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domingo, 30 de setembro de 2012

"Todo jornal que eu leio
Me diz que a gente já era
Que já não é mais primavera

Oh, baby, oh, baby

A gente ainda nem começou..."

(Cachorro Urubu - Raul Seixas)





sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Ted Boy Marino

Depois do goleiro Félix e do astronauta Neil Armstrong, morreu outro herói da minha infância: Ted Boy Marino, lutador de telecatch, uma pancadaria fake exibida na TV quando eu tinha uns cinco ou seis anos de idade.

Os lutadores eram alegóricos e a luta, combinada. Tudo pensado e ensaiado para que nenhum dos acrobáticos artistas se machucasse durante o show. Ted era o mocinho, e se deparava com adversários medonhos como o Verdugo, que não dobrava braços e pernas, andava todo duro, e o Múmia, todo enfaixado, recém-saído do seu sarcófago. Os vilões, por sinal, eram sempre figuras estranhas com nomes curiosos, como Rasputin, Demônio Cubano, Cavaleiro Vermelho, Tigre Paraguaio...

A dinâmica do show nunca mudava. Ted Boy Marino era torturado por seu adversário durante quase toda a luta e, no final, com uma recuperação impressionante, acabava vencendo. Em casa, eu imitava aqueles golpes, todos com nomes sugestivos, como o tacle, que consistia em voar com os dois pés no peito do oponente.

Tudo de mentirinha, faço questão de frisar nesses tempos em que tirar sangue do rosto do adversário virou o "esporte" que mais ganha adeptos no Brasil. Triste ver a luta livre, o vale tudo, massificando a violência quase sem regras. E incentivando jovens lutadores irresponsáveis, movidos a vodca e energéticos, a fazerem das boates ringues para extravasar gratuitamente essa violência, que atualmente é cultural e endêmica. Agredir com socos e pontapés um oponente caído vai contra os princípios de todas as artes marciais genuínas.

Bons tempos em que os atletas do telecatch treinavam para dar um espetáculo e não para machucar seus   companheiros. Ted Boy Marino me impressionava não só por sua agilidade e destreza, mas também pelos cabelos loiros.

Acho que ele foi o primeiro cara loiro que eu vi na vida, numa minúscula TV preto e branco, em cuja tela passou boa parte da minha infância.






Leia também:

A cultura da violência

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O gado carioca

É impressionante a passividade do brasileiro, em especial do carioca, quando se trata da tortura diária que sofrem nos transportes de massa.

Passageiros das barcas para Niterói enfrentaram ontem filas de duas horas, na chuva, depois de um cansativo dia de trabalho. Frequentemente, embarcações velhas e mal conservadas ficam à deriva na Baía de Guanabara. Não têm radar, denunciam os usuários. A outra opção ao péssimo serviço prestado pela concessionária é ir de ônibus, pela Ponte Rio-Niterói, pagando os altos preços das passagens. Agora, a mesma administradora das barcas vai administrar o pedágio da ponte... absurdo. O gato tomando conta da sardinha.

Pagar R$ 2,85 por uma passagem de ônibus para ir de Botafogo a Ipanema, por exemplo, é outro absurdo do sistema de transportes no Rio. Aí, o governo vem falar do bilhete único, que nada mais é do que o próprio governo, ou seja, nós, pagando às milionárias empresas de ônibus a diferença da tarifa mais barata. O empresário não perde nunca. Ou tira direto do nosso bolso, ou mama no governo, às custas dos nossos impostos.

Do metrô nem é bom falar. Volta e meia dá pane e os passageiros ficam presos entre uma estação e outra. Na Linha 2, as composições são velhas e quentes. A superlotação maltrata os usuários em toda a cidade. Hoje, um funcionário foi encontrado morto no canteiro de obras da Linha 4, que vai esburacar Ipanema e Leblon quando deveria chegar à Gávea pelo Jardim Botânico. Para piorar, a mulher do governador é advogada da concessionária. Surreal, mas o carioca aceita tudo.  

