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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A virada paralímpica

Neste momento em que o Brasil engatou a marcha à ré de volta ao obscurantismo e à segregação, a Paralimpíada foi um bálsamo. Até então, nós, brasileiros, nunca tínhamos visto tão de perto essas competições que mostram o quanto é forte (e frágil ao mesmo tempo) o ser humano. Quando os jogos eram realizados em outros países, os noticiários paralímpicos eram sempre diminutos, com imagens curtas em comparação ao que recebíamos da badalada Olimpíada.

Desta vez foi diferente. Pra muitos foi difícil assistir no início mas quando a gente vê que são exatamente como nós, pronto. Foi tudo de perto e em detalhes. Isso certamente vai mudar muito as relações sociais dos portadores de necessidades especiais. Esses atletas formidáveis nos mostraram que não cabe o olhar piedoso pois são fortes o bastante para perseguir e alcançar objetivos que o estereótipo não previa. Imagino o bem que os novos ídolos do esporte fizeram às crianças especiais e mesmo as que gozam de plena saúde.

É uma pena que as redes de TV aberta ainda não tiveram coragem para dar às competições paralímpicas a cobertura ampla que elas mereciam. Foram disputas emocionantes que, no entanto, esbarraram no preconceito daqueles que têm a pretensão de advinhar o que o público quer ver na televisão. As arenas cheias, no entanto, provam que a Paralimpíada foi sim um espetáculo muito atraente.

A interação dos atletas com seus treinadores e auxiliares é um exemplo de convivência que todos nós deveríamos seguir em vez de condenar os especiais a viverem num mundo à parte. Vamos deixar que eles só não existam nas novelas.

Ver cegos fazendo gols de placa, cadeirantes caindo e levantando, fazendo cestas lindas, amputados dando saltos improváveis em distância e altura, nadadores velocíssimos batendo recordes mudará para sempre a relação e o olhar da sociedade sobre os diferentes. O meu pelo menos nunca mais será o mesmo. E quantas crianças terão agora estímulo para vencer suas limitações físicas ou motoras e descobrir um novo sentido para a vida.

Uma das imagens que mais me impressionaram foi a daquele atleta sem os dois braços que segura a raquete de tênis de mesa com a boca. Como joga o danado. E o charme da dançarina que não tem as pernas?

Se a TV aberta desviou o olhar dessas pessoas por puro preconceito, muitos de nós jamais farão isso novamente ao cruzar com um deles nas ruas. Não há mais espaço para piedade e auto-comiseração. Esmola nunca mais.


Foto: Marcelo Migliaccio


quinta-feira, 15 de setembro de 2016

É pra chorar, não pra rir

Agora que já esgotamos nosso estoque de piadas sobre o episódio surrealista protagonizado pelos promotores da Operação Livra Rato, devemos começar a nos preocupar. Ao iniciarem sua explanação reconhecendo que não podem provar nenhuma das acusações que fazem ao ex-presidente Lula, eles deixaram claro  mais uma vez que vivemos num estado de exceção, uma ditadura do Poder Judiciário.

O canhestro esquema de power point que nos fez rir inicialmente é mais um tapa que os togados dão no rosto da sociedade. Como uma peça de acusação tão insustentável pode ganhar as manchetes dos jornais e servir de munição aos histéricos que insistem em demonizar aquele que foi o presidente mais popular da História do Brasil? Onde estão as contas de Lula no exterior (as de Cunha todos sabemos)? Quem são seus laranjas? Cadê as gravações comprometedoras, os e-mails indecentes? Nada. Os homens da lei vasculharam, vasculharam e só têm fofocas e achismos a nos apresentar.

E o Brasil parou para assistir nas redes de TV uma enxurrada de pseudo-denúncias calcadas em fofoca de portaria. O porteiro disse que o triplex é do "homem". O garagista confirmou que ouviu falar. O jornalista entrou na fofoca e garantiu uma manchete.

Pobre Brasil...

Em nenhum país do mundo uma acusação sem provas se sustenta, a menos que trate-se de um estado totalitário. O ônus da prova sempre coube a quem acusa mas no Brasil o acusado é que tem que se virar para provar que é inocente. E, desta vez, nem com o ônus da prova o acusador quis arcar. Bastou-lhe dizer que tem convicção de que Lula agiu ilicitamente. Servirá a "convicção" de um promotor pernóstico para colocar um ex-presidente da República na cadeia ou tirá-lo do próximo processo eleitoral? No Brasil de hoje, depois de tudo que vem acontecendo, depois das pedaladas inventadas, depois do Gilmar, do Moro, do Batman, do Alexandre Frota, do Reinaldo Merval de Azevedo, do Kim Katacoquinho, do Temer, do Bolsonaro e do Bolsonarinho, não se pode duvidar mais de nenhum absurdo.


Foto: Marcelo Migliaccio



quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Mais um capítulo do fim do futebol

Mais um clube tradicional sucumbe à divisão do futebol brasileiro em castas implantada pela televisão com apoio da cartolagem subserviente. Agora é a Portuguesa, que mergulha no limbo da série D, de onde é quase impossível sair.

Como América, Guarani, Bangu e tantos outros pelo Norte e Nordeste, a Lusa foi assassinada pela detentora dos direitos de transmissão dos jogos, que implantou no futebol a mesma filosofia que parece apoiar para o país: mais dinheiro para quem já tem e os outros que se danem.

Seria muito mais racional tirar um pouco do que cada grande clube da série A recebe anualmente (o Flamengo leva R$ 180 milhões em 2016) e ajudar clubes de tradição que hoje apenas alugam seus uniformes para empresários de jogadores interessados em exibir seus contratados.

Garanto que se o presidente do Corinthians for inteligente não se importará em receber R$ 5 milhões a menor por ano se esse dinheiro servir para manter viva a Portuguesa de Desportos. Seriam mais dois clássicos garantidos todos os anos. O futebol só sobrevive como paixão se houver competitividade. Ninguém vai para o estádio se tiver certeza de que seu time vencerá o jogo. O futebol vive de camisas fortes, muitas camisas fortes e não apenas uma casta de 20 clubes milionários.

E o Flamengo, não aceitaria receber R$ 175 milhões para garantir a sobrevivência do America, com quem já disputou clássicos memoráveis e que hoje nem na série D está? Com R$ 5 milhões anuais o clube sete vezes campeão do Rio faria a manutenção de sua estrutura para continuar formando jogadores nas divisões de base. Seria muito mais lógico se a lógica do futebol não tivesse passado a ser a do mercado consumidor. Só os clubes de massa interessam.

Vão argumentar que o Santa Cruz saiu da série D e chegou agora na série A. Pois ele já é o penúltimo colocado e deve cair para a segunda divisão. Subiu porque sempre sobem quatro, o problema é que esses quatro, ou três deles caem já no ano seguinte. Poucos se mantêm na primeirona por mais de dois anos.

Nessas horas, dá saudade do ex-presidente do Fluminense Francisco Horta, que sempre reforçava os rivais em nome dos grandes espetáculos.

Foto: Marcelo Migliaccio

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Acabou-se o que era doce

Animem-se!

Hoje é o primeiro dia do arresto de nossas vidas.

O Jornal Nacional, subitamente, transformou-se numa bomba de otimismo, programada para explodir na cabeça de milhões de Homer Simpsons que vestem verde e amarelo, as cores do golpe institucional de 2016.

Quero pedir uma salva de palmas para os omissos, os esclarecidos que não enxergam um palmo à frente do nariz, intelectualóides de orelha de livro, puristas de extrema-esquerda sem voto, metidos a besta em geral, pseudo-pós-tudo, iconoclástas que batem cartão de ponto, rebeldes bajuladores de chefe, europeus que nasceram no Brasil por acidente. Enfim, palmas para todos que não foram para as ruas de verde e amarelo como os retardados mas que contribuíram até mais para que a democracia fosse solapada. Palmas para Marina Silva, Luciana Genro...
Aplausos para todos aqueles que, mesmo percebendo a trama, engrossaram o coro da demonização do PT.
 
Meu único consolo é que eles vão dividir conosco o pão que o diabo amassou.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Pensamento do dia (do impeachment)

Um povo só deixa de ser vira-lata quando, de tanto apanhar, aprende a ir para a rua exigir seus direitos.

Enquanto ficar em casa assistindo TV e abanando o rabo, não terá um país decente para viver.