Translate

sábado, 29 de agosto de 2020

A gente é que complica

 Não há mal que para sempre dure, nem bem que nunca se acabe.

Entendendo e aceitando isso, a vida, que se resume ao momento presente, torna-se maravilhosa. 

Não se deve comparar o agora com o que já passou, nada será como antes. Nem projetar o futuro tendo como modelo o presente, poderá ser melhor ou pior, jamais igual.


quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Um pouco de Brasil para iniciantes

A elite brasileira, a mais egoísta do mundo, dá a quem nasce na favela somente três opções:

A primeira é limpar privadas ou carregar peso das oito da manhã às cinco da tarde. Acabar a vida inválido pelo esforço e sem dinheiro nem para comprar remédios.

A segunda é se tornar bandido e conseguir viver com conforto um mês, um ano, ou um pouco mais até ser fuzilado pela polícia ou por um grupo rival. Isso se não for preso e padecer por muito tempo no inferno na Terra que são as cadeias brasileiras.

A terceira opção é se afundar numa cracolândia até virar um zumbi e morrer no que se tornou uma opção de suicídio convidativa nos dias atuais.

Quando apareceu um governante que deu aos jovens das periferias, pela primeira vez em 502 anos, uma alternativa diferente dessas três e digna, a elite brasileira tratou de difamá-lo e condená-lo sem provas, como a dizer aos pobres: nunca mais ousem por os pés fora da senzala.

Foto: Marcelo Migliaccio





segunda-feira, 6 de julho de 2020

Tudo como dantes

Voltaram as filas, os engarrafamentos, a poluição do ar, a sujeira nos rios, o esgoto no mar. De novo barulho, fumaça, tensão no ar. As lojas voltaram a abrir, os bares estão lotados, os restaurantes encheram, as bocas-de-fumo... essas nunca fecham. Os empresários que tiveram fôlego já recuperam a mais valia e logo terão de volta os milhões para depositar no exterior.

Os pobres ficaram ainda mais pobres, experimentaram a fome mais aguda, arriscaram-se nos ônibus e trens lotados. Os que sobreviveram estão de novo com suas banquinhas de camelô nas calçadas esperando os cassetetes da polícia. Quem não perdeu o emprego segue espremido na bruma de coronavírus do transporte público, ganhando a miséria de sempre, suficiente para esteja de volta à masmorra no dia seguinte.

A corrupção não tirou férias, a impunidade não cumpriu quarentena. São imortais, onipresentes. 

A mídia, o presidente fascista, os imperadores evangélicos, os doutrinados de farda e os tubarões do empresariado celebram seu mais novo acordo. Se todos podem sair ganhando, por que não?

Para eles, até que a pandemia veio bem a calhar. Menos aposentados para pagar, menos pobres mas ainda um número suficiente para que aceitem trabalhar apenas pra poder comer. Muita gente apavorada diante da televisão; igrejas e bares cheios de pessoas desesperadas... bendito vírus.

Aliás, de novo mesmo só ele, o micróbio mortal flutuando invisível e escolhendo a dedo quem vai tirar de campo. Eu? Você? Um vizinho? Um parente? Surpresa. "Deus no controle", dizem por aí...    

Quem eu sei que está no controle são os mesmos de sempre.

Era a hora de mudar nosso modo de vida e o sistema mundial. Mas claro que as grandes corporações, seus lacaios e suas trombetas não permitiriam. 

Tudo como dantes no quartel do capeta.


Foto: Marcelo Migliaccio

terça-feira, 23 de junho de 2020

"Obrigado"

Hoje acordei sentindo o frio da quarta manhã do inverno. Eram pouco mais de cinco e meia e, depois de parar por alguns instantes diante da gaveta para decidir que agasalho colocaria para começar o dia, cheguei na janela pela primeira vez. Chamou-me até ela o barulho de rodinhas arrastadas pelo asfalto.

Foi quando vi um homem negro que deveria ter mais de 40 anos embora aparentasse 60, certamente pelo sofrimento a que foi submetido neste país que renega seus filhos. Ele parou perto de um poste onde a gente de bem do meu bairro abandonara alguns sacos cheios de lixo e começou a revirá-los. Ver pessoas catando lixo para mim, infelizmente, é normal mas a finura da camisa que ele vestia naquela brisa gelada e cortante do inverno cortou também meu coração já tão retalhado por ser um coração de brasileiro.

Assoviei uma, duas vezes. Ele olhou primeiro para uma árvore, acreditando ser algum passarinho. Invisível que é, não que pudesse ser algum outro ser humano a chamá-lo. Assoviei mais e ele enfim olhou para a minha janela. Eu pedi com um gesto que ele esperasse e fui procurar em alguma gaveta um casaco ou camisa de manga para aliviar a agrura daquele homem. Foi quando escutei uma palavra vinda lá de baixo:

_ Obrigado!

Só achei uma blusa de pijama de flanela. Não, ele certamente não se incomodaria de andar com uma blusa de pijama pelas ruas se ela o aquecesse. Procurei outras roupas mas, como estou sempre doando, conservo só o essencial.

Cheguei na janela para jogar-lhe a única coisa que achei e lembrei que no banco de trás do meu carro estão várias peças de roupa que foram do meu pai e que eu juntei para distribuir nas ruas. A coisa mais fácil no Rio de Janeiro hoje é encontrar pessoas que precisam muito de ajuda. Destravei o carro com a chave magnética da janela mesmo e pedi que ele abrisse a porta de trás e pegasse tudo que encontrasse lá. Joguei também a blusa de flanela dentro de um saco plástico. 

