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domingo, 19 de junho de 2016

Fósseis e fossas

Big Jato, novo filme de Claudio Assis, conta parte da história do jornalista Xico Sá, entre a infância e a adolescência, numa pequena cidade do interior nordestino. Assis, autor do excelente Febre do Rato, desta vez se superou. Graças a ele e a outros poucos, o cinema brasileiro não se resume às comédias idiotas, aos filmes de violência apelativa ou as dramas que mais parecem comerciais de TV. Nos filmes de Claudio Assis, há verdade, silêncios, pausas...

Xico ajudava o pai a limpar fossas num velho caminhão FNM. Ao trabalho degradante, encontrava oposição no tio, DJ da pequena emissora de rádio local. Pai e tio são interpretados por Matheus Nachtergaele, que merece todos os prêmios de melhor ator pelo show à parte que dá. E como é bom ver Marcélia Cartaxo novamente exibindo seu talento fenomenal.

Xico Sá decidiu não virar fóssil, saiu pelo mundo e tornou-se um dos jornalistas mais atuantes e competentes da nossa geração. Começou a se destacar durante a ascensão e queda de Fernando Collor, quando era um dos poucos a manter um canal de comunicação com o famigerado PC Farias. Graças em muito ao tio, não aceitou o destino de tantos outros. E, talvez pelo ofício que tanto bullying lhe causou na escola, tem hoje um dos olhares mais aguçados sobre a cagada que fizeram com a democracia brasileira.


terça-feira, 14 de junho de 2016

Cadê a esquerda carioca?

Em 1982, Lysâneas Maciel, candidato do PT ao governo do Rio, teve pouco mais de 150 mil votos. A eleição acabou vencida Por Leonel Brizola depois de desbaratada a tentativa de fraude da empresa Proconsult na contagem de votos. O esquema, que incluía divulgação de números manipulados pelas Organizações Globo, daria a vitória ao candidato Moreira Franco, do PDS, braço político da moribunda ditadura militar, acabou fortalecendo as correntes oposicionistas do estado.

A vitória de Brizola deixou esperançosos os cariocas de esquerda. De fato, o Rio elegeu bancadas significativas de oposição ao governo federal mas, depois do próprio Brizola, considerado por muitos um caudilho centralizador, um líder carismático que não contribuía para organização das massas, nunca mais o estado apresentou uma liderança esquerdista de projeção nacional.

Boa parte daquela geração que votou pela primeira vez em 82 permanece fiel ao ideário esquerdista até hoje. É fácil identificar entre os cariocas de cerca de 50 anos muitos que agora se opõem ao golpe jurídico-midiático-legislativo que afastou Dilma Rousseff da Presidência. Esse eleitorado, no entanto, sente-se órfão. Não há no Rio uma única liderança da envergadura de Lula, Eduardo Suplicy, Fernando Haddad, para citar expoentes da esquerda paulista, ou do gaúcho Olívio Dutra, por exemplo.

Tem sido difícil até mesmo nas eleições para a prefeitura da capital e para o governo do estado do Rio apostar num candidato de esquerda que tenha chances de vitória. O PMDB de Sergio Cabral e Eduardo Paes instalou-se nos mais altos cargos executivos há décadas, mantendo a tradição que vem do velho MDB do cacique Chagas Freitas. Esse reinado peemedebista, avalizado incondicionalmente pela emissora líder de audiência, só foi interrompido por Brizola, duas vezes, e por Anthony Garotinho e sua mulher Rosinha. Apesar de não alinhado com a Globo, o casal Garotinho, no entanto, sempre foi visto com muita desconfiança pelo eleitorado esquerdista do Rio.

Os líderes sindicais fluminenses nunca alcançaram a projeção nacional de um Jair Menegheli, da CUT. Quem prometia muito era Juarez Antunes, o sindicalista da Companhia Siderúrgica Nacional que virou deputado federal e depois prefeito de Volta Redonda. Em 1989, no entanto, ele morreu num acidente de carro suspeito, parecido com o que matou o ex-presidente Juscelino Kubictheck, este, como Antunes, um desafeto da ditadura militar.