Isso para não falar dos neuróticos profissionais do volante, os motoristas de vans e táxis, que andam como loucos e simplesmente não param em sinal vermelho, colocando em risco passageiros, outros motoristas e pedestres.

E os trens? Anteontem, passageiros ficaram uma hora presos dentro de um vagão fechado em sem ar condicionado. Um inferno. Mulheres saíram carregadas, pessoas se arriscaram caminhando pelos trilhos. E a concessionária se fingindo de morta. Só esta semana, duas pessoas morreram atropeladas por composições, em São Cristóvão e na Central. Uma delas era funcionária da Super Via, empresa que administra os serviços.

Fiscalização do governo? Tem uma tal de Agetransp, a quem caberia apurar e punir as concessionárias, mas ela só abre os procedimentos, nunca fecha...

Tudo isso se repete quase mensalmente.

Até o prosaico bondinho de Santa Teresa sucumbiu. Depois de anos de abandono e falta de fiscalização, um acidente horrível deixou vários mortos. Saiu de circulação depois disso. Apontado como responsável, o secretário de Transportes continua no cargo.

E o carioca aceita tudo.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

domingo, 23 de setembro de 2012

Milhares de gatos pingados

Antes de mais nada, deixo claro que gosto de gatos. Como passei a infância toda morando em apartamentos, era o único bicho que eu podia ter (queria mesmo era um cavalo igual ao do Zorro). Nem um trauma me fez deixar de gostar dos bichanos: aos seis anos, uma siamesa nossa se atirou do quarto andar. Dizem que essa raça tem vertigem e instinto suicida, mas até hoje me pergunto se minha mãe não estava de TPM naquele dia...

Não morreu, só quebrou um dente. Canino!

O fato é que a afeição por esse tipo de animal atravessa gerações na nossa família. Minha filha acaba de ganhar seu segundo gato, um filhote sobrevivente de uma chacina, já que sua família foi toda devorada por um gambá dentro de um clube aqui do Rio. Coisas do mundo animal.

Mas quando o bicho-homem, na sua eterna ignorância e na sua indefectível vaidade, cisma de interferir da natureza, o resultado é sempre desastroso e o que ocorreu foi que...


Depois da praga dos pombos...

Pombos/ Foto: Marcelo Migliaccio


E da dos micos, ambos alimentados por burros mais carentes do que eles...

Micos/ Foto: Marcelo Migliaccio


Instaurou-se na cidade outra epidemia que não a de crack. A dos gatos. O animal que os alimenta é o mesmo... e o estrago que fazem dizimando os passarinhos, também.

Gatos/ Foto: Marcelo Migliaccio


Tal é a fartura que eles hoje levam uma vida tranquila, apreciando a paisagem da Cidade Maravilhosa

Gatos/ Foto: Marcelo Migliaccio


Comida não falta, nem aos domingos!

Gatos/ Foto: Marcelo Migliaccio


Alguns já ganharam até casa própria...

Gatos/ Foto: Marcelo Migliaccio


Nos dias de folga, que são todos, nada melhor que sentar num bar e pedir um chopinho

Gatos/ Foto: Marcelo Migliaccio


Quando saem das baladas noturnas, os que beberam, responsáveis, vão de táxi.

Gatos/ Foto: Marcelo Migliaccio


É triste, mas alguns sucumbiram ao vício do álcool e foram parar no Pinel.

Gatos/ Foto: Marcelo Migliaccio


Em geral, no entanto, são muito ajuizados. Chegam até à universidade...

Gatos/ Foto: Marcelo Migliaccio


Só não lhes peça que façam ginástica, porque o gato é primo do bicho-preguiça.

Gatos/ Foto: Marcelo Migliaccio



Nem os cachorros eles temem mais...

Gatos/ Foto: Marcelo Migliaccio


No Campo de Santana, convivem em harmonia com as cotias. Afinal, quem vai ser trouxa de correr atrás desses ratos gigantes?

Gatos/ Foto: Marcelo Migliaccio


E, quando aparece alguém pra cantar de galo, se escondem...

