dia e as últimas da noite iluminam belos quadros.

Essa igreja fica ao lado do shopping Rio Sul

O palco do próximo Réveillon numa Copacabana deserta e muda.

Avenida Atlântica, sem número
A tranquilidade é tanta que é possível até flagrar um galo e uma galinha ciscando numa rua do Flamengo.

O amor é lindo

No templo evangélico, o louvor começa cedo. O homem do chapéu diz que anda até ressuscitando gente...

Casa cheia


No Sambódromo deserto, silêncio na meca do barulho.

Cadê todo mundo?

Formigueiro humano sem formigas.

Feriado universal


O sem-teto não contava com o convite inesperado do frei franciscano para a ceia anual natalina.

Caridade sem plateia no Largo da Carioca


Restos da farra.

Absinto na noite de Natal... nêgo pega pesado

A noite dorme nas calçadas.

Alguém vai acordar mal

E os jovens que envelheceram do Catete ensinam que devagar se vai ao longe.
Bom domingo

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Cartão de Natal

Meu caro presidente Lula.

Eu gostaria de lhe enviar um e-mail, mas não tenho seu endereço eletrônico. Então, conto aqui, sem ligar para as chacotas dos idiotas da objetividade, daqueles que são incapazes de acreditar em alguém, que agora há pouco, às quatro da manhã, pude, enfim, dar um abraço apertado em você.

Foi num sonho, pelo qual agradeço ao prato de macarronada que comi antes de dormir (sempre que como muito à noite, tenho sonhos reais como esse de hoje).

No sonho, pouco antes de acordar e sentar-me no computador para contá-lo, eu finalmente o encontrei e pude dizer o quanto o admiro, o quanto aplaudi seus oito anos de governo, o quanto o defendi perante os que o atacavam a despeito de toda a correção com que agiu na presidência do Brasil.

Li que seu tumor na garganta teve uma redução de 75% logo nas primeiras semanas de tratamento. Fico feliz e tenho certeza de que isso se deveu, além da sua força interior e da ajuda de Deus, à sincera corrente positiva feita pela imensa maioria dos brasileiros. Sei que muitos deles não gostavam de você por causa da imagem negativa que a mídia elitista sempre procurou veicular desde que o metalúrgico barbudo emergiu entre os operários do interior paulista no final dos anos 80.

Eu nunca caí nessa, e me orgulho de ter percebido sua sinceridade de propósitos desde o primeiro dia em que o vi, de longe, chegando à Cinelândia para um comício do saudoso Lysâneas Maciel, na campanha para governador do Rio de 1982. Havia ali, no centro do Rio, milhares de pessoas e você foi carregado até o palanque, onde fez um discurso inflamado e apaixonante. Eu pensei: esse é o cara. Vinte anos depois, ao vê-lo desfilando num carro aberto, com a faixa presidencial no peito, pela Esplanada dos Ministérios, chorei de emoção. O meu presidente tinha, finalmente, chegado lá.

Não estou nem aí se esses elogios públicos que faço a você vão afastar esse ou aquele leitor do meu blog. E nem ligo quando a minha filha me goza, dizendo que deveria colocar um pôster seu no meu quarto, de tanto que o elogio e o defendo. Mas ela no fundo sabe que não sou fanático, porque cheguei até a votar no FHC uma vez, numa época em que achei que você estava acomodado e de saco cheio.

E estou pouco ligando se a grande imprensa não contrata jonalistas que falam bem de você. Não tenho intenção nenhuma de voltar a trabalhar numa redação. Já achei um trabalho melhor. Não quero ser colega de jornalistas como aquele que te chamou de "anta" num livro e teve que fugir do Brasil de tantos processos que acumulou.

O que eu gostaria mesmo é de lhe dar um abraço apertado como dei no meu sonho de agora há pouco, dizendo que você não traiu o povo brasileiro e conseguiu, com sabedoria e honestidade de propósitos, melhorar a vida de milhões de pessoas para quem o Estado Brasileiro nunca havia olhado em 500 anos.

Os preconceituosos ainda falam em mensalão (se é que existiu mesmo, porque não acredito no Roberto Jefferson desde os tempos do programa O Povo na TV). Ignoram as falcatruas dos governos tucanos, mas reclamam que seu governo precisou comprar os votos de um bando de parlamentares insensíveis para aprovar os projetos que levaram o Brasil a uma posição nunca alcançada. Se foi preciso subornar canalhas para tirar 30 milhões de pessoas da miséria, antes assim. Melhor isso do que suborná-los para que endossassem as negociatas na venda das estatais aos estrangeiros, patrimônio que o povo brasileiro jamais terá de volta. O reconhecimento internacional ao seu governo é um cala-boca nessa elite egoísta que insiste em depreciá-lo. E o amor que o povo demonstra por você é uma prova de que fez a coisa certa.

Como brasileiro e como irmão, desejo-lhe um feliz Natal e que o ano de 2012 seja de muita saúde e alegria.

Valeu, Lula!


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O 'Pânico' faz bullying

_ É só uma brincadeira _ disse cinicamente o tal do Impostor (Daniel Zukerman) a um transtornado Zeca Camargo.

Era mais uma dose dominical de bullying em rede nacional promovida pela turma do programa Pânico na TV, da Rede TV!.

Brincadeira coisa nenhuma! Há uma campanha do governo para reduzir o bullying nas escolas brasileiras, mas na televisão isso é aceito e, pior, tido como algo muito engraçado. Com programas assim, como esperar que os cidadãos de amanhã saibam que seu direito termina onde começa o do outro?

Trata-se de um dos maiores desrespeitos institucionalizados e tolerados de que se tem notícia. Que direito esse pessoal tem de perseguir e atazanar pessoas em locais públicos? O pior é que a maioria dos telespectadores acha engraçado. Engraçado porque não é com eles. Será que o apresentador Emílio Surita, que parece ser o chefe ali, gostaria que fizessem esse tipo de "brincadeira" com seu filho?

Não sou amigo do Zeca Camargo e nem vejo o Fantástico (a não ser quando topo com a competentíssima e linda Sonia Bridi). Só acho que nem ele nem ninguém merece passar por esse tipo de estresse. Isso é crime. Se eu fosse o Zeca chamaria a polícia. E processaria o programa e a emissora, que eu acho que é o que ele vai fazer, porque, no último domingo, com os olhos rútilos de ódio, filmou com seu celular os seus algozes, enquanto eles perturbavam seu juízo como moscas da indústria do entretenimento.

E ai de quem reclamar disso! Não se pode ser contra a mídia. A TV pode tudo. Desde que os militares desmoralizaram completamente a palavra censura, assistimos a um festival de absurdos e crueldades na televisão. É a liberdade de expressão sagrada apregoada pelos barões da mídia, que lutaram enquanto puderam até contra a singela classificação indicativa antes dos programas. Eles querem audiência, lucro, não importa a que custo. Ainda por cima, com suas cabeças colonizadas, esses empresários e executivos dizem que não estão fazendo nada demais, pois quadros semelhantes estão no ar em emissoras de outros países do mundo.

Se não pensam nas mais de 300 mil crianças que assistem ao Pânico todos os domingos só em São Paulo, que pelo menos respeitem o cidadão Zeca Camargo, que paga seus impostos e tem o direito de ir e vir sem ser importunado por um bando de babacas.

