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quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Game over

A demissão é um choque de realidade. Você passa centenas, milhares de manhãs, tardes, noites e até madrugadas enfurnado numa redação tensa e claustrofóbica. Perde os melhores momentos da infância de seus filhos equilibrando-se sobre um tapete que seus amigos virtuais puxam dissimuladamente, dando-lhe tapinhas nas costas toda segunda-feira e perguntando como foi o fim de semana.

Não importava pra você se o jornal em que você trabalhava apoiou dois golpes de estado e só desistiu na última hora de liderar o terceiro porque pegaria muito mal. Sentindo-se parte daquela família, você relativizava toda a sacanagem. O que queria mesmo era poder entrar num shopping sábado à tarde e posar de classe dominante. Era o rei do supermercado, carteira cheia, empáfia, carrinho abarrotado. Venci, você pensava, com cuidado para o seu orgulho besta não dar na vista. Parecia até que era dono de alguma coisa além da sua força de trabalho. De repente, você percebe que confundiu tudo: uma coisa é o patrão, o dono da parada, a outra é você, o empregado, peça descartável como aquele faxineiro que coloca papel higiênico nos banheiros da redação. A culpa não é sua, qualquer um ficaria inebriado. Quem não gosta de free shop, de cheiro de carro novo? Sei, seus textos são ótimos, nesses anos você fez isso e aquilo, entrevistou grandes astros, ministros, até presidentes. Mas isso tudo e nada para o manda-chuva é a mesma coisa. Seu belo currículo não resistiu à tesoura de um tecnocrata e Prêmio Esso não tem valor em nenhuma padaria da cidade.

Você ontem caiu das nuvens (bem, é melhor do que cair do segundo andar). Pelos seus anos de dedicação e suor, recebeu um rotundo pontapé no traseiro. Agora, ninguém vai mais convidar o "Fulano do Jornal Tal" para um almoço grátis. Porque o convidado na verdade era o Jornal Tal e não o Fulano. Entradas para teatro e cinema? Esqueça. Daqui em diante, ou você paga o ingresso ou fica na calçada da infâmia.

Não, amigo, você não é classe dominante, mesmo que tenha defendido os ideais dos seus patrões com unhas e dentes e a maior convicção do mundo. Suas idéias neoliberais talvez não façam mais sentido a partir de hoje. Será preciso encarar os vizinhos sem aquele poderoso crachá no peito. É hora de engolir o orgulho.Tem um gosto meio amargo, mas você consegue.




domingo, 30 de agosto de 2015

A onda nazi

Na Alemanha, dezenas de neonazistas bêbados cercam um abrigo para refugiados sírios e iraquianos. Querem entrar e quebrar todos os "intrusos". A polícia intervém e o pau come.

Na rádio Fluminense AM, dois membros da equipe de esportes fazem piada e riem das sequelas que um AVC deixou no técnico do Botafogo, Ricardo Gomes.

Nas manifestações pró-golpe no Brasil, participantes ameaçam qualquer um que traje camisa vermelha. Em cartazes, dizem que a presidente deveria ter sido morta pelos militares em 1964.

No Rio Grande do Sul, conversa telefônica mostra um adolescente de classe média se vangloriando de ter furado o rosto de um outro com uma garrafa quebrada: "Bááá, foi tri!!"

Nos Estados Unidos, meca da cultura da violência, único país a ter coragem de jogar duas bombas atômicas numa população civil, aguarda-se a próxima chacina promovida por uma criança armada.

O esporte que mais cresce em popularidade no planeta permite continuar batendo no oponente mesmo que ele esteja caído no chão.

No Rio, torcedores do Vasco cercam um jogador do Flamengo numa lanchonete, ofendem e ameaçam espancá-lo.

Terroristas do Estado Islâmico, quando não estão explodindo templos milenares, cortam cabeças e distribuem o vídeo para o mundo.

É bom parar por aqui.


quinta-feira, 27 de agosto de 2015

A vida passa na TV mas não pode cair na prova

Podem os apresentadores desses programas policiais vespertinos posarem de indignados porque caiu numa prova de escola primária uma pergunta sobre o apelido de um traficante? 

Esses caras mostram e falam as maiores atrocidades no vídeo sem se importar com o público infantil mas, quando a escola aborda esse triste cotidiano, fazem um escândalo. 

