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quarta-feira, 14 de maio de 2014

Estado de sítio

Tá chegando a hora...

Pouco a pouco, as ruas das zonas norte e, principalmente, sul do Rio estão sendo tomadas por PMs e guardas municipais. É o início da ocupação do coração da Cidade Maravilhosa para que os milhares de ladrões que desceram dos morros não possam transformar o mês de Copa do Mundo numa orgia de assaltos. Renasce a metrópole fictícia, o cartão postal maquiado, sem mendigos, que serão enxotados para o Méier ou para a Baixada Fluminense. Vão ressuscitar o Choque de Ordem, mas os abrigos da prefeitura já estão lotados... de percevejos. Reinicia-se a nefasta "higienização social".

E daqui mais uns dias virão os tanques de guerra com soldados do Exército, fuzileiros navais, até porteiros de hotel, bilheteiros de cinema, enfim, todo mundo que vestir algo semelhante a uma farda vai estar empenhado no projeto de segurança total para os estrangeiros que virão assistir aos jogos da Copa.

Já vimos esse filme antes, na Eco-92, mas agora a força tarefa para proteger gringos será muito maior. Até porque nossas ruas estão muito mais infestadas de ladrões do que na época da conferência ecológica mundial (que, aliás, não deu em nada). Um PM em cada esquina, um blindado em cada bairro... uma gigantesca UPP cenográfica.

Para quem não viveu o chamado estado de sítio, vem aí uma boa amostra. A paisagem vai estar militarizada. Paradoxalmente, agora veio a notícia de que a PM não fará incursões em favelas durante a Copa. Não fica bem alguma criança morrer de bala perdida quando os olhos do mundo estiverem voltados pra cá.

E o que torna isso muito mais ridículo é que os estrangeiros sabem das nossas mazelas. Sabem que é tudo uma grande maquiagem que a prefeitura e o governo do Estado vão fazer. Os roubos a transeuntes perigam cair a zero entre junho e julho na triste e linda Zona Sul, onde hoje todo mundo anda com medo e quase correndo.

Para o carioca, a ressaca da Copa será muito pior, porque, como na história da Cinderela, a carruagem (no caso, o camburão) vai virar abóbora assim que o último hooligan ou barra-brava entrar no avião para voltar para casa. O Exército vai voltar pro quartel, a polícia vai sumir e os ladrões vão tirar a forra do prejuízo.

Foto: Marcelo Migliaccio






quinta-feira, 8 de maio de 2014

Quem tem pena é galinha

O maior crime que alguém pode cometer hoje em dia não é roubar, nem matar. O pecado maior no capitalismo selvagem é sentir pena de alguém. Cotas para minorias? Bolsas de estudo? Auxílio alimentação? Isso é prejuízo para os tecnocratas. Que se dane quem está por baixo.

Ninguém pode ter pena de ninguém, isso é contraproducente, não gera receita... e ainda por cima é cafona, piegas, motivo de chacota. Intelectuais não tem pena, é maniqueísmo eles dizem, criaram o até o termo "coitadismo" para criticar as políticas sociais de transferência de renda. Na verdade, o que apavora a casta dominante é a igualdade de oportunidades para todos desde a infância.

O egoísmo se aprende na televisão, a grande educadora num país onde o ensino é indigente e elitista e a cultura popular resumiu-se ao axé, ao samba pasteurizado, ao funk sexista.

O humor virou zombaria, perseguição, pegadinha. O ser humano retrocedeu tanto que só consegue rir do outro e não com o outro.

O esporte que mais cresce no mundo permite a um lutador esmurrar outro que está caído até que um juíz troglodita se atire entre ambos para evitar o óbito. O futebol virou um negócio onde pobre não entra. Tiraram do povo seu único lazer e ninguém ficou com pena.

Já dizia o Bezerra da Silva: "Antes de ter pena de morte é preciso ter pena do pobre".

Mas o governo que matou a fome de 40 milhões é torpedeado pelo empresariado que precisa de famintos para lhes pagar o menor salário possível. Então o grande capitalista soa suas trombetas pela grande imprensa privada, aquela que só fala em solidariedade se for uma boa ação de marketing.

Ninguém tem pena de ninguém na selva de pedra, no país campeão mundial de linchamentos. Isso mesmo! Essa Copa já é nossa: o Brasil é o país que mais lincha no mundo. De vez em quando escalpelam um inocente, mas quem se importa? Falsamente constrangidos, os apresentadores fascistas de programas policiais agora lamentam a ação da turba ensandecida no Guarujá, que espancou até a morte uma mulher que saía da igreja.

Mas são esses mesmos apresentadores que vivem dizendo na TV:

_ O povo não aguenta mais. Não se deve fazer isso, mas é muita impunidade... uma hora as pessoas perdem a paciência...

Ou então, com um sorriso no canto dos lábios:

_ Vejam só como ficou a cara desse ladrão! O pessoal fez um carinho nele...