Gatos/ Foto: Marcelo Migliaccio

Por isso, dizem, têm sete vidas. Uma para cada dia da semana.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A nova era infernal

Camelô se protege do sol em Copacabana/ Foto: Marcelo Migliaccio


Termômetros marcando 44 graus. O dia mais quente do ano no Rio foi ontem. Em pleno inverno!

Meteorologistas preveem um calor infernal até março. E que o próximo verão será cinco graus mais quente do que a média! Veja bem: cinco graus a mais em um ano. Antes, a temperatura subia um grau a cada 50, cem anos...

E ninguém coloca ponto de exclamação!?

Raul Seixas, um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos ao lado de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, cantou uma vez:

"Buliram muito com o planeta
O planeta como um cachorro eu vejo
Se não aguenta mais as pulgas
Se livra delas num sacolejo"

Pode ser que não seja apenas por causa da ganância, da ignorância, da maldade e do egoísmo do bicho homem, mas que a Terra está esquentando não há quem negue.

Ontem as ruas estavam uma estufa. Era praticamente impossível ficar exposto ao sol, mesmo na praia. A beldade-esultural-estonteante sai da água depois de um refrescante mergulho e, antes de chegar na cadeira, já está sequinha de novo. Nossa sorte é que o ser humano se acostuma com tudo (vide a criminalidade que, de tão banalizada, não surpreende mais ninguém). A epidemia de Síndrome do Pânico só perde para a de crack e ainda assim a maioria das pessoas continua vivendo normalmente, apesar dos programas policiais que nos dizem diariamente que o ser humano já era. A frase "o inferno é aqui", pronunciada sempre diante das atrocidades do dia a dia, nunca foi tão literal, basta olhar os termômetros.

Agora esse calor infernal. Posso até estar na andropausa, mas nunca vi o Rio tão quente e abafado como ontem. Frente fria? Dura pouco. Inverno? Ano que vem vai cair no dia 10 de julho... Eu achava incrível pessoas morrerem de calor naquelas tragédias climáticas européias. Hoje, depois de sentir na pele a canícula de ontem, já não acho mais.

E cheguei a uma conclusão: casacos são um artigo em extinção. Isso mesmo, no futuro, não haverá mais casacos na Terra. Parece uma idiotice, mas essa constatação prosaica nos diz exatamente para onde estamos indo (nós todos e não só os fabricantes de moletons): para um brejo pra lá de calorento.


domingo, 16 de setembro de 2012

O sem-sorriso

Acho que este é o único entre os milhares de candidatos a vereador do Rio que não posou para a foto de campanha sorrindo. Pelo menos ele nos poupou daquele sorriso amarelado e falso que está em todos os cantos da cidade. Com vocês, mister Indignação.


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Os intocáveis e os paralímpicos

O filme Intocáveis é imperdível. Primeiro, porque uma comédia francesa que faça brasileiros rirem é difícil de aparecer e deve ser comemorada como um gol em final de campeonato.

E não é só isso. O filme trata um tabu de uma forma absolutamente despudorada e sem preconceitos. Um negro da periferia, de origem senegalesa e com um pé na marginalidade (Omar Sy) é escolhido como acompanhante por um milionário tetraplégico (François Cluzet).

O mais sensacional é a forma como o jovem trata o "deficiente". Nada de comiseração, nem de indulgência, só companheirismo verdadeiro e brincadeiras sem a autocensura do "isso seria politicamente correto?".

Em suma, aquele enfermeiro sem nenhuma formação acaba oferecendo ao ricaço tudo que alguém que está irremediavelmente preso a uma cadeira de rodas precisa em sua vida: leveza.

Alguns críticos vão torcer o nariz. Chamarão o filme de apelativo ou lacrimejante, mas, na verdade, são pessoas que têm vergonha de suas próprias lágrimas. Emocionar-se, para esses caras, é um demérito. Tolos.

Acho que o planejamento mercadológico fez com que o filme fosse lançado nesta época de paralimpíada, quando pessoas das quais, constrangidos, desviamos o olhar nas ruas, mostram que a deficiência física, como tudo mais nesta na vida, é relativa.

