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domingo, 25 de outubro de 2015

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

O poder da Universal está no ser humano

Em 2010, eu escrevi uma crítica à Igreja Universal e também ao tratamento que a mídia lhe dá. O bispo Macedo gostou e até publicou no blog dele, como exemplo de "jornalismo imparcial".

Eis o texto:

Foi um tsunami diferente. Bem carioca. Em vez de água, na última quarta-feira as ruas da cidade foram inundadas por ônibus. Entraram por todos os lados, vindos dos quatro cantos do estado do Rio em pleno feriado de Tiradentes. O mar de mais de 1 milhão de evangélicos confluiu para a Enseada de Botafogo, onde a Igreja Universal do Reino de Deus promoveu mais uma de suas maratonas de louvor.
Não vou ficar perguntando de quem foi a culpa pelos engarrafamentos gigantes que incomodaram tanto. Vale mais refletir sobre a força desse movimento, que na verdade mostra a pujança do ser humano.
Já fui a um culto da Universal, na Catedral da Fé, uma imponente construção em Del Castilho (Zona Norte). Foi na época da eleição municipal de 2008. A ordem no jornal era averiguar se havia algum tipo de proselitismo político durante a celebração – Marcelo Crivella, bispo licenciado e senador, era um dos candidatos a prefeito.
Não constatei nenhuma menção eleitoreira no interior da catedral. No máximo, alguns cabos eleitorais de candidatos a vereador ligados à igreja distribuíam santinhos e seguravam cartazes do lado de fora. Na calçada, onde a lei permite.
Lá dentro, vi ao vivo o que já tinha assistido nos programas de TV. O mesmo discurso dos pastores, invocando trechos bíblicos, batendo forte na tecla da autoestima e, no final, pedindo aos fiéis que deixassem suas contribuições para a obra. Confesso que no momento em que o pastor pediu doações de R$ 20 mil reais me assustei. Era um culto destinado a pequenos e médios empresários em dificuldade. Ninguém foi ao palco deixar o polpudo donativo, e o pedido foi baixando até chegar a R$ 50, momento em que várias pessoas se levantaram e ofereceram seu sacrifício financeiro na esperança de ter melhor sorte no futuro. A vinculação fé-prosperidade é a tônica das pregações.
De outra vez, eu passava em frente ao templo da Universal na Nossa Senhora de Copacabana, por volta das 7h. Havia um culto lá dentro e vi que um mendigo, imundo, muito sujo mesmo, e alcoolizado, se dirigia para a porta de entrada. Parei para ver se o obreiro iria barrá-lo. Que nada, o homem entrou sem ser importunado. Como ele, muitos devem ter chegado à Universal naquele estado e se recuperado. O obreiro devia saber disso. Como os outros, aquele mendigo poderia em breve ser mais um membro do rebanho de Edir Macedo.
Acho que o ovo de Colombo dos líderes evangélicos foi descobrir que todo ser humano precisa ouvir palavras que o façam acreditar em si mesmo. Os cultos exploram essa neurolinguística, oferecem injeções de otimismo em doses cavalares. É isso que os pastores dão a seu rebanho: pensamento positivo e autoconfiança. Não é pouco para pessoas cujo cotidiano se resume a trabalho pesado, salário insuficiente, moradia indigna, família desagregada, vizinhança perigosa e saúde combalida por tanta infelicidade. Essas pessoas precisam tão desesperadamente acreditar em algo que não têm olhos para reparar se o pastor é canastrão.
As palavras bíblicas são muito poderosas, afinal séculos e séculos de perenidade lhes conferem autoridade. Nas igrejas evangélicas, pessoas que nunca tiveram disciplina adquirem um norte, mudam velhos costumes. Abandonam drogas pesadas, resistem ao apelo do álcool, sossegam o facho e reconstroem casamentos nos quais ninguém apostava mais um centavo.
Esse poder não está nos pastores, nem nessa ou naquela denominação. Quem se levanta do fundo do poço é o ser humano, cuja força interior é ilimitada.
Nenhum crente se preocupa muito em saber se o pastor lá na frente acredita naquilo que prega com tanta ênfase. Tentativas de derrubar o império da Universal foram muitas e não deram em nada. A igreja só cresceu apesar dos ataques e denúncias que volta e meia afloram na mídia e ecoam no Judiciário. De nada adiantam vídeos comprometedores, porque os fiéis aprenderam que quem vai contra Deus é o Diabo e estão mais preocupados em reconstruir suas próprias vidas. O que, aliás, é mérito exclusivo de cada um deles, e não de bispo ou pastor.


