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quinta-feira, 24 de maio de 2018

Jornalismo, o crime que não compensa

Em 2010, o editor-chefe do Jornal do Brasil recebeu a ordem para demitir Manuel Borges Neto. Chamou aquele velho jornalista que há décadas cuidava da qualidade dos textos do jornal e ele entrou na sala já pressentindo o que viria, uma vez que a péssima administração da empresa fazia demissões mensalmente. 
 
_ O que houve? _ perguntou com aquele sotaque lusitano que sempre nos socorria na hora dos percalços gramaticais.

_ É que... a direção mandou fazer mais cortes.

Sem alterar o suave tom de voz ou mesmo demonstrar qualquer animosidade contra seu algoz involuntário, Borges perguntou se, de alguma maneira, não poderia ficar pois sustentava ainda uma das filhas e a mulher:

_ Pode baixar meu salário, me pague mil reais que sejam para que nós possamos nos alimentar.

O editor olhou aquela figura frágil, de rosto marcado pelos anos e anos de redação, naquela camisa poída, usando um sapato desgastado e...

_ Deixa pra lá, Borges. Vamos voltar ao trabalho, meu caro.

Naquele momento, o editor-chefe sentiu-se como o caçador da história da Branca de Neve incumbido pela rainha má de matar a mocinha mas que na hora se compadece e a deixa fugir.
 
Manuel Borges Neto

Meses depois, o demitido foi o próprio editor, que não servia para o capitalismo, e o nosso estimado Borges continuou bravamente combatendo o bom combate.

Agora, ele se foi para sempre. E eu me considero um privilegiado por ter convivido com o grande Borges Neto o mais que pude.

O Jornal do Brasil havia parado de circular em papel naquela época (agora voltou, com outro dono). Existia então apenas na internet. Era, em sua eterna crise, um retrato da profissão de jornalista nas grandes empresas privadas, verdadeiras máquinas de moer gente.

Foto: Marcelo Migliaccio
A redação do Jornal do Brasil vazia após o fechamento da última edição em papel, no ano de 2011

terça-feira, 8 de maio de 2018

O que nunca se fala nos canais de esporte

Da renda de mais de R$ 1,2 milhão no jogo de domingo, coube ao Flamengo cerca de R$ 100 mil. Para abrir seus portões, o Maracanã, elitizado e privatizado por Ali Babá Cabral, cobra quase R$ 500 mil. Onde cabiam 160 mil pessoas, agora cabem 60 mil.

Ninguém se importa porque a TV paga a diferença e mantém os clubes no cabresto. A consequência é que mais de 60% da população brasileira não liga mais para futebol, segundo pesquisa recente do Datafolha. Preferem o basquete da NBA ou o a selvageria do MMA. Quando muito, torcem pelo Barcelona, pelo Manchester United, pelo Bayern de Munique. No campeonato patrocinado pela TV, a previsibilidade é a regra. Quem subiu da série B no ano passado deve cair de novo este ano. De vez em quando cai um grande para turbinar a venda do pay-per-view da segundona. O título da série A fica entre Flamengo ou Corinthians, aos quais a detentora dos direitos de transmissão paga muito mais do que aos outros. 

A suprema consagração deste modelo foram os 7 a 1 da Alemanha.

Não, nenhum debatedor de mesa redonda vai admitir que a derrocada do futebol brasileiro começou em 1987, quando um fabricante de refrigerantes e a emissora de TV hegemônica compraram o campeonato nacional e ordenaram uma virada de mesa. Só os 20 clubes de maior torcida disputariam a Copa União. Não cito o nome das empresas envolvidas nessa manobra nefasta porque suas concorrentes fariam o mesmo se pudessem.

O America, terceiro colocado no Brasileirão de 86, e o Guarani, vice-campeão, foram rebaixados para o módulo amarelo, que nada mais era do que a segunda divisão. Esses dois times, tradicionais, nunca mais se recuperaram do baque. O sistema de castas que a TV criou para distribuir suas cotas está provocando a falência de outras equipes que fizeram história no futebol brasileiro, como a Portuguesa de Desportos e os grandes clubes nordestinos.

Mas isso nenhum jornalista vai admitir na televisão. Preferem colocar a culpa pelo afastamento do público dos estádios na violência urbana, na truculência das torcidas organizadas, na crise econômica etc. Os comentaristas são incapazes, claro, de questionar a transmissão ao vivo de um jogo em TV aberta para a cidade em que ele é disputado. Nem tão pouco vão criticar os horários absurdos das partidas, que chegam a terminar por volta da meia-noite de um dia de semana.

É só mais um capítulo do fim do futebol.

Foto: Marcelo Migliaccio

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Aqui tudo são flores

Um passeio pelo Jardim Botânico é sempre maravilhoso, ainda mais num dia límpido de outono carioca.

Foto: Marcelo Migliaccio

 As baionetas do golpe ficaram lá fora.

Foto: Marcelo Migliaccio

Aqui é um lugar de paz, um lugar pra desembaralhar os pensamentos.

Foto: Marcelo Migliaccio

Para trocar de pele e seguir em frente apesar de tudo.

Foto: Marcelo Migliaccio

Um lugar para olhar a natureza e ouvir seu silêncio embalado pelo canto dos passarinhos.

