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terça-feira, 15 de abril de 2014

Frente fria

Num país tropical, pode um dia cinzento ser maravilhoso?

E não um dia cinzento qualquer, pior, uma segunda-feira cinzenta.

Sim, pode...

... se você é um pássaro.

Foto: Marcelo Migliaccio

E se tem companhia pra cruzar o deserto de certezas em que vivemos...

Foto: Marcelo Migliaccio

Uma manhã cinza de segunda-feira é tudo que os pássaros precisam, já que os homens estão ocupados demais correndo para o abismo.

Foto: Marcelo Migliaccio

Eu disse muitos pássaros? Muitos foi pouco para a manhã cinzenta de segunda-feira.

Foto: Marcelo Migliaccio

Fragatas e mais fragatas num balé sobre a enseada de Botafogo...

Foto: Marcelo Migliaccio


Fragatas no céu e mergulhões no mar, invisíveis aos que, engarrafados, são incapazes de olhar para o lado.

Foto: Marcelo Migliaccio


Mesmo ali bem perto, não notam a paisagem diferente da manhã cinzenta.

Foto: Marcelo Migliaccio

E há muita coisa diferente no ar.

Foto: Marcelo Migliaccio

Pequenos seres, capazes até de colorir uma segunda-feira cinzenta.

Foto: Marcelo Migliaccio

Para os urubus, todo dia é dia de vitória do Flamengo.

Foto: Marcelo Migliaccio

Arquibancadas lotadas de rubro-negros em festa, não num domingo de sol, mas numa segunda-feira cinzenta.

Foto: Marcelo Migliaccio

E viva a diferença!

Foto: Marcelo Migliaccio







domingo, 13 de abril de 2014

A Máquina

Com 12 anos de idade eu tinha um ídolo.


Um craque diante de quem Maradona uma vez ajoelhou para beijar-lhe os pés. Sim, Maradona, o gênio arrogante da bola, reverenciou humildemente Roberto Rivelino num camarote do Sambódromo

Rivelino jogou no melhor time do Fluminense que eu já vi. A Máquina de 1975-76. O mais importante, todos esses jogadores eram do Fluminense, não eram da Unimed. Alguns, tinham o mais verdadeiro amor à camisa, como o zagueiro Edinho, aquele que eu mais vi honrar a camisa tricolor.


Hoje, se o Fluminense ganha ou perde, não estou nem aí. Quem conheceu aquele futebol não vê graça neste de hoje, de clubes insolventes escravizados pela televisão, de estádios vazios ou cheios de mauricinhos e patricinhas, de camisas lendárias estupradas por anúncios horríveis, de jogadores sem vínculo afetivo nenhum com a camisa que vestem.

Prefiro lembrar dos gols históricos que eu vi o Rivelino fazer, como esse, contra o Vasco, depois de passar por três defensores, um deles castigado com um drible humilhante. O toque final, deslocando o excelente goleiro argentino Andrada, foi a cereja do bolo.


Isso é que era futebol.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Texto publicado em 2009

O governador do Rio, Sergio Cabral, ficou atônito com a explosão de violência no último sábado. Uma de suas primeiras preocupações foi tentar tranquilizar o mundo quanto à Olimpíada e aos jogos da Copa do Mundo na cidade.

_ Avisei ao Comitê Olímpico Internacional que a coisa não é fácil, que é um trabalho de médio e longo prazo, mas que durante os eventos esportivos podemos colocar 40 mil policiais militares, civis e federais nas ruas e garantir a segurança. Vamos continuar nesta linha de enfrentamento do crime organizado.

Crime organizado? Milhares de jovens banguelas, de chinelo de dedo, viciados em cocaína e crack com fuzis na mão é crime organizado? Para mim, trata-se apenas do resultado de um país que não se preocupou com seu povo por cinco séculos. E uns ingênuos ainda dizem que a culpa é dos maconheiros, porque a necessidade de culpar alguém é maior que a razão.

