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quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Réquiem para um amigo

Foi-se um amigo. Ainda ontem eu estava falando com ele, sentindo sua respiração no ar, vendo angústias nos seus olhos. Bolas, quem não está desesperado?, pensei.

Ele tentou. Saiu da sarjeta, da cachaça, da família desagregada, do padrasto violento. Depois de muito apanhar na vida, escondeu-se numa igreja evangélica. Disciplinado pelo pastor, seduzido pela  prosperidade declarada em tantos testemunhos, constituiu família, arranjou emprego. Trabalho braçal num clube de elite. Carregava peso o dia inteiro vendo os ladrões dos nossos milhões passearem de iate com belas aproveitadoras.

Adquiriu uma hérnia, a prosperidade anunciada pela igreja revelou-se apenas um crediário na Casas Bahia. Cansou de carregar os barcos dos pilantras e dos exploradores nas costas, largou a igreja e voltou a beber. Logo foi demitido. Todo o desamparo veio à tona de novo, com muito mais força. É difícil não ter com quem se aconselhar. É difícil não ter nenhuma palavra de consolo ou incentivo sincera, nem mesmo a ladainha positivista que o pastor lhe vendia em troca do dízimo e das ofertas.

O coração sofrido não aguentou muito tempo.

Você tentou, amigo.

Todos nós estamos aqui tentando.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

O país das maravilhas

Os bastiões da moral e da honestidade no país são Romário e Jair Bolsonaro, o ídolo da garotada é o Anderson Silva, a mulher que as garotinhas querem ser quando crescerem é a vadia da novela das nove, as fontes de informação são o Jornal Nacional e a Veja, o livro mais comentado é a biografia de Andressa Urach, o que mais se ouve é axé e sertanejo, o craque da bola sonega R$ 189 milhões, o Batalhão de Choque tem que ocupar a praia senão não sobra ninguém, a bancada evangélica manda no Congresso, juiz do STF faz política partidária... e a culpa é da Dilma.

Foto: Marcelo Migliaccio

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

MMA na praia

Era tudo que eles queriam. Poder praticar MMA na praia e com um motivo legitimado pela grande imprensa, apoiadora incondicional do governo do Estado e da prefeitura, que querem barrar os pobres antes dos túneis Rebouças e Santa Bárbara para evitar arrastões. A milícia pitboy está pronta para entrar no ringue das areias de Ipanema e promete quebrar a turba do Jacarezinho e de Manguinhos. 

A onda nazi está virando um tsunami e na crista dela surfa o Bolsonaro, provável deputado mais votado nas próximas eleições. Quem ainda se arrisca a defender o estado de direito e os direitos individuais é rebaixado a escória do mundo. Não é de bom alvitre contrariar os nazi. Eles não estão pra brincadeira. Se querem uma garota, beijam à força. Se não gostam do resultado de uma eleição, tiram a presidente no tapa. O que não farão então com um bando de pivetes?

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A praia será privatizada

O festival de arrastões nas praias no último fim de semana fez com que as autoridades e parte significativa da imprensa voltassem com força total a pedir medidas de exceção, tipo dar à Polícia Militar o direito de entrar num ônibus e retirar dele quem acharem com cara de ladrão. É muito mais fácil reprimir direitos individuais do que atacar as causas da proliferação de desajustados, entre elas a concentração de renda, a falência da educação federal, municipal e estadual, a falta de saneamento básico, de moradia digna etc.

A solução encontrada é novamente dar aos PMs o direito de entrar num coletivo e pinçar aqueles que lhes parecerem assaltantes. Mesmo que retirem dezenas de jovens que realmente iriam à praia roubar, se apenas uma pessoa que queria se divertir no fim de semana for impedida de aproveitar seu dia de folga já terá sido cometida uma injustiça irreparável.


Como ainda não está em vigor a solução simplista e inócua da redução da maioridade penal, querem subverter o estado de direito, que admite prisão de menores apenas em flagrante delito. Como não dão mais conta de policiar as praias, acham agora que a solução é manter os pobres longe delas. Ingenuamente, o secretário de Segurança disse que a nova diretriz é só deixar embarcar nos ônibus na periferia jovens que tiverem dinheiro para pagar a passagem. Ué, não deveria ser sempre assim? 