Não importa se o próprio Zeca Camargo legitimou o mundo cão televisivo ao apresentar um reality show em que mandava um grupo de retardados comerem baratas e larvras. Isso só depreciou sua carreira, mas não justifica um tratamento como o que estão lhe dando.

É o mesmo que fizeram com o Clodovil, que, coincidência ou não, morreu pouco depois. E também com o Jô Soares. No fundo, todos os alvos das "brincadeiras" de mau gosto e das perguntas ofensivas do Pânico têm vontade de fazer o que o Netinho de Paula e o Vítor Fazano fizeram: meter a mão na cara desses caras que não têm respeito pelos outros.

Mas não podem, porque vivem da mídia e, se partirem para a ignorância, correm até o risco de ficar mal vistos pelos executivos que os empregam. Sem falar que serão acusados de não saber brincar... de não ter senso de humor.

Ninguém com um mínimo de juízo briga com a televisão. Muito menos um artista que tem nela seu maior mercado de trabalho. E, repito, a TV pode tudo. Não vi um só colega do Zeca e do Jô levantar a voz contra isso. Nem o Sindicato dos Artistas, o dos Jornalistas.

Depois reclamam que no Brasil se quer fazer lei para tudo. Mas, se o pai não sabe que não se bate numa criança, o governo tem que ensinar. Se o produtor de TV não sabe que deve respeitar a privacidade e a individualidade das pessoas, o Estado tem que intervir.

Desde que me entendo por gente a mídia ridiculariza as pessoas. No rádio, o Ari Barroso humilhava os calouros, artifício que Chacrinha levou para a TV. O homem do sapato branco colocava parentes para brigar diante das câmeras, tradição que continuou com Ratinho e hoje fica por conta da Cristina Rocha. Sem falar nas pegadinhas e nos reality shows que aviltam a condição humana.

Ninguém respeita ninguém nem nada nesse país desde Pedro Álvarez Cabral. É uma tradição brasileira, é nossa cultura. Danem-se a natureza e o sinal vermelho. Gostamos de levar vantagem em tudo, certo? O político que mete a mão no dinheiro público e o empresário que paga propina não estão nem aí para seus compatriotas, nem para a Nação. Assim como o imbecil que para em fila dupla atrapalhando o trânsito.

A TV só reproduz esse espírito de porco brasileiro. O único momento em que pensamos na pátria é quando a seleção está em campo. Fora disso, é cada um por si e os outros que se danem.

Até gosto de algumas coisas do Pânico. Eduardo Sterblitch, por exemplo, é um dos melhores humoristas que apareceram no Brasil desde Chico Anysio e Ronald Golias. Carioca e Ceará têm imitações ótimas, e o quadro Afogando o Ganso muitas vezes é engraçado, como foi neste último domingo, com um Papai Noel arrebentando a piscina.

Por que o programa não dá de presente aos brasileiros no ano que vem o fim desses quadros de bullying? Pedir que parem de anunciar cerveja seria demais, então, pelo menos, abandonem o bullying. Coloquem-se no lugar de suas vítimas.

Se eu fosse o Zeca Camargo, usaria as imagens do constrangimento público que lhe impuseram para exigir, na Justiça, indenização por danos morais e materiais (afinal, depois de ser insistentemente sacaneado e desmoralizado na frente de milhões de telespectadores, sua imagem ficou abalada profissionalmente).

E não aparece um promotor para mandar parar com isso! Para proibir que membros do Pânico cheguem a menos de 500 metros do Zeca Camargo e do Jô Soares. Será que o nosso Ministério Público só sabe apontar o dedo para traficantes da favela?

Televisão em botequim de Copacabana. Foto de Marcelo Migliaccio
Vale tudo em nome do entretenimento?

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Grandes encontros da História I

Essa foi a coisa mais linda que eu vi na televisão nos meus 48 anos de vida. Vale a pena assistir até o final. Os dois vivem às turras. Vaidade de dois gênios. Gênios não das palavras, nem dos atos, gênios do esporte mais popular do planeta. E esse encontro foi a jogada mais emocionante de ambos.

Leia também:

Os argentinos gostam da gente

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Licor de Anísio

Na porta da boate do Lido, um senhor de óculos pretos e cabelos brancos esbraveja. O segurança, que parece o Charles Henrique do Pânico na TV, o leva para longe. Duas prostitutas o acompanham até a esquina, onde o idoso cai num choro convulsivo. Uma delas o acaricia e consola maternalmente, ou seja, duro ele não está.

Na porta do inferninho, o baleiro despeitado tripudia em  meio aos bombados pitboys:

_ Quem vai querer bater num velho desses?

Eis que um comboio de carros da polícia deixa o velho brigão em segundo plano. As sirenes acordam Copacabana.

Rumam para o maior prédio da Avenida Atlântica. No céu, não um nem dois, três helicópetos dão razantes sobre a cobertura cinematográfica.

Teve até policial descendo de rapel na cobertura


Na portaria, jornalistas e cinegrafistas se amontoam. Policiais armados vigiam as garagens, outros mostram um papel ao sonolento porteiro. Que espetáculo  às cinco e meia da manhã! Ao ver a tropa, achei que lá em cima estavam entrincheirados o Bruce Willis, o Charles Bronson, o Schwarzenegger, o Rambo e o Vítor Belfort. Mas era só o velho Anísio de outros carnavais.

Nota dez para a policial da Core


Logo, os curiosos começam a chegar.

_ Vieram prender o Anísio da Beija-Flor _ conta um cinegrafista de má vontade e que, se fosse bom para botar essa banca toda, não estaria no plantão da madrugada...

Três helicópteros para pegar um beija-flor. Que exagero, quanto combustível. No meu tempo, chamavam isso de presepada. Uma patrulhinha bastaria para levar o bicheiro preso. Aliás, acho que a coisa que eu mais vi na vida foi o Anísio ser preso. E a segunda coisa foi o Anísio ser solto.

Alguém tem dúvida que um juiz vai soltá-lo a tempo de ver sua escola do coração na Marquês de Sapucaí? Aposto que rola o alvará de soltura, e você?

Mais uma vez Anísio. Poderiam variar o script e escolher outro bode expiatório. Além do mais, Anísio é tricolor. Por que o sistema sempre desfalca a torcida do Flu? Prendam um flamenguista para variar.

Esse é o país da mesmice. Sempre os mesmos presos, sempre os mesmos corruptores, sempre os mesmos mandando na mídia, no Senado, no futebol, no Carnaval, no cimento, nas terras, no tráfico, na Justiça. E só há olhos para os bicheiros. E para os ministros da Dilma.

O país mais previsível do mundo.

Ah, Anísio não estava em casa.

Hoje, deu zebra

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Nova amizade

Um dia, eu contei aqui como uma árvore entrou pela minha janela. De tanto eu admirá-la e, ás vezes, dirigir-lhe palavras afetuosas, virou minha amiga e veio ao meu encontro, desafiando nossa lógica animalesca, cartesiana e materialista.

Pois o fenômeno se repetiu. Nào tenho a intenção de ganhar a vida como encantador de serpentes, quer dizer, de vegetais, mas acho mesmo que eles nos ouvem e sentem nossas vibrações. Acho, não, agora, mais do que nunca, tenho certeza. E as pesquisas holísticas do Peru sobre as quais li passaram a ter para mim uma comprovação prática, mais uma.

