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terça-feira, 26 de julho de 2016

Estado de sítio olímpico

Uma beleza, o Rio olímpico, estou me sentindo tão seguro quanto um israelense.

Foto: Marcelo Migliaccio

Com tantas forças de segurança nas ruas, são inevitáveis as lembranças de um tempo sombrio, tempo de golpe militar...

Hoje, o golpe é civil mesmo.

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Mas o bom humor dos nativos sobrevive. Mesmo em época de crise, sempre é tempo de amar. Inclusive com promoções na subida do Vidigal!


Foto: Marcelo Migliaccio

O que será que o carioca deve estar pensando ao ver todo esse aparato na Zona Sul apenas no período da Olimpíada. Talvez ache que, para as autoridades, só a vida do turista tem importância. 

Foto: Marcelo Migliaccio

O metrô até a Barra está pronto, dizem, mas é só para a "família olímpica" usar. A força tarefa da limpeza encontra-se a postos para uma cruzada na Lagoa. Nenhuma sujeirinha nas raias do remo é a ordem do prefeito.


Foto: Marcelo Migliaccio

No último sábado, contei 16 policiais militares na entrada do Pavão-Pavãozinho, praticamente separando o morro de Copacabana. Claro, nem todo mundo está contente com esse estado de sítio.


Foto: Marcelo Migliaccio












sexta-feira, 15 de julho de 2016

Sempre o PT

Um direitista ferrenho é eleito presidente da Câmara e a grande preocupação do dia seguinte é como votaram os deputados do PT. Há quem diga que os petistas deram pelo menos 30 votos para esse golpista, parceiro de Temer, Aécio, Gilmar e companhia.

Só queria lembrar que o PT não é o espirito santo institucionalizado. É composto de pessoas cheias de defeitos e qualidades. E ficou ainda mais composto de pessoas cheias de defeitos depois de chegar ao poder e passar 13 anos com a chave do cofre. A cobrança implacável de retidão e coerência que se faz ao Partido dos Trabalhadores atesta por si só sua grandeza.
 
Comenta-se que, agora que foi apeado do Palácio do Planalto na marra, está sofrendo uma desfiliação em massa pelo país. É uma depuração muito bem-vinda, o PT não precisa de aproveitadores e oportunistas. Já vão tarde.

É natural que, com o nocaute que levou, o partido fique perdido. Mas nem se tivesse três vezes a bancada que tem o PT elegeria Erundina.

O importante não são as pessoas que hoje têm um mandato, nem como votaram na Câmara. Tudo isso passa.

O que importa é a ideia que deu origem ao PT. Um ideal de justiça social e igualdade de oportunidades. Esse nunca morre.

PS: eu não sou do PT, apenas tenho votado nele ultimamente.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Encenação sem graça

O futebol deixou de ser um jogo. Transformou-se num espetáculo eminentemente televisivo, quase uma obra de ficção. Atletas viraram atores. Fingem que correm, fingem que choram, dão beijo artístico no escudo de clubes nos quais não passam mais de seis meses, coincidentemente o mesmo período de duração de uma novela das oito. 

Como os piores canastrões, não tiram o olho do telão, sempre a conferir se seu desempenho dramatúrgico está convincente. Nunca está. Nas suas interpretações tacanhas, esses atores simulam também brigas em campo e tentam nos fazer crer que se importam até mesmo com o resultado das partidas. Na verdade, não estão nem aí, é tudo um grande faz de conta.

Dependentes que são da emissora que detém os direitos de transmissão, os clubes se transformaram em meros locadores de uniformes. Emprestam suas cores a empresas interessadas em exibir marcas no horário nobre. Como assalariadas que são, essas tradicionais agremiações aceitam o escalonamento salarial que lhes é imposto, como também os horários e locais determinados pelo patrão.

Jogo quarta-feira, dez da noite? Tudo bem, quando acabar é só desligar a TV e fechar os olhos. Fla-Flu no Rio Grande do Norte? O roteiro manda, cumpra-se.

Todos sabem que não há nada mais previsível que uma novela. No primeiro capítulo, o final já fica claro. Sabemos quem vai se dar bem e quem vai para o brejo. O futebol ficou assim. A TV decidiu pagar mais a alguns e menos a outros. No início do campeonato, sabemos que clubes disputarão o título e quais vão cair para a segunda divisão. O estereótipo é a tônica. Para alguns, só os papéis principais; para outros, os de subalternos _ empregadas domésticas e motoristas de madame. Os times que sobem para a série A quase sempre caem na temporada seguinte.

O público também mudou. Saiu o torcedor e entrou a claque. Uma claque branca, classe média. Parece até uma manifestação na orla de Ipanema. A arquibancada virou uma platéia de programa de auditório, cheia de modelos sonhando com uma aparição inesperada e rápida lá no telão. Fora dos estádios, brutamontes que nem sabem a escalação de seus times, se matam só por esporte. Estão na atração errada, deveriam ter comprado ingresso para o MMA.

E os estádios? Antes eram democráticos, com acomodações para todos, independentemente do poder aquisitivo. Hoje, foram reformados em obras bilionárias, pródigas em propinas. Viraram grandes estúdios de TV, quase sempre vazios, porque o futebol que encantou as massas era um esporte, não uma encenação fria e sem paixão protagonizada por mercenários.

Como toda boa novela, a pantomima futebolística está repleta de merchandising, nos figurinos (camisas gloriosas completamente descaracterizadas pelas publicidades) e nos cenários, cheios de painéis luminosos disputando a atenção da audiência com os patéticos ocupantes do palco.

Infelizmente, as coisas são assim. O mais fantástico dos esportes inventados pelo ser humano foi transformado num folhetim barato. 

Quando eu era pequeno, me apaixonei por um jogo que não existe mais. 

E, saibam, nunca gostei de novela.


No teatro em que se transformou o futebol, David Luis
é o maior dos atores, uma espécie de Robert de Niro