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quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Bem-te-vi, rei do Brasil

Até os oito anos, eu nunca tinha visto um bem-te-vi. Morava numa rua movimentada e poluída onde só apareciam rolinhas e pardais. E mesmo se essas duas espécies ditas menos nobres cantassem, eu não ouviria, porque o barulho dos carros e ônibus, já naquela época, final dos anos 1960, emudecia os pássaros por ali. Só quando me mudei para um lugar mais tranquilo conheci esse que seria o pássaro mais presente na minha vida. E acredito que na vida de todos os brasileiros porque por todos os lugares que viajei, de norte a sul deste país gigantesco, o bem-te-vi estava sempre presente.


Foto: Marcelo Migliaccio

De tanto observá-lo, fosse na Floresta Amazônica, na Mata Atlântica carioca, na cinzenta São Paulo, no Planalto Central ou nas cachoeiras de Foz do Iguaçu, comecei a me informar sobre esse pássaro dominante. Não é grande como o sabiá, não é delicado como o beija-flor, não é belo como o tiê-sangue, não canta como o canário... então por que seria ele o rei do Brasil?

Foto: Marcelo Migliaccio

Logo de cara, descobri que o bem-te-vi é o único dos passarinhos que enfrenta o poderoso gavião.

Foto: Marcelo Migliaccio

E não é só isso. Os sagüis, praga estrangeira que prolifera em todo o Brasil e come os ovos de todas as espécies de passarinhos, não encontra boa vida quando topa com bem-te-vis. Já vi várias vezes os amarelos dando rasantes sobre os fios de alta tensão no encalço de micos que fugiam desesperadamente.

Foto: Marcelo Migliaccio

O bem-te-vi também se destaca pelo seu canto potente, onomatopéico. A plenos pulmões, eles anunciam o próprio nome aos quatro ventos. Acho que a primeira coisa que eu ouvi quando mudei para o bairro da Urca, naquela inesquecível tarde do verão de 1971, foi o grito do bem-te-vi. Sim, porque esse passarinho não canta, ele berra. É uma hegemonia conquistada literalmente no grito. Não por acaso, na taxonomia, ele pertence à família dos Tiranídeos!

Foto: Marcelo Migliaccio

Seu nome científico é Pitangus sulphuratus, termo derivado do idioma tupi e que quer dizer papa-moscas amarelo. Aliás, sua dieta variadíssima pode ser a razão desse enorme poder. É capaz de devorar centenas de insetos num só dia mas também come ovos e até filhotes de outros pássaros. Também se alimenta de minhocas, pequenos crustáceos, peixes, girinos e carrapatos de bovinos e equinos. Fora frutas, é claro.

Foto: Marcelo Migliaccio


Muitos passarinhos têm cara de mau mas o bem-te-vi exagerou na caracterização. Usa uma máscara negra, que remete aos ladrões de histórias em quadrinhos, aos vilões de seriados antigos. Não é exagero, porque já foi visto até botando urubu para correr.

Foto: Marcelo Migliaccio

Então, quando você vir um bem-te-vi, é bom fazer uma reverência a essa potência da natureza, a esse símbolo do Brasil. Não só pelo seu valor intrínseco mas porque é sempre bom ficar bem com alguém tão forte e temperamental.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Natal em agosto

Bem cedo, o sol já força passagem por entre as nuvens.

Foto: Marcelo Migliaccio

Os personagens locais aparecem para o café da manhã. Alguns são belos e glamourosos. Eu sabia que o cacto dava flor mas não fruta. Pitaia? Na zona sul do Rio é a última moda. Aqui é de graça.

Foto: Marcelo Migliaccio

Bem, outros personagens não tão chiques no desjejum....

Foto: Marcelo Migliaccio

A capital do Rio Grande do Norte está acordando. Bem-vindo à maior produtora mundial de sal e de petróleo em terra.

Foto: Marcelo Migliaccio

 Ah, maior produtora do mundo de camarão também!

Foto: Marcelo Migliaccio

São muitos milhões, muitos, ainda mais se contado o dinheiro trazido pelos turistas, que até de jangada andam.


Foto: Marcelo Migliaccio

Natal é um paraíso se você tem dinheiro para gastar.

Foto: Marcelo MigliaccioFoto: Marcelo Migliaccio







A gastronomia é farta, vai de lagosta até coxinha de bode. Ao gosto do freguês. 

Foto: Marcelo Migliaccio Foto: Marcelo Migliaccio

Eu disse que o lugar é maravilhoso para quem tem grana. Quem não tem... basta olhar o posto de saúde:

Foto: Marcelo Migliaccio

E os sinais de trânsito...

Foto: Marcelo Migliaccio

Como cantava Tim Maia, "e na vida a gente tem que entender/que um nasce pra sofrer/enquanto outro ri"... ainda mais no Brasil.

Foto: Marcelo Migliaccio Foto: Marcelo Migliaccio

Quem ainda não percebeu isso, aproveita.

Foto: Marcelo Migliaccio

Sem se importar que na areia das lindas praias apareçam moradores estranhos.

Foto: Marcelo Migliaccio

Todos vaidosos, afinal aqui é um lugar para ver e ser visto.

Foto: Marcelo Migliaccio

Nas dunas de Natal tem até dromedário. Um gringo trouxe dois casais e já são mais de 20. Alugados para turistas tirarem fotos (R$ 50,00) ou darem um passeio de dez minutos (R$ 100,00).

Foto: Marcelo Migliaccio Foto: Marcelo Migliaccio

Claro, nem todo empreendimento turístico deu certo.

Foto: Marcelo Migliaccio

Mesmo diante das maravilhosas falésias.

Foto: Marcelo Migliaccio

Do antigo forte dos Reis Magos...

Foto: Marcelo Migliaccio

Ou do mais famoso cartão postal da cidade, a duna do careca.


Foto: Marcelo Migliaccio

Natal é mais uma maravilha do Nordeste brasileiro, possível capital do país quando o sol da democracia se eclipsar para sempre e nos dividirmos em duas nações, a dos coxinhas e a dos mortadelas. 


Foto: Marcelo Migliaccio











sábado, 24 de agosto de 2019

A Amazônia por trás da fumaça

Não dá para saber se o homem está invadindo a floresta, ou se a floresta está devorando o homem.

Foto: Marcelo Migliaccio

E lá estava eu, diante do pulmão do mundo. Na Amazônia, tudo é superlativo.

Foto: Marcelo Migliaccio

Até as nuvens no céu...

Foto: Marcelo Migliaccio

E, claro, a falta de educação de um povo que, quando não queima tudo insuflado por um presidente esquizofrênico, deixa sua marca indelével em todos os cantos do paraíso.

Foto: Marcelo Migliaccio                           Foto: Marcelo Migliaccio

Verdade que o ser humano também já fez coisas lindas por aqui, como o Teatro Amazonas, o mais bonito que eu já vi.

Foto: Marcelo Migliaccio

Por fora e por dentro. O camarim é de filme... digno dos grandes astros e estrelas que já pisaram naquele palco, como a bailarina Margot Fonteyn, que deixou de lembrança suas sapatilhas flutuantes.

Foto: Marcelo Migliaccio                   Foto: Marcelo Migliaccio

Mesmo sem espetáculo, sentar nessa platéia é um prazer.

Foto: Marcelo Migliaccio

Mas o show da natureza supera qualquer realização humana. Como no encontro das águas dos rios Negro e Solimões, que não se misturam por causa das densidades diferentes.

Foto: Marcelo Migliaccio

Ou o desabrochar da flor da vitória régia, aquela planta aquática que, como a aprendemos no livrinho de ciências do primário, é capaz de suportar o peso de um pequeno indiozinho.


Foto: Marcelo Migliaccio
 Foto: Marcelo Migliaccio


Só não se empolgue com a beleza, fique atento, porque tem sempre alguém de olho em você

Foto: Marcelo Migliaccio

Festa estranha...

Foto: Marcelo Migliaccio

Com gente esquisita.

Foto: Marcelo Migliaccio

Até quando não estão te olhando, você pensa que estão.

Foto: Marcelo Migliaccio


As formas geométricas com que o acaso, ou o criador, nos presenteou.


Foto: Marcelo Migliaccio


Lógico que a miséria também tem seu lugar, ou não estaríamos no Brasil.


Foto: Marcelo Migliaccio

Mas tem lugar para todo mundo se divertir...

Foto: Marcelo Migliaccio

É só estender sua rede e dar uma pirueta.

Foto: Marcelo Migliaccio

Bem-vindo à Praia de Ipanema amazonense!

Foto: Marcelo Migliaccio

Vazio mesmo só na Arena da Amazônia, construída para a Copa do Mundo e abandonada depois. O futebol no estado não atrai muita gente. Basta dizer que a decisão do campeonato dos bairros reuniu mais gente que a final do campeonato amazonense. Aliás, a coisa mais difícil é encontrar uma camisa dos times locais para comprar. A turma aqui só veste Barcelona, Manchester, Real Madrid, Flamengo, Corinthians...

Foto: Marcelo Migliaccio

Depois de alguns dias na Amazônia, a imagem que fica é essa: uma cidade onde o verde toma conta de tudo. Enquanto os incendiários deixarem.

Foto: Marcelo Migliaccio