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quarta-feira, 29 de maio de 2013

Justiça à brasileira

Os quatro presos pelo incêndio na boate Kiss, casa noturna de Santa Maria (RS) onde morreram 242 jovens, foram soltos pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul.

Nada mais previsível pois estamos no Brasil...

Em 27 de janeiro, a impunidade já era anunciada, pelo menos aqui.

Incêndio na boate vai ficar por isso mesmo

Ah, mais uma do nosso Judiciário; o Supremo Tribunal Federal atendeu a um pedido dos advogados dos quatro acusados de provocarem a morte por afogamento de um calouro da USP, durante um trote em 1999, e adiou a decisão sobre a reabertura do processo, pedida pela família da vítima. O caso havia sido arquivado em 2004 por um juiz concluiu que tudo não passou de uma brincadeira de mau gosto. Agora, será que o ministro Marco Aurélio de Melo, tão severo com os réus políticos do suposto mensalão, vai ser igualmente zeloso em relação a mais um caso de impunidade no país?

E, para encerrar a sessão de hoje, a chefe de UTI acusada de antecipar a morte de pacientes no Paraná, que responde ao processo em liberdade, declarou, chiquérrima, ao sair do fórum onde depôs nesta quarta-feira, que confia na Justiça.

E não é para confiar?

terça-feira, 28 de maio de 2013

Hoje não

Hoje não vou procurar o traficante
Nem o médico, o padre ou o pastor

Não vou me afogar nas mulheres

Nem no remédio que meu melhor amigo tem pra dor

Não vou falar bem do governo

Nem mal da oposição

Hoje não serei patriota

Que se dane o Brasil, a China, o Afeganistão

Não vou babar no pôr do sol

Nem amaldiçoar a poluição

Hoje eu vou é vomitar todos os sapos no colo do meu patrão


Não vou ler jornal nem me olhar no espelho

Eles sempre enganam, aprendi

Hoje não vou salivar pelo meu prato preferido

Nem lamentar a fome de quem está fodido

Hoje não vou tomar partido


Que gosto estranho tem a liberdade

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Esse filme vale a pena!

Quer ver um filme lindo?

Cheio de sensibilidade?

Que mostra o quanto a educação é contaminada pela hipocrisia?

E o quanto os educadores e os pais são despreparados para a mais importante das tarefas?

Um filme com um roteiro sem gorduras a cortar?

Muito bem dirigido?

Com crianças que interpretam ao nível dos melhores atores do planeta?

Então não perca O que traz boas novas.



quinta-feira, 23 de maio de 2013

O ser carioca

Entreouvido numa manhã ensolarada na Praia do Leblon, onde todo mundo lê o jornal que tem nome de biscoito enquanto come o biscoito que tem nome de jornal:

_ Pixxxxx, ô! Quanto é o mate?

_ Trêrreaixx.

_ Faz em duas no cartão?

Foto: Marcelo Migliaccio

terça-feira, 21 de maio de 2013

Velhas verdades

“Seja o homem néscio e rude lavrador
Os dinheiros os fazem fidalgo, é sabedor
Quanto mais alto tem, tanto é mais de valor, 
O que não tem dinheiros não é de si senhor...”

(Arcipreste de Hita, poeta espanhol do século 14).


Foto: Marcelo Migliaccio

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Homenagem póstuma a uma paixão nacional

Já viu quanto vão custar os ingressos no novo Maracanã?!

Trata-se da última etapa do processo de elitização do futebol iniciado em 1987, quando uma emissora de TV e uma fábrica de refrigerantes arrendaram o esporte mais popular do Brasil e criaram a Copa União, da qual participavam apenas os times de maior torcida (mercado consumidor, quero dizer...).

Nessa virada de mesa absurda e indecente, a CBF jogou para a segunda divisão clubes de tradição, como o América do Rio e o Guarani de Campinas, vice-campeão brasileiro da primeira divisão no ano anterior. Esses dois clubes nunca mais se recuperaram da rasteira aplicada pela CBF, pela TV e pelo refrigerante. Hoje, beiram a falência, para tristeza de seus torcedores e de todos que amavam o futebol como esporte (agora virou negócio). Já o Coritiba, que tinha sido rebaixado em 86, subiu para a primeia divisão na indecente Copa União de 87, o ano em que assassinaram o futebol brasileiro.

É bom lembrar que o futebol chegou ao Brasil como esporte de elite no início do século passado, mas acabou adotado pelo povo mais pobre, pois, ao contrário do remo e do cricket, exigia apenas uma bola feita de papelão e meia para ser praticado. Os negros conquistaram seus lugares nos clubes e foi negro o maior jogador de todos os tempos, Pelé.