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Sai pra lá




Em meados dos anos 70, uma festinha animada acontecia na Zona Sul do Rio. Dirceu, na época ponta-esquerda do Fluminense e um conquistador emérito, dava em cima da bela Yoná Magalhães.

Nem aí para o craque tricolor, ela não aguentava mais o assédio e resolveu mandar um recado definitivo por um intermediário:

_ Vai lá e diz pra ele que eu sou Botafogo!




quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Miele e o boliviano

Miele, que a minha avó Jandira já achava "um showman completo", contava esta história. Rolava uma festa da alta sociedade carioca, daquelas com políticos, artistas, profissionais liberais, empresários. Dançavam, comiam e bebiam do melhor na maior animação mas a expectativa era pela chegada de um boliviano que traria farta porção daquele produto típico de seu país, com alto grau de pureza.

Miele conversava com amigos numa rodinha no interior da mansão quando percebeu que alguns convidados, todos já pra lá de Bagdá, inventaram de jogar na piscina, de roupa e tudo, todo mundo que chegava.

Apavorados, alguns ainda correram em direção à piscina para impedir que o emissário dos Andes fosse também vítima da brincadeira.

Tarde demais. Quando viram, o boliviano já estava em pleno vôo.

Depois da imersão, o traficante levantou a cabeça molhada para fora d'água e disse, decepcionado:

_ Se fué...

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Coração

Foto: Marcelo Migliaccio

Os humanos dizem que eu não tenho coração
Tenho veneno, ferrão mas não tenho coração

Faço a minha teia, não mexo com ninguém
Mas vem uma vassoura e me manda para o além

Humanos são assim
E eu é que não tenho coração...


Foto: Marcelo Migliaccio




sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Me conformei...

Apesar da virulência dos últimos posts quero anunciar a toda nação (rubro-negra e dos 318 pastores) que já me conformei com o golpe. É assim mesmo. Vai rolar e pronto.

Aprendi cedo a lidar com isso, todos nós aprendemos. Quando criança, quem não teve um amigo que no meio da brincadeira disse: "não vou mais brincar"? Geralmente, era o garoto que não conseguia pegar ninguém no pique, ou aquele perna-de-pau que saía do jogo quando seu time estava levando uma goleada. Ou ainda a menininha mimada que sempre perdia no jogo da memória e, irritada, jogava todas as cartas pra cima.

A direita simplesmente cansou de perder. Levou quatro piabas seguidas nas urnas, viu que não ganha no voto e simplesmente decidiu melar o jogo. Disse que só joga se a bola ficar com ela a partir de agora.


Ok, vamos deixar a bola com ela. A gente toma de novo, no voto.

O que não dá pra aceitar são os idiotas achando que vai ser iniciada uma nova fase a partir de agora. Vão tirar o "governo corrupto" e estará instaurada a moralidade no país. Só pode ser imbecilidade ou má-fé acreditar que a partir de agora o Judiciário não vai fechar os olhos para os desmandos do novo governo, que a imprensa não vai ignorar seus escândalos, como faz com as contas de Eduardo Cunha na Suíça, com o metrô paulista, com a Operação Zelotes.

Quem acredita nessa baboseira? Os mesmos que acreditaram na Nova República do Tancredo/Sarney, no Plano Cruzado, na caça aos marajás do Collor... acreditaram até que a bandeira brasileira fincada pelo Bope no alto do morro do Alemão era a "retomada do território pelo estado". Choraram de emoção ao verem os traficantes fugindo em disparada, mas eles voltaram e hoje fazem tiro ao alvo nos PMs das UPPs.

