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quinta-feira, 31 de julho de 2014

"Pô, Tiozinho!"

Aquilo me soou como uma bofetada. Seria melhor que o motorista do outro carro desfiasse o conhecido repertório de palavrões da língua portuguesa. Ouvir que eu era filho disso, e deveria ir tomar naquele lugar, seria melhor do que ser chamado, assim, de chofre, de "tiozinho".

Tudo bem, eu dei uma fechada no cara, mas nada justificaria tal ataque, vil, sórdido.

Era um moleque dirigindo pela Tijuca, um não, três. Acho que iam para alguma festa junina, pois o que estava ao lado do motorista ostentava um ridículo chapéu de caipira, aquele de palha e desfiado nas abas.

Fiquei sem ação, nem respondi à discriminação por faixa etária. Imaginei na hora o que teria levado aquele moleque a achar que eu era velho...

Ah, tô começando a ter cabelo branco onde ainda tem cabelo, deve ser isso... Fazer o quê? Pintar pode piorar as coisas.

Ser chamado de "tiozinho" é o fim da picada para todo garotão experiente como eu. Até "vovô" é melhor, porque soa carinhoso. Tiozinho é um deboche. A gente sempre pensa que tá nos trinques, que ainda pode cantar de galo, mas num belo dia um fedelho caridoso nos oferece o assento para idoso do vagão (bom, pelo menos isso nunca me aconteceu... ainda). Soube que alguns velhinhos até xingam quem lhes dá o lugar. Na cabeça, ainda se sentem como garanhões indomados.

Outro dia, li que um cantor sertanejo, da minha idade, brigou com uma fã que o chamou de tiozinho numa rede social. "Imagine você quando chegar aos 51 anos", disparou o cowboy do interior paulista.

Como medida de segurança, há alguns anos parei de olhar para garotas muito novas. Elas costumam ser impiedosas ao menor sinal de terceira idade se aproximando. A última que eu tentei azarar (xavecar, como se diz) me chamou sadicamente se "senhor".

Mas, tudo bem, um dia ela também será. Essa é a vingança dos coroas: saber que todo jovem chega lá.




terça-feira, 29 de julho de 2014

Tudo como antes

A Copa do Mundo foi uma festa no Rio. Até Eros, o Deus do Amor, entrou na onda, adornado por uma atmosfera de sonhos para todos os turistas verem. E Eros abriu as asas e voou...

Foto: Marcelo Migliaccio

Mas a Copa acabou, a carruagem virou abóbora, a polícia sumiu das ruas e Copacabana voltou a ser Copacabana. Não se passaram duas semanas, e cortaram as asinhas do Deus do Amor. Pelo menos uma delas foi vandalizada. E olhe que a estátua timha sido restaurada havia poucos meses.

Foto: Marcelo Migliaccio


Não se sabe se o responsável foi o mesmo vândalo, mas a pichação apareceu quase que simultaneamente. E tudo voltou a ser como antes.


Foto: Marcelo Migliaccio


LEIA TAMBÉM:

O dia em que Eros perdeu a cabeça

Até o Deus do Amor fez plástica




sábado, 26 de julho de 2014

O ex-certinho

Quem assiste, ouve ou lê os noticiários da maior empresa privada de comunicação do país sabe a extrema benevolência com que é tratado o prefeito do Rio, Eduardo Paes. A despeito do festival de propina que se cobra no município, há sempre uma condescendência, um pano quente para abafar o caso, seja qual for o caso. Parceiro é parceiro...

Mas a ex-mulher do deputado federal e ex-secretário municipal governo e de Assistência Social, Rodrigo Bethlem, chegou na redação da revista Época com fitas gravadas em que ele admite o recebimento de propina. Aí, não houve como não divulgar, o que não impediu que o principal jornal do grupo se apressasse em colocar nas manchetes de seu site a negativa do acusado. Que ninguém se iluda, logo o caso Bethlem sumirá das páginas, como sumiram o mensalão do DEM, Carlos Cachoeira e tantos outros escândalos de parceiros, pois a imprensa conservadora precisa continuar falando mal de José Dirceu e Genoíno, ambos condenados sem uma gravação ou imagem sequer que os comprometesse. Bastou como prova a acusação de Roberto Jefferson. Logo quem...

As gravações que a Época deve ter divulgado com o coração partido são estarrecedoras. Bethlem afirma ter uma renda mensal de R$ 100 mil com todos os esquemas e que abriu uma conta na Suíça. Se diz ainda paranóico com o medo de ser descoberto. Só um tal de "lanche" lhe renderia, segundo ele mesmo, R$ 15 mil. Êta lanchezinho caro...