Desta vez, aconteceu com uma planta de um prédio vizinho. Há algumas semanas, notei o acúmulo de orvalho e fotografei a dita cuja. Até mostrei a foto aqui no blog, falando não dela, mas do próprio orvalho, uma coisa delicada na qual a vida atribulada das metrópoles não nos permite mais reparar.

Pois eis que notei que aquela mesma planta mudou de posição depois da foto. Tombou para fora do canteiro do edifício, exatamente na direção do lugar onde costumo me exercitar todas as manhãs.

Como um gato, um cachorro ou qualquer outro animal de estimação, ela pareceu estender a cabeça no meu colo para ganhar um cafuné.

Não sou do tipo que conversa com plantas. No máximo, lhes digo um "oi, linda" matinal. Mas não entro em detalhes da minha vida particular com esse tipo de gente... não chego a ser como a personagem da Débora Duarte na novela Pecado Capital, que tornou-se amiga íntima de uma joaninha e levava com elas altos papos diariamente.

No entanto, é impossível não se emocionar com as plantas, que os mais apressados insistem em classificar como seres estáticos, desprovidos de sentimento e imóveis por definição.

Nada de estado vegetativo, os vegetais estão mais vivos e atentos do que nunca. Observe e faça novas amizades.

Ninguém forçou, ela veio porque quis



Sobre plantas:





quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Um jardim e a infância

Alguém acreditaria se eu dissesse que todos nós tivemos nossa primeira aula na mesma escola?

Claro que ninguém levaria fé, pois há milhares, milhões de creches e jardins de infância espalhados pelo planeta. Eu, por exemplo, pulei o jardim e o maternal, que era a creche da época. Já entrei no pré-primário, que também não existe mais. Dali, fui para a primeira série, segunda, terceira... e cá estou...

Então explico o papo inicial: acontece que não tivemos nosso primeiro contato com o mundo acadêmico numa sala, mas sim numa pracinha. Ainda hoje, é num lugar desses, com bancos, jardins e brinquedos que as crianças recebem sua primeira aula na vida. Uma aula tão completa e avassaladora que nem precisa de professor.

Na praça, ao ar livre pela primeira vez desde que foi da maternidade para o aconchego do lar, a criança toma contato com o mundo.

E a primeira aula de nossas vidas não é de beabá ou de dois mais dois. É uma senhora aula de... geometria, com desdobramentos para muitas outras ciências divertidíssimas.


No escorrega, somos apresentados ao triângulo-retângulo de Pitágoras e ao plano inclinado da física. Sem nos machucarmos, experimentamos a Lei da Gravidade e descemos mansamente até o chão.


No trepa-trepa, retas paralelas e perpendiculares aparecem pela primeira vez. Ao subir e entrar por dentro dele, somos apresentados a noções de área e perímetro.

E o que é melhor: sem nos darmos conta, brincando. Vivendo e aprendendo.


A eterna gangorra é um clássico dos parquinhos. Além do ângulo de 60 graus (ou 45?), é ali que valores físicos como massa e altura ditam as regras. Se sentamos no brinquedo com um garoto gorducho, vamos ficar de castigo. Não é a Lei de Newton, é a Lei da Gangorra. E não há métáfora melhor da vida: ora em cima, ora embaixo.


Até inconfundível a parábola está lá. Nunca gostei desse brinquedo... e odeio trigonometria.


E eis que surge o campeão de popularidade, o balanço! Movimento pendular, hipnotizante, vento no rosto e... quem nunca voou pelos ares e se estabacou no chão de tanto impulso que deu no banquinho suspenso? É assim que conhecemos a força inercial. O balanço fica e a criança vai. Novo encontro com a lei da gravidade e pronto, eis a pior maneira de sair pela tangente. Aprendemos assim que na vida é preciso ter cuidado.

Na praça não há lugar só para as ciências exatas. Nela, observamos formigas, passarinhos, borboletas e mosquitos da dengue na nossa primeira lição de biologia. Nada de livros, tudo ao vivo!

E, por fim, ao brincar com as outras crianças, conhecer mães e babás que não as nossas, somos introduzidos naquela que será talvez a matéria mais difícil de todas, a sociologia. Ali, ainda pequenos, começamos a conhecer e a tentar entender o ser humano.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Como o Rio é pequeno...

Que coisa mais feia essa prisão do William da Rocinha, líder comunitário acusado de associação ao traficante Nem e que há cinco anos era funcionário do gabinete da vereadora do PSDB do Rio, Andrea Gouvêa Vieira.

Andrea é filha do presidente da Federação das Indústrias do Rio (Firjan), mas, pela sua entrevista ao deixar a delegacia hoje, jamais poderia ganhar a vida como atriz... estava mais sem graça do que a festa dos melhores do Campeonato Brasileiro no Ibirapuera...

Vejam como o mundo é pequeno.

O outro preso com William por ter sido filmado recebendo dinheiro de Nem era funcionário do governo do Estado do Rio, olha só! Segundo a própria assessoria de Sérgio Cabral, o pinta braba começou como zelador mas logo foi promovido a analista de projetos!!!

Há cerca de um mês, dois advogados também muito próximos das altas rodas do governo estadual foram flagrados pela polícia trasportando no porta-malas... o traficante Nem! Foram interceptados pela PM, mas os soldados quase precisaram trocar tiros com policiais civis, que queriam levar o preso graúdo para a delegacia da Gávea.

Se esses advogados estão presos? Acabei de saber que ainda estão... mas a imprensa não se interessou em averiguar suas relações com o poder, assim como passou batida pela estranhíssima carreira do zelador-analista-de-projetos no governo do Estado. Nossa imprensa é muito sagaz quando lhe convém.

Nem, aliás, estaria negociando, na semana anterior, sua reudição com a polícia civil estadual, dizem... mas o secretário Beltrame deu declarações confusas sobre essa versão.

Agora, a vereadora, cujo partido os telejornais e impressos do Rio evitam vergonhosamente mencinoar (pode reparar), diz que alertou o governo do Estado de que ela e seu assessor da Rocinha estariam recebendo ameaças dos traficantes da Rocinha. Sem convencer muito, ela disse aos jornalistas que William era obrigado a aceitar dinheiro de Nem... essa eu nunca vi... veja se traficante vai obrigar alguém da favela a aceitar seu dinheiro. Se ele não gosta, mata. Sai mais barato. E também é estranho que Nem trate seus desafetos à base de uísque Johnny Walker, como aparece no vídeo em que os três adulam um fuzil.

E um jornal carioca contratou um perito em leitura labial que atestou não ter havido qualquer coação na conversa. A certa altura, o chefão do tráfico chega a pechinchar o preço da arma que os dois ilustres queriam lhe vender. Mas o mais importante é que o perito disse que a fita exibida pela polícia foi editada. Por quem? Quando? Que conversas ou nomes teriam sido suprimidos da gravação antes que ela se tornasse pública?

O governo do Estado confirmou rapidamente a tal denúncia de ameaça da vereadora tucana e informou que repassou-a à secretaria de Segurança Pública.

Procurada pela TV Biscoito (que está fazendo uma força danada para tudo isso parecer muito natural), a secretaria de Segurança, pega de surpressa nesse enredo rocambolesco, não conseguiu responder.

Parece que alguém faltou ao ensaio...

Leia também: O governador blindado

domingo, 4 de dezembro de 2011

Sócrates



Início de 1982. O repórter foi impiedoso e mandou na lata:

_ Sócrates, a seleção tem você, Toninho Cerezo, Falcão e Zico para apenas três vagas no meio de campo. Que trio o Telê deve escalar?