O que mais deve machucar um portador de necessidades especiais é um olhar de pena e, como, idiotas que somos, é só isso que conseguimos lhes oferecer. Isso quando não travamos aquela luta herculea para que nosso olhar não cruze com o de um deles. Parece que só adquirimos coragem quando uma dessas pessoas ostenta uma medalha de ouro no peito.

Quanto maiores as diferenças, mais dificuldades temos para nos comportar. Gritamos com um cego como se ele fosse surdo e não sabemos onde enfiar as mãos diante de um amputado. O rapaz do filme não. Põe todo mundo pra dançar diante do tetraplégico. Ele é assim. O modo como canta a secretária do chefe deixa claro que também com mulheres ele não estabelece as barreiras convencionais.

Já o brother do Senegal nos dá, nesse filme, uma lição de vida, essa sim politicamente correta, apesar de piadas como: "me espera aí, sei que você não vai sair daí por nada desse mundo"...

Vendo o filme entendi a frase de Santo Agostinho: "Conhece-se melhor a Deus na ignorância".


sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Candidata sincera?

Cartaz de campanha adulterado/Foto: Marcelo Migliaccio

Nada mais carioca. Em Copacabana, um gaiato colou uma fita crepe num dos dedos da candidata do PV à Prefeitura do Rio, Aspázia Camargo. O resultado é que ela agora faz um gesto obsceno no cartaz.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O anjo pornográfico

_ Que isso, não acredito! Nelson Rodrigues!

- Fala, Miliácio, eu vinha me esgueirando pelo canto da aléia com medo de encontrar de novo aquele chato.

- Quem?

- O cineasta sem platéia... ele vive por aqui me cercando. Deve estar agora em algum convescote.

- Convescote, Nelson? Essa é do tempo do Onça!

- E "essa é do tempo do Onça" é do tempo em que Pedro Álvares Cabral fumava charuto...

- É por isso que eu adoro passear aqui no São João Batista, sempre tem um papo bom com alguém que a gente não vê há muito tempo...

- Ô Miliácio, você sabe que eu parei de fumar, não é?

- É, eu soube no dia do seu enterro.

- Bom, dizem por aí que cigarro brocha, né?

- É, tem até aquela foto no maço, do cara com um polegar pra baixo tampando a genitália...

- Formidável, a cara de pau desse pessoal. Tudo pra eles brocha: cigarro, carne de porco, álcool, demissão, Natal... só esquecem da coisa que mais tira o tesão de um homem.

- O quê, Nelson!? O quê!?

- É uma mulher dizer que gosta dele como amigo.

- Ahh, isso é dureza mesmo!

- Dureza, não, é moleza na certa, meu filho! É batata como o cara nunca mais vai ser o mesmo. Seu complexo de vira-lata tomará proporções catastróficas, vesuvianas, tsunamicas.

- É... uma vez uma mulher que eu queria pegar me definiu pra uma amiga como "super-gente boa".

- Coitado... coitado...

- Fiquei arrasado.

- Pior que isso, ô Miliácio, é se ela dissesse que você é super fofo.

- Nossa, aí eu encerrava a carreira!

- Vou lhe dizer uma coisa, meu caro: a mulher tem que te chamar é de canalha. O bom marido é um infeliz remediado, um zero à esquerda, um comédia. A mulher não respeita o Zé do Patrocínio, só quer que ele pague suas contas. Mulher gosta de emoções fortes e o medo de perder o homem é a sensação que mais a satisfaz. O romantismo está enterrado três túmulos à esquerda do meu e não recebe visita nem no Dia de Finados.

- Porra, Nelson, tu continua o mesmo...

- Tu também, Miliácio, sua cabeça encalhou faz tempo...

Obra de arte na Praia de Botafogo/Foto: Marcelo Migliaccio

sábado, 1 de setembro de 2012

Só no Rio...

Já vi muitas casas de tijolos à mostra.

Mas um prédio de tijolos à mostra foi a primeira vez...

Prédio na Lapa (RJ)/Foto: Marcelo Migliaccio


Só poderia mesmo ser na Rua do Rezende, a rua mais trash da Cidade Maravilhosa...