Com o mercantilismo que tomou conta da paixão nacional, o futebol vira cada vez mais, novamente, um esporte de elite. Repare nas imagens das arquibancadas hoje em dia: não se vê mais negros nas torcidas. Há muito, eles já não têm dinheiro para pagar os caros ingressos. Apesar de toda a transferência de renda dos últimos anos, ir ao futebol agora é um programa para a classe média alta, como ir ao teatro. E a classe média alta ainda é predominantemente branca. A meta dos executivos é que o povão assista as jogos pela TV enquanto os almofadinhas e as patricinhas fazem pose nas cadeiras dos estádios.

O Maracanã foi entregue de mão beijada pelo governador elitista do Rio a meia dúzia de mauricinhos, que agora são os donos daquele que foi um monumento do povo carioca, do povo brasileiro. Pode até ter ficado lindo depois das reformas bilionárias que fizeram a alegria das empreiteiras, só que não é mais o nosso Maracanã. Agora, com esse preço anunciado, ainda mais alto do que o que já se vinha cobrando, o povo não entra mais. Assiste aos jogos em casa, pela TV Monopólio, ou na calçada, diante de um botequim cujo dono comprou o pacote pay per view _ até os nomes ingleses voltaram, como no tempo em que Charles Muller trouxe a primeira bola ao país que se tornaria professor de futebol no planeta.

E o pior é que ninguém fala nada na mídia, ninguém reclama desse absurdo, porque ninguém ousa desafiar a emissora dona do futebol, que é parceira de fé do governador elitista, da Fifa e dos mauricinhos que agora são os senhores daquele maravilhoso estádio que um dia esteve no coração de todos os cariocas. Ninguém pode por a mão na taça da Copa das Confederações, só o Galvão Bueno. Nem Mario Filho, o cronista esportivo que deu o nome ao Maracanã, se vivo fosse, reclamaria do apartheid econômico no novo estádio, porque o irmão mais famoso de Nelson Rodrigues, provavelmente, também usaria um crachá da detentora dos direitos de transmissão.

O ministro do Esporte, Aldo Rabelo, deveria mostrar que é mesmo comunista e intervir nesse absurdo, criar um setor popular permanente. A muito custo, e com a oposição da colonizada mídia antipetista, ele conseguiu uma cota da Fifa para a beneficiários do Bolsa Família durante a Copa do Mundo. Mas e depois? Só vai entrar mauricinho no estádio?

Parece que está todo mundo enredado nessa engrenagem cujo cifrão é a mola mestra. Um pai que queira levar seus dois filhos para ver o jogo da seleção brasileira contra a Inglaterra, na reinauguração oficial, vai gastar R$ 270 só para entrar _ um reles saco de pipoca custará R$ 10.

Aí vem um desses caras do governo estadual tentar justificar a reforma bilionária, dizendo que quem ia na geral ficava levando xixi na cabeça vindo da arquibancada. Isso é uma questão de educação, não de estrutura do estádio. E dizem também que os banheiros do estádio sempre foram imundos. Para limpar os banheiros não era preciso gastar mais de R$ 1 bilhão...

Na primeira vez em que pisei no Maracaná, no jogo Brasil x Bulgária, em abril de 1974, fiquei maravilhado. Vi todos os extratos da sociedade brasileira ali, ao meu redor, curtindo a magia de uma partida de futebol. Haviam setores para todos os poderes aquisitivos. Na geral, pagava-se três cruzeiros para ver o jogo em pé, abaixo do nível do campo, com o pescoço esticado mas feliz da vida. Via-se a chuteira de seu craque preferido ali, bem perto, sentia-se a emoção de um jogo jogado com o coração. Não era como hoje, com jogadores mercenários e sem nenhum vínculo afetivo com os clubes, que agora vendem seus lendários uniformes para que grandes empresas estampem suas marcas. Os de agora são atletas sem alma, que nem ligam de jogar para arquibancadas vazias, já que pelo preço de um ingresso é possível comprar todos os jogos do campeonato para ver sentado no sofá de casa.

Esse novo Maracanã é o símbolo maior da morte do futebol romântico tal qual os que têm mais de 35 anos o conheceram. Tenho pena das crianças de hoje, principalmente das mais pobres, que jamais sentirão a alegria que eu senti naquela tarde de abril de 1974. A elas, só restam os videogames...

Maracanã/Foto tirada por Marcelo Migliaccio aos 9 anos de idade
O primeiro jogo que eu vi no Maracanã: Brasil 1 x 0 Bulgária, em 1974. O gol foi de Jairzinho. Como eu estava feliz naquele dia!


