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quarta-feira, 28 de março de 2012

Grandes encontros da História VII

Pra mim, esta é a mais bela cena entre todas do cinema. No filme, Chaplin é um vagabundo que se mete em mil confusões para ajudar uma florista cega. No entanto, ela o toma como um milionário. Antes de ser preso, ele dá a ela dinheiro para uma cirurgia nos olhos. A magia do reencontro é que ele sabe quem ela é mas ela nunca o viu, apenas tocou suas mãos. A sequência a seguir encerra o filme Luzes da Cidade.


sábado, 24 de março de 2012

Chico Anysio surpreendido por uma piada



Um gênio do humor, Chico Anysio, como todo mundo, tinha seus momentos de mau humor.

Essa história, que você não vai ler em lugar nenhum _ apesar de a morte do humorista ser assunto obrigatório _, me foi contada pelo fotógrafo Frederico Mendes, com quem trabalhei numa revista que já não  existe mais, a Manchete.

Escalado para tirar uma foto do Chico, Frederico entrou no camarim do artista de máquina em punho.

Como estava, como se diz na gíria, "de ovo virado" naquele dia, Chico não foi nada receptivo. Assim que viu o fotógrafo entrar, teve um rompante de estrelismo e fulminou:

_ A primeira coisa que eu mais odeio na vida é dar a bunda e a segunda é tirar fotografia.

Ao que Frederico, numa presença de espírito de dar inveja ao mestre das blagues, rebateu.

_ Bom, eu vim só pra tirar fotografia...

sexta-feira, 23 de março de 2012

Viciados em sucesso

"Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus amigos têm sido campeões em tudo"
(Álvaro de Campos)


Sabe aquele momento em que você vê seu nome na lista de dispensas da empresa? A hora em que você nota que seu chefe evita olhar nos seus olhos, pois sabe que vai ter que te mandar embora?

Sabe o momento em que o treinador lhe dá o colete de treino do time reserva e você percebe que perdeu a posição e vai sentar no banco no jogo de domingo?

Sabe aquela hora em que você flagra seu pai olhando admirado para um garoto que é muito mais atlético que você? Ou quando você repara discretamente na sua mãe adulando aquele colega seu do colégio que tira notas muito melhores que as suas?

Sabe aquele momento horrível em que uma periguete de vestidinho curto e colado tira a atenção do seu marido na rua?

Você se sente um lixo, não é?

Mas não deveria. A derrota faz parte da vida e ensina muito mais que as vitórias, que só entorpecem o ego e mascaram o que realmente tem valor nessa nossa existência, curta demais se comparada à da montanha de 900 milhões de anos de idade que eu vi na Chapada dos Veadeiros (GO).

Nossa sociedade, desde o nosso primeiro dia de vida, tenta nos viciar em sucesso. Vinte e quatro horas por dia, a TV nos bombardeia com famosos endinheirados, sorridentes e bem resolvidos, numa ficção tão capenga que desafia qualquer intelecto minimamente capacitado.

Todo mundo tem a necessidade de parecer bem diante das câmeras, é a regra. A modelo ou atriz leva um pé na bunda do namorado e, no dia seguinte, se deixa fotografar com seu novo gatão. Diz que está super bem, você acredita nela?

E acredita que aquele artista sumido tem mesmo um novo projeto engatilhado mas ainda não pode revelar qual é?

Então, vamos para a academia malhar, porque todo mundo quer estar em plena forma no dia em que bater as botas.

Em nome da vitória que não existe, poluímos o planeta, passamos por cima do nosso semelhante e ignoramos sofrimentos que não sejam os nossos.


Ninguém leva desaforo para casa. Pelo menos uma vez, faça diferente: deixe um desaforo conhecer a sua casa.


Somos doutrinados para a glória e isso, paradoxalmente, está nos levando para o buraco. Pergunte à Whitney Huston e ao Michael Jackson.