Talvez como reflexo dessa falta de líderes expressivos, a geração cinquentona carioca raramente encontrou eco nas suas pregações esquerdistas. Em geral, seus conterrâneos pouco ou nada politizados nunca foram receptivos ao proselitismo político. Segmentos consideráveis da classe média chegam mesmo a repudiar o assunto nas rodinhas de conversa. Mulher e futebol sempre foram temas mais atrativos para os cariocas em geral. O nicho esquerdista do Rio já até se acostumou a ficar falando para as paredes.

A aversão à política de boa parte da população fluminense pode explicar em parte as bancadas conservadoríssimas eleitas pelo estado nos últimos pleitos para a Câmara dos Deputados e o Senado Federal. Mandamos para Brasília muitos evangélicos, muitos pára-quedistas turbinados por esquemas de propaganda milionários, como o atual candidato de Paes à prefeitura, Pedro Paulo, o empresário Julio Lopes, o cacique interiorano Pezão e outras figuras com muito poder econômico por trás mas de estatura política insignificante até mesmo para o discurso de direita, que nunca demandou muita elaboração. Isso sem falar nos Bolsonaros e Wagner Montes da vida... Por incrível que pareça, no estado tido por muitos como o mais vanguardista da federação, o voto de cabresto ainda funciona, e muito.

Fora Brizola, chegaram ao poder no Rio o socialista Saturnino Braga, que faliu por não conseguir administrar uma prefeitura sitiada economicamente, e Benedita da Silva, que careceu de estofo para ir além do bordão "mulher, negra e favelada". Fernando Gabeira chegou a ser bem votado em algumas eleições proporcionais mas, quando tentou cargos majoritários e abandonou o discurso pró-legalização da maconha, perdeu seus eleitores mais fiéis. Não conquistou o voto conservador como queria e acabou bandeando-se para a direita de vez. Hoje, não passa de mais um colunista a integrar o coro reacionário nas páginas do jornal O Globo.

Muitos eleitores fluminenses, principalmente os mais jovens, apostam agora em Marcelo Freixo, deputado estadual atuante e identificado com as causas populares. Porém, ainda lhe falta punch, falta falar grosso, comprar um bom barulho nacional, bater de frente contra o status quo. Quem faz isso muito bem é Jandira Feghali, fiel escudeira de Dilma a desempenhar papel corajoso no combate ao golpe que levou Michel Temer ao poder. É Jandira, hoje, a mais importante liderança de esquerda do Rio.

Novamente, a esperança de renovação parece depositada nos movimentos estudantis. Foi deles que saiu o senador Lindberg Farias, do PT, também, como Jandira, vigoroso combatente da legalidade do mandato de Dilma. Foi prefeito de Nova Iguaçu por duas vezes, escapou ileso até agora da avalanche denuncista em relação a seus mandatos mas fracassou na última eleição para o governo do Rio.

Quem sabe, dessa garotada que hoje ocupa escolas protestando contra a falência financeira e a incompetência administrativa do governo do Rio surjam lideranças de esquerda capazes de inflamar a parte do eleitorado daqui que tanto se ressente de representantes. É esperar para ver e torcer para que o entusiasmo juvenil não se perca pelo caminho. O Rio não vai aguentar muito tempo com essa turma braba dando as cartas.

Foto: Marcelo Migliaccio




domingo, 12 de junho de 2016

O país do futuro

Todo mundo agora querendo saber se o garoto de 10 anos morto por policiais em São Paulo estava armado. Perícias, reconstituições, exames de balística... havia pólvora na mão do menino mas, como se sabe, é prática comum colocar uma arma na mão da vítima já morta e fazer um disparo para deixar vestígios. A própria polícia reconhece que, na ânsia atestar a legítima defesa dos "homens da lei", o local do crime foi mexido.

Se a criança tiver de fato atirado na polícia, estaremos todos redimidos? Era mais uma "sementinha do mal", dirão os apresentadores fascistas dos programas policiais vespertinos.

E se ela, no entanto, for mais uma vítima do futuro que exterminamos dia a dia por omissão ou conivência? Aí, será melhor esquecer o caso? Como esquecemos convenientemente tantos outros, como o dos PMs do Rio que jogaram de um penhasco dois "menores infratores" que roubavam no centro da cidade.


Foto: Marcelo Migliaccio
Enquanto houver crianças vivendo nas ruas ante a indiferença geral seremos um país sem futuro



quarta-feira, 1 de junho de 2016

Tapando a onda fascista com a peneira

Vivemos uma onda fascista em muitas frentes e a violência contra a mulher é só uma delas. Nossa presidente foi xingada de puta num estádio lotado para um jogo de Copa do Mundo transmitido para 5 bilhões de pessoas no mundo. 

