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quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Por dentro do biscoito Globo


Foto: Marcelo Migliaccio

São 4h50 da madrugada na escura Rua do Senado, na Lapa. Até os mais renitentes boêmios já entregaram os pontos. Não se vê viva alma, a não ser em frente ao sobrado número 273, onde cerca de 50 pessoas aguardam a abertura da fábrica do tradicional biscoito de polvilho Globo.

Foto: Marcelo Migliaccio
A fila de compradores começa bem antes de o sol nascer

Daqui a algumas horas, o sol estará brilhando na orla, mas a praia do carioca nasce ali, na escura Rua do Senado.

O primeiro da fila chegou às 2h. Fausto Ferreira da Silva, 80 anos, compra biscoitos para vender na Praia do Leblon há oito, desde que deixou o emprego de cozinheiro num restaurante do Centro.


Foto: Marcelo Migliaccio
Fausto Ferreira, o primeiro da fila
_ O produto é bom! Esse biscoito é dinheiro em caixa. Criança de um ano já aponta o dedinho quando a gente passa _ diz o vendedor, que paga R$ 25 por um saco de 50 unidades.

Pontualmente às 5h, um senhor franzino, de fala mansa mas articulada e segura, chega para abrir a fábrica. Milton Ponce segue essa rotina desde 1962, quando decidiu ampliar a produção da padaria Globo, em Botafogo.


Foto: Marcelo Migliaccio
Milton Ponce: o dono é paulista
Paulista, ele chegara ao Rio em 1954, trazendo de uma panificação antiga do bairro do Ipiranga a fórmula que junta polvilho, ovos, leite, açúcar, sal, gordura hidrogenada e água.

_ Muita gente pergunta por que não aumento a produção. Quase todos os dias, recebo propostas de franquia, mas isso aqui é como um bolo que você faz na sua casa.


Embora a fórmula de preparo seja simples, êxito comercial não é. Um sobrinho de Milton tentou fabricar um concorrente, batizado de Extra, mas o gosto nem se compara.
Foto: Marcelo Migliaccio
A fórmula não é mantida em segredo, mas deve haver um segredo

Milton diz que o segredo do sucesso são seus funcionários _ 18 no turno da manhã e quatro à tarde _ que chegam a produzir diariamente 15 mil saquinhos com dez rosquinhas cada durante o verão.


Foto: Marcelo Migliaccio
Além das praias, o biscoito também é vendido em padarias, com outra embalagem



_ Tenho funcionários comigo a 42, 38, 35 anos. Aquele está aqui desde os 11 _ conta, enquanto aponta para o forneiro Ednaldo Valdevino do Nascimento, 36.

Levado à fábrica por dois tios, ele acorda todos os dias às 3h20 para trabalhar.

_ A carcaça já calejou com esse horário.

Mas quem mete mesmo a mão na massa é Jailton da Silva Cardoso, que exercita os músculos e a sensibilidade dos dedos para achar o ponto certo. Como não pode usar luvas, sua maior preocupação é com a higiene.

Foto: Marcelo Migliaccio
Jaílton é quem mete a mão na massa. Com batedeira, não dá certo

_ Se colocar numa batedeira a massa queima porque não leva fermento _ explica. Já tentei usar luvas, mas elas impedem que eu saiba o ponto exato.

Milton brinca com a fidelidade dos funcionários.

_ Tem uma senhora aqui que, se eu demitir, dá um jeito de entrar pelo telhado. A maioria das empresas erra quando troca os empregados que ganham mais. Eu valorizo essa equipe.

Foto: Marcelo Migliaccio
O segredo da fábrica é valorizar os funcionários antigos

Seu calcanhar de aquiles é o empacotamento nos saquinhos de papel vendidos nas praias os únicos que resistem à ação do sol.


Foto: Marcelo Migliaccio


_ Já procuramos na Itália e na Alemanha, mas não existem máquinas para esse trabalho.

Ver empacotadores como William da Silva Torres atuando é um espetáculo. Numa velocidade tão grande que suas mãos desaparecem, ele enche um saco em menos de cinco segundos.



Foto: Marcelo MIgliaccio
William enche um saco com dez
em menos de cinco segundos

Apesar de não ser carioca, Milton já incorporou o espírito gozador e não liga para os apelidos de biscoito de vento ou me engana que eu gosto :

_ Devemos muito do nosso sucesso a essa irreverência.