Quer tirar o PT no casuísmo, numa chicana sem vergonha? Ok. Mas não venha com esse papo de que tudo será diferente...




quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Falta pouco para o golpe

Com a votação dos honestíssimos homens do TCU, foi percorrido meio caminho para a cassação de Dilma Rousseff e seus mais de 54 milhões de votos. Agora, falta o honestíssimo Congresso jogar a última pá de cal na democracia. A imprensa de negócios privados comemora o "dia histórico", afinal ela não consegue apoiar um golpe de estado desde 1964, jejum agora prestes a ser quebrado. Depois dessa lavagem cerebral midiática nunca vista, ninguém vai protestar nas ruas, ao contrário, vão comemorar com fogos o desrespeito descarado à maioria do eleitorado. Só não vale você, que se dizia de esquerda mas reforçou o coro dos indignados-seletivos, ficar com remorso. Ninguém precisa mais do exército para derrubar um presidente, basta um cartel de mídia e um bando de políticos e magistrados sem escrúpulos. Alguém acreditou no editorial dizendo que não apoiava o impeachment? Quem assumirá após o golpe? Cunha, Aécio Neves, Bolsonaro, Datena, Romário, Tiririca, Faustão? Tanto faz.

Foto: Marcelo Migliaccio



segunda-feira, 5 de outubro de 2015

"Petista bom é petista morto"

Quando vão começar a responsabilizar a imprensa antipetista por esse ódio nunca visto? Por acaso o PT foi mais corrupto que militares, Collor, Sarney e FHC? Claro que não, além de ter combatido muito mais a corrupção. Mas essa histeria foi o que o noticiário direcionado produziu nas cabeças de fascistas retardados que só precisavam de uma onda a legitimar seu preconceito. Sim, a mídia um dia tem que responder pela lavagem cerebral sem precedentes na História do Brasil. E por eventuais crimes decorrentes dela.

O mar de lama que levou Getúlio Vargas ao suicídio é uma marola diante desse tsunami contra a presidente reeleita. O silêncio dessa mesma imprensa discricionária ante as contas de Eduardo Cunha na Suíça, ao escândalo de corrupção dos tucanos nos trens e metrô de São Paulo e à sonegação empresarial descoberta pela Polícia Federal na Operação Zelotes, por exemplo, só desmoraliza ainda mais a perseguição ao PT, parece na verdade um repúdio do Brasil escravocrata às políticas de redistribuição de renda e ampliação de oportunidades no país.

E aí vem a ironia do destino: Getúlio deu um tiro no próprio coração em 54. Dilma teve 54 milhões de votos que agora querem cassar de qualquer maneira.



E o neonazismo à brasileira não se manifesta só na política. Pesquisa do Datafolha mostrou a aprovação de mais de 50% da população à máxima "bandido bom é bandido morto". Em vez de ver processados os PMs que executam bandidos já rendidos, a maior parte da nossa população gostaria mesmo é de aplaudi-los em praça pública. 

domingo, 4 de outubro de 2015

Canivete suíço

Sempre ouvimos falar da Suíça como um lugar frio, onde se fazia um bom chocolate e se podia guardar muito dinheiro em contas numeradas. Para mim, era o paraíso dos corruptos, que tinham ali um porto seguro para depositar a grana conseguida em negociatas inconfessáveis. A Suíça, portanto, era como a caverna da história de Ali Babá e os 40 ladrões, que guardavam nela os tesouros amealhados em sua pilhagens.

Só que a história mudou. Depois de ser criticado por décadas e décadas, o governo suíço reviu os dogmas se seu sigilo bancário. E não foi apenas isso. O país que legitimava, junto com outros paraísos fiscais do planeta, a triste máxima de que no Brasil o crime compensa, passou de vilão a herói quando seu ministério público começou a investigar o escândalo das propinas pagas pela companhia francesa Alstom a membros do governo de São Paulo durante a expansão do metrô paulistano. Claro que a imprensa daqui, tucana até a medula, só noticiou, timidamente, porque a roubalheira foi descoberta na Suíça. Mesmo assim, esqueceu o caso rapidinho. Os suíços não.

Também da Suíça veio uma lista de brasileiros com contas no HSBC de lá, muitas delas, ou a maioria, não declarada ao nosso fisco. Outro escândalo, aliás, negligenciado pelos nossos jornais, sempre tão severos quando se trata de atingir o PT e seus aliados.

E agora surgem as contas secretas do presidente da Câmara Federal, deputado Eduardo Cunha, e de seus parentes. Pelo menos US$ 5 milhões, coincidentemente a mesma quantia que Cunha teria recebido, segundo quatro delações premiadas da Operação Lava-Jato, para facilitar contratos assinados pela Petrobrás.

Ou seja, a Suíça, em pouco tempo, transformou-se num agente da moralização no Brasil. Só falta nossas autoridades punirem os criminosos.