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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Rebanho em disputa



Segundo o IBGE, são cerca de 42 milhões de pessoas, ou 22% da população brasileira. É por esses evangélicos que se digladiam no momento duas das maiores congregações brasileiras, a Igreja Universal do Reino de Deus e a Igreja Mundial do Poder de Deus. Para se ter uma ideia do poder dos religiosos, o programa da Universal exibido nas madrugadas da Record deu quase o triplo da audiência obtida por SBT e Band com a transmissão do Carnaval nordestino.  E até a Globo anda promovendo shows de música gospel.

Um dos meus passatempos preferidos além de derreter gelo em mictório de bar é ver esses programas evangélicos na TV ou ouvir os do rádio. Examino a retórica de cada um dos pregadores bem como as promoções que fazem para levar mais fiéis aos seus cultos e arrecadar fundos. É fogueira santa disso, mãos ensanguentadas daquilo, toda semana tem um evento novo anunciando mais uma concentração de fé e milagres.

A terminologia, aliás, é o que mais varia. O homem que profere a palavra pode ser "apóstolo", "bispo", "pastor", "missionário"... e a contribuição mensal para a obra pode vir de várias formas que não o tradicional e bíblico dízimo. Para manter principalmente os horários que compram nas emissoras de TV, os líderes das igrejas lançam peças como o carnezinho das grandes conquistas, uma espécie de Baú da Felicidade da bênção, criado pela Mundial.

O contribuinte pode ser chamado de patrocinador, parceiro, gideão, entre outros termos, conforme a igreja em que se encontra.

Os principais adversários no momento são o "apóstolo" Valdemiro Santiago, da Mundial, e o "bispo" Edir Macedo, da Universal. Durante o Carnaval, Valdemiro escancarou. Acusou a Universal de distribuir DVDs na porta das igrejas da Mundial nos quais ele é comparado a Satanás. Valdemiro afirma também que membros da Universal invadiram um templo seu no Ceará. O vídeo está no final deste texto.

"Eles compraram uma emissora de TV com a contribuição dos fiéis, dizendo que era para fazer a obra de Deus e agora só passam novela e pouca vergonha. E usam o dízimo pra pagar artistas caros que tiram de outra emissora", disse Valdemiro, que ainda fez chacota. "Vocês não distribuem esse DVD nos seus cultos porque eles estão vazios. Os nossos estão cada vez mais cheios".

De fato, os cultos de Valdemiro andam lotados. Pessoas afirmam terem sido curadas de várias doenças, inclusive as ditas incuráveis. O "apóstolo" grita que "é a mão de Deus agindo". Mas muita gente acha que os depoimentos são previamente ensaiados. Pantomima ou não, o fato é que a Mundial inaugurou um templo em São Paulo onde caberiam, segundo eles, 100 mil pessoas. "É o maior templo da história da humanidade", diz Valdemiro.

Macedo não deixa por menos, como você viu no vídeo acima, e colocou até demônio para desancar Valdemiro...

Como observador de longa data e absolutamente neutro, noto que a Universal parece ter estagnado. O discurso de seus pastores é sempre o mesmo e eles pouco interagem com a pessoa que está ali em busca de ajuda. Toda semana, criam um evento diferente, mas isso parece estar sendo pouco, pois Valdemiro tem mostrado imaginação mais fértil. Depois de institucionalizar a toalhinha com a qual enxuga o suor do rosto, atribuindo-lhe poderes santos e distribuindo similares aos fiéis, ele agora comercializa réplicas do chapéu de vaqueiro que usa nos cultos. O preço é R$ 49,90.

Macedo não deixa por menos: interrogou o demônio sobre sua parte com o rival, como você viu no vídeo acima.

Aparentemente ligado à Assembléia de Deus, Silas Malafaia, da organização Vitória em Cristo, enquanto se defende da ira dos grupos gays que o acusam de raivosa homofobia, critica Valdemiro e repercute as declarações de Macedo contra o líder da Mundial.

Badalado nos anos 90, outro pregador, Caio Fábio, que fazia cultos com presos em Bangu 1, agora tenta se reerguer e acusa Malafaia de receber salário de Edir Macedo. Mas Fábio só não está mais por baixo que a turma da Renascer em Cristo, que viu seu rebanho minguar depois da prisão do "bispo" e da "bispa" tentando entrar com dinheiro ilegal nos Estados Unidos. Até o jogador Kaká se mandou com seu polpudo dízimo.


terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Especial Fim de Festa

Restos de euforia


Sal ou doce?