O mundo pode até ter fingido que engoliu as explicações do governador, mas quem vai tranquilizar os cariocas? Vivemos aqui o ano inteiro e não apenas nos dias seguros de Copa e Olimpíada. Depois de tanta euforia midiática pela escolha do Rio como sede olímpica, eis que a realidade se mostrou novamente de forma virulenta e mais midiática ainda. Um helicóptero da PM abatido a tiros de grosso calibre, dois policiais mortos carbonizados e outros quatro feridos. Cerca de dez ônibus incendiados em vários pontos da cidade, graças a Deus, desta vez vazios. Mais de 20 horas de tiroteio no bairro onde nasceu Noel Rosa, Vila Isabel.

O discurso de que as competições internacionais trazem divisas nunca me convenceu. Eu estava quieto para não bancar o estraga prazeres, mas o Brasil precisa comer muito feijão com arroz para poder bancar o país de primeiro mundo como está querendo. Precisamos de muita escola, muito emprego, muita universidade, muito alimento, muito mais atenção com a cabeça das nossas crianças... muito mais do que tem sido feito pelos nossos governos. Foram 500 anos de baderna, exploração, egoísmo, roubalheira, discriminação. Isso não se conserta com meia dúzia de obras para uma competição que vai durar 40 dias daqui a sete anos. Vão despoluir a Lagoa Rodrigo de Freitas para as competições de remo? Que bonitinho... Quem mora ali vai adorar mesmo.

Mas e o lixão de Caxias, onde crianças catam dejetos para sobreviver? E as carceragens insalubres onde criminosos são aontoados sem qualquer chance de recuperação? E as milhares de adolescentes grávidas nas favelas, insufladas pelo sexisimo inconsequente da televisão? E os professores e médicos ganhando miséria? E as lan houses abarrotadas de adolescentes embotados? E os hospitais sem atendimento? É muita coisa, não dá para varrer para debaixo do tapete, como mostraram as imagens da guerra do Morro dos Macacos. Não adianta se emperequetar, nossa calça está rasgada.

As labaredas dos combates na Zona Norte do Rio nos acordaram do sonho olímpico. Vivemos sobre um paiol de pólvora e de vez em quando ele explode, cada vez menos de vez em quando. Certamente, durante os dois eventos internacionais, tudo estará em paz, milimetricamente vigiado para que quem tem direito ganhe seus milhões numa boa. Depois... bom, aí seremos nós, habitantes do Rio, novamente frente a frente com nossos fantasmas.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

A culpa é do Ipea

Sabe qual foi o crime mais cometido no Brasil no ano passado?

Estupro.

Nada de homicídio, nem de latrocínio, tampouco sequestro.

Cinquenta mil casos de estupro registrados em 2013. A mídia não deu muito destaque, porque tem culpa no cartório por massificar o sexismo barato dia e noite em busca de audiência fácil. Tanto apelo faz o cérebro de um idiota estalar feito pipoca e aí as consequências são imprevisíveis. Todo país sério controla a natalidade, o nosso incentiva.

Aí, veio aquela pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mostrando que a maioria dos homens acha que as mulheres que usam roupas provocantes merecem mesmo ser estupradas. Todo mundo se disse chocado no começo, mas aceitou numa boa, até que o Ipea disse que tinha errado e que o percentual de porcos chauvinistas estupradores não era tão alto assim. Só 26%, em vez dos mais de 60% anunciados inicialmente. Ah bom...

No lugar de questionarem no que a sociedade transformou a mulher, preferiram atacar o Ipea pelo erro estatístico. Miopía, eis o mal maior da nossa imprensa, ao lado do elitismo secular de senhor de engenho que acomete nossos empresários da mídia, colunistas papagaios de patrão e editorialistas de aluguel. O Ipea é do governo federal, então o que vale é atacá-lo. A raiz do problema, a situação de indigência moral e mental da mulher, isso pouco importa.

A mulher hoje em dia vale tanto para o homem comum quanto uma posta de picanha matutada ou um carro zero quilômetro. Um objeto de consumo, uma fonte de prazer, não mais do que isso. Há exceções, claro...

Há mesmo?

Amiga? Companheira? Quantos buscam isso? Meia dúzia? Eu falo dos milhões que consomem cerveja, celular e sandália Havaiana, que parece ser só o que se vende no Brasil.