E o pior é que ex-maridos costumam dizer para ex-mulheres que ganham menos do que realmente ganham... ou seja, o rombo deve ser muito maior.

Não é de se espantar que os abrigos da prefeitura para moradores de rua estejam em péssimo estado. Parte do dinheiro deve ter ido parar na Suíça.

A corrupção no estado do Rio e na capital é institucionalizada, flagrante, está em cada esquina.

_ Os fiscais da prefeitura chegaram a fechar o meu restaurante enquanto eu não paguei a propina _ me diz um comerciante.

_ Estou enojado, não se faz nada no Rio sem pagar propina _ fala o dono de uma transportadora.

_ Estou há dois anos com os ligamentos do joelho rompidos, mas não consigo operar nos hospitais do município porque tem que pagar aos médicos por fora _ desabafa o pintor de paredes.

E o atendimento do funcionalismo? A dificuldade para retirar um carro rebocado no depósito da prefeitura mostra o quanto o prefeito gosta de seus eleitores.

Nos noticiários locais, no entanto, tudo está entrando nos eixos, há sempre um pseudo-comentarista para atuar como porta-voz da prefeitura ou do governo do Estado.

Bethlem surgiu no cenário político como o certinho da parada. Fazia performances midiáticas quando liderava as operações de recolhimento da população sem teto. Vivia arrotando regras, dizendo que é preciso haver ordem. Ordem era sua palavra de ordem. Os microfones e câmeras estavam sempre à sua disposição. Uns idiotas até o apelidaram de "xerife". Suas campanhas para se reeleger são milionárias. Era, até agora, titular absoluto do time de almofadinhas que tomou conta do Rio, governou com verbas dos presidentes petistas mas vai fazer campanha para Aécio Neves.

Agora a casa caiu. Bethlem diz que a denunciante tem problemas psiquiátricos, mas as gravações são autênticas, segundo peritos. A filmagem de um assessor dele entregando um envelope com R$ 20 mil em notas de R$ 100 à ex-mulher também não é montagem. Duvido que seja preso, pois não é do PT, politicamente, no entanto, virou um morto-vivo, um cadáver ambulante, como José Roberto Arruda no Distrito Federal e tantos outros políticos flagrados com a mão na massa. Todo o dinheiro que possam ter não comprará o direito de andar na rua de cabeça erguida.

Menos um.



quinta-feira, 24 de julho de 2014

A chacina de menores agora é maior

Ontem, a chacina da Candelária deixou de ser menor de idade, Já se vão 21 anos desde que três policiais militares mataram oito meninos que dormiam nas proximidades da imponente igreja, no Centro do Rio. Na época, eu trabalhava num prédio vizinho e, como jormalista, cobri os desdobramentos do fato _ da repercussão internacional às manifestações de apoio aos PMs, afinal, os jovens mortos pertenciam a um grupo que praticava assaltos naquela área.

A verdade é que os policiais receberam muito apoio da população, o que não evitou que fossem condenados, tempos depois, a dezenas de anos de prisão. Acho que os três já estão até soltos, já que nossa Justiça não gosta muito de manter criminosos na cadeia.

Logo agora, me deixaram impressionado as imagens dos dois PMs levando para o alto do morro do Sumaré dois garotos, de 14 e 15 anos, que também roubavam pedestres na Avenida Presidente Vargas, onde fica a Candelária.

_ Vamos lá pra cima?

_ Descarregar a arma um pouquinho...

_ Jogar eles lá de cima.

Esse foi o diálogo gravado pela câmera do painel do carro da polícia, com os dois PMs em primeiro plano e os garotos trancados na caçamba, lá atrás. Rindo, os policiais levavam os infratores para a morte. O que chocou mais foi que aquilo parecia um processo corriqueiro, um ato banal, que não provocava sequer um sobressalto na respiração tranquila dos PMs.

O que pareceu é que os policiais estavam acostumados a fazer aquilo. O choro dos garotos evidenciava essa impressão. Sabiam que suas breves existências estavam chegando ao fim.

_ Já tá chorando, nem comecei a bater ainda _ diz um dos policiais a um dos garotos quando o carro para no alto do penhasco.

Sei que muita gente, muita mesmo, muita gente de prestígio até, acha que os policiais agiram certo. Mas, para azar dos exterminadores fardados, um dos garotos sobreviveu a dois tiros e eles agora estão presos. Não por muito tempo, sabe-se.

Centenas de menores continuam chegando ao mercado de assaltos todos os meses. Filhos de famílias desestruturadas, mães adolescentes, garotos que a escola pública sucateada não tem competência para segurar. Cedo se tornam assaltantes. Só no Rio, nos últimos cinco meses, foram 3 mil menores apreendidos.

