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quinta-feira, 30 de novembro de 2017

O escravo sem dono

Ontem, eu vi um escravo sem dono. Vagava pela ciclovia em meio à gente de bem que se exercitava diante do maravilhoso Pão de Açúcar. Todos nós bem dormidos e bem alimentados, nos preparando para mais um dia de trabalho ou de lazer. E aquele homem negro, que nem 30 anos tinha, andando por ali sem rumo, não vivendo a única vida que terá.

Aos que passavam, o escravo sem dono pedia dinheiro para "um café". A maioria sequer olhava para ele. Alguns ainda diziam que não tinham, com medo visível no olhar. Numa das mãos, aquele homem de pele negra carregava uma lata de cerveja quente. Não porque fosse um alcoólatra mas provavelmente por ter sido a única coisa que encontrou no lixo para colocar no estômago. Mal sabe ele que a fortuna do dono da Ambev daria para comprar 40 bilhões de pães com manteiga.

A escravidão não muda. E, se ela é desumana, indecente, pior ainda é ser um escravo sem dono.

"Quem não trabalha, não come"...

"Não existe almoço grátis"...

O capitalismo tem muitas verdades repetidas à exaustão até virarem mentiras deslavadas. Capitalismo, teu nome é egoísmo e insensibilidade.

Jogamos todos no time do Os Outros que se Danem Futebol Clube. Mas o Natal está chegando, faremos juras eternas de fraternidade que vão virar abóbora logo depois da meia-noite do dia 25 de dezembro.

E aquele homem, sem presente e sem futuro, continuava vagando sem rumo pela nossa quarta-feira ensolarada. Sujando a paisagem da gente de bem que reclama da "esmola" do Bolsa-Família. Que diz que os programas sociais são incentivo à vagabundagem.

O escravo sem dono desfilava para nós a sua fome em plena ciclovia. Seus iguais em sofrimento estão por toda parte, no Rio e em outras cidades do país que assassinou sua democracia sem dó nem piedade. Que trocou seu povo por malas de dinheiro.

Não, nem um trocadinho. Tudo que as pessoas tinham para aquele homem eram olhares fugidios de reprovação, nojo, censura por ele estar ali estragando a manhã feliz daqueles que o sistema ainda não cuspiu fora.

Para a maioria, é um vagabundo, um cachaceiro, um ladrão. Melhor manter distância. Seu cheiro de homem sujo incomoda. Um candidato nazista que acabe com esse estorvo seria bem-vindo para muitas daquelas pessoas tão cheias de méritos.

E ele só quer comer alguma coisa.

Um homem faminto aceita tudo. Aceita até trabalhar sem vínculo empregatício, por R$ 4 a hora, só quando o patrão precisar. Tudo que ele precisa é colocar alguma coisa no estômago. E não faltam empresários de bem para se aproveitar do seu desespero. Mas aquele na ciclovia era um escravo sem dono e, portanto, sem comida.

E ele faria qualquer coisa por comida. Desentupiria esgoto, recolheria lixo hospitalar, qualquer coisa... mas nem isso lhe ofereceram.

Não há trabalho. Não há mais sequer a dignidade mínima de um programa social que lhe mate, pelo menos, a fome.

Então só lhe resta sujar a paisagem dessa gente toda de bem. Vagar pela sua vida sem rumo.


Foto: Marcelo Migliaccio





  

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Ciao, Itália

A Itália ao vai à Copa porque não teve competência. Não lamento. Nem um pouquinho. Nunca vi a Itália jogar um futebol bonito. Seus jogos são sempre feios, seu campeonato é chatérrimo e, se tirarem os estrangeiros, fica pior ainda.


Quem foi o grande craque italiano? Baggio? Conti? Pirlo? Piada. Pra mim, foi Baresi, um defensor. Os melhores atacantes que vi com aquela camisa azul foram Gighi Riva e Gianni Rivera. Aliás, tirando aquele emocionante 4 a 3 na Alemanha em 1970, quando esses dois últimos brilharam, a Itália nunca fez nada de extraordinário em Copas do Mundo. Em respeito aos meus antepassados, nem vou falar na derrota para a Coréia do Norte em 1966.

Ok, ganharam quatro vezes o torneio, mas, insisto, quem foram os craques, quais foram seus grandes jogos? 

Italianos não têm a técnica de argentinos e brasileiros nem a aplicação dos alemães. O que esperar de uma escola futebolística cujo forte é a defesa?

Teve o 3 a 2 no Brasil em 1982, mais por teimosia do nosso técnico, que foi incapaz de segurar o resultado favorável por três vezes. Os italianos tinham uma excelente defesa  mas não um timaço. Craques tinha o Brasil e isso nos levou a continuar atacando em vez de garantir o empate e a classificação. O herói daquele jogo, Paolo Rossi, desapareceu logo depois.

A Holanda também não vai à Rússia. Fora o time de 1974 _ obra do acaso e não do incensado treinador Rinus Michels _ é outra que sempre foi medíocre. Disseram ao mundo que Michels inventou o carrossel holandês, mas na verdade ele nem teve tempo de treinar o time. 

A correria holandesa assustou os adversários naquela Copa, principalmente os não-europeus. Colocaram Brasil, Argentina e Uruguai na roda mas empataram em 0 a 0 com a Suécia e perderam a final para a Alemanha. Seu quase sucesso foi resultado do salto no preparo físico dado a partir de 70 e não de um esquema tático inovador. Michels não conseguiu nada no futebol depois daquela Copa.



A maior façanha da Itália foi vencer a Alemanha em 1970, no jogo mais emocionante de todas as Copas do Mundo.



quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Como queres Caetano?

Vamos parar de cobrar perfeição do Caetano Veloso? Vamos parar de trará-lo como guru, como timoneiro da nau dos insensatos, como a única cabeça lúcida do Brasil?

Se ele diz algo com que concordamos, é um gênio. Se discordamos, é um escroto. Nem um nem outro, claro.

Caetano é só um cantor e compositor. Pra mim, junto com Chico Buarque, Gilberto Gil, Raul Seixas e Renato Russo, forma o time de ouro da música brasileira. Mas é só isso. Ele não é sociólogo, historiador nem especialista em tudo. Muito menos dono da verdade. 

Vamos ouvir as músicas do Caetano, transcender com sua poesia maravilhosa e brasileiríssima. Só isso.

Uma coisa é o artista, outra é o cidadão, com seu CPF e suas opiniões políticas.

Deixe o Caetano falar as coisas legais e as besteiras dele. 


Falemos nós as nossas.

sábado, 28 de outubro de 2017

O povo-ameba

Cada vez me convenço mais que o golpe foi apenas para tomar do Brasil o pré-sal, por isso esses entreguistas corruptos estão firmes no poder. Todo o resto é perfumaria, o fim da aposentadoria, dos direitos trabalhistas... são meros bônus para os golpistas, digamos, uma gratificação ao empresariado que elegeu e mantém a corja.
A perseguição sistemática e avassaladora ao PT visa aniquilar o último reduto de resistência nacionalista organizada.


Os absurdos da mídia, do parlamento e do Judiciário têm um só e grande avalista: os Estados Unidos, nosso pretenso colonizador.
Um povo emburrecido por décadas de lavagem cerebral assiste a tudo sem esboçar qualquer reação, vício de inércia crônica adquirido por exposição continuada à TV.


Agora, o povo-ameba começa a dar adeus ao pré-sal. Adeus a 368 bilhões na educação e na saúde nos próximos 30 anos. Agora ele vão para os cofres das sete irmãs e para os bolsos dos empresários que financiaram a eleição desse Congresso golpista.

Mas a imprensa diz que é um ótimo negócio pra você, panaca.


É isso aí. Você botou camisa da seleção e foi pra rua gritar "fora PT". Shell, Esso, Donald Trump e companhia agradecem.
Menção honrosa pra José Serra, que na primeira hora do golpe correu pra entregar nosso petróleo aos gringos.

Se Lula fosse eleito, anularia essa pouca vergonha. Mas vão condená-lo sem provas. E você, que vai continuar sem hospital e sem escola, não vai fazer nada. Ameba sois, e ameba não precisa de nada, só precisa ser ameba.

Ameba colonizada e teleguiada é o que sois.

Foto: Marcelo Migliaccio

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Espelho meu

O problema não é o Temer. São os milhares de Temer que andam pelas ruas do Brasil.

O problema não é o Cunha, são os milhões de Cunhas que avançam sinas vermelhos todos os dias mesmo quando há pedestres esperando para atravessar a rua.