Éden


Ressaca




Overdose na Lapa


Flagrante comprometedor...


Presépio carioca


E a vaca foi pro brejo...


Pesadelo


Destaque


Encosto


Comando Militar do Leste



Esforço conjunto


Até 2013

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Dessa vez, era lagosta!

O garçom disse que elas vieram do Espírito Santo e o mineiro bonachão garantiu que eram de um criadouro


Ja contei aqui a história da última lagosta de Copacabana, que, descobri depois, nem era lagosta, mas uma cavaca, parente próximo muito menos saboroso e valorizado que o nobre crustáceo.

Pois, em pleno domingão de Carnaval, eu topei com a verdadeira, a legítima. E não era uma só não, eram muitas, claro, já sem vida, trazidas para um restaurante da orla onde seu filé grelhado, com acompanhamentos à escolha do freguês, custa 50 reais.

A visão me chocou. Não sou natureba, nem vegetariano. Como carne de porco, peixe, boi, frango, mas confesso que me chocou.

Fiquei a contemplar aqueles lindos espécimes, a imaginá-los caminhando no fundo do mar com sua carcaça dourada e suas antenas gigantes. Que belo animal... e pensar que já abundou na costa brasileira.

_ Essas devem vir de criadouro _ interrompeu minha viajem ao fundo do mar um mineiro bonachão que passava com a mulher.

_ É, aqui em Copacabana não tem mais _ tabelei com ele.

_ Isso é uma delícia. Com molho branco... hummm _ disse o gorducho das alterosas, na certa passando os dias de folia no Rio.

A patroa (dele) nem parou para um dedo de prosa, passou direto. Ignorou a mim e aos crustáceos reluzentes ao sol carioca e entrou direto no hotel. Talvez estivesse apertada, pensei, ou então de saco cheio do marido.

_ Mas eu comi uma vez e não achei grandes coisas, acho que prefiro camarão _ contei ao turista, que queria mais conversa.

_ Ah, então foi mal preparada. Eu, quando faço, tiro tudo, só deixo o filezinho.

_ Essas antenas devem ser boas com cerveja gelada... _ salivei.

Quando o oceanógrafo e gourmet mineiro falou nos criadouros, fiquei aliviado e decepcionado ao mesmo tempo. Por um lado, me confortava pensar que aquelas criaturas não tinham sido apanhadas no mar, mas veio também a tristeza por elas quase não existirem mais em seu habitat natural.

Hoje, acho que só há lagostas em número considerável na costa do Rio Grande do Norte. Vi num documentário que, lá, homens se arriscam com uma mangueira improvisada ao recolher as armadilhas deixadas nas profundezas para capturar lagostas.

Alguns pescadores até morrem nesse trabalho insalubre e ilegal. Outros ficam paralíticos. Já entre as lagostas apanhadas, nenhuma escapa. Em breve, só haverá em cativeiro. E olhe lá...

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Energia das antigas

Atenção, galera, tem uma coisa melhor que Red Bull pra dar ânimo no Carnaval. É mais antigo que andar pra frente e nem precisa misturar com vodca.



Entre as modelos do anúncio, Norma Benguel e Marcia de Windsor...

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O comunismo morreu mesmo?

A grande imprensa mundial e os países ocidentais não têm mais como negar:

A China é a maior potência do planeta.

Engraçado é que essas mesmas pessoas que agora dão o braço a torcer passaram anos alardeando que o comunismo havia morrido. A China é um país comunista.

O único país a erradicar a desnutrição infantil na América Latina é outro comunista, Cuba. Aí os viciados em shopping center dirão que em Cuba não tem nada. Onde haveria com esse embargo econômico condenado pela ONU e mantido apenas por EUA e Israel?

Mas um remédio pelo qual americanos pagam 500 dólares, cubanos recebem de graça. Para quem só pensa em carro novo, isso não significa nada, afinal essa gente só enxerga os automóveis dos anos 50 rodando nas ruas de Havana.

Os imbecis de plantão chegaram a tentar fazer crer que a abertura econômica realizada pela China era uma ruptura com o marxismo, mas nunca foi. Quando permitiu a propriedade privada, o lucro e outros ítens da chamada livre iniciativa, o governo chinês estava apenas conduzindo o país a uma nova fase.

Quem pensou que essas medidas viriam acompanhadas de mudanças políticas, provavelmente acabou debaixo de um tanque de guerra na Praça da Paz Celestial. Dizem aqui no Ocidente que naquele movimento de 1989 morreram dois ou três mil chineses. Como a população já passava de 1 bilhão na época, o regime não mudou. Só há um partido no país, o Partido Comunista Chinês, e é ele quem governa e governará até que os dois mil virem um bilhão a protestar nas ruas.