Nosso Judiciário atua de forma fascista, perseguindo uma corrente política e poupando outra. A imprensa age da mesma forma. Nosso Legislativo foi aquilo que se viu na votação do impeachment. Tudo isso está ligado. 

O governo golpista não escalou uma única mulher no ministério. Acabou com a representação dos negros no Executivo. Sua secretária para os Direitos da Mulher é contra o aborto até em casos de estupro.

O esporte que mais cresce em popularidade consiste em arrebentar a cara do oponente caído, o que contraria todos os princípios das artes marciais. 

Gays são desrespeitados, crianças agredidas e abusadas, idosos espancados. O interesse da mídia, que difunde a cultura da violência, é reduzir a questão a este caso da adolescente que teria sido violentada por vários homens numa favela. O jornal da direita do Rio hoje já jogou o estupro da jovem para o canto da primeira página. Como satisfação a seus leitores, diz que "pena para estupro deve aumentar". Acha que isso vai contentá-los como quando se propõe a diminuição da maioridade penal sem discutir as causas da cada vez maior crueldade entre adolescentes infratores. 

Vivemos tapando o sol com a peneira.

terça-feira, 31 de maio de 2016

O buraco é mais embaixo

A menina tem 16 anos. Não é miserável. Desde nova saiu para o mundo. Pariu aos 13. Pistoleiras do showbiz e heroínas vadias de novela devem ter feito sua cabeça. Os que a rodeiam não dispensam uma "novinha". Ela não estuda nem trabalha. Só pensa em baile funk, shortinho, sainha e top. Passa dias sem aparecer em casa. Rebola até o chão nas madrugadas. Não tem medo de favela. Namora bandidos, convive com pistolas e fuzis. Participa da endolação na boca de fumo em troca de droga. Fuma, bebe, cheira loló até desmaiar. Como ela, há milhares de garotas a fim de emoção por aí.

De repente, ela aparece na internet, desacordada numa cama imunda. Marmanjos em volta, apalpando e fazendo piadas, tudo filmado e postado. Um deles diz que mais de 30 "engravidou". A polícia, em polvorosa, prende sete. Imprensa unida contra a "barbárie". O delegado que questiona a versão inicial, encampada prontamente pela opinião pública como verdade, é afastado. A delegada que assume garante o estupro mesmo contra o laudo pericial. Convicta, ela dispensa até acareação entre os detidos, um absurdo. O ministro que não ligou para o estupro no metrô de São Paulo coloca-se à disposição. O governador que não faz nada pede pena de morte para os "monstros".

Não se trata de "criminalizar a vítima", como dizem os ingênuos, os que não querem ir fundo nas causas dessa sexualização precoce e exacerbada da molecada. O que ela esperava encontrar, um príncipe encantado? Claro que não.


Comportamento nenhum justifica qualquer ato de violência, quanto mais a inominável agressão sexual. A maior violência que essa jovem sofreu, no entanto, foi na cabeça, antes de ser abusada. Como milhões de crianças e jovens vêm sofrendo diariamente.

Como sempre, preferimos a mentira porque a verdade dói demais. Sem trocadilho, o buraco é mais embaixo. Que meninos e meninas estamos formando? A cultura do estupro está na mídia, na Popozuda dançando no programa infantil, na mãe e no pai que vestem a filhinha como puta desde os cinco anos, na novela em que a menina leva uma bofetada e na cena seguinte está na cama com o agressor... é contra isso que as feministas deveriam se revoltar.

Querem discutir seriamente a cultura do estupro, não se baseiem nesse caso, que já era previsível pela autoexposição irresponsável da menina diante da bandidagem. Investiguem as razões de alunas do Pedro II e da Universidade Rural estarem sendo violentadas pelos próprios colegas de sala. Isso sim mostra como a coisa está feia.


Se querem discutir a cultura do estupro, extensão da cultura da violência, vamos falar sobre educação, não só na escola mas principalmente em casa, onde muitos pais costumam delegar a tarefa mais importante de suas vidas à nefasta babá eletrônica, fonte inesgotável de preconceitos, agressividade e sexismo.

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A apologia ao sexo e suas consequências