Ninguém mais tem estrutura para encarar uma derrota. O jogador que leva um drible desconcertante parte para a agressão ao adversário, achando que foi desrespeitado pelo craque. A mãe cuja filha brigou na escola vai até lá para espancar a aluna rival. Para não perder o emprego, todos contrariam os princípios básicos de fraternidade. "Farinha pouca, meu pirão primeiro" é a ética de mercado.


A ditadura do prazer chega ao extremo de fazer com que adultos abusem sexualmente de crianças. A mídia, que erotiza as crianças precocemente com a conivência de muitos pais, chama pedófilos de monstros, porque, se disser que são pessoas como nós, pode doer na consciência.


E, se não há dinheiro para comprar, rouba-se.


Crimes racistas são noticiados todos os dias. Nos tornamos tão gado que o boi malhado não tolera a companhia do boi preto no mesmo pasto. Tudo que precisamos é fazer parte de um rebanho monocromático, que consome o mesmo capim industrializado todos os dias. E, se não é a cor da pele, é a cor da camisa de time de futebol. Ou então a opção sexual. Tudo é motivo para bater ou até matar.


Todos querem a supremacia.


Não é à toa essa epidemia de crack. Eles estão lá, no meio do esgoto e das ratazanas, sujos e doentes, mas a sensação química interior é de euforia. O crack é a droga da moda porque fomos todos educados para nos sentirmos os donos do mundo.


E quem não fuma a pedra, provavelmente está comendo demais, ou fazendo sexo compulsivamente, ou rezando nas raias do fanatismo para que Deus lhe dê "prosperidade".


Não eduque seu filho para vencer.


Eduque-o para perder. Ensine-o a conviver com as derrotas.


Porque é com elas que se aprende como não se deve ser.



Cachorro na Praia do Diabo (RJ)/Foto: Marcelo Migliaccio

terça-feira, 20 de março de 2012

Notícias do front evangélico

Esquentou a guerra entre as igrejas evangélicas Universal do Reino de Deus e Mundial do Poder de Deus.

Domingo, a Record, que é da Universal, exibiu longa reportagem sobre as fazendas que o apóstolo Valdemiro Santiago, líder da Mundial, teria comprado em Mato Grosso com o dinheiro dos fiéis. O repórter Marcelo Rezende sobrevoou uma das propriedades, dentro da qual, segundo ele, caberiam duas cidades de Jerusalém.

Rezende estimou o rebanho (bovino) de Valdemiro em 5 mil cabeças. A maior das propriedades teria custado R$ 29 milhões e sido paga a vista, pela igreja, sendo logo depois arrendada por Valdemiro.  Ao mesmo tempo, a reportagem exibia vídeos de cultos em que Valdemiro, em lágrimas, pedia mais contribuições dos fiéis para que seu programa continuasse no ar. Numa das cenas, ele roga a 7 mil pessoas para que doem R$ 1 mil cada para a "obra".

Foi um serviço bem feito, impactante, convincente. Como bom pistoleiro de aluguel, Rezende, claro, faria o mesmo contra o bispo Macedo se ainda estivesse na Globo. Mas hoje ele veste a camisa da Universal, e beija o escudo...



A Record reprisou a reportagem várias vezes e, com ela, bateu a audiência do Fantástico no último domingo. Mesmo com o programa da Globo exibindo imagens de empresários corruptores que atuam no ramo da saúde pública.

A resposta de Valdemiro veio rápida. Na segunda de manhã, ele já estava sobre um certo monte, que ninguém disse onde é, cercado de pastores. De óculos escuros e chapéu de vaqueiro, ele disse que a Record forjou os documentos de compra e venda da fazenda e que sua assinatura em nenhum momento foi mostrada. Disse que houve corrupção de funcionários públicos. Alegou ainda que nem pagou a primeira parcela da compra e negou que os alugueis de mais de 50 templos de sua congregação estejam atrasados, outra acusação de Rezende.

Ajoelhado, Valdemiro gemeu, mas também ironizou.