Leia também:

O meu Maracanã

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Pergunta do dia

Se no Brasil não existe racismo como disseram por aí, por que o único apresentador negro do telejornal só aparece no vídeo uma vez por semana e, mesmo assim, tão cheio de maquiagem que quase fica mais branco que a sua colega branca de bancada?

terça-feira, 14 de maio de 2013

O encontro do guitarrista dos Rolling Stones com Groucho Marx

Ron Wood
Estou dando boas risadas com a autobiografia de Ron Wood, o guitarrista menos virtuoso dos Rolling Stones. Ron pode não tocar melhor que Keith Richards, mas seu livro é bem mais engraçado do que Vida, escrito pelo parceiro de banda.

Uma das melhores passagens do livro é o encontro de Ron com Groucho Marx, lendário comediante que nos anos 40 fez filmes antológicos ao lado dos irmãos, os Irmãos Marx. Ron convenceu um amigo comum a levá-lo à casa de Groucho, já então um ancião.

(...) quando chegamos à sua casa, toquei a campainha e o próprio Groucho veio atender a porta. Ele me deu uma olhada e disparou:

_ Esse é o corte de cabelo mais ridículo que eu já vi. Você é um homem ou uma galinha?


_ Groucho, quero que você conheça Ron Wood _ Ahmet (o amigo comum) disse.


_ Eu sei, vi todos os filmes dele _ Groucho respondeu.


_ Mas ele não é ator _ Ahmet queria lhe explicar quem eu era.  _ Ele é músico.


_ Eu sei, tenho todos os seus discos. Em que grupo ele está?


E Groucho começou a cantarolar algumas músicas irreconhecíveis antes de nos levar para dentro de sua casa. Era um feriado judaico. Havia crianças correndo por toda parte. Ele sentou-se à cabeceira da mesa em forma de U usando um chapéu de festa. As crianças, uma a uma, iam pulando sobre Groucho e ele lhes dizia:


_ Você é uma menina adorável. Quem é mesmo você?

Groucho estranhou o cabelo do convidado

Mas a linda garota que ele realmente queria que se sentasse em seu colo era sua enfermeira. Ele se inclinou e sussurrou para mim:


_ O que você acha da minha enfermeira?


_ Ela é linda _ eu respondi.


Groucho balançou a cabeça e falou:


_ Eu daria todo o meu dinheiro para ter apenas uma ereção.



quinta-feira, 9 de maio de 2013

Baixar a maioridade penal não vai mudar as coisas

A campanha pela redução da maioridade penal conquistou a opinião pública. Enquetes na mídia mostram 99% a favor de cadeia para menores infratores. Os últimos casos ajudaram. Latrocínios, estupros, violências gratuitas contra vítimas que não esboçam reação etc. Agora os apresentadores fascistas de programas policiais já não gritam mais sós. Toda a classe média teleguiada se juntou a eles. Se pensasse um pouco mais veria que, como sempre, estão lhe empurrando um remédio inócuo goela a dentro.

Concordo que crimes hediondos merecem penas severas, muito mais severas que três anos de internação e ficha limpa ao completar 18 primaveras. Mas, se os adultos condenados por crimes hediondos têm progressão e saem até com um terço da condenação cumprido, o que nos faria pensar que menores não teriam a mesma complacência por parte dos juízes?

E o estudo durante a prisão do menor? Alguém pensou nisso? Claro que todos concordam que o adolescente confinado precisa estudar. Ou ele vai ficar no ócio durante toda a pena que tiver que cumprir? Vão construir escolas de ensino médio ou profissionalizante nas cadeias? Ou os menores vão sair para estudar? Aí já seria um regime semi-aberto. E será que compareceriam às aulas se saíssem da cadeia para isso? Talvez, se a pena fosse aumentada em um dia para cada falta à aula.

Como sempre, a discussão nos meios de comunicação de massa é míope, desvirtuada por interesses econômicos e políticos, preconceitos e pelo ilusório "politicamente correto".

A redução da maioridade pode até servir para que jovens tarados, cruéis, sem respeito pela vida humana e pervertidos fiquem longe do convívio social, o que pouparia muitas vidas. Só não acho que isso vá desestimular outros jovens a cometerem crimes iguais ou piores. Uma das características do perfil desses adolescentes criminosos é a total falta de interesse pelo seu próprio futuro e o desprezo pelas consequências dos seus atos.

A única consequência prática da redução da maioridade penal é que alguns delinqüentes passarão mais tempo afastados do convívio social, o que eu acho válido diante dos fatos. Por outro lado, o número de crimes que deixarão de ser cometidos após a mudança na lei, para mim, será desprezível. A inconsequência é um traço do comportamento do jovem transgressor. E quanto mais novo, mais inconsequente.

Nossa fábrica de degenerados está a pleno vapor. Nos últimos dois anos, dobrou o número de adolescentes apreendidos no Rio. Diariamente, 22 são flagrados cometendo crimes, entre eles crianças de 12 anos, superlotando um sistema de reclusão "socioeducativo" negligenciado por décadas.