Matar a fome, dar saúde e educação a uma população tão grande jamais seria possível num país capitalista, porque é um sistema que se baseia na acumulação e na exploração da mão de obra. Não basta ter dinheiro, é preciso que outros não tenham.

Para mim, o que faz da China a maior potência mundial é o fato de ela ter voltado seus objetivos e esforços para que todos tivessem oportunidades iguais de se desenvolver. O passaporte para o desenvolvimento de um país é que todos tenham o básico dos básicos: comida, escola e hospital de qualidade. A partir do momento em que todos os patrícios, teoricamente, partirem do zero com chances iguais de vitória, aí sim é justo permitir que cada um possa tocar seu negócio e apostar na própria competência.

Claro que durante o processo houve muita burrada do PC chinês. Houve matança, perseguição, delação, injustiça, fascismo. As mesmas coisas que há em qualquer canto onde mais de três seres humanos estejam reunidos.


Agora, dizer que países como os Estados Unidos são paraísos da liberdade em contraste com os regimes de partido único não passa de mais uma cascata para Hommer Simpson engolir. Na terra do Tio Sam, como em qualquer país capitalista, só há liberdade para os que têm dinheiro. Esses podem viajar ao exterior quando quiserem. Já os pobres, filhos de pobres que também nasceram pobres, são tão proibidos de conhecer outras terras quanto essa blogueira cubana que agora a mídia mundial adula. Aliás, um mendigo não tem nem mais o direito de sentar num banco de praça, pois vem logo um fiscal da ordem pública mandar ele circular.

É por isso que no Leste europeu, onde o arrocho está brabo, muita gente está votando em candidato comunista de novo. Cansaram de "liberais" que pagam salário de fome a seus empregados, formam cartéis, eliminam concorrentes,  corrompem governantes e financiam campanhas de políticos corruptos e aliam-se a máfias.

Você prefere ter como patrão o governo brasileiro ou um explorador qualquer que só pensa em trocar seu BMW por um Jaguar e em comprar a ilha do Ivo Pitanguy?

Aliás, a China ensina outra coisa interessante: governante corrupto vai para o paredão. E não é o do Big Brother, não...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Cinema mudo no século 21

Vi um filme que me deixou com água nos olhos durante boa parte da projeção. Tudo bem que eu já chorei até com comercial de Natal das Casas Bahia, mas esse filme é bom mesmo.

O artista

Se você, como eu, é do tipo de pessoa que tem preconceito contra produções que concorrem ao Oscar, engula sua empáfia e vá ver esse filme, candidato a dez estatuetas.

O diretor, Michel Hazanavicius, é um cara corajoso.

É um filme mudo! Se tiver meia dúzia de falas em duas horas é muito. Uma ousadia, o que, por si só, já difere a película de tantas baboseiras que já vimos ganhando o prêmio maior do cinema (só falta este ano darem o prêmio de melhor ator ao inexpressivo George Clooney).

O último filme mudo de que me lembro foi feito nos anos 70, A última loucura de Mel Brooks, do qual, por sinal, também gostei muito na época. Recentemente, revendo-o em DVD, lamentei que o ritmo não é mais palatável nos dias de hoje.

Com filmes, é assim: ou você entra na história, ou não entra. O artista prende a atenção, diverte e emociona. Mostra a agonia e a angústia de um astro do cinema mudo diante do advento dos filmes falados. Todo mundo ouve falar que Chaplin não resistiu ao som, mas ele não conheceu a rua da amargura como o protagoniosta desta bela e realista ficção, interpretado com um show de expressão facial e corporal pelo ator Jean Dujardin. Com Bérénice Bejo, ele forma uma dupla que, além de talento, esbanja charme. E tem um cachorrinho que se não levar o prêmio de melhor ator terá sofrido a maior injustiça da história da tela grande.

E o filme ainda têm o ótimo John Goodman, aquele mesmo que, anos atrás, conseguiu a proeza de nos dar um  Fred Flintstone em carne e osso.

É uma história sobre a soberba e sobre como a vida muda num segundo. Aliás, Malcon Mc Dowell, astro de Calígula e Laranja mecânica, faz uma pontinha. Sintomático, emblemático...