Ele pegou várias camisas, meias e bermudas no carro, virou-se para cima e me disse com uma sinceridade comovente:

_ Obrigado, vou levar para mim e para os meus filhos.

Caminhou em direção ao seu carrinho de mão e virou-se ainda mais uma vez para a minha janela e repetiu:

_ Obrigado.

Seu isqueiro de plástico caiu do bolso quando ele continuou a caminhar. Ele agachou-se, pegou o isqueiro e logo desapareceu na rua deserta da pandemia.

Não, não estou nem um pouco orgulhoso de mim, não estou feliz por ter feito "uma boa ação", nem achei que ganhei meu dia. Não estou contando vantagem, ao contrário. A vida é uma só. Aquele homem só terá essa vida. Uma vida roubada pela ganância e o egoísmo dos verdadeiros donos do mundo, os donos do dinheiro e do poder político, os milionários, os bilionários que não conseguiriam gastar 10% do que acumularam em sua mesquinharia nem se tivessem dezenas de vidas. Mas eles _ como eu e aquele pobre homem _ só têm essa vida.

Foto: Marcelo Migliaccio




sábado, 6 de junho de 2020

O último capítulo



Eu devia ter uns nove ou dez anos quando meu pai chegou em casa com um tremendo machucado na canela. O ferimento era feio, daqueles que a gente sente dor só de olhar. Perguntei o que havia acontecido e ele contou que se machucara durante a gravação de uma cena, deixando escapar com um certo orgulho que, mesmo assim, não tinha interrompido a gravação. Suportou a dor até que o diretor dissesse corta. Dias depois, por acaso, ele estava ao meu lado quando a referida cena foi ao ar. Era algo banal, em que o personagem dele, Xerife, subia correndo na capota da popular (na época) Camicleta, uma geringonça cheia de ferros velhos pendurados. Ele me mostrou exatamente o momento em que havia arrebentado a canela e eu fiquei surpreso. Já existia videotape na televisão e nada impediria que ele parasse a gravação, não haveria prejuízo e muito menos reclamações. Mas ele, focalizado de costas e à distância, suportou a dor, imóvel, até o esdrúxulo veículo sair de quadro.

Naquele momento, Flávio Migliaccio me ensinou o que é amar e respeitar uma profissão.

Mais ou menos na mesma época, outro dos meus mestres, Raul Seixas, lançou a música A lei, em que dizia que todo homem tem direito de morrer como e quando quiser. Jamais eu imaginaria que quase 50 anos depois meu pai interromperia deliberadamente sua própria vida, numa decisão filosófica que eu tenho o dever e a obrigação de respeitar. Flávio, assim como Raul _ que também decidiu o momento de morrer deixando de tomar os medicamentos para diabetes _ dedicou sua obra a alimentar o sonho de uma sociedade diferente da nossa. Seu personagem preferido, o Tio Maneco, incentivava as crianças a respeitarem a natureza, serem pacifistas e a se interessarem mais pelo saber do que pelo consumo. Tanto o compositor baiano quanto o ator paulista se frustraram.

Numa de nossas últimas conversas, eu tentava, mais uma vez em vão, motivar aquele homem cansado, desiludido com a avalanche fascista que toma conta do planeta. O mundo está um lixo, ele me disse. Dias depois, ou antes, não me lembro, ele me deu outra razão para justificar seu desejo de sair definitivamente de cena: Já não escuto direito, minha vista está falhando, a memória também. Daqui para frente só vai piorar. Já vivi demais. Oitenta e cinco anos. Chega".

Fiz o que pude. Levei-o a quatro psiquiatras, mas ele não aguentou as bombas anti-depressivas. Os psicólogos, ele sempre recusou. Dizia que passaria horas e horas falando e o profissional jamais conheceria Flávio Migliaccio melhor que o próprio. Usei todos os meus argumentos mas meu pai não queria mais jogar. Era uma decisão tomada, acho que muitos anos antes daquele domingo em que ele disse que daria uma caminhada pelo bairro e sumiu. Como não voltava, saí pelas ruas à sua procura. Como a ausência se alongava, liguei para o sítio, distante 84 quilômetros de onde eu estava.

O caseiro confirmou. Meu pai havia chamado um táxi para ir até lá escrever a última página de um roteiro cujo final nem eu nem minha mãe, de 84 anos, pudemos modificar.

Abusado num seminário e expulso por resistir ao assédio do padre, Flávio desacreditou de Deus para sempre. Sua última peça mostra-o questionando o Altíssimo, com quem se encontra pessoalmente em seu quarto durante uma madrugada. Noticiado seu suicídio, alguns evangélicos correram para atribuir o fato àblasfêmias” ditas por ele durante o espetáculo teatral. Felizmente foram poucos. A grande maioria das pessoas, como eu, respeitou a decisão dele. Houve até quem confessasse invejar sua coragem. Descendente de italianos e fã do cinema neo-realista, Flávio fez de sua morte um protesto, um ato político.  Dramático, preferiu a corda no pescoço ao coquetel de pílulas. 

Só não posso concordar com uma frase escrita por ele na carta de despedida, a de que seus 85 anos não valeram de nada. Para muita gente, e especialmente para mim, cada olhar, cada sorriso e cada lágrima foram fundamentais. Do meu nascimento até última vez em que o vi naquela tarde de domingo, sempre me orgulhei do meu pai. 

Mesmo ele tendo saído sem se despedir de mim. Passou por onde eu estava na sala sem me olhar, bateu levemente duas vezes nas costas da minha mãe e disse, já consciente do que iria fazer:

_ Eu vou andar, tchau, tchau.