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quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Tigres e dragões

Outro dia, tive que rir com um desses apresentadores de programas policiais da TV.

_ Se vierem me assaltar eu reajo e atiro primeiro. Não quero saber se depois vão me processar. Prefiro ser julgado por sete que carregado por seis.

Nenhuma das duas alternativas me parece vantajosa.

A tragicômica declaração reflete uma preocupação comum a todos nos dias atuais. Envolver-se numa confusão, mesmo que involuntariamente, é um risco que corremos em cada esquina. E, quando o perigo se apresenta, o que fazer?

Todo valentão é um retardado. Sim, depois que inventaram a arma de fogo (e já faz tempo), os corajosos tornaram-se uma espécie em extinção. Claro, como eram muito numerosos dada a vaidade inerente ao ser humano, ainda há muitos valentões por aí. Mas não tantos quanto no tempo das diligências. Desde então e diariamente, vários são abatidos à bala. Cowboy, só no cinema.

Não interessa se o cara é fera em algum tipo de luta, ou em MMA, que misturou todas tornando a briga de rua o esporte que mais cresce no mundo. Basta um esquálido apontar uma pistola na direção do lutador e… babau.

Pelo fato de simplesmente analisar o mundo que o cerca e trabalhar com possibilidades, riscos e vantagens, o homem inteligente jamais reage a uma provocação.

Se, num supermercado, um imbecil furar a fila e entrar na sua frente, deixe pra lá. Dê uma reclamadinha protocolar mas não vá além disso. Se o cara quiser comprar uma briga com você, conte até dez e fique na sua. Se a coisa parar por ali, o que você perderá? Dois minutos ou três até que aquele suicida em potencial registre e pague seu carregamento de batata chips e refrigerante? É muito pouco para arriscar-se a interagir com um desconhecido. Se ele quer morrer, não serei eu a realizar seu desejo.

Se, no entanto, sua vaidade obrigar você a reclamar com o furão, as perspectivas não serão nada boas. Digamos que após os xingamentos, os dois partam para as vias de fato (não vou considerar a hipótese extrema de homicídio). Ou você vai bater ou apanhar.

Se bater, poderá ser processado por lesão corporal e até preso. Na cadeia por não querer perder dois minutos na fila... E, se apanhar do furão, pior ainda. Imagine, ficar banguela ou com o olho roxo porque sua vaidade não deixou que você engolisse aquela perereca.

No transito, também, o valente corre sério risco de se dar mal. O medroso não: leva fechada, fica na dele e sai ileso.

Qualquer animal, seja ele grande como o elefante ou forte como o leão, evita o contato com tudo que pode ser perigoso. O embate é sempre sua última opção.

Deveria ser a nossa.

domingo, 16 de novembro de 2014

Corrupto e corruptor

Quem apareceu primeiro, o ovo ou a galinha? Pra mim foi o ovo, que geraria um ancestral das penosas bem parecido, mas que ainda não era uma galinha como a conhecemos hoje. Uma mutação dentro daquele ovo fez surgir então, a primeira galinha da História, para alegria dos galos de plantão, que já estavam subindo pelas paredes.

Mas a questão aqui é outra. Como a galinha, ela também dá pena, só que outra pena, a pena do dinheiro público que se esvai na corrupção. E nesse caso também falta pena, pena de prisão para corruptos e corruptores.

Quem é mais culpado, o corrupto ou o corruptor?

A questão entrou na ordem do dia porque, pela primeira vez, executivos de grandes empreiteiras foram para atrás das grades. Trocaram seus colchões de pluma de faisão dinamarquês por colchonetes-entorta-cervical e seu caviar por arroz e feijão com macarrão, especialidade do cardápio na carceragem da Polícia Federal.

Como diria um certo barbudo, "nunca antes na História deste país" corruptores de tal monta foram presos. Espera-se que a nossa Justiça não os solte e que os milhões das negociatas voltem para os cofres públicos. São milhões, bilhões que fazem falta nos hospitais e nas escolas, nas vielas sem esgoto e nos barracos insalubres.

Mas, voltando à pergunta do dia. Pra mim, o corruptor é mais culpado, deveria, portanto, ter uma pena maior do que a do funcionário público que aceita propina. O motivo é simples: se as empreiteiras não pagassem o suborno, não haveria corrupção. O servidor público corrupto da Petrobrás, assim como o da Polícia Militar, da fiscalização sanitária, da Receita Federal etc só recebe por fora porque alguém aceita pagar. Alguém que não pensa no próximo nem no futuro, só em si mesmo, na sua conta bancária.

Se ninguém pagasse propina, o corrupto morreria de inanição financeira.

Se esses peixes grandes pegos agora ficarem na cadeia, se forem condenados a penas exemplares e, mais importante, se cumprirem suas penas na tranca, a frase dita ontem pela presidente Dilma vai virar verdade: o país vai mudar.

Com a faca e o queijo na mão, está o poder Judiciário. Depende dele a mudança de mentalidade que só vem com um belo exemplo.



sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O novo Pelé

Há coisas que a gente escuta desde pequeno.

"Nunca mais vai nascer outro Pelé" é uma delas.

Outra: "Igual a Pelé só nasce de cem em cem anos".

Como a maioria das coisas que a gente escuta desde pequeno, essas duas são "verdades" de araque.

Nasceu outro Pelé e ele se chama Neymar. Sua genialidade excede a média dos craques. Sim porque existe o jogador bom de bola, o craque, o super-craque e o Pelé. Antes de Neymar, o único Pelé que eu conheci chamava-se Diego Maradona. Agora, surgiu mais um: esse magrelo com cara de criança e cabelo esquisito. Portanto, na minha curta existência, já vi surgirem dois Pelés, fora o original, que só vi jogar ao vivo uma vez, em 1979, já aposentado.

Neymar é um novo Pelé. Cheguei a essa conclusão não pelos gols que ele faz desde que surgiu no Santos (como Pelé) ainda um moleque. Nem pelas jogadas imprevisíveis e nunca vistas, como, por exemplo, dar um passe usando, pasmem, as costas.

Digo isso pelo que vi no estádio da Turquia onde a seleção brasileira jogou há alguns dias. O Brasil enfiou 4 a 0, com dois gols de Neymar. Até aí, nada demais. O inusitado foi a reação dos milhares de turcos, que não só aplaudiram o genial brasileiro como vaiaram seus compatriotas que ousaram derrubá-lo com faltas.

Quem viu o filme Expresso da Meia-Noite sabe que os turcos não são de brincadeira. No futebol, seus torcedores estão entre os mais fanáticos do planeta. Dizem que os brasileiros, quando estão num estádio, vaiam até minuto de silêncio. Pois os turcos são capazes de ressuscitar o morto para que a partida comece logo. Ou seja, aquela massa que nunca primou pelo fair play rendeu-se a Neymar.

Eu já tinha visto, aqui no Brasil, a torcida do Cruzeiro aplaudir esse jogador fora de série num jogo em que ele, atuando pelo Santos, destruiu o time azul em plena Belo Horizonte. Agora foi a vez dos truculentos turcos trocarem os apupos do início da partida pelas palmas e gritos de "Neymar!!!".

Isso só aconteceu antes com Pelé, acho que nem com Maradona, que era bad boy demais para ser unanimemente reverenciado.

Por isso afirmo sem medo de errar: nasceu outro Pelé, e ele se chama Neymar.



domingo, 9 de novembro de 2014

O juiz e a fiscal arrogante

Está todo mundo criticando o juiz que deu ordem de prisão à fiscal da Lei Seca porque ela lhe disse que ele era só um juiz e não Deus.

Claro, ninguém é Deus (nem o Lula, que muitos insistem em atacar como se fosse).

Se o carro do tal juiz estava mesmo irregular, como de fato estava, tinha que ser apreendido e a fiscal fez a coisa certa até aí. Ela só errou no seu comentário. Fiscais do poder público não devem fazer qualquer comentário, e pior ainda se for um comentário irônico. Se é para apreender, apreenda e pronto. E se o dono do veículo apresentar resistência, que o fiscal chame a polícia.

O fiscal tem que fazer o seu papel, quanto menos falar com o cidadão, melhor.

Já descobriram que o juiz tem um histórico de atitutes polêmicas. Pois é assim mesmo: um dia, o fiscal arrogante topa com um juiz da pá virada e vai preso.

O que vemos no entanto aqui no Rio são agentes do poder público que lidam muito mal com o contribuinte. É o único caso em que o empregado destrata o patrão, já que somos nós que, em última análise, pagamos os salários dessa casta de funcionários públicos.

Se todos fossemos juízes de direito, mais da metade dos serivodres da União, estado e município que lidam com o público estaria em cana.

Tente retirar um carro rebocado no depósito da prefeitura do Rio, ali bem ao lado do Sambódromo. Vai penar por até duas horas, enfrentar um calorão, muita poeira e um mau atendimento que beira a grosseria. Se você conseguir adentrar o pátio onde ficam os veículos apreendidos, verá que as empilhadeiras jogam os carros pra lá e pra cá como se fossem ferro velho. Um descaso total.

No filme Relatos Selvagens, mais uma excelente produção argentina em cartaz por aqui atualmente, o personagem de Ricardo Darín faz o que todos nós já tivemos vontade. Depois de ter seu carro rebocado injustamente, o especialista em explosivos manda pelos aires o depósito do Detran. De lá, não daqui, infelizmente...

Então fez bem o juiz de ensinar à tal fiscal arrogante como ela deve lidar com o cidadão.

Com educação.