E não faltaram também pais que não estão nem aí para o que os filhos assistem na TV dizendo que tráfico não é assunto para a sala de aula. Se já tivessem ouvido falar em Paulo Freire, diriam que é mais um "petralha safado".


O único garoto da sala que errou a questão passou a tarde anterior escrevendo uma carta para Papai Noel.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Um peixe chamado boi...

Foto: Marcelo Migliaccio


Meio sem jeito, o guia e agente de preservação do Projeto Peixe Boi diz que seu pai comia a carne desse incrível animal. Resisto mas não consigo evitar a brincadeira.

_ Devia ser bom porque era almoço tipo dois-em-um: peixada e churrasco ao mesmo tempo.

Felizmente, a algazarra no pequeno barco não deixa ninguém ouvir a piadinha ordinária.

Todos estão mais preocupados em avistar pelo menos um dos animais mantidos numa área controlada em Tatuamunha, município de Porto de Pedras, em Alagoas. Nem todos os turistas conseguem. Muitos vêem apenas os sinalizadores presos a cada um dos peixes e que ficam sempre flutuando na superfície. Aliás, para conseguir prender a engenhoca no peixe-boi, usa-se uma tática meio sacana, literalmente. Um dos tratadores começa a alisar o órgão sexual do animal até que ele fique excitado e envergue o corpanzil. Aí um segundo homem aproveita para colocar a cinta que prende o sinalizador. Depois, conta o guia, quando descobre o logro, o peixe-boi fica fulo da vida. E não queira levar uma lambada desse gigante que chega a medir 3 metros e pesar 500 quilos.


Foto: Marcelo Migliaccio

Nosso grupo até que teve sorte. Primeiro, vimos o dorso de um deles, dormindo, perto da margem do rio que leva o nome do lugar. Mesmo durante o sono, ele volta-e-meia coloca as narinas fora d'água para respirar.


Foto: Marcelo Migliaccio

O peixe-boi é um animal fantástico, aliás, como todo animal. Mamífero aquático como as baleias, ele no entanto é herbívoro. Estava sendo dizimado pelos pescadores, porque arrebentava redes com seu tamanho descomunal. Era abatido, pasmem, a pauladas. Mas a sacaneada, vilipendiada, esculachada e pujante Petrobras desenvolveu um projeto para preservar essa jóia da fauna brasileira. Opa!, agora próximo ao barco, outro peixe exibe suas ventas. Trata-se de um filhote brincalhão. Tremendo ladrão de oxigênio, olha só!


Foto: Marcelo Migliaccio

Alagoas é linda. Muita miséria da maioria contrastando com a opulência da minoria abastada. Às vezes, parece que as coisas aqui estão por um fio...


Foto: Marcelo Migliaccio

A pátria educadora nunca foi tão necessária.


Foto: Marcelo Migliaccio

Mas, de volta ao peixe-boi, fico sabendo pelo guia que o animal transita com desenvoltura pelo rio e pelo mar. E, no projeto, já até deu cria, o que só aconteceu depois de os biólogos e ribeirinhos descobrirem que era preciso soltar uma fêmea e dois machos, porque ela só aceita acasalar se, antes, o felizardo tiver sobrepujado um rival para merecê-la. Mulheres... bááá...


Foto: Marcelo Migliaccio

Tatuamunha é um dos muitos lugares fascinantes do Nordeste. É lá que fica a Praia do Patacho, das mais bonitas que já vi. Tem também o farol, as casinhas, a mata... uma delícia.


Foto: Marcelo Migliaccio

Claro, o peixe-boi não está sozinho nesse paraíso. Caranguejos habitam a área de manguezal, também preservada. Depois, fui provar a iguaria. Dá muito trabalho pra abrir e o conteúdo não compensa. A maior parte da carne tem gosto de coração de galinha, o mais gostoso está nas pernas, em doses pra lá de racionadas.

Foto: Marcelo Migliaccio

É melhor vê-los no mangue do que em cima da mesa...

Foto: Marcelo Migliaccio

Outra maravilha desse ecossistema são as raízes suspensas das plantas. Um emaranhado onde vivem dezenas de espécies. 


Foto: Marcelo Migliaccio

E a turistada lá, fotografando e falando sem parar. Talvez por isso os peixes-boi não apareçam tanto. Escutam e enxergam muito bem, diz o guia.