"Eles estão mal de Ibope, nunca vão passar a Globo. Estão até apelando para mostrar um cara feio que nem eu. Daqui a pouco, como a audiência subiu, vão me chamar para a Fazenda", disse, em referência ao reality show da Record que reúne famosos numa roça.

E, para arrematar, chamou Rezende de "Marcelo Resenha".

Apesar das gozações, Valdemiro acusou o golpe. Foi uma acusação difícil de explicar, mas, se Macedo só cresceu depois de ser atacado pela Globo, não será surpresa se os cultos da Mundial ficarem cada vez mais cheios agora. Citando a Bíblia, comparou-se a Jesus Cristo, vítima de calúnias.

Templo da Igreja Mundial em Botafogo, Rio. Foto de Marcelo Migliaccio


Universal e Mundial estão literalmente se engalfinhando. Outro dia, adeptos de ambos os lados foram parar numa delegacia do Rio após acirrada batalha campal.

Ex- pastor da Universal por cerca de 18 anos, Valdemiro agora chama o bispo Edir Macedo de alcoólatra e criminoso. O rival faz sessões de exorcismo em demônios que se dizem aliados de Valdemiro.

Da arquibancada, RR Soares, da Internacional da Graça de Deus, Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, e outros líderes menos votados, só esperam a rebarba, as defecções. Pode sobrar alguma coisa até para católicos e espíritas.

Leia e veja vídeos em Rebanho em disputa

E, acredite, o bispo Macedo publicou um texto meu no blog dele em 2010:
O poder da Universal está no ser humano

segunda-feira, 19 de março de 2012

Menor abandonado no shopping

Se você hoje entrega seu filho à televisão, à babá ou à recreadora com a desculpa de que precisa trabalhar, prepare-se.

Daqui a alguns anos, provavelmente ele vai entregar você a um asilo usando a mesma desculpa.

Amor é companheirismo, que só vem com a convivência, a atenção e o respeito.

Fazer sexo é muito fácil, e gostoso. Criar um filho, porém, requer dedicação. Cansa, estressa às vezes, tira grande parte do tempo que os pais teriam para si. Para ter um filho, é preciso estar muito – mas muito – a fim, senão vira um martírio, uma coisa insuportavelmente trabalhosa da qual a maioria das pessoas hoje em dia se livra simplesmente ligando aquele botão do “dane-se”. Aí, fica fácil, mas a dificuldade virá depois, quando o garoto ou a garota crescer e apresentar a conta do que lhe foi negligenciado.

Há muitas maneiras de empurrar com a barriga a criação de um filho. Uma delas é submetê-lo a uma tirania. Transforma-se a casa num quartel, dita-se as ordens e o soldadinho que não cumprir ou questionar é devidamente enquadrado com penas físicas ou de efeito moral devastador. Como criança não nasce sabendo, as falhas são muitas e motivos para castigá-la não faltam a pais preguiçosos que preferem gritos e agressões ao diálogo franco e desarmado. É muito mais fácil proibir do que explicar razões e convencer. E não há coisa mais fascinante do que conversar com uma criança.


A segunda forma de sonegar a paternidade é o mimo excessivo. Há pais que trabalham a semana inteira. Deixam o filho na creche às 7h e vão buscá-lo às 19h. À noite, cansados, preferem prostrar o menino diante da TV, ou dar um presente para tentar compensar a ausência. A televisão é um alívio imediado, mas os problemas vêm anos depois, quando o jovem começa a mostrar o que a babá eletrônica lhe ensinou: individualismo, consumismo, maledicência, sexualidade precoce, egoísmo, agressividade e até racismo (até hoje esperamos uma paquita negra no Show da Xuxa).

Chega o sábado e, enfim, tempo livre para ambos. Mas o que se vê são muitos filhos da elite perambulando com babás de carne, osso e roupa branca nos shopping centers da vida. Onde estarão seus pais, me pergunto, que têm coisa mais importante a fazer do que curtir seus filhos no momento de folga?