Cedo, eles acabam caindo dentro da máquina de enxugar gêlo, que funciona a todo vapor no morro do Sumaré mas nem assim dá vazão à quantidade de crianças que o nosso sistema, gerador de tantos bilhões ao ano, não protege nem educa.



terça-feira, 22 de julho de 2014

Bukowski derrota Mao

Larguei pelo meio as biografias de Mao Tse Tung, Zhou Enlai e Chaplin. O motivo foi que Charles Bukowski me arrebatou. Quem quer aprender a escrever deve comer Bukowski com farofa de ovo. Seu estilo é inconfundível, delicioso e temática mais humana e despojada que a dele não há. Bukowski nos reduz ao nosso verdadeiro tamanho e assim, paradoxalmente, nos mostra a grandeza que podemos atingir ao aguçar nosso senso crítico sobre nós mesmos e a vida que levamos. O texto flui, porque ele escreve como se fala, que, em síntese, é como se deve escrever. Suas palavras, ao mesmo tempo que leves, têm um peso, uma densidade que as torna fundamentais.

Eis um trecho do conto O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio. Diz muito não só sobre o ofício de escrever, mas sobre a criação artística e o mercado.

"(...) Escrever pode ser uma armadilha. Alguns escritores tendem a escrever o que agradou seus leitores no passado. Daí, estão fodidos. A criatividade da maioria dos escritores tem vida curta. Ouvem os elogios e acreditam neles. Há apenas um juiz final do que foi escrito, que é o escritor. Quando é influenciado pelos críticos, editores, leitores, está acabado. E, é claro, quando for influenciado por sua fama e sua fortuna, você pode mandá-lo flutuando rio abaixo junto com a merda.

"(...) Não há nada que impeça um homem de escrever, a não ser que ele impeça a si mesmo. Se um homem quer realmente escrever, ele o fará. A rejeição e o ridículo apenas lhe darão mais força. E quanto mais for reprimido, mais forte ele se torna, como uma massa de água forçando um dique. Não há perdas em escrever; faz seus dedos dos pés rirem enquanto você dorme; faz você andar como um tigre; ilumina seus olhos e coloca você frente a frente com a Morte. Você vai morrer como um lutador, será reverenciado no inferno. A sorte da palavra. Vá com ela, mande-a. Seja o Palhaço das Trevas. É engraçado, é engraçado. Mais uma linha..."



sábado, 19 de julho de 2014

Sombras da ribalta

Nelson Ned, que já passou, cantava:

"Mas tudo passa, tudo passará..."

Todos nós estamos de passagem mas, na ribalta, quando o tempo conjuga esse verbo o sujeito pira.

Leio agora que um dos Cassetas (é, aqueles humoristas que fizeram muito sucesso nos anos 90) mandou o repórter Vesgo, do programa Pânico, tomar no cú.

"Não vou dar ibope pra você!", esbravejou o humorista da Globo, que está na geladeira, já que seu programa saiu do ar por falta de... audiência. Ou seja: se há uma coisa que ele não está dando atualmente é ibope...

Vesgo é chato pacas. Faz um humor agressivo importunando pessoas conhecidas. O xingamento foi merecido, mas mostrou o quanto é forte a dor de cotovelo no meio artístico.

Quando o Casseta & Planeta surgiu, trouxe um humor novo em contraposição aos já desgastados Chico Anysio e Jô Soares. Jô se reinventou e virou entrevistador (já precisando se reinventar de novo...). Mas Chico entrou de sola nos então novatos logo que viu seu monopólio do riso na TV ameaçado.

Pois os anos se passaram, Chico, que realmente era um gênio na criação de tipos, morreu, e o humor do Casseta deixou de ser novo. Desgastado, perdeu audiência até o programa sair do ar.

E agora um de seus membros repete a história de muitos narcisos, desta vez no papel de vilão, porque é duro ficar fora do ar. Renato Aragão e Xuxa que o digam. Já provocaram filas de dar volta em quarteirão com seus filmes, faturaram milhões, foram unanimidades burras, e agora... morrer é doloroso, principalmente quando se ainda está vivo.

A mídia é assim: faz um carnaval com você enquanto as pessoas te comprarem. Numa época em que ficou fora do ar, Chacrinha desabafou: "Quem não tem ibope, não tem amigos".

João Ubaldo morreu ontem (mês passado, foi Marlene, "a maior"). Hoje, o escritor é primeira página de todos os jornais. Amanhã, estará esquecido. Depois de amanhã, a nova geração sequer saberá quem foi. Uma vida, um universo reduzido a um livro na estante.

A vaidade é o combustível de toda pessoa pública e também o veneno que a consome.