Essa nossa crítica de cinema tem vergonha de se emocionar. Acham que jornalista não chora, não tem time de futebol e não se posiciona politicamente. Ou seja, em nome de uma ética de almanaque, meus colegas de profissão se abstêm de viver.

Dá uma olhada no trailler, que, sinceramente, não faz jus ao filme, que é infinitamente mais impressionista.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Tudo passou

O aparelho de som três em um, novidade fantástica no fim dos anos 70. Lá atrás, jogado, um velho disco long play

Sou do tempo do telefone com fio. Fixo mesmo. Pra falar em outro cômodo da casa, era preciso instalar uma extensão.

Sou do tempo do aparelho de som três em um, como esse da foto, que vi exposto numa feira de velharias.

Ouvi muita narração do Waldir Amaral e do Jorge Cury em rádio transistor.

Ouvi música do Dire Straits nos toca-fitas dos carros. Uma vez ganhei um gravador mini-cassete da Aiwa.

E carro com ar condicionado era só Landau e Dodge Dart.

Em casa, ouvia os long plays, comprados na Sears da Praia de Botafogo, numa vitrola. Foi nela que conheci Good Bye Yelow Bric Road, do Elton John, e as músicas da novela Estúpido Cupido.

Sou do tempo em que a fotografia tinha que ser revelada e, para ver na hora, só com câmera Polaroid, que custava mais barato que o filme usado nela e cuja foto amarelava em poucos meses. Ainda peguei até o Lambe-Lambe na praça, tirando fotos das pessoas com a cabeça coberta por um pano e enfiada naquele caixote.

Para ter imagens caseiras em movimento, só numa filmadora Super 8. Um filminho em rolo, sem som, exibido em um pequeno projetor. Por falar nisso, lembra do projetor de slides?

Peguei o leite em garrafas de vidro, deixadas na porta das casas pela manhã pelo leiteiro, outra profissão que não existe mais...

Ouvi o apito do guarda noturno...

Sou do tempo da máquina de escrever, e nas primeiras redações de jornal em que trabalhei, havia dezenas daqueles trambolhos barulhentos. Até fiz um curso de datilografia quando ainda estava no colégio, pois seria importante para a carreira de jornalista.

Impressora era só para imprimir jornal. As pessoas faziam cópias com papel carbono ou mimeógrafo!

Sou do tempo do cigarro sem filtro. Hoje, o cigarro sem filtro é só aquele outro, proibido (ainda, apesar dos 5 mil anos de idade).

Videogame era só naquelas grandes máquinas dos fliperamas. Micro computador só existia nos Estados Unidos e era do tamanho de um ônibus.

A coisa mais parecida com internet que existia era a fofoca de vizinhos.

MP3? Nem em sonho. O walkman era o maior avanço para se ouvir música na rua.

Sou do tempo em que qualquer pessoa, com uma ficha, fazia uma ligação num telefone público (ainda nem tinham aparecido os orelhões). Hoje, se você encontrar um orelhão funcionando, precisa ter dinheiro para comprar um cartão com 20, 30 créditos de chamadas. E você queria dar apenas um telefonema...

Sou do tempo em que TV era só em preto e branco e precisava esquentar antes que a imagem aparecesse. Numa delas eu vi Irmãos Coragem (primeira versão, claro) e a Copa de 70. E era um aparelho mal assombrado, porque dependíamos de antenas para receber a transmissão, cheia de fantasmas.

Sou do tempo do acendedor de fogão Magiclik, que parecia mesmo mágico ao dar um choque no gás e provocar o fogo.

Sou do tempo do Baú da Felicidade, da Loteria Esportiva, das sessões Tom & Jerry no cinema Drive In da Lagoa, do Tobogã, do Tívoli Park, do Píer de Ipanema, da ditadura militar e do Maracanã com geral, cadeira, camarote e arquibancada, do futebol com torcida, não com telespectador.

Todas essas coisas passaram. As mais avançadas novidades eletrônicas hoje estão mofando em brechós. Aquelas roupas novas que faziam você se sentir tão especial viraram pó. A única coisa que eu conheço que dura mais que o dono é o isqueiro Zippo.

Apesar de tudo isso, me sinto um garoto, porque, me ensinou a octogenária tia Marina, o que envelhece é o corpo.

Se ainda estamos funcionando, ainda estamos na moda.

Portanto, aproveitemos.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A batalha dos cacarejos

Depois de acabar com o tráfico de drogas armado nas favelas do Rio que ameaçam mais as classes média e alta, o Exército brasileiro tem agora outra difícil e nobre missão: por fim ao reinado de galos e galinhas no caminho do Bem-te-vi, também conhecido como Pista Cláudio Coutinho, na Praia Vermelha.