Foto: Marcelo Migliaccio

O passeio termina e vamos embora reverenciando novamente a natureza, torcendo para que o peixe-boi, mesmo tendo virado atração turística, continue sua incrível sina evolutiva.


Foto: Marcelo Migliaccio








quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Cartilha do jornalista esperto

Como manter o emprego na grande imprensa sem ser chamado de golpista em dez lições fáceis:

1 - Assuma um ar circunspecto e defina-se como uma pessoa completamente desprovida de paixões políticas.


2 - Fale que deve haver impeachment "se houver razões legais para isso".

3 - Alardeie que não participa de "Fla-Flu ideológico".

4 - Lembre que não está em jogo um campeonato de quem roubou mais (embora seu patrão só noticie os roubos do PT e dos aliados).

5 - Brade contra todo e qualquer tipo de rótulo (até de maionese Hellman's).

6 - Evoque o princípio do jornalismo de que é preciso ouvir os dois lados (o da oposição na manchete e o do governo no pé da página).

7 - Faça crer que você é uma pessoa equilibrada (em cima do muro) e, de nariz empinado, critique quem fala de política nas redes sociais.

8 - Defenda sempre a liberdade de imprensa (mesmo que ela só exista para quem fala mal do PT).

9 - Esqueça que você venerava Herbert de Souza pela campanha do Fome Zero porque ela virou programa de governo do PT.

10 - Se lhe der uma vontade incontrolável de se posicionar, poste um videoclipe qualquer.


segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Fígado, tripa, bucho, bofe e chouriço

_ Posso tirar uma foto?

Os olhares desconfiados já eram em si uma negativa. Seria eu um agente infiltrado da vigilância sanitária?

_ É pro meu blog...

Como mágica, as expressões das duas atendentes se desanuviaram e pude apontar minha máquina para aquelas bizarras iguarias que eu nunca tinha visto.

O esquadrão é de primeira, um ataque dos sonhos, não há anti-ácido que dê jeito, mas trata-se de um campeão da preferência popular, pelo menos na curiosa feira dominical de Piabetá, na Baixada Fluminense. Com vocês o que minha companheira de explorações definiu cinematograficamente como "o quinteto bombástico": tripa, fígado, bucho, bofe e chouriço.


Foto: Marcelo Migliaccio

Apesar do cardápio heterodoxo, as barraquinhas são até bem apresentáveis, com mesinhas para o pessoal degustar um almoço de domingo daqueles. E quando tudo se mistura na panela, num óleo fervente...


Foto: Marcelo Migliaccio

A feira lembra aquela antiga lá de São Cristóvão, quando o ponto de encontro dos nordestinos no Rio ainda era na rua.


Foto: Marcelo Migliaccio

De repente, um ser inacreditável chama a minha atenção. Um galo gigante.


Foto: Marcelo Migliaccio

_ Pesa cinquenta quilos _ diz o moleque.

_ Quanto custa?

_ R$ 50.

_ Um real por quilo _ tento brincar.

_ Não, só vende ele inteiro.

_ Pesa pra ele ver _ ordena o pai do moleque lá de longe.

_ Não precisa! _ me apresso, procurando um plano zenital.

_ Como ele fica assim?

_ Ração _ ensina o infante mascate.

Morri de pena. Sem trocadilho.


Foto: Marcelo Migliaccio

Na feira tem de tudo, sementes que eu nunca tinha visto e que, segundo os vendedores, curam tudo, melhor que igreja evangélica, eu acho.


Foto: Marcelo Migliaccio

Grandes marcas, claro, marcam presença nesse concorrido evento...


Foto: Marcelo Migliaccio

E lembrei do filme Pinochio ao ver ali, na minha frente, Cléo, a peixinha dourada.


Foto: Marcelo Migliaccio


Balões de todas as cores e cabelos idem alegram ainda mais o colorido domingo de inverno na Baixada Fluminense.

Foto: Marcelo Migliaccio

Tudo sob os auspícios da Guarda Municipal de Piabetá. Confesso que ao ver o pólo gastronômico, senti falta de uma ambulância...

Foto: Marcelo Migliaccio

Você deve estar querendo saber se eu almocei lá. Não, era muito cedo...