O problema não é o Gilmar Mendes. São os muitos, muitos Gilmar Mendes que estão por aí levando cachorro pra sujar a areia da praia.

O problema não é o Aécio. São os Aécios que a qualquer hora param seus carros em fila dupla ou em vagas de idosos, gestantes e deficientes.


O problema não é o empresário corrupto que paga propinas de milhões. São seus aprendizes que subornam o guarda, aceitam pagar menos se o médico não dá recibo ou só dão nota fiscal se o consumidor pedir.

O problema não é o Dória. É a turma toda que acha que pobre não precisa comer arroz, feijão e carne.

O problema não é o Bolsonaro. São seus soldadinhos dizendo em cada esquina que tem que cortar a mão de ladrão e que quando se mata um menino de rua evita-se problemas futuros.

O problema não é o Ronaldo Caiado. É seu rebanho que repete por aí que o Bolsa Família incentiva a vagabundagem e não o estudo.

O problema não é a bancada evangélica. São os 35% da população que acreditam que só Deus, e não a política, pode fazer a vida melhorar.


O problema não são as malas de dinheiro do Geddel. São os pilantras anônimos que continuam honestos por absoluta falta de propostas indecentes.

O problema não é a televisão. É a massa que ela desenforma, emburrece e embrutece.

Quem sustenta as coisas como estão somos nós, brasileiros.

Foto: Marcelo Migliaccio

terça-feira, 10 de outubro de 2017

O porquê das coisas

Na janela do ônibus lotado, o garoto pobre cutuca o pai.

_ Quem é aquele homem? _ pergunta, apontando um cara que passa num Porsche conversível.

_ Um homem muito rico?

_ Tô vendo. Ele anda num carrão. Deve morar numa mansão  de frente pra praia...

_ Uma puta mansão... um puta carro...

_ Será que ele tem uma puta mulher, pai?

O pai pensa mas não fala: uma mulher puta.

_ Mas por que ele vive tão bem e nós tão mal?

_ Porque ele tem um papel.

_ Que papel? Eu também tenho papel, no meu caderno da escola.

_ Mas o papel dele diz que ele é dono.

_ Dono de que?

_ De alguma coisa, ou de várias coisas. De uma fábrica, por exemplo... de um grande jornal... de uma emissora de TV... de uma mina de nióbio... de muitas casas, muitos apartamentos...

_ Que que é nióbio, pai? 

_ Um troço que fica debaixo da terra e vale muita grana.

_ Mas o que ele fez para ser dono da fábrica, do jornal, da TV, da mina e das casas?

_ Nada.

_ Nada!? Não trabalhou?

_ Não, filho, quem trabalha não tem dinheiro pra comprar tudo isso. Você não vê como eu trabalho? Ele apenas nasceu filho do antigo dono.

_ Você não é dono de nada, pai?

_ Fica quietinho, fica.

_ E o pai dele, o que fez para ser dono?

_ Porra nenhuma. Deve ter dado um golpe, matado alguém.

_ Sério, pai?

_ Não sei qual, o que mais tem é golpe. Talvez ele tenha subornado alguém para conseguir a posse da fábrica, talvez tenha feito uma tramóia com um dono de cartório... talvez tenha recebido dinheiro do exterior para comprar e facilitar as coisas para os gringos... ou talvez tenha ganho o jornal ou a TV para favorecer uma corrente política nos noticiários... talvez tenha matado os índios que viviam na reserva de manganês.

_ Quanto golpe, pai! E por que ele não foi preso?

_ Porque esse é o país do golpe.

_ Por que você não dá um golpe, pai?

_ Porque eu não sou dono de nada e se fizer isso vou preso.

O menino fixa os olhos na janela. Olha os carros que passam pensativo.

_ Talvez ele seja dono desse ônibus. E daquele ali, e daquele outro lá... né, pai?

_ E daquela farmácia também.

_ E quem disse que o papel dele vale tudo isso?

_ O juiz, ora.

_ E por que ninguém tira o papel da mão dele e dele e rasga?

_ Porque é contra a lei, a polícia prende e o juiz condena.

_ E quem fez a lei?

_ Os amigos dele.

_ Pai...

_ Quê?

_ Nada.

Foto: Marcelo Migliaccio