Foto: Marcelo Migliaccio

Olhar pra trás e ver quanta coisa passou. Quem não estudou num livro didático que tinha o desenho de um menino índio em cima de uma vitória régia? Quem não teve uma professora que disse, com sobrancelhas eriçadas, que a planta amazônica aguenta o peso de uma criança? Claro que o parque colocou uma placa avisando que é proibido tentar comprovar isso por aqui.



 Sim, são plantas. Não fazem barulho, não se movem mas irradiam uma vida intensa, uma força incrível da natureza com suas cores e surpresas.

Foto: Marcelo Migliaccio

Tem até árvore que não cresce para cima.

Foto: Marcelo Migliaccio

Não é papo furado. Aqui tudo são flores, às vezes exóticas mas sempre flores, como esse papo de peru.


Foto: Marcelo Migliaccio


O presidente Café Filho já foi há muito tempo, mas o pau brasil que ele plantou aqui, em 1955, está no apogeu. Como somos breves, só não tão breves para contemplar.



E constatar também que a desarmonia no planeta tem nome.


Foto: Marcelo Migliaccio


Breves e pequenos diante de uma sumaúma de 60 metros, a maior árvore da Amazônia.


Foto: Marcelo Migliaccio

Onde quer que você estiver, vá ao jardim botânico mais próximo!

Foto: Marcelo Migliaccio

Se Deus existe, ele está aqui.

Foto: Marcelo Migliaccio







sábado, 21 de abril de 2018

"Tira ele"

Um ex-presidiário de 38 anos tenta dar sentido a uma vida, marcada pela infância difícil, pela ilusão do tráfico e pela falta de oportunidades. É o novo episódio da série Brasileiros da Gema, publicada no Blog Rio Acima.

domingo, 15 de abril de 2018

Meu debut na arquibancada

Amigos, não sei se vai interessar a alguém, mas essa foto é do primeiro jogo no Maracanã a que eu assisti da arquibancada. Foi no dia inesquecível de 21 de setembro de 1975. O America carioca venceu por 3 a 0, gols de Bráulio, Cléber (contra) e Ailton, o "Negrinho do Pastoreio". E logo contra o America mineiro, meu time em Minas e que tem o uniforme mais bonito do mundo.

Graças aos Deuses do futebol, o amigo americano Marcelo Eliane Lemos achou essa foto, em que o gigante Marcão disputa a bola com o meia Renato, irmão de Amarildo, o Possesso da Copa de 1962.

Fui ao Google pesquisar sobre esse jogo perdido na minha memória e lembrei que estavam em campo o velho Fidélis pelo America do Rio e Buglê, Afonsinho e Éder Aleixo pelo homônimo mineiro. Éder brilharia na Copa da Espanha, sete anos mais tarde.

Se bem me lembro, fui com meu amigo Vitor Izecksohn, na época companheiro de jornadas esportivas, ambos no ônibus amarelinho da extinta linha 442 (Lins-Urca). E décadas depois descobri que outro amigo, Duilio Fedele, também debutou no maior estádio do mundo neste dia, numa excursão do colégio em que estudava.


Eu completara 12 anos um mês antes e um dos presentes que recebi foi a premisão de ir aos jogos menos cheios com meus colegas, sem sacrificar meu pai, que me levava nas cadeiras azuis numa prova de amor inesquecível, já que depois que eu cresci ele nunca mais foi aos estádios. O salvo-conduto, porém, só valia para partidas de pouco público, quase sempre jogos do America, time que passei a amar a partir daquela fase.

O campo visto da arquibancada era completamente diferente do que eu via das cadeiras azuis, onde não havia vibração. Lá de cima, sim, tinha-se uma visão ampla do jogo. E a miscelânea de tipos humanos me encantou. Gente de todas as classes sociais misturada naquela platéia democrática. Bem diferente de hoje, quando negros e pobres foram praticamente banidos dos estádios de futebol.

Talvez eu fosse o mais extasiado dos 7.677 pagantes daquele sábado ensolarado de céu azul sem nuvens.

Do jogo pouco me lembro. O que ficou marcado na minha memória foi a imagem do meu ídolo Orlando Lelé, com aquela camisa vermelha linda, caminhando sobre a grama verde do velho e lendário Maracanã, destruído anos depois pela quadrilha de Sergio Cabral para dar às emissoras de TV uma fria e elitista arena-estúdio.


terça-feira, 10 de abril de 2018

Teatro do absurdo

Líder em todas as pesquisas de intenção de voto, Lula está preso por receber como suborno um apartamento que nunca esteve em seu nome nem de nenhum parente ou amigo. Quem nunca pisou no tal triplex do Guarujá hoje está trancado numa cela, condenado com base em fofocas de porteiros. O homem indicado para o Prêmio Nobel da Paz.
O mundo está com uma certa dificuldade para entender isso.

O Brasil hoje é uma vergonha! As pessoas com um mínimo de discernimento daqui e do exterior estão chocadas com esse absurdo jurídico, esse ódio, esse fascismo insuflado criminosamente pela mídia.

Cadê você?!

Pensa nos teus filhos. Toma uma atitude!

Não é mais com Lula, não é mais com o PT, não é mais com a esquerda! É com seus filhos e netos! Nem a eles você tem amor?

Foto: Marcelo Migliaccio