O objetivo do jornalista era colocar o jogador numa saia justa com os companheiros mas, verdadeiramente modesto e despojado como sempre, o doutor-craque-de-bola respondeu sem pestanejar:

_ Jogam Cerezo, Falcão e Zico. Sai Sócrates.

Noventa e cinco por cento dos jogadores de futebol profissionais responderiam que o técnico é quem iria decidir, que a seleção estava bem servida, aqueles chavões. Outros 5%, mais marrentos, fariam auto-promoção e se escalariam.

Mas Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira não era um jogador como os outros. Formou-se em medicina, era politizado, culto, simples, sincero, calmo. Dentro do campo, usava o calcanhar como ninguém. O calcanhar de aquiles deveria, aliás, ser rebatizado de calcanhar de Sócrates.

Arrebentou na Copa de 82 (Telê achou lugares para os quatro no time titular).


E também jogou bem na de 86, quando mostrou sua personalidade ao perceber que os mexicanos haviam colocado o Hino à Bandeira em vez do Hino Nacional antes da primeira partida do Brasil. Enquanto os outros jogadores ficaram com cara de tacho, o capitão saiu da tradicional perfilação balançando negativamente a cabeça.

Era muito alto e tinha os pés pequenos, o que, para qualquer um, seria um empecilho à prática do futebol. Não para ele. É verdade que foi mal na Fiorentina, mas outros craques como Didi, Renato Gaúcho e Edmundo também passaram maus momentos no futebol europeu. Acontece.

Valeu, Sócrates!


País sem memória

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

domingo, 27 de novembro de 2011

Tão diferentes e tão previsíveis

Com a discrição que o ato exige, andei reparando nos pratos que as pessoas fazem nos restaurantes self-service. As combinações são as mais diferentes, prova inegável da diversidade humana.

Tem aqueles que, aproveitando a profusão de opções, fazem as misturas mais esdrúxulas. É macarrão com sushi, bife com bobó de camarão. Estranhos paladares... de perto ninguém é normal...

E há os que se esmeram em fazer um prato saudável, com muitas folhas, legumes... mas, já no final do mesão, têm uma recaída e, pronto, lá vai uma costeleta de porco para o meio da selva natureba.

Mas os mais junkies, geralmente, são crianças. Pegam uns nuggets, uma coxinha de galinha, um croquete e batatas fritas. Isso quando não podem almoçar no Mc Donalds e jantar no Bob's. Seus pais quase sempre permitem essa dieta doentia e ainda pedem um refrigerante para ajudar a gororoba a descer até aquelas pequenas panças em expansão.

A mulherada, de olho na boa forma, faz o possível para não sofrer na balança. Muita salada, uma proçãozinha disso, outra daquilo. Não sei como aguentam tanto desprazer na refeição. Já viu coisa mais melancólica que um almoço num restaurante natural?

No entanto, se são tão diferentes à mesa, as pessoas são muito parecidas em suas reações. Como são previsíveis. O cabresto cultural é forte, preso com correntes nas tradições que mudam numa velocidade de lesma indolente. As amarras sociais, religiosas aprisionam numa cartilha de comportamento mais fina e superficial que um manual de autoescola.

O que é o conto do vigário, senão um ardil ensaiado com base na previbilidade do ser humano? Por isso, a maioria das pessoas cai, ou não seria um negócio tão lucrativo que valesse o risco de seis anos na cadeia. O vigarista segue um roteiro pois sabe mais ou menos como sua vítima vai reagir a cada estímulo.


Os religiosos também se valem dos medos que o homem tem desde que Adão foi erigido de uma cadeia de aminoácidos que boiava num oceano em convulsão. E quem não gosta de uma explicação fácil para tudo?

A propaganda, o discurso político, o jornalismo, o direito e até a medicina estão apoiados no que esperamos do que se convencionou chamar de um cidadão respeitável, cumpridor dos seus deveres. É em cima dos medos e inseguranças desse cara que as grandes corporações, congregações e partidos realizam seus lucros.


Ser diferente é um pecado. Pode ser um pecado mortal se você der o azar de cruzar com os pitbulls do sistema, os fascistas, os neonazistas, que, reacionários que são, nada mais fazem do que conservar o status quo na base da porrada. O interessante é que eles, embora condenados pela mídia da boca para fora, zelam para que ninguém ande fora da linha, exatamente como querem os donos do poder. Muito do que os religiosos pregam com a Bíblia na mão, os skinheads e afins aplicam com um soco inglês entre os dedos. É branco com branco, homem com mulher, negros na senzala, nordestinos no Nordeste e gays bem trancados no armário.

Drogas, nem pensar, pois a alteração de consciência é um grande passo para se mudar de opinião.

E nós, com nossos paladares tão diferentes, somos obrigados a nos esforçar para caber no curral onde fomos colocados. Se ficarmos quietinhos e comportados, essa gigantesca máquina trabalha sem maiores sobressaltos.

Àqueles que não querem virar salsicha na canhestra engrenagem planetária, no entanto, basta serem autênticos, honestos consigo mesmos e atentos à sua intuição. Danem-se as convenções.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Visão privilegiada

Ok, chegou a hora da resposta à pergunta feita ontem.

Sei que você passou a noite em claro matutando sobre qual seria o lugar do Rio em que é possível avistar simultaneamente o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar, o Morro Dois Irmãos e a Pedra da Gávea.

Obviamente, falo de um ponto de observação ao nível do mar, pois no alto de um dos morros do Rio fica fácil ver esses cartões postais citados.

Mas vamos à resposta, com fotos:

Eis o Cristo Redentor, maravilha do mundo moderno e marca registrada do Rio de Janeiro


Agora, o Pão de Açúcar, que deste lugar só mostra seu ponto culminante, onde fica a estação final do famoso bondinho.

E, por fim, em dupla, o Dois Irmãos e a Pedra da Gávea.


Pois o lugar é o bairro do Leme, mais precisamente no costão dos pescadores, de onde tirei essas fotos.

Mas confesso que, como disse o leitor Paulinho Cury, pode ser que de algum ponto da Lagoa Rodrigo de Freitas seja possível ver esses quatro points cariocas.

E amanhã tem mais. Quem entrar neste blog vai fazer uma viagem fantástica.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Adendo

No texto O burro e o inteligente, ficou parecendo que a inteligência é só um dom divino, dado a alguns escolhidos e negado a uma legião de topeiras. Em parte é, mas creio que a capacidade intelectual pode ser estimulada na infância com ótimos resultados.

É possível aprender a pensar, habituar-se a analisar as coisas, a procurar aspectos diferentes, a fugir do lugar comum. A capacidade de observação é parceira do desenvolvimento intelectual.

Uma criança estimulada é aquela criada com diálogo, não com ordens. Se em suas relações há espaço para a discussão de temas, não verdades absolutas inquestionáveis, há grandes chances de ela se tornar um adulto com uma visão mais ampla do mundo e dos problemas que se apresentarem. Um ambiente de companheirismo, da mesma forma, contribui para o desenvolvimento do intelecto. Não dá para raciocinar vivendo sob constante tensão.

Uma casa onde há muita revista de fofoca e pouco livro é uma fábrica de burros em potencial. Se os programas de TV que deleitam os adultos dessa casa são aqueles que só denigrem o ser humano, o que esperar das crianças que vivem ali?