Mas o pior é quando cismam de arrastar os filhos pequenos para os seus programas de adulto, tipo cerveja no buteco. Canso de ver crianças em bares, morrendo de sono ou dormindo no carrinho no meio daquela fumaça de cigarro, enquanto os pais bebem e conversam animadamente com a turma do funil até de madrugada.

Outro dia, num ponto de ônibus estava a mãe com uma linda menina de uns quatro anos, daquelas cheias de vida e com os olhinhos brilhando a descobrir tudo ao redor:

– Mãe, como é o ônibus?

– Quando chegar, cê vai ver.

– Que cor ele é?

– Ô menina curiosa que não para de perguntar!

Ter um filho não é coisa para se fazer porque a idade está chegando, por ser o passo seguinte ao casamento, ou porque finalmente o casal reuniu condições financeiras. Muito menos por descuido num encontro casual com alguém por quem se sente apenas atração física. Ser pai e ser mãe é desfrutar dos melhores momentos e do maior aprendizado que a vida pode nos oferecer. Mas é preciso estar a fim. Muito a fim de receber a bênção.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Jornalismo para iniciantes

Por uma molecagem do destino, caiu-me nas mãos a edição desta semana daquela revista que pensa que o leitor é cego.

Depois de passar de passagem por páginas e páginas de anúncio, que mostram quem são os verdadeiros donos de qualquer meio de comunicação privado, cheguei ao editorial, que eles chamam de Carta ao Leitor e que, sabendo a imagem que a revista tem de seu público, me surpreendi por não estar escrito em Braille.

Com uma foto da presidente Dilma chorando em recente cerimônia de troca de ministro, o sempre deliberadamente míope semanário ataca o governo dela, bem como os de Lula, o que não é novidade. Critica a coalizão montada pelo Executivo para ter maioria no Congresso e, assim, aprovar seus projetos. Diz que essa prática, usada em qualquer regime democrático, gera apadrinhamentos e corrupção (como ocorreu nos governos do PSDB, aliás, só que com menos gente sendo presa ou demitida).

Em suma, na primeira metade do texto, a revista para quem somos todos caolhos, surdos, mudos e retardados, prepara o que vem a seguir. E é aí que ela se revela.

Afirma o texto que Dilma deveria usar sua ampla base de apoio para "fazer as reformas pelas quais o Brasil todo clama" (bonito isso...)

E, veja só, a revista começa a enumerar suas prioridades, que, felizmente, não são as de Dilma Rousseff:

"(...) reformar as leis trabalhistas brasileiras dos tempos do fascismo e, assim, baratear o custo da mão de obra" - Ou seja, a revista quer que você, trabalhador, dê menos despesa ao seu patrão, possivelmente deixando de receber adicional de 30% nas férias, aviso prévio de 30 dias, multa de 40% no FGTS em caso de demissão sem justa causa.

"(...) acabar com a injstiça tributária (...)" - Claro, o choro de todo o sovina, que diz que vende caro porque paga impostos demais. Gozado é que, quando cortam os impostos, ele continua vendendo caro e põe no bolso a diferença...

"(...) reduzir o gigantismo do estado" - Aqui a meta é que seja vendido o que resta do patrimônio brasileiro, mas o estado brasileiro somos nós. A Petrobras, uma das maiores empresas do mundo, é minha e sua, no entanto eles querem que seja vendida a preço de banana a um desses megaempresários que guardam a ferrari na sala de jantar. Reduzir a presença do estado é aumentar a concentração de renda nas mãos de uns poucos, é fazer das insensíveis leis de mercado as senhoras da vida e da morte. A iniciativa privada gosta muito é de um subsídio, pergunte aos concessionários das barcas, trens e metrô aqui no Rio.

Ou seja, a revista apenas defende os anseios dos empresários que a sustentam com seus anúncios.

