Já viu quanto vão custar os ingressos no novo Maracanã? Entre R$ 90 e R$ 300!
Trata-se da última etapa do processo de elitização do futebol iniciado em 1987, quando uma emissora de TV e uma fábrica de refrigerantes arrendaram o esporte mais popular do Brasil e criaram a Copa União, da qual participavam apenas os times de maior torcida (mercado consumidor, quero dizer...).
Nessa virada de mesa absurda e indecente, a CBF jogou para a segunda divisão clubes de tradição, como o América do Rio e o Guarani de Campinas, vice-campeão brasileiro da primeira divisão no ano anterior. Esses dois clubes nunca mais se recuperaram da rasteira aplicada pela CBF, pela TV e pelo refrigerante. Hoje, beiram a falência, para tristeza de seus torcedores e de todos que amavam o futebol como esporte (agora virou negócio).
É bom lembrar que o futebol chegou ao Brasil como esporte de elite no início do século passado, mas acabou adotado pelo povo mais pobre, pois, ao contrário do remo e do cricket, exigia apenas uma bola feita de papelão e meia para ser praticado. Os negros conquistaram seus lugares nos clubes e foi negro o maior jogador de todos os tempos, Pelé.
Com o mercantilismo que tomou conta da paixão nacional, o futebol vira cada vez mais, novamente, um esporte de elite. Repare nas imagens das arquibancadas hoje em dia: não se vê mais negros nas torcidas. Há muito, eles já não têm dinheiro para pagar os caros ingressos. Apesar de toda a transferência de renda dos últimos anos, ir ao futebol agora é um programa para a classe média alta, como ir ao teatro. E a classe média alta ainda é predominantemente branca. A meta dos executivos é que o povão assista as jogos pela TV enquanto os almofadinhas e as patricinhas fazem pose nas cadeiras dos estádios.
O Maracanã foi entregue de mão beijada pelo governador elitista do Rio a meia dúzia de mauricinhos, que agora são os donos daquele que foi um monumento do povo carioca, do povo brasileiro. Pode até ter ficado lindo depois das reformas bilionárias que fizeram a alegria das empreiteiras, só que não é mais o nosso Maracanã. Agora, com esse preço anunciado, ainda mais alto do que o que já se vinha cobrando, o povo não entra mais. Assiste aos jogos em casa, pela TV Monopólio, ou na calçada, diante de um botequim cujo dono comprou o pacote
pay per view _ até os nomes ingleses voltaram, como no tempo em que Charles Muller trouxe a primeira bola ao país que se tornaria professor de futebol no planeta.
E o pior é que ninguém fala nada na mídia, ninguém reclama desse absurdo, porque ninguém ousa desafiar a emissora dona do futebol, que é parceira de fé do governador elitista e dos mauricinhos que agora são os senhores daquele maravilhoso estádio que um dia esteve no coração de todos os cariocas. Nem Mario Filho, o cronista esportivo que deu o nome ao Maracanã, se vivo fosse, reclamaria, porque ele certamente usaria um crachá da líder de audiência no peito...
O ministro do Esporte deveria provar que é mesmo comunista e intervir nesse absurdo, criar um setor popular, sei lá... mas parece que está todo mundo enredado nessa engrenagem cujo cifrão é a mola mestra. Um pai que queira levar seus dois filhos para ver o jogo da seleção brasileira contra a Inglaterra, na reinauguração oficial, vai gastar R$ 270 só para entrar.
Na primeira vez em que pisei no Maracaná, no jogo Brasil x Bulgária, em abril de 1974, fiquei maravilhado. Vi todos os extratos da sociedade brasileira ali, ao meu redor, curtindo a magia de uma partida de futebol. Haviam setores para todos os poderes aquisitivos. Na geral, pagava-se três cruzeiros para ver o jogo em pé, abaixo do nível do campo, com o pescoço esticado mas feliz da vida. Via-se a chuteira de seu craque preferido ali, bem perto, sentia-se a emoção de um jogo jogado com o coração. Não era como hoje, com jogadores mercenários e sem nenhum vínculo afetivo com os clubes, que agora vendem seus lendários uniformes para que grandes empresas estampem suas marcas. Os de agora são atletas sem alma, que nem ligam de jogar para arquibancadas vazias, já que pelo preço de um ingresso é possível comprar todos os jogos do campeonato para ver sentado no sofá de casa.
Esse novo Maracanã é o símbolo maior da morte do futebol romântico tal qual os que têm mais de 35 anos o conheceram. Tenho pena das crianças de hoje, principalmente das mais pobres, que jamais sentirão a alegria que eu senti naquela tarde de abril de 1974. A elas, só restam os videogames...
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| O primeiro jogo que eu vi no Maracanã: Brasil 1 x 0 Bulgária, em 1974. O gol foi de Jairzinho. Como eu estava feliz naquele dia! |
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