Não sei se o fascismo à carioca _ vitaminado pelo pavor da classe média e pela revolta dessas legiões de jovens das periferias _ vai perder a queda de braço para o estado democrático de direito. Pra mim, falta pouco para colocarem grades e bilheteria nas praias. Vão acabar privatizando: entregam Ipanema, por exemplo, a uma grande empresa, como a Vivo ou a Coca-Cola, e esta toma conta do lugar, com cercas, bilheteria, segurança privada e banheiro químico pra todo mundo ficar numa boa enquanto o mundo explode lá fora. Já tiraram os pobres do Maracanã, está chegando a hora de tirá-los também das praias.

A onda nazi é tão forte que o próprio governador do Rio apoiou a ação repressiva dita preventiva, que escancara nosso fracasso como sociedade. A medida de Pezão, Beltrame e cia., ditatorial, racista e discricionária, é prima da tal presunção de culpa, usada em julgamentos quando se quer condenar o réu de qualquer jeito. E olhe que, diante do ódio que parte da classe média está nutrindo, essas iniciativas do estado são até moderadas. Tem coxinha que nem quer mais baixar a maioridade penal, quer é colocar todos esses adolescentes no paredão mesmo. Resta saber se os pitboys justiceiros de Copacabana serão tratados pela polícia e pela justiça da mesma forma que os ladrões da periferia.


O que me assusta é que os arrastões não têm ocorrido só nas praias, já se espalharam pelas ruas de Copacabana, Ipanema e Lagoa. A tragédia já se antecipou às medidas fascistas paliativas. Ouso dizer que nosso futuro, se a coisa continuar nessa progressão, é viver ao lado de uma faixa de Gaza cercada pelo Exército para que os ensandecidos não nos trucidem.

Para um país onde querem porque querem tirar uma presidente do cargo na marra, é um futuro bem factível.



Foto: Marcelo Migliaccio




domingo, 20 de setembro de 2015

FIFA 2015

De um lado, o videogame tentando se aproximar ao máximo de um jogo de futebol de verdade; do outro, o futebol de verdade ficando insosso como um videogame. Espremido na tela da TV, com jogadores sem sangue, sem paixão clubística, sem inventividade e em volta deles uma torcida de shopping center.
Os clubes perderam sua essência, que era o vínculo afetivo dos atletas com a agremiação. Agora só alugam os uniformes para empresas exibirem suas marcas na TV e, com o dinheiro, contratam jogadores de determinados empresários por curtos períodos.


Foto: Marcelo Migliaccio
Na divisão por castas que começou em 1987, quem está embaixo fica sempre embaixo no futebol brasileiro

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

No fiofó da Fifa

Esse Jérôme Valcke não é aquele gringo da Fifa que veio aqui dizer que o Brasil precisava de um "pontapé no traseiro" e virou ídolo dos coxinhas e da imprensa que apostava no atraso das obras para a Copa do Mundo? Agora será processado no exterior por chefiar a venda de ingressos falsos para jogos do mundial.

Esse pessoal, colonizado ao extremo, adora endeusar pilantras... sugiro que em breve não deixem de visitá-lo na prisão, levando, quem sabe, umas laranjas, uns maços de cigarro... Ainda bem que o Aldo Rebelo, meu comunista favorito, deu um passa fora nele na época. 

E pensar que a polícia carioca prendeu toda a máfia dos ingressos da Fifa mas a nossa Justiça-pra-preto-pobre-e-petista soltou...



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quinta-feira, 17 de setembro de 2015

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Tá com peninha?

Quem vender imóvel por mais de R$ 20 milhões vai pagar 30% de imposto. Você está com peninha de quem tem imóvel de R$ 20 milhões pra vender? A imprensa tucana, a Fiesp, o Ronaldo Caiado e o Eduardo Cunha estão. 

E dos bancos e grandes cartéis e monopólios, que vão pagar bilhões com a CPMF para que os aposentados possam receber em dia, você está com peninha? O quarteto fantástico da concentração de renda está. 

Como se não bastasse, a Receita Federal vai cobrar R$ 20 bilhões de 400 sonegadores, tadinhos, imagine, fazer uma sujeira dessas com o "Brasil que produz e dá empregos", que coisa feia...

Ah, mas congelaram o reajuste dos servidores públicos por um ano... Se eu tivesse estabilidade no meio dessa avalanche de demissões no mercado, não reclamaria, ainda mais sabendo que o setor público paga, em média, mais que o privado pela mesma função.

domingo, 13 de setembro de 2015

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

O patético anti-petismo...

A direita paulista não sabe mais o que fazer contra o prefeito Fernando Haddad. Depois de dizer que ele pintou a ciclovia de vermelho por ser a cor do PT (quando trata-se de um padrão internacional), abriu guerra contra os radares que multam por excesso de velocidade. Subitamente, alguns baluartes da imprensa e do Ministério Público viraram defensores dos motoristas assassinos. Alguém tem que dizer a eles que radar não leva propina, radar é radar. 

O que se faz no Brasil não é "mau jornalismo", não. É sacanagem mesmo. Então, que contratem logo o Fábio Júnior para apresentar o telejornal.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Cucarachas, go home!

O grande recalque da brasileirada que tava lá em Nova Iorque aplaudindo as asneiras do Fábio Junior é que, se o Brasil tivesse mudado antes, muitos deles não precisariam ter emigrado pra lavar banheiro de americano. A maioria saiu daqui durante a ditadura militar ou nos governos FHC. Agora, ficam ouvindo noticiários manipulados e dando pitaco sobre o Brasil. Aliás, tava na hora de partir mais uma leva... afinal, lugar de Batman e Robin é nos EUA, não no Brasil.

Foto: Marcelo Migliaccio

sábado, 5 de setembro de 2015

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Game over

Foto: Marcelo Migliaccio
Foto tirada na redação do Jornal do Brasil (1891-2010) logo após do fechamento da última edição impressa




A demissão é um choque de realidade. Passei centenas, milhares de manhãs, tardes, noites e até madrugadas enfurnado numa redação tensa e claustrofóbica. Perdi os melhores momentos da infância dos  meus filhos equilibrando-me sobre um tapete que meus amigos virtuais puxavam dissimuladamente, dando-me tapinhas nas costas toda segunda-feira e perguntando como havia sido o fim de semana. 


Não importava pra mim se o jornal em que eu trabalhava apoiou dois golpes de estado e só desistiu na última hora de liderar o terceiro porque pegaria muito mal. Sentindo-me parte daquela família, eu relativiza toda a sacanagem. O que queria mesmo era poder entrar num shopping sábado à tarde e posar de classe dominante. Eu era o rei do supermercado, carteira cheia, empáfia, carrinho abarrotado. Venci, pensava, com cuidado para que meu orgulho besta não desse muito na vista. Parecia até que eu era dono de alguma coisa além da minha força de trabalho. De repente, percebi que tinha confundido tudo: uma coisa é o patrão, o dono da parada, a outra sou eu, o empregado, peça descartável como aquele faxineiro que coloca papel higiênico nos banheiros da redação. A culpa não é minha, qualquer um ficaria inebriado. Quem não gosta de free shop, de cheiro de carro novo? Sei, meus textos são ótimos, nesses anos todos, eu fiz isso e aquilo, entrevistei grandes astros, ministros, até presidentes. Mas isso tudo e nada para o manda-chuva é a mesma coisa. Meu belo currículo não resistiu à tesoura de um tecnocrata e descobri agora que Prêmio Esso não tem valor em nenhuma padaria da cidade. 

Então eu caí das nuvens (bem, é melhor do que cair do segundo andar). Pelos meus anos de dedicação e suor, recebi um rotundo pontapé no traseiro. Agora, ninguém vai mais convidar o "Fulano do Jornal Tal" para um almoço grátis. Porque o convidado na verdade era o Jornal Tal e não o Fulano. Entradas para teatro e cinema? Melhor esquecer. Daqui em diante, ou pago o ingresso ou fico na calçada da infâmia. 

Não, amigo, eu e você não somos da classe dominante, mesmo que tenhamos em algum momento defendido os ideais dos nossos patrões com unhas, dentes e a maior convicção do mundo. Nossas idéias neoliberais certamente não farão mais sentido a partir de hoje. Será preciso encarar os vizinhos sem aquele poderoso crachá no peito. É hora de engolir o orgulho. Tem um gosto meio amargo, mas a gente consegue.