Para finalizar o blá-blá-bla, deixo uma pergunta bem objetiva que será respondida nesta sexta. sem falta, e vai estimular você a pensar:

Qual o único lugar do Rio em que, ao nível do mar, se pode avistar ao mesmo tempo o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor, a Pedra da Gávea e o Morro Dois Irmãos?

terça-feira, 22 de novembro de 2011

O incrível homem que não dormia

Não cheguei a saber o seu nome, mas apostaria todas as minhas fichas em José ou João. O pessoal da barraca de coco e refrigerante instalada na areia da Praia Vermelha chamava-o de Baixinho.

De fato, não era alto. Tinha 42 anos, mas aparentava 60, certamente pelo hábito de beber cachaça, iniciado ainda criança, quando roubava garrafas de aguardente do pai e enterrava no quintal para beber sozinho.

Sobre futebol, me disse a coisa mais confusa que já ouvi:

_ Quando eu morava lá na Paraíba, torcia para o Vasco. mas, quando vim pro Rio, virei Flamengo.

_ Eu sou Fluminense _ entabulei meio sem entender o vira-casaca descamisado.

_ Ah, mas quando jogam Flamengo e Fluminense, eu torço pro Fluminense _ surpreendeu-me ele novamente.


Meu sobressalto nesse momento só não foi maior do que quando o Baixinho me disse que passava as noites inteiras andando pela cidade atrás de latinhas.

_ Você, então, dorme de dia... _ concluí.

_ Não, de dia eu trabalho aqui na barraca.

_ Ué! E que horas você dorme?

_ Eu não durmo, não.

_ Não dorme!?

_ Não.

_ Como assim, cara?

_ Durmo não.

Comecei imediatamente a pensar em como eu, afortunado jornalista, comunicaria aquilo à Humanidade.

"O incrível homem que não dorme".

Imaginei as manchetes garrafais em todos os idiomas e dialetos do planeta. Cientistas debruçados sobre a minha descoberta. E eu lá, cheio de holofotes, como se fosse um participante do Big Brother que nunca mais seria eliminado do grand monde.

Meu sonho, no entanto, durou pouco.

Resolvi perguntar uma última vez, antes de pegar minha filmadora para registrar Baixinho, o fenômeno da natureza, se ele realmente não dormia.

_ Só quando eu tô com sono, aí eu durmo.

Baixinho amassa latinhas para vender. Trabalho duro

domingo, 20 de novembro de 2011

O sertão vai virar mar

Moeda forte


É, malandro, a coisa na Europa tá mais feia que macarrão em tigela de plástico.

Governos caindo, desemprego e até fome.

Logo fome, que era até pouco tempo privilégio do sertão nordestino, das favelas cariocas, da África, da Coréia do Norte...

Mas não foi só o eixo de rotação da Terra que mudou. A ordem econômica planetária também. Emergentes como o Brasil estào tomando seu lugar. Aqui o dinheiro aparece, sobram riquezas naturais, mercado consumidor. Enquanto o primeiro mundo, que está virando terceiro. pena pois não tem mais terras estrangeiras para colonizar.

Gringos correm para o eldorado brasileiro. Bolivianos e porgugueses lideram as listas de imigração. Lembra dos anos 80, quando brasileiros desiludidos invadiram Portugal, na chamada crise dos dentistas? Pois é, o sertão virou mar e, qualquer dia desses, você ainda vai ter uma empregada doméstica lusitana...

Até os Estados Unidos estão perdendo aquela empáfia. Já sacaram que ou se juntam aos emergentes ou serão engolidos também. Mas tiveram que ver coisa preta para finalmente eleger um negro presidente.

Aliás, por que não ouvimos falar em crise nos ex-satélites soviéticos? República Tcheca, Romênia, Hungria... como será que andam as coisas por lá? Por que parecem não estar em ebulição como Itália, Espanha, França e Inglaterra?

Por aqui, a turma das favelas não quer mais saber de fazer faxina em casa de bacana, felizmente. Aliás, eles nunca quiseram isso, mas era só o que conseguiam. Agora, têm a chance de ser outra coisa na vida. Talvez até um trabalho não braçal. Já viu os indicadores econômicos da Rocinha? Imagine aquilo tudo legalizado. Salve o assistencialismo de estado, que dá às pessoas a chance de não precisar trocar o estudo pelo trabalho antes da adolescência. Matar a fome gera cidadãos saudáveis, trabalhadores e mercado consumidor.

Falta apenas derrotar a chaga da impunidade e investir mais e mais em educacão.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Tempo rei

Hoje, a minha filha se forma no colégio. Ainda me lembro, quando ela tinha apenas nove meses, de levá-la pela primeira vez à creche. Era ainda um bebê e, no final da tarde, quando eu chegava para buscá-la, a via pela janelinha de vidro da porta, sempre risonha com as cuidadoras, no meio dos outros filhos de pais mais ocupados com o trabalho do que com as jóias que tinham em casa.

Do Berçário 1, ela foi para o 2, para as turmas maiores. E era sempre um suplício deixá-la na escola para ir trabalhar. A separação doía todo dia.

Aí, comecei a reparar que, com o passar do tempo, a convivência com outras crianças tornou-se um prazer para ela. Voltava meio estressada, mas acho que ela gostava. E eu notei que aquele momento diário da nossa separação já era mais penoso para mim do que para ela.

Entendi que era melhor ela ficar na escola do quer em casa, com uma babá, ou com avó, vendo TV.

Vi que ela estava crescendo no dia em que, ao chegar à creche e agachar para esperar que ela viesse correndo e me desse aquele abraço gostoso de criança, levei um susto. Ela veio ao meu encontro como sempre, mas, em vez de me abraçar, simulou me dar um chute naquele lugar que mais dói num homem...

A gente cria filhos para o mundo, resignei-me.

Quase não dá para acreditar que aquele bebê do Berçário 1 agora tenta o vestibular com mais 4 milhões de crianças da mesma geração.

O melhor de tudo é que somos amigos. E hoje, aos 18 anos, ela voltou a correr na minha direção para me abraçar (nada de golpe baixo, foi só a fase rebelde dos 6 anos).

Um abraço delicioso, que, para mim, vai ser sempre aquele abraço que só uma criança dá.

Nos divertimos muito no lendário Parque Peter Pan, onde também eu, quando criança, cheguei a brincar. Quem sabe, levarei meu neto lá também...

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Unidade de Terapia Intensiva social

Blindado da Marinha desce a Av. Niemeyer: alguma coisa está fora da ordem...


Quais as consequências do egoísmo?

Basta ver o que o Estado brasileiro está precisando fazer para retomar áreas dominadas  por criminosos no Rio de Janeiro. Os canhões, os tanques de guerra e as centenas de soldados armados nada mais são do que a UTI móvel necessária para o procedimento de emergência. A doença é grave e foi alimentada durante 500 anos de abandono.

Como conceber o uso de força de guerra para entrar numa comunidade encravada entre os bairros da Gávea e de São Conrado? Como o estado foi capaz de deixar que tantos bandidos se juntassem e se armassem a ponto de organizar ali um governo paralelo, com suas próprias leis e sua vara de execuções penais. Eu disse vara? Leia-se vala.

A maioria de nós não tem ideia da miséria que campeia nas favelas brasileiras. Escolas caindo aos pedaços, professores desestimulados e mal preparados, postos de saúde ineficientes, esgoto a céu aberto, barracos insalubres, desemprego e subemprego.

Foi isso que nossa elite, a mais egoísta do mundo, construiu ao sonegar oportunidades a seus semelhantes durante décadas e décadas. Apoiou governos concentradores de renda, governantes que se esmeraram em negar cidadania a gerações e gerações. Em 1989, pesquisa mostrou que o percentual de lucro no Brasil era o maior do planeta. Passaram-se 22 anos, idade de muitos marginais de hoje que eram bebês naquela época.

Não é de espantar que tantos tenham optado pelo caminho do crime. E não é de espantar que milhares estejam se suicidando nas cracolândias. O crack é a ponta do iceberg da desesperança. É uma geração inteira jogando a toalha e dizendo que não quer mais viver. Não por acaso, a maioria das vítimas dessa epidemia entorpecente nasceu em favelas. Só estão dizendo ao mundo que, nos papéis que lhes deram, não querem mais brincar.

Agora, a mídia tucana trata a tomada da Rocinha como se aquela área tivesse acabado de ser descoberta. Como se seus moradores fossem uma tribo indígena só agora encontrada pelo homem branco. Quanta hipocrisia. Há décadas aquelas pessoas estão lá, pedindo socorro e só agora, quando os efeitos colaterais da miséria ameaçam as compras da classe média nos shoppings, é que resolveram "resgatar" aquela região. Conversa fiada, estão apenas tentando salvar sua própria pele e os rolex que ostentam em seus pulsos.

Depois da fuga dos bandidos, mandam para a gigantesca favela uns três caminhões de coleta de lixo, um trailer para emissão de carteiras de identidade ou de trabalho e acham que vai ficar tudo bem. Talvez instalem também alguns postes de luz e tubulações de esgoto nas ruas principais.

Com isso, acham que as coisas estarão resolvidas. Tudo perfeito para que os turistas estrangeiros curtam a Copa do Mundo e a Olimpíada no Brasil sem medo de levar uma bala perdida de fuzil no meio da ideia.

Os comentaristas dos jornais e revistas tucanos atiram todas as pedras que têm no Bolsa Família, mas tratam os moradores das favelas recém-ocupadas pela polícia como incapazes que precisaram ser salvos das garras da bandidagem. Na verdade, sempre foram vítimas da falta de atenção de governos tutelados pelos eternos detentores dos meios de produção e de comunicação.

Os moradores da Rocinha não são vítimas dos bandidos, sempre foram vítimas dos que agora se autoproclamam seus salvadores.

Outra história da carochinha da qual tentam nos convencer é a de que o Estado não levava educação, saúde etc às favelas porque os marginais que se estabeleceram nelas não deixavam. É exatamente o contrário: as bocas-de-fumo cresceram e se fortaleceram ali justamente porque era uma região aonde o poder público nunca ia. Ninguém é besta de montar boca na Avenida Vieira Souto ou na Paulista, porque o Estado sempre esteve lá. É mais seguro transgredir em Manguinhos ou no Capão Redondo. E a Casa Grande só passou a se preocupar com a senzala quando dela começaram a vir tiros de AR-15 e de AK-47.


Para os moradores do Leblon, essas pessoas prestam para servi-los nos bares e restaurantes e para lavar seus banheiros, mas não para viver dignamente, se densenvolver, fazer uma faculdade e, que heresia, competir com os filhos da elite dourada no mercado de trabalho.

Se agora precisamos de tanques de guerra para entrar nesses bolsões de miséria, esses blindados nos dão a exata dimensão do quanto fomos egoístas e insensíveis (mesmo lhes dando roupas e brinquedos velhos em época de Natal).

Vamos ver o que daremos a essa gente toda agora além de novos fuzis a intimidá-los e de novos xerifes a tomarem conta de suas vidas.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A Rocinha agora é de quem?


"Caveirão" da PM no pé do Morro do Vidigal. Tão castigado pelos fuzis dos marginais de outras favelas, ele não levou um só tiro na operação do último domingo


"A Rocinha é nossa", berra em manchete o jornal que tem nome de biscoito de polvilho.

"Nossa" de quem?

Pensei que iriam hastear a bandeira da TV Biscoito no alto do morro depois da invasão militar. Blindados da Marinha e caveirões do Bope e do Choque para enxotar meia centena de bandidos. Os outros cinquenta do bando ficaram por lá mesmo, pois não têm ficha na polícia e vão passar o dia sentados no meio-fio, olhando para os PMs de cara feia.

O ufanismo na mídia foi maior que o do tricampeonato de 70. Rocinha, ame-a ou deixe-a! Ninguém segura essa favela! A mesma imprensa que alardeava a existência de um exército com 400 fuzis, metralhadoras anti-aéreas e etc teve que reportar uma invasão tranquilíssima. Viu? Bem-feito pra você que madrugou no domingo esperando ver um grande tiroteio ao vivo. Quem mandou acreditar na revista semanal tucana que pensa que leitor é cego?

Mas o mais chocante nessa cobertura foi a imagem feita do helicóptero da polícia quando o traficante Nem foi tirado do porta-malas do carro em que fugia.

Aquilo é uma imagem pública, foi feita de dentro de um veículo do Estado, por um equipamento do estado, operado por funcionários públicos pagos pelo contribuinte.

Era uma imagem que deveria ter sido entregue a toda a imprensa simultaneamente, talvez numa entrevista coletiva, pelo próprio secretário de Segurança Pública do Rio.

Mas, não, foi dada ao Fantástico, onde foi exibida em primeira-mão na noite de domingo. As outras redes de TV só não reclamaram porque fariam o mesmo se pudessem.

Aaahhh, agora entendi quem é o "nossa" da manchete do jornal biscoito.

São eles mesmos.

A Rocinha agora é das Organizações Biscoito de Polvilho!

A Rocinha só, não... o Alemão, o Carnaval, o futebol, o Papai Noel, o Réveillon em Copacabana, o Rock in Rio, o Roberto Carlos, o governo do Estado, a prefeitura...

Só a Presidência da República não é deles. Há mais de oito anos. Mas, diariamente, eles lutam para recuperá-la para seu braço político, o PSDB. Especialistas em marolas e em acusações sem provas, vomitam seu noticiário viciado e deturpado, que não informa, por exemplo, que o governo federal ajuda o Rio a fazer 70 mil casas populares em favelas muito mais miseráveis que a Rocinha.

sábado, 12 de novembro de 2011

Década deliciosa

Som do Thaide pra animar o domingo, especialmente daqueles que viveram e curtiram os anos 70.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O dia em que Eros perdeu a cabeça

Eros era um cara porreta.


Olha a pinta do garanhão

Levava a vida só na curtição. Praia, mulheres, "meus bom drink" e até iatismo. Isso mesmo, Eros adorava velejar.


Foi mal o merchandising...

Mas o que ele sabia melhor é como tratar as mulheres. Como tocá-las e, principalmente, como beijá-las. Não houve mulher que não se dobrasse aos beijos de Eros.

Malandro, ele deixava bem claro, logo no primeiro encontro, que só aceitaria discutir a relação uma única vez ao ano e, mesmo assim, por 40 minutos. Contados no relógio. E, quando uma de suas namoradas aparecia com aquele semblante encrespado, o Deus do Amor a cobria de beijos, o bastante para que a moça desistisse do papo cabeça que pretendia levar.


Só gata, maluco! Todas aos pés do cara

Por isso, ele ficou conhecido como o Deus do Amor.

Só que, um dia, apareceu uma mulher diferente. Ela tinha aquele detalhe de imperfeição que fascina os homens que realmente gostam de mulheres.


Eis a pequena notável, que deram logo um jeito de pichar

E Eros, como era chegado na coisa, ficou louco de paixão. E aí aconteceu o que ninguém jamais pudera supor ou prever: Eros perdeu a cabeça!


Pobre rapaz...

Apesar do inusitado, a imprensa só noticiou o fato dois anos depois, já que não tinha correspondente ou sucursal no Olimpo e dependia das informações passadas por suas fontes. E quando alguém ligou para a redação avisando que o Deus do Amor, o Rei da Sedução, havia perdido a cabeça por uma cabrocha, já se haviam passado dois longos anos. O atraso é compreensível, pois quem passou a informação ao jornal foi Dionísio, que só anda doidão e por 24 meses se esqueceu do seu dever de informante.


Radiofoto transmitida direto do Olimpo

Eros ainda está descabeçado.

Também, não era para menos, com essa mulher até eu ficaria.


quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Os diplomatas do Congo

Primeiro, o Alemão. No episódio da madrugada de domingo, quando o Exército acabou com uma festa à força, faltou a versão do comando. Segundo o major Bouças, os moradores se recusaram a diminuir o volume do som e atacaram os soldados com pedras. Acredito. Há muita relutância de uma parte da comunidade de viver sob o império das leis. Incomodar o sono dos vizinhos com música alta era comum nos tempos de domínio dos traficantes.

A maioria dos moradores em qualquer comunidade aprova a ocupação policial, isso é fato. Qual mãe quer ver seu filho pequeno no meio do fogo cruzado? Quem gosta de viver com marginais armados vendendo e usando drogas na porta de casa?

Se a polícia será violenta e arbitrária com os moradores ou se virão os investimentos sociais necessários, aí já é outra questão.

Um morador da favela da Maré me contou dois episódios que mostram o horror que é viver sob a ditadura da bandidagem. Certo dia, um olheiro do tráfico foi flagrado dormindo em serviço. E um cochilo do olheiro pode significar sono eterno para seus comparsas da quadrilha. Como corretivo, o chefe do tráfico mandou darem nele um jato de mangueira de bombeiro, além de uma sonora surra.

Menos sorte teve um usuário de drogas que, na mesma favela, fez o seguinte comentário na boca de fumo, enquanto examinava e dava petelecos no seu saquinho de cocaína:

_ É... no tempo da outra facção a porção era mais bem servida...

Sua condenação à morte foi imediata. Morreu de uma maneira horrível que nem vou contar para não embrulhar seu estômago.

Ontem, foi preso o Nem da Rocinha. Domingo, a favela será dominada pelas forças de segurança. O chefão que movimenta R$ 10 milhões por semana, segundo a polícia, estava na mala de um carro diplomático. Os ocupantes disseram ser do Congo, mas não colou e, para piorar a situação, a PM recusou o suborno.

Agora, Nem vai ser guardado numa dessas caixas fortes de Rondônia. As drogas serão vendidas em outra freguesia, por outras pessoas. A demanda só cresce e de nada adianta prender o Nem se o Coringa, o Chadada, o Pinguim e a Mulher Gato continuam soltos...

Mas fechar o hipermercado de drogas da Rocinha vai ser bom para os moradores. Finalmente, aquele lugar vai virar um bairro.

Só que eu vou logo avisando: vão ter que abaixar o som.

A Rocinha vista da Lagoa Rodrigo de Freitas

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Craques do mau-caratismo (dane-se a Fifa)

Quanto vale uma acusação sem provas hoje em dia?

Segundo Daniel Almeida Tavares, ex-funcionário do laboratório União Química, as deputadas distritais Celina Leão (PSD) e Eliane Pedroza (DEM) lhe ofereceram R$ 400 mil e mais uma mesada durante um ano para que acusasse o governador Agnelo Queiroz (PT-DF) de ter recebido propina do laboratório. As deputadas negam. E a grande imprensa esconde.

Tavares fez a afirmação no programa Balanço Geral, da TV Record de Brasília, mas a mídia oligárquica, monopolista e tendenciosa não deu a menor bola. Sempre a postos para reverberar "denúncias" que manchem a imagem do governo federal e do PT, a nossa grande imprensa praticamente ignorou as declarações.

O jornal que tem nome de biscoito, por exemplo, deixou essa notícia no alto de seu site por pouquíssimo tempo, nem uma hora talvez. Logo ela sumiu, enquanto seus colunistas de aluguel continuavam com a ladainha de que o ministro do Trabalho está se afogando num mar de lama.

Dilma sabia que seria assim. Quem conhece a imprensa brasileira, velho alto-falante da elite mais egoísta do mundo, também já suspeitava que atirariam contra a presidente e seus ministros sem trégua durante os quatro anos de governo.

Vale para os jornalistas que envergonham a profissão a máxima do ex-ministro tucano Rubens Ricupero: "O que é bom a gente mostra, o que é ruim, a gente esconde. Eu não tenho escrúpulos". Atualmente, o que for ponto para o governo é ignorado nos jornais e revistas e o que o denegrir será potencializado em manchetes. Letras garrafais que amanhã ou depois, provavelmente, vão virar desmentidos pequenininhos no pé da página.



Copa do Mundo

Nas principais rádios AM do Rio, a seleção brasileira da maledicência e do deboche fez piada após a reunião do novo ministro dos Esportes com o secretário geral da Fifa. Os craques do mau-caratismo esportivo ironizaram a proposta do ministro para que beneficiários do Bolsa Família e índios tenham desconto nos jogos da Copa do Mundo.


Para esses radialistas, elitistas sem dinheiro, índios e pobres são cidadâos de terceira categoria. Nas suas mentes colonizadas, os gringos têm sempre razão. Por isso se colocam contra os brasileiros e a favor da Fifa, que tomou conta do esporte mais popular do planeta e só pensa em dinheiro.


Sabemos que há muito o futebol virou um esporte para a elite. Não se vê, por exemplo, mais negros nas arquibancadas dos estádios. Pobre, se quiser, assiste pela TV (isso se tiver dinheiro para entrar num boteco que tenha pay-per-view). Então, na ótica desses caras, dar desconto para que brasileiros de baixa renda possam ver in loco os jogos da Copa no Brasil é um absurdo.


Adoro ver um comunista como o ministro Aldo Rabelo tratando com a Fifa, que quer colocar os ingressos mais baratos a R$ 45,00, e só na primeira fase. Se depender da entidade que dirige o futebol, a Copa será só para turistas e para a turminha abastada.


A Fifa está querendo cantar de galo, apostando que o governo brasileiro vai abrir as pernas para que a Copa seja mesmo realizada aqui. Até agora, porém, o governo não me decepcionou.


Ah, eu tinha prometido falar hoje sobre a cabeça de Eros, mas isso fica para depois.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Terra estrangeira

Um dos meus passatempos preferidos, além de derreter gelo em mictório de bar, é conferir de onde são feitos os acessos a este blog.

Claro, 90% dos internautas estão aqui no Brasil mesmo, mas nos outros 10% enxergo brasileiros que vivem no exterior e de alguma forma matam um pouco da saudade da terra onde nasceram neste Rio Acima.

Das visualizações de página feitas em outros países, a maioria absoluta ocorre nos Estados Unidos, dez vezes mais do que no segundo colocado, o Reino Unido, que está quase empatado com a Alemanha, ambos seguidos de perto pela Bélgica.

No pelotão intermediário, estão França, Rússia e Argentina. Mais atrás, Canadá, Dinamarca, Portugal, Uruguai, Suíça e por aí vão...

Mas o que me encanta mesmo são países distantes, onde só essa maravilha que é a intenet nos permite chegar. Mais do que chegar, levar a nossa mensagem. É uma realidade nova e mágica para quem cresceu ainda com o monopólio da mídia e das telecomunicações restringindo a livre expressão.


Falo de países como Papua-Nova Guiné, Letônia, Indonésia, Angola, República Tcheca, México, Turquia, Cabo Verde, Costa do Marfim, Honduras, Marrocos, Japão, Ucrânia, China, Coréia do Sul, Filipinas, Índia, Tailândia, Iraque, Noruega, Peru, Islândia, Moçambique, Timor Leste, Irlanda, Taiwan, Sudão, Nicarágua, República Dominicana, Estônia, São Tomé e Príncipe...


Graças à democrática web, eles saberão que moradores do complexo do Alemão reclamam de uma ação do Exército na madrugada do último domingo. Segundo eles, os militares interromperam uma comemoração numa casa de festas com bombas de gás lacrimogênio e balas de borracha. Ainda de acordo com moradores, 40 pessoas teriam se ferido, entre elas crianças e idosos. Isso saiu primeiro no site da Agência de Notícias das Favelas.

Creio que tenha sido lido em cada um deles por brasileiros, excetuando-se os de língua portuguesa, onde pode haver alguém interessado no que pensa um jornalista errante criado no pais do samba e do futebol.

Sinto prazer também em mostrar essas fotos da nossa Cidade Maravilhosa, porque sei que elas deleitam a memória e o coração de quem está a muitas léguas de distância. Já morei fora do Rio e sei a saudade que dá. Junto com as imagens, procuro oferecer uma visão crítica deste país que tanto amamos e que está caminhando a passos largos (ao contrário do que apregoam os pessimistas profissionais) para dias muito melhores, com mais educação e oportunidades para todos.

PS: E não perca. Nesta quarta-feira, vou mostrar que Eros perdeu a cabeça muito antes do que se pensa.

sábado, 5 de novembro de 2011

A pegadinha divina



Outro dia, assistindo a um desses documentários sobre animais na TV, eu observava a harmonia que há entre os bichos e a natureza. Volta-e-meia, um traça o outro, mas até mesmo os ataques mútuos fazem parte do roteiro de equilíbrio do ecossistema... a tal cadeia alimentar, que começa lá nos grandes felinos e termina na formiga, envolvendo também o reino vegetal. Tudo perfeitinho.

Esse momento Discovery me levou a matutar sobre que razões teriam levado o bicho homem a avacalhar tanto o planeta e de se comportar como um convidado espírito de porco que chegou para bagunçar a festa até pôr um fim nela.

Uns dizem que é porque o homem não é daqui, foi plantado na Terra por ETs, já que, por exemplo, é o único que precisa de roupas para não morrer de frio... é uma teoria...

Mas eu acredito que teremos boas pistas se pensarmos na única diferença entre o ser humano e os demais habitantes deste planeta.

Qual é mesmo?

Nada de físico ou genético, lembre-se que nosso DNA pouco difere do dos macacos.

A única diferença entre nós e eles é que sabemos que temos um prazo de validade, que um dia passaremos desta para a melhor, que vamos visitar o Homem lá de cima, que vamos pro saco, que vamos fazer a passagem, enfim, seja lá como você chame a morte.

Atentar para essa particularidade da espécie humana, a consciência da finitude, traz logo de cara um questionamento sobre as intenções de Deus, se é que Ele existe ou tudo não passa de um mero acaso químico.

O que teria levado Deus a colocar sobre o mundo um único tipo de ser ao qual ele solenemente avisasse:

_ Olha, meu filho, vou lhe dar o dom da vida e o livre arbítrio, mas tem um pequeno detalhe: instalei dentro de você uma bomba relógio e o tempo programado para ela explodir eu não vou te contar. Aaaaah, não reclama, senão o jogo não tem graça. Agora, vai, vai que seu tempo já tá correndo!

Trec, trec, trec. Corda dada, e lá vai o bonequinho desesperado para a vida, sem saber quanto tempo terá. Um mês, um ano, 50, cem?

O primeiro passo é descobrir o que fazer nessa absolutamente incerta existência.

Mas como se programar para uma corrida sem saber se ela será uma prova de 100 metros rasos ou uma maratona de 42 quilômetros? Como dosar o fôlego, calcular o gasto de energia?

Se vira, malandragem, quem não sabe brincar, sai da brincadeira.

A maioria das pessoas sai correndo loucamente atrás de dinheiro, poder, prestígio. A consciência da finitude, que poderia ter se transformado num motivo para ajudássemos uns aos outros, nos tornou mais competitivos e até desleais.

"Não sei se vou estar aqui amanhã" é uma frase muito dita e que diz muito sobre esse bicho atormentado chamado homem.

Pensando assim, muita gente nem liga para o planeta, tão pouco para o que vai sobrar para os seus descendentes. Não consigo exergar um político corrupto, por exemplo, como outra coisa senão um desesperado, uma barata tonta planetária sem carater e sem princípios, um pobre diabo que não entende o sentido da vida.

"Farinha pouca, meu pirão primeiro" é outra máxima que define bem o comportamento da quase totalidade dos seres humanos na Terra.

Dinheiro compra muitas fugas, quase o suficiente para não pensarmos na peça que o criador desse grande circo nos pregou, no nosso timer com programação desconhecida. Grana compra lindos carros, compra casa com piscina, compra sexo, compra olhares de inveja, compra impunidade, compra escravos, compra puxa-sacos, uísque e heroína. Em suma: compra prazeres físicos, químicos e psicológicos.

Talvez por isso as igrejas evangélicas tenham descoberto seu ovo de colombo quando vincularam a fé à prosperidade financeira. De uma só tacada, passaram a vender a proteção divina (como se o criador adiasse a explosão da bomba relógio das ovelhas de comportamento exemplar e prometesse recebê-las com flores em sua morada) e a fortuna, para que esse mesmo rebanho possa viajar no ônibus da vida sentadinho na janela.

Para mim, a vida é risco, é incerteza, é o desconhecido nos desafiando a cada momento. Melhor aceitar as regras do jogo, e não viver como um revoltado a estragar o prazer dos outros e a cuspir no prato que come.

Melhor é não ter medo do fim, não se tornar escravo de um domador, seja ele pastor, psicólogo ou traficante. Melhor aceitar o enredo, saber que o fim fará parte e preparar-se para todas as fases, inclusive o epílogo. Em vez de enxergar Deus como um cara sacana que fez conosco uma pegadinha (e não é preciso blasfemar para isso, muitos crentes no fundo pensam assim) é mais inteligente encarar essa brincadeira de prazo indefinido como algo instigante e até mesmo interessante.

Com o espírito desarmado e leve, vamos aproveitar nosso tempo no carrossel. Porque uma hora ele vai parar e vamos ter que descer.