Abandonadas pelos pais em favelas e shoppings, crianças são educadas pelos interesses econômicos e mercadológicos da mídia. E esse já se revelou ser um péssimo sistema pedagógico. Sexismo, consumismo, egoísmo, racismo, fanatismo, maledicência e elitismo são algumas das cadeiras dessa universidade da boçalidade difundida via jornal, internet, rádio e TV. O fenômeno é mundial: nenhum povo resiste ao lixo produzido pela indústria cultural. Lembra da Índia transcendental? Virou a meca do estupro. E os Estados Unidos dos atiradores mirins? Estão melhor que nós? Fazem uma lavagem cerebral nas crianças exibindo sexo, porrada e propaganda de cerveja o dia inteiro e depois se perguntam por que os jovens estão como estão…

Tá todo mundo contra o Bolsonaro, mas um videogame violento forma muito mais fascistas que asneiras ditas por um deputado com cérebro de gorila.

O processo vem de muito tempo. Estamos agora no ponto de virada, quando a água começa a ferver e transbordar para fora da panela. Aí, todo mundo se dá conta de como a coisa está russa. Aos desatentos, pode parecer que de uma hora para outra parte de nossos jovens se tornou cruel e violenta. Mas a gestação começou há décadas. Só que agora o ovo da serpente eclodiu. É um momento delicado porque ficou evidente para nós que descemos mais um degrau na nossa autodegradação social.

Chamar um desses moleques de monstro e trancá-lo na cadeia por dez anos é muito mais cômodo do que admitir a falência do sistema em que vivemos. Isolaremos um, dois, cem monstros, mas continuaremos criando outros.

O ensino público no Brasil é indigente, nem sinal de trânsito o brasileiro respeita. Quase metade dos professores da rede estadual de São Paulo já sofreu agressão, física ou verbal. Ameaças de morte não são raras. O valor que esses garotos dão à vida é o valor que lhes ensinamos a dar. A lição que aprenderam é que o dinheiro vale muito mais que uma reles vida humana. Um homicida não fica um dia na cadeia se tiver muita grana para gastar nos labirintos da Justiça.

É exatamente o Poder Judiciário que dá uma contribuição fundamental patrocinando a impunidade. Nas cadeias, só há pretos e pobres. Belo exemplo para os mais novos seguirem.

E, além do mais, quando os maiores de 16 anos forem passíveis de prisão e de penas severas, as quadrilhas passarão a usar garotos de 14 e 15 para assumirem seus crimes.

E um belo dia teremos penitenciárias com serviço de creche para cuidar dos bebês criminosos.




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A cultura da violência

Recado para uma criança

domingo, 5 de maio de 2013

A Rolinha e o Canarinho

Foto: Marcelo Migliaccio


_  E aí?

_ Beleza? Que cara de pai de quadrigêmeos é essa, o quê que houve?

_ Tô pê da vida.

_ Por quê?

_ Deve acontecer com você também, esse negócio de só chamarem a gente no diminutivo...

_ Como assim, Rolinha?

_ Aí, tá vendo? Rolinha é o caramba, Canarinho!

_ Meu nome de batismo é Canário da Terra.

_ É, mas todo mundo te aponta e fala com aquela voz melosa: "Olha lá o canarinho!" Ninguém diz o Bentevizinho, o Sabiazinho...

_  Urubuzinho, então, nem pensar... e daí, Rolinha, vai ficar bolada com isso? Em pleno domingão.

_ Por que "domingão"? É domingo, bolas. É isso que eu não gosto no brasileiro: ou é "inho" ou é "ão", não tem meio termo.

_ Eu trocaria meu nome pra Gavião numa boa.

_ Você Gavião? Só se for Gavião anão, né?

Foto: Marcelo Migliaccio

_ Devem te chamar de Rolinha porque você é uma miniatura da Pomba Rola... hehehe.

_ Ah, dá um tempo. E você, é miniatura de quem pra ser canarinho?

_ Não tô nem aí pra isso. Ainda por cima, apelidaram a seleção brasleira de futebol, que é a paixão nacional, com o meu nome. Isso não é pra qualquer um, não...

_ Detesto que me chamem de Rolinha. Parece aquele negócio de coitadinho do passarinho pequenininho... Meu nome é Rola, sou espada, comigo o bagulho é doido.

_ E poderia ser pior. Se te chamassem pelo teu nome científico, por exemplo.

_ É, nunca ninguém me chamou de Columbina talpacoti, graças a Deus...

_ Aí, esse papo já tá qualquer coisa,. vou dar um vôo. Tem uma Andorinha ali, ó. Tchauzinho!

_ Mané...