É de chorar, não é mesmo? Não. Ainda há o grand finale, quando o texto se encerra com a defesa do voto distrital, que leva ao bipartidarismo, favorece candidatos com maior poder econômico, dificulta a renovação dos ocupantes de cargos eletivos e vem sendo abandonado por um número de países muito maior do que aqueles que o adotam.

Agora pode chorar.

Sorrindo, só na posse. Agora, a presidente só aparece chorando

segunda-feira, 12 de março de 2012

No mundo da rua

Marcelo Migliaccio



Li o livro No mundo da rua, de André Perin Schecaira, em que o autor conta sua experiência no trabalho voluntário com pessoas que não têm onde morar no Rio de Janeiro.

Membro de uma congregação espírita, André trocou muitos fins de semana de praia e cinema para ouvir e cuidar de gente suja, castigada pela vida, arredia, sem autoestima e, muitas vezes, dependente de álcool e outras drogas.

Confesso que já pensei em fazer algo semelhante por meu semelhante, mas faltou coragem, não só para abrir mão dos meus prazeres e minhas folgas mas, principalmente, para me envolver com histórias tão tristes. O próprio autor do livro fala do confilto dos voluntários para controlar seu envolvimento pessoal com as pessoas atendidas.

Eis, para mim, o lado mais nobre de qualquer religião: motivar as pessoas a se ajudarem. E assim, André e seus companheiros passavam parte de seu tempo livre cortando os cabelos, organizando banhos, fazendo curativos e, principalmente, devolvendo àquelas pessoas a certeza de que são gente e que, apesar de estarem na base desta pirâmide social calcada nos bens materiais, não se resumem, como elas mesmo acabam acreditando, a lixo sem valor.

O modo como nós, os incluídos, nós que não somos barrados na porta dos shopping centers, ignoramos solenemente essas pessoas nas ruas, relatado pela ótica dos sem-teto, me chocou. A invisibilidade social faz com que eles, ao chegarem aos abrigos, demonstrem extrema satisfação quando alguém lhes chama pelo nome. Isso mesmo, o simples e corriqueiro fato de ser chamado pelo nome, a primeira coisa com a qual nos habituamos na vida, para eles é o único bem que restou.

O descaso dos médicos de pronto-socorro só reflete o apartheid social brasileiro. No jargão da turma de jaleco branco, essas pessoas, quando chegam ao hospital, são chamadas de P.I.M.B.A.

"Mais um Pobre Indigente Mulambo Bêbado Atropelado"...

A maioria, de fato, é descendente de escravos. Muitos são filhos de pais que não tiveram um Bolsa Família para que pudessem estudar. Outros fugiram da escola, uns poucos são até poliglotas. Não importa a razão, um acidente repentino na vida pode colocar qualquer um na situação deles.

A passagem mais emocionante do livro é quando um menino, faminto, morrendo de frio e drogado na calçada, abraça o voluntário que nunca vira antes como um filho abraça a própria mãe. Mais que um cobertor e uma quentinha, ele queria alguém para poder abraçar. Acho que é por isso que eu jamais teria coragem... sou egoísta demais para sofrer assim.

O excelente filme francês O Porto, que está em cartaz no Rio, me lembrou muito o livro, pois mostra o esforço de um engraxate e de seus vizinhos do subúrbio para impedir que um garoto, que imigrou ilegalmente do Gabão, seja deportado. Uma solidariedade de quem pouco tem para com quem nada tem. O desempenho do ator André Wilmes emociona.

A única coisa que lamentei no livro é que fiquei querendo saber mais sobre o passado e o futuro daqueles personagens reais, jogados nas ruas pelos mais diferentes motivos e com as histórias de vida tão variadas. Com experiências vividas antes desta epidemia de crack, fico a imaginar como estão as coisas debaixo dos viadutos e das marquises. Basta ver pelo número de recém-nascidos que têm sido abandonados em qualquer esquina.

Tem uma ótima entrevista com o autor de No mundo da rua no blog Alma Lavada

Ler a entrevista

domingo, 11 de março de 2012

Outono, ou nada

Mudou. Reparou?