Localizado num dos costões do Pão de Açúcar, o lugar é um recanto de mata atlântica onde vivem tatus, gambás, passarinhos de todas as cores, saguis, lagartos e morcegos, além de uma infinidade de animais menores. Acontece que um heremita sem teto (no Brasil, os heremitas quase sempre o são por não terem onde morar) habitou o local durante décadas, estranhamente sem ser incomodado. Recentememte, ele foi desalojado de seu cafofo na mata, mas deixou lá os galináceos que mantinha em seu gigantesco quintal.

O resultado é que essas aves dominaram parte da reserva ecológica, ameaçando todo o equilíbrio entre as espécies locais.

Algo semelhante já havia acontecido quando os frequentadores da pista de corridas e caminhadas começaram a deixar lá gatos sem dono. Rapidamente, os felinos se reproduziram e, como são predadores implacáveis, dizimaram os pássaros nativos. Só depois de muito prejudicarem a fauna local, eles foram exterminados, na calada da noite, sabe-se lá por quem...

Também os micos, alimentados indevidamente pelas pessoas, se multiplicaram, e passaram a deixar a mata para exigir comida agressivamente na beirada da pista. Agora, é expressamente proibido pendurar bananas, mamões ou pacotes de miojo nas árvores para que os primatas venham buscar.

Como se vê, é sempre o homem que desequilibra as coisas na natureza. Você precisa ver a quantidade de lixo que os turistas deixam por lá a cada fim de semana de sol...

Agora, sobrou para o Exército, que divide a vigilância daquele santuário verde com o batalhão florestal da Guarda Municipal, erradicar as penosas. Vai ser gozado ver os soldados fardados correndo atrás das galinhas, galos e pintinhos. Se não quiserem usar artilharia pesada, o sebo nas canelas será a única opção. E ainda dizem na sabedoria popular que de galinha de casa não se corre atrás...

Ontem, um guarda municipal, suando em bicas dentro daquele traje inapropriado para o verão carioca, me confessou que ele e seus pares já tentaram pegar a galinhada. Mas é difícil, e são muitas. Pediram então ajuda ao comando verde-oliva.

E a parada não vai ser fácil. Vi uns dois carijós com disposição pra botar até chimpanzé pra correr na base da esporada.

Mas, se defender a pátria é sua missão constitucional... mãos à obra.

Procura-se. Vivo ou morto

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A cultura da violência

Cinco minutos de pontapés no rosto. Cinco minutos que pareceram uma eternidade. Três jovens de classe média, usando roupas de grife, foram os autores da covardia. Quem os vê na rua pode achar que são galãs de novela, mas, na verdade, são homicidas que espancaram covardemente um rapaz que protestou quando os viu tripudiando sobre um morador de rua.

A barbárie aconteceu na Ilha do Governador (Zona Norte do Rio). A vítima que tentava defender o mendigo está no hospital, de onde não sairá tão cedo. Teve os ossos da face esfarelados, sua pele será retirada para a colocação de placas de titânio. Segundo os médicos, levará quatro meses para que seu rosto seja reconstituído.

Dois dos pitboys estão presos. Quando o caso esfriar, vão sair da cadeia, porque no Brasil só pobre e preto ficam presos. Devem ser aficcionados do Vale tudo, ou MMA, uma aberração chamada de esporte onde é permitido continuar esmurrando um adversário já caído, quase desacordado. É o esporte que mais cresce no Brasil, sinal dos tempos e do ponto a que chegamos. A emissora líder de audiência resolveu pegar carona e comprou os direitos de transmissão das lutas. Vai massificar ainda mais a cultura da porrada. E não adianta os campeões do esporte dizerem que lugar de lutar é no ringue, porque os garotões mimadinhos não escolhem onde vão imitar seus ídolos. No meu tempo de infância, tentávamos reproduzir as jogadas de Zico e Rivelino. Hoje, a garotada quer desacordar alguém como fazem o Vítor Belfort e o Minotauro. Aquilo nada tem a ver com arte marcial. Não é a mistura de todas como tentam fazer crer, é a briga de rua institucionalizada.

Não chego a dizer que essa animalidade travestida de esporte tenha que ser proibida. Mas deve ser um evento fechado. Quem quiser assistir, que compre o ingresso e vá para a arena ver sangue. Transmitir isso pela TV equivale a dizer a assassinos em potencial como esses que enfiar a porrada covardemente em alguém é aceitável, é legal, é edificante, é atlético. Hoje em dia, não há festa que não acabe em pancadaria. O Youtube está repleto de vídeos. Até as garotas agora resolvem tudo no braço.

Tudo que precisam é de um pretexto.

E o jovem agredido até quase a morte deu um a esses brucutus com cérebro de minhoca: defendeu um desvalido que era achincalhado. A infelicidade e o desamparo social daquele homem não bastaram para os três neonazistas de shopping center. Quem se importa com um mendigo? Que tal uma faxina social básica? Se tivessem álcool ou gasolina à mão poderiam ter ateado fogo no coitado, como fizeram aqueles bossais em Brasília anos atrás. Seria muito mais divertido.

Agora, só falta a mamãe de um dos criminosos vir a público dizer que seu filhinho é um doce de pessoa, que foi criado com todo amor e leite Ninho, como fez a genitora daquele homofóbico que quebrou uma lâmpada de tungstênio no rosto de um rapaz na Avenida Paulista (será que continua preso? Duvido). Mas a boa senhora dirá que não sabe como isso pôde acontecer. Foi simples, dona, em vez de educar seu filho, você delegou essa tarefa para a televisão. E deu nisso. Mas, logo, um juiz qualquer vai se comover e devolver os três facínoras ao convívio social.

Talvez, para que arrebentem a cara de mais um.

Cemitério São João Batista, no Rio. Foto de Marcelo Migliaccio

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Química digital

Dizem que a única coisa que distingue definitivamente dois seres humanos é a impressão digital. Conversa. Esses risquinhos na ponta dos dedos podem ser muito bons para decorar carteiras de identidade, mas estão longe de resumir a diversidade da espécie que dominou o planeta a despeito da força dos elefantes e da velocidade dos guepardos.

Não há duas pessoas sequer parecidas, mesmo que imitem o cabelo do Justin Bieber ou os seios plastificados da... qualquer uma. Você pode estar achando chato esse papo cabeça de abobrinha e já digo aonde quero chegar: nas curas milagrosas alardeadas nos templos evangélicos, espíritas etc e na limitação da medicina.

Os pastores _ alguns canastrões de marca maior _ falam que tudo é obra de Deus. Não vou entrar nesse mérito, pois para isso primeiro deveriamos discutir o que cada um entende por "Deus", uma resenha sempre longa e inconclusiva. O fato é que, nos cultos, muitos fiéis exibem exames médicos que atestavam seu pé na cova uma semana ou um mês antes. Para a medicina, estavam desenganados, no entanto estão ali, orando, louvando e contribuindo para a obra, o que prova que também estão trabalhando.

Assisto a trechos de programas evangélicos na TV quando não tenho nada pior pra fazer. Outro dia, uma senhora disse diante das câmeras que quem lhe indicara aquela igreja foi o próprio médico. Isso mesmo, o doutor jogou o estetoscópio em cima da mesa e suspirou:

_ Pra senhora não tem jeito... (pausa) Tente o culto daquele pastor...

Tirando alguns figurantes contratados para relatar milagres, acredito que muitos desses depoimentos são verdadeiros. O que constato nesses programas é que, mesmo diante de um pregador pouco convincente, as pessoas não estão ali para mentir. Elas se entregam, procuram e agarram a própria fé.

Então,  aí dá-se a cura.

Voltando à diversidade humana. É por causa dela que a medicina é tão limitada e imprevisível. Não adianta dar o mesmo medicamento a mil pessoas só porque é isso que está escrito nos compêndios médicos. Cada uma dessas mil vai metabolizar aquilo de acordo com sua química. Para umas, será um antídoto, mas para outras poderá ser o veneno.

A química de cada um?

O cigarro é uma roleta russa, mas não se pode afirmar que provoca câncer. No máximo, é correto dizer que o hábito de fumar pode provocar câncer, além de outras doenças, afinal o nosso centenário Oscar Niemeyer esteve aí até os 104 anos com seu pito na boca...

Coloque um milhão de pessoas diante de uma farta mesa de self-service e creio que nem duas delas farão pratos exatamente iguais. Assim como a fé, o paladar e o apetite são características únicas de cada pessoa. Eles são resultado da química corporal do indivíduo. Há quem adore cebola, o fã do giló, o alérgico a camarão, o chocólatra, o que só come purê de batata com caldo de feijão por cima, o que bochecha o chope antes de engolir...

Há de tudo.


E devo confessar que adoro cartilagem de galinha...



Ninguém vai ao culto para contar mentira... espero