Foto: Marcelo Migliaccio
Milton tem muitas propostas para abrir franquias, mas sempre recusa



* Matéria publicada no Jornal do Brasil em 2009



terça-feira, 16 de agosto de 2016

Cavalos dançantes

O trem no ramal de Santa Cruz, que leva às instalações olímpicas, era dos novos, claro, daqueles pra inglês andar. Mas a paisagem lá fora não deixava ninguém esquecer: estamos no Brasil. 

Foto: Marcelo Migliaccio

Um Brasil olímpico, capital mundial do esporte por dois meses. E do golpe de estado e da roubalheira no resto do ano.

Foto: Marcelo Migliaccio

Dentro do centro de hipismo de Deodoro, o clima era de festa, aquela festa americanizada, vá lá, uma festa.

Foto: Marcelo Migliaccio

Cavaleiros começam a surgir na arena, com seus animais adestrados. Nas apresentações, rolam aquelas músicas que se ouve em sala de espera de consultório dentário. É ao som delas que os conjuntos começam a evoluir.

Foto: Marcelo Migliaccio

Na arquibancada, o sol de inverno carioca castigava quem se aventurou nesse esporte tão estranho por aqui.

Foto: Marcelo Migliaccio

Não sei como o calor não derreteu a maquiagem da Força Nacional...

Foto: Marcelo Migliaccio

E, por incrível que pareça, os gringos não estavam nem aí para a quentura, queriam torcer pelos seus cavaleiros.

Foto: Marcelo Migliaccio

"Bandeiras, bandeirolas, bandeirantes", diria aquele antigo narrador esportivo.

Foto: Marcelo Migliaccio

Mas a grande atração do dia era o único animal irracional com direito a participar da maior festa esportiva promovida pelo ser humano.

Foto: Marcelo Migliaccio

Todas as atenções estavam voltadas para os imponentes cavalos de raça. Com justiça, aliás. Vá ser bonito assim lá no estábulo! Mas é de se pensar em como eles aprendem aqueles passos. Dizem que vivem só para isso. Mas será que é uma violência contra eles.  É bom lembrar que em muitos lugares são proibidos animais nos circos e em programas de auditório. Ontem, por exemplo, aqueles puro-sangue nem sabiam que valia medalha de ouro...

Foto: Marcelo Migliaccio

Concentração total da amazona, um olho no cavalo, outro no... tapa olho. O que será que houve com ela?

Foto: Marcelo Migliaccio

Tinha até torcedor paramentado para enaltecer os astros da festa.

Foto: Marcelo Migliaccio

Só não gostei que as medalhas fossem só para os cavaleiros. Para os belos da tarde, só feno e água fresca. Muito pouco para quem chega a valer inacreditáveis US$ 48 milhões.

Foto: Marcelo Migliaccio

Não era um público de final de Copa do Mundo, mas deu pra curtir enquanto resisti ao sol. Embora isso não signifique rigorosamente nada: Olimpíada 2016, eu fui.

Foto: Marcelo Migliaccio


terça-feira, 9 de agosto de 2016

A Cinderela do golpe

Não se passaram nem 24 horas desde que a garota da Cidade de Deus conquistou uma medalha de ouro olímpica no judô e ninguém mais aguenta ver a Rafaela chorando no pódio. É de se perguntar por que a imprensa gosta tanto do jovem-da-favela-que-se-tornou-um-atleta-campeão.


A massificação da imagem da judoca, os apelos sentimentalóides com o Hino Nacional ao fundo vendem, mais uma a vez, a ideia de que todo favelado pode alcançar a glória. Tremenda conversa fiada, claro. Um atleta de ponta é raríssimo, mesmo em Harvard ou Stanford. Quanto mais nas periferias de um país do terceiro mundo campeão de desigualdade social.

Agora só se fala na Cidade de Deus da Rafaela, de onde a prefeitura retirou recentemente várias linhas de ônibus sem consulta nenhuma aos moradores.  

A quem interessa esse conto da Cinderela?

Mesmo com todos os projetos sociais de esportes nas comunidades, todo mundo sabe que a maioria daquelas crianças terá duas opções na vida: ser bandido ou limpar banheiros. Os primeiros provavelmente morrerão antes dos 30 anos e os últimos, com as novas regras pretendidas para a Previdência, terão que trabalhar pesado até os 70 anos (se aguentarem).

Quem conta incessantemente essa história da heroína Rafaela, por coincidência, apoia o grupo que tomou o poder de assalto no Brasil e que apressou-se em extinguir o Prouni, o Sisu e o Fies, programas que levam não uma mas muitas Cinderelas a um sonho que não termina quando entra a vinheta do comercial. O sonho do estudo, de uma carreira, de uma profissão que não seja de trabalho braçal como foi a de seus pais e avós.


Foto: Marcelo Migliaccio