O calorão já não é tão avassalador, apesar das explosões solares batendo às portas da atmosfera terrestre.

O vento que ainda é brisa se faz sentir, sorrateiramente, anunciando a chegada da mais bonita das estações do ano _ o outono. Enquanto um transatlântico retardatário emoldura o horizonte na sua partida discreta, é possível ver as nuanças do mar, seus brilhos que aparecem e somem, como está sumindo mais um delicioso e abrasador verão carioca.

Na Avenida Atlântica, duas amendoeiras apressadas despiram-se das folhas antes do tempo. Deviam estar indóceis para acabar com as sombras e escancarar-se ao sol, que agora se mostra amigo e não o inimigo que nos derreteu impiedosamente de dezembro a fevereiro.

Bem-vindo, outono, alegria dos fotógrafos e cinegrafistas. Estação ideal para iniciar as filmagens de um documentário, ou para passear de bicicleta à beira-mar. A claridade não nos cega mais, podemos ver as belas paisagens e as belas na paisagem.

O outono é discreto, equilibrado, humilde em sua grandeza. 

Não é a estrela da companhia _ o verão _ época em que todos tiram férias para curtir o calorento campeão de popularidade. 

Não é a primavera, virgem tímida, florida, enfeitada, mas sem sal. 

E nem o inverno, vilão cinzento, carrasco naquelas segundas-feiras chuvosas, dignas da filme de Drácula, em que é difícil encontrar ânimo para sair de casa.

Eu amo o outono, e você?

Árvore no outono, Foto de Marcelo Migliaccio


quinta-feira, 8 de março de 2012

Misterioso tempo

Árvore em maio

Amendoeira na Urca. Foto de Marcelo Migliaccio


Árvore em agosto

Amendoeira na Urca. Foto de Marcelo Migliaccio




Feira às 5h20

Feira na Urca. Foto de Marcelo Migliaccio



Feira às 10h20

Feira na Urca. Foto de Marcelo Migliaccio



Gato relaxado um segundo antes

Gato/Foto: Marcelo Migliaccio

Gato assustado um segundo depois

Marcelo Migliaccio




Praia da Urca às 7h10

Praia Urca/Foto: Marcelo Migliaccio



Praia da Urca às 11h10

Marcelo Migliaccio




O tempo não passa, nós é que passamos. Então... passar bem.



segunda-feira, 5 de março de 2012

Fifa x Brasil

Como se diz na gíria, o secretário geral da Fifa, Jérôme Valcke, botou o galho dentro.

Depois de tratar o Brasil como uma republiqueta de bananas e dizer que o país precisava de um pontapé no traseiro para acelerar as obras de infraestrutura para sediar a Copa do Mundo de 2014, o francês arrogante foi colocado em seu lugar pelo ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, que atualmente é o meu comunista favorito.

Indignado como eu e todos os brasileiros que não os apátridas colonizados, o ministro disse que o governo não reconhece mais Valcke como interlocutor. O secretário especial para assuntos internacionais da Presidência, Marco Aurelio Garcia, completou o serviço dizendo que o gringo não passa de um "vagabundo" e "boquirroto".

A grande imprensa, claro, ficou do lado da Fifa. Desandou a fazer terrorismo, dizendo que nossas obras não andam e que a entidade tem até o dia 1 de julho para tirar a Copa daqui e promovê-la na Inglaterra (que está mais preocupada com a Eurocopa do desemprego). Se o diabo arranjar um embate com o governo do PT, nossos jornalistas imortais vão sentar na arquibancada com um saco de pipoca numa mão e um tridente na outra, torcendo descaradamente pelo coisa ruim.

Tudo bem, com esses editoriais sem vergonha a gente já se acostumou, bem como com a cobertura deliberadamente míope e sempre tendenciosa. Em questões internacionais, o gringo tem sempre razão para a nossa imprensa, que sofre do complexo de vira-lata do qual falava Nelson Rodrigues há décadas. Agora mesmo, estão tentando diminuir Dilma em relação à presidente alemã, Angela Merkel. É só reparar o tom dos noticiários e os verbos usados nos títulos e manchetes. Em jornalismo, o verbo é tudo.