Como quem domina é o macho, colocaram a culpa dessa flagrante desvalorização na própria mulher, que teria se vendido a preço de banana por vontade própria. Não é bem assim. Claro que elas têm sua parcela de responsabilidade, mas nossa cultura incentiva desde cedo as meninas a deixarem de ser crianças para serem mulherzinhas. A conjuntura econômica machista e o mercado de trabalho cada vez mais restrito também contribuem para que não restem muitas opções às garotas a não ser assumir o papel de fêmea-dependente. Tá difícil ganhar dinheiro, então se pagam bem pra eu tirar a roupa, por que não?

No Big Brother, a despeito da pretensa poesia do apresentador, o que faz sucesso mesmo é o número de vezes em que as concorrentes se masturbam debaixo do cobertor (tem até site publicando um ranking diariamente). Waleska Popozuda fatura alto cantando que aquela que tentar tirar seu homem vai levar "tiro, porrada e bomba". Anita também está milionária posando de mulher-objeto. Eu sei, isso tudo pesa, mas colocar a culpa só no sexo feminino por essa baixaria é só mais uma sacanagem que se faz com elas.

Aliás, ultimamente, matar mulher nem tem dado cadeia, a menos que ela seja juíza... pelo cargo...

A coisa começa na infância. Antes, as menininhas brincavam de boneca, introjetando o papel cultural de mãe desde cedo. Hoje, brincam com o boneco, assumindo a personagem de vadia-pistoleira sem que seus pais, em geral , sequer prestem atenção no que está acontecendo. Nas escolas do interior, garotas se matam ou mutilam por causa de namorados que só querem usá-las pra depois jogar fora.

E, agora que a ONU e a OMS marcaram data para o fim do mundo, o sexo parece ter virado a catarse final que todos querem exaurir antes que as luzes se apaguem.

Amor? Isso existe?

Casamento? Talvez por interesse...

E a culpa é do Ipea...

domingo, 6 de abril de 2014

A outra Venezuela

Eis uma amostra de como a mídia internacional, inclusive aquela que os monopólios da informação nos obrigam a aturar no Brasil, distorcem as notícias sobre a situação na Venezuela. A entrevista com a historiadora Anita Prestes, que esteve lá, foi publicada no jornal Brasil de Fato.