E a apresentadora insossa que ironizou os que tiveram pena do adolescente acorrentado a um poste passou a ser a mais valorizada no mercado televisivo. Vai ganhar um programa só dela por causa da declaração impiedosa que deu no telejornal.

_ Tá com pena (do jovem ladrão)? Leva ele para a sua casa!

A "pena" que se tem hoje é hipócrita, pra inglês ver, pra postar no Facebook. O apresentador garoto-propaganda de banco posa com uma banana. Ele e a esposa loira estão com peninha do jogador negro que comeu a banana atirada por um racista no estádio. Aí, o coro dos anti-racistas de ocasião diz que "todos somos macacos".

Como assim? Eu não sou macaco. O jogador não é macaco. Ninguém é macaco.

A solidariedade do apresentador garoto propaganda de banqueiro é dizer que ele também é macaco, assim como o jogador... vê se pode...

No seu programa, ele promete uma casa decente ao favelado, mas só se o infeliz participante conseguir equilibrar dez copos na ponta do nariz diante das câmeras. É um game show, afinal! Se não conseguir, volta para o barraco. E ainda chamam de assistencialista um governo que constrói quase 3 milhões de casas populares...

O pastor evangélico cobra o dízimo sem pena:

_ É tudo ou nada, ou dá ou desce!

_ Mas, pastor, eu só tenho pra comer...

_ Jejum, meu filho, jejum! Tá na "bibra".

Crianças e jovens só aprendem egoísmo, violência e sexo há décadas. No Youtube, os vídeos de espancamentos em escolas bombam. Todo dia tem um novo. Quase sempre garotas brigando por namorado. E não é só espancamento, tem facada e tortura. E o sucesso do momento é a funkeira que promete "tiro, porrada e bomba" na mulher que ousar olhar para o seu homem...

Se a heroína da novela cobre a rival de porrada, então tá liberado!

O black bloc quebra sem pena, o público e o privado. O torcedor quebra a privada e joga na cabeça do outro, sem dó.

O assaltante agora mata a vítima mesmo que ela não reaja. Sem pena. A polícia bate sem pena, a milícia e o tráfico matam sem pena. O povo lincha sem pena.

Pena é um artigo em extinção. E nós também.





domingo, 4 de maio de 2014

Banana indigesta

À primeira vista, achei fantástico o gesto do jogador Daniel Alves, que comeu em campo a banana atirada por um torcedor racista.

Achei que foi uma coisa nova, inteligente, espirituosa, bem-humorada, um tapa de luvas na cara dos fascistas que abundam por aí. Acreditei que pudesse ser um divisor de águas, uma coisa que marcasse o fim desse tipo de manifestação cada vez mais comum em estádios de futebol. Como a gente é tolo à primeira vista...

Com o tempo, eu vi que um monte de gente fascista em suas atitudes e na sua ideologia, gente que faz parte dessa engrenagem que produz cada vez mais neonazistas pelo mundo, também começou a elogiar o ato de revolta do jogador negro. Veja só: os condutores da nave que semeia violência, individualismo e consumismo mundo afora agora posam de bonzinhos em apoio ao Daniel Alves.

Quando certas pessoas começam a concordar com você é hora de rever sua posição.

E aí eu percebi que aquela banana deve ter dado uma indigestão imensa no Daniel Alves. As pessoas acham que foi fácil para ele assumir o papel que os fascistas esperavam que ele assumisse. Na verdade, ele apenas fez o que todos os torcedores racistas que atiram bananas para jogadores negros esperam: que o macaco coma a banana.

E Daniel Alves comeu.

Foi o gesto do negro-cordeirinho, do negro submisso, que ainda faz piada quando é ofendido.

A solidariedade dos janotas brancos do facebook, dos que vivem comendo alpiste na mão dos donos do sistema, dos que fazem qualquer coisa para aparecer na mídia, dos devoradores de novela... nada mais é do que uma purgação de seus pecados diários, entre os quais o preconceito racial tem papel de destaque.

Se pudessem, esses hipócritas ajoelhariam aos pés de Daniel Alves para agradecer por ele ter comido a banana e, mais uma vez, como fazem os negros desde que começou a escravidão, ter engolido esse sapo do preconceito, esse sapo indigesto e amargo. Daniel Alves engoliu na verdade, as cadeias repletas de negros, os assassinatos de jovens negros nas periferias, a maioria de negros em todas as favelas.

Daniel Alves redimiu os fascistas inrustidos. Tirou deles um tremendo peso na consciência. São esses mesmos que aplaudiram seu gesto submisso que se opõem às cotas para negros nas universidades, são contra o bolsa família, repudiam as políticas de divisão da renda e a igualdade de oportunidades para crianças negras e brancas, ricas e pobres.

Por isso Daniel Alves virou capa da mais fascista das publicações brasileiras, aquela feita por gente capaz de escrever um livro dizendo que no Brasil não existe racismo.

É isso que o macho branco dominante quer: que o negro coma as bananas que lhe atirarem fingindo ter bom humor quando deveria quebrar de uma vez por todas as correntes que o envolvem há séculos.