E dói em qualquer brasileiro ver esses caras tomarem partido de um executivo de meia tigela que representa uma entidade que nada mais é do que gigolô do esporte mais popular do planeta. Na rádio que tem nome de biscoito de praia, o time da maledicência e do deboche berrava contra o governo. Só faltava pedirem no ar ao francês que viesse até a Rua do Russel para que lhe beijassem os pés. Por essas e outras, perderam a liderança de audiência para a Rádio Tupi no Rio...

Na tarde desta segunda, Valcke enviou carta ao governo brasileiro pedindo desculpas e jurando que usou uma expressão em francês que, traduzida para o português, ficou muito mais "forte". Ora, um pontapé na bunda é um pontapé na bunda aqui, na França ou no Sudão. Só faltou o francês escrever na carta que gostaria muito de ficar no emprego.

Claro que a Copa será aqui. O resto é marola pra Hommer Simpson acreditar. Claro que tudo ficará pronto. Quem roubar durante as obras, que seja preso, e a Polícia Federal já colocou um monte de gatunos em cana, no governo Lula e neste. Pena que a Justiça solta todos...

Agora, cá entre nós, se a Fifa tirar a Copa do Brasil não vou me importar nem um pouco. Os ingressos serão caríssimos. Se já é praticamente impossível comprar uma entrada para a decisão do Campeonato Brasileiro, imagine para um jogo do Brasil na Copa. O povão vai ver pela TV mesmo, como vem acontecendo há anos, graças ao monopólio da detentora dos direitos de transmissão.

No estádio, só vai ter mauricinho, gringo e a meia dúzia de índios e beneficiários do Bolsa Família que o governo pretende incluir a fórceps, contra a vontade da Fifa e dos idiotas que ainda a defendem aqui no Brasil.

Torcedores do Fluminense fazem fila para comprar ingressos. Foto de Marcelo MIgliaccio
Já tentou comprar ingresso para uma decisão? Leve cadeira...

quinta-feira, 1 de março de 2012

O bacanal brasileiro

Nos Estados Unidos, onde o dinheiro e a aparência parecem estar acima de tudo, uma menina de 11 anos morreu anteontem após ser atingida por um soco de uma coleguinha na escola. O motivo? As duas disputavam o mesmo namorado.

Nossa!, pensei, a coisa está cada vez pior por lá...

Mas aí eu passei em frente a uma escola pública estadual aqui de Copacabana às sete e dez da manhã e vi que a lavagem cerebral sexista sofrida pelas nossas crianças não é menor do que nos EUA, talvez seja até maior. Boa parte das garotas reunidas na porta do colégio estava com os cabelos impecavelmente feitos e aquelas unhas compridas e vermelhas de rainha de bateria. As pirralhas magricelas faziam caras e bocas para os garotos, também uniformizados e já prontos para aumentar a população brasileira a qualquer momento.

Nada contra a vaidade, mas a precocidade e a obstinação com que nossas crianças entram no mundo adulto é espantosa. Garotinhas de nove anos se portam como mulheres e parecem não ver a hora da primeira transa.

O que leva uma menina de 11 anos pintar os olhos e se emperequetar tanto às seis da manhã para ir a escola? Respondo: o fato de ela só pensar em sexo. Vai à escola apenas para aprender a ser mulher-objeto.

Certa vez, numa entrevista, depois de ouvir por três horas o blá-blá-blá acadêmico da secretária municipal de educação do Rio, perguntei-lhe como ela poderia atuar junto às crianças menores para evitar a gravidez adolescente. A resposta dela foi tão vaga que abortou-me todas as esperanças.