Por Vivian Virissimodo
Do Rio de Janeiro (RJ)
O Golpe foi derrotado. Essa é a avaliação da historiadora Anita Prestes, filha dos militantes comunistas Olga Benário e Luiz Carlos Prestes. Ela esteve na Venezuela nas últimas semanas para participar da Feira do Livro de Caracas. Lá, ela falou sobre a atualidade da Coluna Prestes, presenciou manifestações e conheceu o funcionamento das comunas.
Brasil de Fato – Em linhas gerais, como você avalia a situação política da Venezuela?
Anita Prestes – O golpe foi derrotado. Isso o próprio vice-presidente da República declarou enquanto eu estava lá. Agora se tem resquícios, como se diz. Uma das coisas que eu acho importante destacar é que diferentemente do que a imprensa mundial, numa campanha de desestabilização do governo, tem dito, não é o povo que está nas ruas protestando. Mas o que há são grupos provocadores, organizados, fascistas, treinados no exterior, muitos mercenários da América Central e paramilitares da Colômbia. Tudo começou no estado de Táchira, que fica na fronteira com a Colômbia, uma região de narcotráfico e dos paramilitares colombianos. Nesse estado, que é governado por um político de oposição, foi aí que aconteceram esses focos de violência contra o povo. A provocação é armada e mata gente.
Desde que começaram os protestos, 39 pessoas morreram...
A grande maioria dessas pessoas foram assassinadas por estes grupos fascistas e paramilitares. Aconteceu um caso ou outro de excesso das forças militares bolivarianas, que já estão sendo punidos. Esses grupos, que são ligados a setores da oposição, pretendiam criar um clima de instabilidade. O serviço de contrainf ormaçãodetectou que no dia 11 de fevereiro, dia que antecedeu o primeiro protesto, que foi promovida uma reunião na casa de Leopoldo Lopez. Nesse dia, eles afirmaram que queriam incendiar a Venezuela. Nesses termos. A ideia era criar um clima de caos no país para justificar o golpe. Eles queriam que a violência fosse respondida com violência. E o discurso do governo é de paz, de diálogo. Inclusive o presidente Nicolás Maduro tem convocado diferentes setores para dialogar. O que se vê é que agora, alguns prefeitos da oposição estão se pronunciando a favor do diálogo e contra a violência. A gente sente que o golpe se dissolveu e perdeu prestígio. O golpe foi desmascarado perante a população.
Como tem sido o apoio popular ao governo Maduro?
Nos cinco dias em que estive na Venezuela cruzei com duas manifestações enormes. Os trabalhadores com faixas de sindicato de diferentes setores. As pessoas estavam tranquilas e com muita serenidade e o povo que não estava na manifestação, via as marchas com simpatia.
As duas manifestações em defesa do governo marchavam em direção ao palácio Miraflores para prestar apoio ao Maduro. As palavras de ordem eram “Viva Maduro”, muitas empunhavam fotos de Hugo Chávez e de Simon Bolívar. Deu para perceber que o resgate da história revolucionária dos povos latino-americanos continua sendo uma preocupação na Venezuela. Em primeiro lugar, os heróis do país, mas também de toda a América Latina, inclusive Luiz Carlos Prestes. Além da manifestação dos sindicatos, também aconteceu um ato em apoio à milícia bolivariana. Aí você percebe que o povo está muito articulado com o Exército e com as milícias. Claro que não é tudo cor-de- -rosa: outro dia três generais foram presos, por exemplo.
Já que o golpe foi derrotado, dá para dizer que Maduro está saindo fortalecido?
Eu acredito que sim. Ele está aprendendo a governar, tudo isso é novidade para ele. O discurso de populares tem sido: “efetivamente Maduro não é Chávez. Chávez foi único. Mas Maduro tem se saído muito bem e avançado e nós temos que apoiar Maduro”.
E como a revolução bolivariana sai desse processo?
Fica claro que os golpistas não têm vez. Pelo menos não nesse momento. Não podemos afirmar que esse cenário está consolidado porque a Venezuela está dividida. O panorama é que tanto burguesia quanto a classe média alta não querem perder seus privilégio. Antes a renda do petróleo era repartida entre os ricos, agora a renda é aplicada para melhorar as condições de vida do povo. Lá, fiquei sabendo de dados interessantíssimos que comprovam essas melhorias: 96,6% da população venezuelana faz três refeições por dia. Toda criança tem garantido um litro de leite por dia. Outro momento da viagem que me marcou foi a visita à maior comuna de Caracas, a Comuna 23 de janeiro.
Como funcionam essas comunas?
Idealizadas por Chávez, as comunas têm a função de desestruturar a estrutura do Estado, que é um Estado burguês. Esse Estado, com sua burocracia, sabotava e sabota as medidas revolucionárias colocadas em prática por Chávez. Para romper com isso, o que Chávez fez? Ele imaginou, em primeiro lugar, as missões, que são estruturas paralelas ao Estado, para resolver os problemas antigos que não são solucionados pelo Estado. Foram colocadas em prática Missões de Saúde, Missões de Educação, Missões de Moradia. Ao mesmo tempo, ele criou condições para instituir o que ele chama de Estado Comunal, isto é, a organização de todo o povo em comunas. Isso é algo que ainda não aconteceu em toda a Venezuela, mas caminha nessa direção. Por exemplo, essa comuna que eu visitei tem 300 mil habitantes. Dentro das comunas, os conselhos comunais fazem a organização dia a dia. A ideia do Chávez – não se vai dar certo –, mas é que esse Estado comunal vá substituindo, pouco a pouco, o Estado burguês. A Comuna 23 de janeiro tem tradição de luta, lá estive em uma Delegacia de Polícia que foi transformada em Centro de Cultura, onde funciona uma rádio comunal.
E como está estabelecida a democracia da mídia na Venezuela?
Em Caracas, tem umas três televisões governistas e umas dez ou 15 criticando Maduro com uma campanha violenta contra o governo. As bancas são cheias de jornais e a maioria é contra Maduro. Dizer que não tem democracia na mídia na Venezuela é uma mentira. Mas o fato é que a condição de vida dos trabalhadores melhorou de tal maneira que não tem campanha da mídia que consiga destruir isso. O amor que o povo tem por Chávez é algo impressionante. As pessoas sentiram que pela primeira vez um governante se preocupou com eles.
Por que aconteceu essa crise de desabastecimento?
Este é um grande problema da Venezuela, que não veio de agora, é anterior ao governo de Chávez. Na medida em que o petróleo é abundante, consolidou-se uma “mentalidade petroleira” no país. O que é isso? O pensamento é o seguinte: como há muito petróleo, então não é necessária a produção de alimentos pois é possível importar absolutamente tudo. Resultado? Atualmente, 80% do abastecimento alimentar é importado e apenas 20% é produzido no país. Mesmo com medidas tomadas por Chávez para estimular a autonomia alimentar, a produção básica de alimentos no país, isso tem se mostrado muito difícil. Para transformar essa realidade, companheiros do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) têm atuado em missões para ensinar agricultura e estimular o plantio no país. Além disso, temos outro detalhe importante para explicar o desabastecimento: com a redistribuição de renda, aumentou o consumo dos venezuelanos nos últimos anos.
Como você tem avaliado a atuação da Unasul nesse contexto?
Fundamental. Uma das coisas mais importantes que nós brasileiros podemos fazer é a solidariedade. Tanto a Unasul quanto a Celac, Alba e Mercosul têm desempenhado um papel muito grande. O governo brasileiro de uma maneira geral tem tido uma boa posição.
Três chancelares, um de cada país, do Brasil, da Colômbia e do Equador formaram uma comissão que vai acompanhar atentamente a situação na Venezuela e isso é muito positivo.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Chutar o balde não machuca o pé

Me arrepio quando alguém me aponta um sujeito e diz:

_ Aquele ali é um cara equilibrado.

Do "centrado", então, fujo correndo. O cara que nunca sai da linha, não paga um mico de vez em quando, não mija fora do penico, esse comigo não tem ibope.

Sempre colei com os malucos, claro, mantendo uma certa distância pra não tirar a vaga de alguém no Pinel.

No tempo do colégio, era à ovelha negra da turma que eu me juntava. Se era frágil, tornava-me seu defensor (e devo confessar que ele continuava totalmente desprotegido, já que minha maior virtude numa briga sempre foi correr bem).

Mas eu não gostava dos alunos certinhos que só tiravam dez (todos de quem tive notícias depois se tornaram funcionários públicos burocratas).

Tão pouco me enturmava com os metidos a fortões (todos hoje cinqüentões obesos).

Eu gostava daquelas figuras que sempre sobravam na hora em que o professor mandava formar grupos. Quando via que todo mundo encarnava num cara gordo, feio, estrangeiro, nordestino ou de óculos, esse passava a ser o único na sala de aula que eu tratava bem.

Sempre preferi os de mente dispersa aos concentrados.

Eu mesmo era muito careta. Passei minha adolescência inteira tentando deixar de lado aquela disciplina de soldadinho de chumbo que nos incutem na cabeça desde cedo.

Descobri, depois de muito olhar em volta, que o desequilíbrio faz parte do equilíbrio. Veja um artista de circo na corda bamba, por exemplo. Inclina-se para a direita, para a esquerda e é isso que o mantém lá em cima. Se ele deixar o corpo retesado e ereto, vai cair feio.

O bom navegador sabe usar o balanço do mar e a direção do vento.

Creio que na arte da vida é a mesma coisa. A rotina modorrenta, pra mim, alimenta várias enfermidades, já que todas começam, para mim novamente, na cabeça entediada, sem desafios e sem perspectivas do imprevisível.

Enfiar um pé na jaca de vez em quando, portanto, é salutar. Chutar o balde também não machuca o pé, se você não se tornar um artilheiro compulsivo, vale dar um bico pra deixar a mesmice de lado.

Uma vez por semana, permita-se um pacote de Baconzitos com Coca-Cola.

Por que, como dizia o filósofo contemporâneo Senor Abravanel:

_ Do mundo não se leva nada, vamos sorrir e cantar!