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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Espelho meu

O problema não é o Temer. São os milhares de Temer que andam pelas ruas do Brasil.

O problema não é o Cunha, são os milhões de Cunhas que avançam sinas vermelhos todos os dias mesmo quando há pedestres esperando para atravessar a rua.

O problema não é o Gilmar Mendes. São os muitos, muitos Gilmar Mendes que estão por aí levando cachorro pra sujar a areia da praia.

O problema não é o Aécio. São os Aécios que a qualquer hora param seus carros em fila dupla ou em vagas de idosos, gestantes ou deficientes.


O problema não é o empresário corrupto que paga propinas de milhões. São seus aprendizes que subornam o guarda, aceitam pagar menos se o médico não dá recibo, ou só dão nota fiscal se o consumidor pedir.

O problema não é o Dória. É a turma que acha que pobre não precisa comer arroz, feijão e carne.

O problema não é o Bolsonaro. São seus soldadinhos dizendo em cada esquina que tem que cortar a mão de ladrão e que quando se mata um menino de rua está se evitando problemas futuros.

O problema não é o Ronaldo Caiado. É seu rebanho que repete por aí que o Bolsa Família incentiva a vagabundagem e não o estudo.

O problema não é a bancada evangélica. São os 35% da população que acreditam que só Deus, e não a política, pode fazer a vida melhorar.


O problema não é a televisão. É a massa que ela emburrece e embrutece.

Quem sustenta as coisas como estão somos nós, brasileiros.

Foto: Marcelo Migliaccio

terça-feira, 10 de outubro de 2017

O porquê das coisas

Na janela do ônibus lotado, o garoto pobre cutuca o pai.

_ Quem é aquele homem? _ pergunta, apontando um cara que passa num Porsche conversível.

_ Um homem muito rico?

_ Tô vendo. Ele anda num carrão. Deve morar numa mansão  de frente pra praia...

_ Uma puta mansão... um puta carro...

_ Será que ele tem uma puta mulher, pai?

O pai pensa mas não fala: uma mulher puta.

_ Mas por que ele vive tão bem e nós tão mal?

_ Porque ele tem um papel.

_ Que papel? Eu também tenho papel, no meu caderno da escola.

_ Mas o papel dele diz que ele é dono.

_ Dono de que?

_ De alguma coisa, ou de várias coisas. De uma fábrica, por exemplo... de um grande jornal... de uma emissora de TV... de uma mina de nióbio... de muitas casas, muitos apartamentos...

_ Que que é nióbio, pai? 

_ Um troço que fica debaixo da terra e vale muita grana.

_ Mas o que ele fez para ser dono da fábrica, do jornal, da TV, da mina e das casas?

_ Nada.

_ Nada!? Não trabalhou?

_ Não, filho, quem trabalha não tem dinheiro pra comprar tudo isso. Você não vê como eu trabalho? Ele apenas nasceu filho do antigo dono.

_ Você não é dono de nada, pai?

_ Fica quietinho, fica.

_ E o pai dele, o que fez para ser dono?

_ Porra nenhuma. Deve ter dado um golpe, matado alguém.

_ Sério, pai?

_ Não sei qual, o que mais tem é golpe. Talvez ele tenha subornado alguém para conseguir a posse da fábrica, talvez tenha feito uma tramóia com um dono de cartório... talvez tenha recebido dinheiro do exterior para comprar e facilitar as coisas para os gringos... ou talvez tenha ganho o jornal ou a TV para favorecer uma corrente política nos noticiários... talvez tenha matado os índios que viviam na reserva de manganês.

_ Quanto golpe, pai! E por que ele não foi preso?

_ Porque esse é o país do golpe.

_ Por que você não dá um golpe, pai?

_ Porque eu não sou dono de nada e se fizer isso vou preso.

O menino fixa os olhos na janela. Olha os carros que passam pensativo.

_ Talvez ele seja dono desse ônibus. E daquele ali, e daquele outro lá... né, pai?

_ E daquela farmácia também.

_ E quem disse que o papel dele vale tudo isso?

_ O juiz, ora.

_ E por que ninguém tira o papel da mão dele e dele e rasga?

_ Porque é contra a lei, a polícia prende e o juiz condena.

_ E quem fez a lei?

_ Os amigos dele.

_ Pai...

_ Quê?

_ Nada.

Foto: Marcelo Migliaccio



quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Nem Freud explica

O advogado e ex-preso político André de Paula fala de sua paixão pelo America durante o jogo que marcou a volta do tradicional clube à primeira divisão do futebol do Rio de Janeiro.



Assista também aos documentários: 
Paixão Rubra  
O Outro Lado da Bola

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

A igreja dos escravos

No interior do Maranhão, um neto de escravos apresenta aos turistas a igreja construída pelos negros para rezarem suas missas no tempo da escravidão. A travessia no mar revolto que separa Alcântara de São Luís, no entanto, é feita em barcos precários, o que torna o programa um desafio.



Leia:
Por dentro do Maranhão

domingo, 20 de agosto de 2017

Chacrinha póstumo

Divulgação

A idade é fogo. Não sou tão velho quanto esse chavão mas a cada dia sinto com mais força que o tempo passa. Pode ser ao me deparar com as rugas na frente do espelho (por isso nunca olho com os óculos de leitura), na falta de fôlego para praticar esportes (inclusive o de alcova), ao ouvir os estalos implacáveis das articulações ou até vendo televisão.

Isso mesmo, vendo TV. Outro dia, o zapear me colocou frente a frente com um programa do Chacrinha, já na fase da Globo, sua última emissora. Assistindo àquela zorra pré-histórica, me dei conta de que quase todo mundo ali já havia morrido. A começar pelo apresentador, o Velho Guerreiro, que deu sua última buzinada em 1988. Entre as suas atrações naquele dia, estava o cantor Agepê (morto em 1995). No júri, o cabeleireiro Silvinho (1989), Jece Valadão (2006), Elke Maravilha (este ano). Isso sem falar no ajudante de palco, o Russo, que também morreu em 2017.

Adesista que era, Chacrinha promovia na época o então presidente José Sarney, aquele da inflação a 80% ao mês, hoje um cadáver político. Nem os anunciantes da atração escaparam, já que as empresas do merchandising não existem mais.

E não me dei ao trabalho de especular sobre as garotas que se espremiam no auditório. Claro, eram jovens mas a "indesejada das gentes", como dizia o finado Manoel Bandeira (ido em 1968), não escolhe idade. Poeta ou político, rico ou pobre, atleta ou sedentário, homem, mulher, gay, ninguém escapa. Não deixa de ser um consolo.

Só é de se estranhar que no intervalo do programa reprisado não houvesse um único anúncio de plano funerário...

Ah, o nome do canal?

Viva.


LEIA TAMBÉM:


Ao terminar esta crônica fico sabendo que hoje morreu Jerry Lewis, que tanto me deu um dos maiores prazeres da vida, o riso.





sábado, 12 de agosto de 2017

Por dentro do Maranhão

Cinco horas viajando pelo interior do Maranhão rumo aos deslumbrantes lençóis, paisagem única no planeta e que atrai turistas do mundo inteiro. Mas dessa maravilha vou falar nos próximos posts. Primeiro, o Brasil que encontrei pelo caminho. Um povo extremamente pobre, com a desesperança no olhar.


Foto: Marcelo Migliaccio

Foto: Marcelo Migliaccio

Um chinês ou japonês poderia dizer que os maranhenses têm todos a mesma cara. De fato, o tipo físico moreno predomina. É um povo cafuzo. O triste olhar também. E pensar na opulência da família Sarney, com suas propriedades infinitas e suas pensões milionárias. A fortuna calcada na fome e na falta de oportunidades para a maioria. O que mais choca é a dificuldade que muitas pessoas têm de se expressar e de compreender. 

Foto: Marcelo Migliaccio

Claro, mulheres são mulheres em qualquer lugar.

Foto: Marcelo Migliaccio

E a mais antiga arte humana continua, também aqui, aproximando corações.

Foto: Marcelo Migliaccio

A bagunça urbana me lembrou Caruaru ou Duque de Caxias.

Foto: Marcelo Migliaccio

Foto: Marcelo Migliaccio

Com tanta carne dando sopa nos açougues sem refrigeração de Morros...


Foto: Marcelo Migliaccio


 ... não é estranho que os urubus passeiem pelas ruas contemplando artigos de luxo. 



Foto: Marcelo Migliaccio

O ônibus escolar cumpre sua missão com honras mas sem glamour.

Foto: Marcelo Migliaccio

E a beleza desfila se protegendo do sol abrasador do inverno maranhense.

Foto: Marcelo Migliaccio

Hora de partir para Barreirinhas, próxima parada.

Foto: Marcelo Migliaccio