Sem dúvida, o apelo sexual reina na mídia, principalmente na TV, onde qualquer hora é hora para exibir cenas dignas de um canal privê de motel. Aliás, na TV brasileira, a meta é exibir qualquer coisa que impeça o telespectador de acinonar o controle remoto. Pode ser porrada, maledicência, intriga política, sensacionalismo policial, briga de família, humilhação travestida de pegadinha... e isso vai formando o inconsciente coletivo da massa. E a maioria dos pais, educados na mesma cartilha, acha tudo muito natural. Tão natural quanto para esses mesmos pais é dar refrigerante a uma criança de cinco anos às oito da manhã. E viva a ignorância (e a obesidade mórbida)...

Eu não posso fazer sexo na rua com a minha namorada, é atentado ao pudor. Mas sexo na TV a qualquer hora do dia pode. Agredir alguém caído e sem direito de defesa, além de moralmente condenável, também é crime. Entretanto, se for num ringue de vale-tudo, pode ser atração nacional. Caluniar uma pessoa, famosa ou não, também é contra a lei. Num programa de fofocas vespertino ou num site de celebridades, porém, é entretenimento. Na nova propaganda do automóvel Peugeot, o tenista Guga dirige perigosamente em alta velocidade na cidade, quase atropela dois operários, e o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária não fala nada.

Laissez faire laissez passer le monde va de lui même (deixa fazer, deixa passar que o mundo vai por si mesmo, dizem os liberais há séculos). Vai pra onde?, pergunta-se.

Pro brejo.

Qualquer iniciativa do governo (democraticamente eleito pela sociedade) de colocar um limite nesse festival de deseducação eletrônica é combatida ferrenhamente pelos autointitulados defensores da liberdade de expressão. Outro dia, vi o presidente de uma empresa de TV por assinatura criticando a iniciativa da Ancine de controlar os horários e o conteúdo exibido pelas emissoras. Os cães de guarda desse empresariado apátrida tratam todos que se revoltam com essa lavagem cerebral odiosa como se fossem pastores retrógrados querendo tolher os direitos individuais.

Adequar a grade de cada canal a cabo estrangeiro ao fuso horário local vai sair caro para as operadoras de TV por assinatura. Então, que crianças de quatro anos continuem assistindo a agressões e sacanagem já nas primeiras horas da manhã.

Muitos argumentam que a arma do telespectador para se defender é o controle remoto. Concordo, mas não se deixa uma arma na mão de uma criança, não é mesmo?

Aqui, como nos EUA, querem liberdade total. Dane-se a cabeça das gerações que estão formando. Quanto mais imbecilizadas melhor, quanto mais cedo meninos e meninas começarem a gerar novos futuros imbecis melhor. O número de estupros e de pedófilos cresce geometricamente, mas quem se importa? E, como provou a terceira lei de Newton, a reação a toda essa ação é a onda fundamentalista evangélica que se espalha pelo país. Fizeram tanta confusão na cabeça do Hommer Simpson que o cérebro dele virou Mandiopã*.

O que manda é o lucro, o balanço das contas no fim do mês tem que ser positivo. É isso que chamam de livre iniciativa. Caíram de pau no presidente do Equador porque ele deu a jornalistas mentirosos o que eles mereciam: uma condenação judicial. Fazem do venezuelano Hugo Chávez um demônio nos noticiários, mas ele está disputando, nas urnas, sua terceira reeleição.

Acho engraçado esses democratas de almanaque. Querem fazer a população crer que, na nossa bela democracia, o povo manda, porque escolhe o presidente em eleição direta. Só que a partir do momento em que um presidente vai contra os interesses econômicos, ele já não representa mais os que o elegeram e passa a ser um déspota a ser deposto. Muito, muito coerente...

Não somos uma Nação, somos um mercado consumidor, como nosso modelo maior, os Estados Unidos, onde, por sinal, esta semana, mais um garoto entrou no colégio e matou a tiros três coleguinhas...

Casal em Copacabana, Rio. Foto de Marcelo Migliaccio




PS: