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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Desagravo a 2015

Repilo e deploro qualquer tentativa de desqualificar 2015. Eu só não diria que foi um grande ano porque terá 365 dias como todos os outros. Mas foi o ano em que a democracia brasileira resistiu a várias tentativas de golpe comandadas por um conluio entre picaretas notórios, analfabetos políticos e fascistas, estes últimos recém-saídos do armário em que se esconderam desde o vexame de Fernando Collor de Mello na Presidência.

Não, o Estado Islâmico e seu terror não nasceram em 2015. A essa turma que tornou a praia um inferno com seus arrastões não foi negada educação só neste ano. As barreiras de Mariana não foram negligenciadas e mal fiscalizadas apenas no momento em que se romperam. Nossos maiores corruptos, de longas carreiras políticas, já estão por aí há décadas.

Como sempre acontecerá, morreu gente legal (e também uma infinidade de pilantras). Mas também nasceu gente boa e outra infinidade de futuros energúmenos.

Foi um ano como outro qualquer, só que a nossa decadência como sociedade fica cada dia mais flagrante, a exclusão vem ganhando há tempos a queda de braço contra os programas sociais dos governos. Os recursos naturais estão se esgotando dia após dia (e continuamos fazendo apologia ao sexo na mídia, um programa de controle de natalidade às avessas).

De mais a mais, a seleção brasileira não levou de sete de ninguém neste ano. E, pelo menos, começaram, ainda que timidamente, a questionar o poder da detentora dos direitos de transmissão sobre o futebol brasileiro.

Salve 2015, afinal, ainda estamos aqui pra contar a história.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Corações a mil

O coração do banqueiro bate no bolso
o do malandro, na sola do pé
e o do trabalhador bate ponto todo dia

Um coração apaixonado bate mais forte,
coração de troglodita bate pra machucar
coração de corredor bate todos os recordes

Coração de mãe bate apertado,
O do moleque, mil vezes por minuto
mas o do ancião já bate em retirada...

O coração do teimoso bate e volta
o do motorista bate no poste,
o do pedinte bate na porta

O coração do fã bate palma,
o do artista bate cheio de si
e o do tímido bate que nem se ouve

Só um coração nunca bate:
o de quem tem medo da vida
Esse, coitado, só apanha


Foto: Marcelo Migliaccio




quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Glória, glória ao senhor

O fogo destruiu o museu em São Paulo, e o governador Alckmin, literalmente, queimou a língua. No Rio, a chama neofascista chamusca o artista, interpelado agressivamente por mauricinhos descerebrados numa rua do Leblon. O governador Pezão, blindado pela emissora antipetista assim como o prefeito, fecha hospitais, manda o servidor pedir empréstimo no banco, escolhe oficiais corruptos para a cúpula da polícia. Em Brasília, uma corja de parlamentares ora trama golpes, ora falcatruas com o dinheiro público.

Às vezes, tudo parece estar em ruínas, como o glamouroso hotel de luxo na Glória. No auge de sua megalomania, um bilionário resolveu tomar para si o imponente prédio. Prometeu uma grande reforma, um novo empreendimento para rivalizar com o Copacabana Palace, uma atração a mais durante a Copa do Mundo. Mas seu dinheiro fez água, sua fama também. De capa de revista, passou a motivo de piada. A obra parou no meio, e o Hotel Glória ficou abandonado.


Foto: Marcelo Migliaccio


A obra parou há meses. O mecenas sumiu de cena, não posa mais para as revistas na sala de estar, não acena orgulhoso na janela.


Foto: Marcelo Migliaccio


Os hóspedes já foram mais ilustres...



Foto: Marcelo Migliaccio


Na entrada, em vez de tapete vermelho, tapume pichado.



Foto: Marcelo Migliaccio

A placa de venda do vizinho lhe cairia bem.


Foto: Marcelo Migliaccio

O glamour hoje é uma foto amarelada


Cartão postal antigo

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

O pastel de vento mais caro da História

A propaganda do tal Museu do Amanhã é massificada na TV. A julgar pelo entusiasmo dos repórteres, em breve estará entre as sete maravilhas do mundo, desbancando talvez o Coliseu, que, como disse um ex-presidente do Corinthians, "é bonito mas tá precisando de uma boa reforma".

Um dia, se eu não tiver nada pior pra fazer, posso visitar o elefante branco da Praça Mauá. Pelo que vi nas reportagens, não há nada lá dentro que justifique encarar duas horas de sol na moleira numa fila infernal. Para entrar e ver o quê? Painéis luminosos dizendo que temos que preservar a natureza? Exortações à fraternidade mundial enquanto esperamos o próximo espancamento no canal Premiére Combate? Clamores por desenvolvimento sustentável na cidade dos hospitais fechados? Não, lamento informar que não estou curioso por ver instalações com pedaços de pano suspensos no ar por um jato de vento. Nem participar dos joguinhos interativos em que o visitante tem a chance de salvar o planeta se parar de jogar papel no chão. Se o objetivo é ensinar boas maneiras, deveriam internar lá os CEOs das multinacionais que esburacam a camada de ozônio e poluem rios, mares e o ar que respiramos.

Ah, tem também a história do planeta contada em oito minutos. Versão dos vencedores. Bancadas por grandes corporações, bancos e governos, iniciativas "do bem" como o Museu do Amanhã trazem a receita para salvar a Terra dada pelos que mais a esculhambam. Eis o grande conto do vigário: transferir para o cidadão a responsabilidade que é da engrenagem político-financeira vigente. O subtexto é façam o que eu digo, não o que eu faço.

Duvido que haja algo lá dentro que relacione explosão demográfica e a apologia ao sexo que se vê na mídia.

Esses brilhantes executivos, em geral, são visionários. Ciente de que seus pares aniquilaram nosso futuro com o empreendedorismo esquizofrênico e a proatividade doentia, um deles bolou esse museu, que, na verdade, é o atestado de óbito da Humanidade. Mostra didaticamente tudo que deveríamos ter feito enquanto ainda dava tempo. Disfarça a desfaçatez num clima permanente de falsa esperança, como se cada atração ali pudesse ser resumida num "boa noite" otimista do Jornal Nacional.

A construção metálica monstruosa parece resistente. Vai ficar em pé depois da hecatombe, quem sabe para que ETs a visitem sem pagar ingresso e vejam o mais completo painel da hipocrisia humana. Alguns dos maiores cientistas da Terra dizem que todas essas campanhas ecológicas para salvar o planeta não passam de jogadas de marketing. O importante no momento é evitar o pânico e varrer a desesperança para debaixo do tapete. A isso serve o Museu do Amanhã, a contradição em termos.

Cabe conjecturar sobre o que a época atual deixará para a posteridade. O que estará de fato nos museus do futuro, se houver. Computadores da Apple? Um pedaço de muro pichado? Cornetas de plástico? Vídeos de capítulos de novela? Que espécie de história estamos fazendo? Onde está nosso Lincoln, nosso Da Vinci, nosso Santos Dumont? Olho para os lados e vejo muito Eduardo Cunha, muito Mister Catra...

Numa cidade que tem 12 museus de verdade abandonados, essa jogada promocional soa como uma piada de mau gosto. Muita tecnologia estéril e uma repetição infindável de mensagens politicamente corretas enviadas pelas raposas que tomam conta do galinheiro. A montanha de lixo que o público deixou no chão após o primeiro fim de semana de visitação atesta o quanto tudo ali é pilantragem.

O Museu do Amanhã é o pastel de vento mais caro da História. 


Foto: Conexão Jornalismo


quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Todo jornal me diz que a gente já era

Ontem a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) declarou-se oficialmente a favor do impeachment. A pergunta é se alguém se surpreendeu com isso. Basta lembrar que, em 1989, quando o país se preparava para escolher pelo voto direto seu primeiro presidente depois de 21 anos de ditadura militar, o então presidente dessa entidade, Mario Amato, disse, em tom ameaçador, que se Lula vencesse "800 mil empresários" iriam embora do Brasil. A sinistrose surtiu efeito e o eleito foi Fernando Collor de Mello. Deu no que deu.

Só 12 anos depois, Lula chegou à Presidência. Nenhum empresário se mandou, ao contrário, ficaram aqui e continuaram faturando alto como sempre. Aliás, faturaram como nunca com 20 milhões de pessoas a mais no mercado consumidor. Mesmo assim, a Fiesp suas irmãs _ a Firjan, a CNI, a UDR, a Febraban, a Ambev... _ jamais engoliram o PT. Essas confrarias, donas das terras, dos bancos e dos meios de produção, desde 2002 tentam recolocar a chave do cofre nas mãos de um político amigo, um aliado, um pau mandado. Como nas urnas está difícil, conspiram. Aumentam preços sem precisar, desabastecem, demitem, tudo para que a situação pareça insustentável. Praguejam contra a corrupção embora sempre tenham financiado a eleição de corruptos.

A propaganda por seus canais repetidores diz que o Brasil vai de mal a pior.

E lembro de Raul Seixas...

"Todo jornal que eu leio 
me diz que a gente já era
que já não é mais primavera
oh baby, a gente ainda nem começou..." 

Fala-se muito da parcialidade da mídia, que alardeia aos quatro ventos qualquer ato ilícito cometido no Executivo ao mesmo tempo em que ignora cinicamente as maracutaias dos aliados. Nossa combativa imprensa fecha convenientemente os olhos para os corruptores, os que compram com seus milhões juízes, parlamentares e funcionários públicos.

É um engano, porém, demonizar a mídia, que não existe de fato. A TV que nos embota, embrutece e emburrece diariamente é apenas uma corneta, a corneta dos cartéis, a voz dos donos do mundo. Quem sustenta emissoras de TV, jornais e revistas com seus anúncios é o Itaú, a Volkswagen, a Votorantin, a Vale (que era nossa e, graças a Fernando Henrique Cardoso, agora também é deles)... a grande imprensa é só a caixa de som por onde a confraria dos monopólios faz ecoar sua voz.

Os jornalistas adestrados vivem dizendo que o Estado tem que diminuir, que a solução é privatizar tudo. Cá entre nós, você prefere trabalhar para o governo brasileiro ou para alguém?

Editorialistas de aluguel reproduzem o choro sistemático contra a carga tributária. Só que a cesta básica continuou subindo mesmo com todos os produtos isentos de impostos.

Que moral têm as entidades empresariais para criticar o governo se, apenas em 2013, segundo a Receita Federal, 15 mil empresas sonegaram mais de R$ 2 bilhões em impostos? Por falar nisso, por que a Operação Zelotes da Polícia Federal para prender sonegadores e fiscais corruptos nunca sai nos jornais?

O Brasil sempre foi um país de donos. Primeiro eram os índios, os donos da terra. Aí, chegaram os portugueses, donos das armas, dos escravos, dos espelhinhos. Viraram donos do ouro e da papelada que lhes garantia todo o resto. Seus filhos, netos, bisnetos e tataranetos estão aí até hoje, passando de mão em mão as terras e os meios de produção. Nós? Nós aqui olhando e trabalhando para eles para não morrer de fome ou de frio ao relento.

_ Sim senhor, patrão...

Olha, eu não sou comunista não, tá? Detesto ditaduras. Meu time é Lei Vale Para Todos Futebol Clube.

Que o empresariado, acumulador por natureza, queira derrubar o governo que mais distribuiu renda na História, a gente até entende. Mas que um bando de idiotas embarque nessa com eles achando que a corrupção vai acabar quando Dilma cair é difícil aceitar.


Foto: Marcelo Migliaccio

PS: Ressalvas honrosas para a entidades patronais Anfavea e a Abimaq, que se posicionaram contra o golpe do impeachment.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Cunha acabou com o impeachment

Se eu fosse a favor do impeachment, estaria, como se diz aqui no Rio, puto "dendascalça". Eduardo Cunha conseguiu desmoralizar  totalmente a causa. A pretexto de conduzir o processo de afastamento da presidente Dilma, o insano bilhardário meteu os pés pelas mãos. Fez tanta armação na Câmara que o processo foi parar nas mãos do STF.

Autêntico parasita público-privado, Cunha desafia todos os limites da impunidade naquele que sempre foi conhecido como o país da dita cuja. Estapeia diariamente a Nação ao aparecer rindo, leve e solto diante das câmeras de TV. Com decisões arbitrárias nas votações e desculpas esfarrapadas para seus milhões no exterior, o presidente da Câmara tornou-se mais nocivo para a direita que o turbinou do que para a esquerda que sempre o temeu.

Até os jornalões agora pedem sua saída. Demorou mas concluíram que com esse cara não vai dar. Muita gente que era a favor do impeachment ficou contra. Porra louca que é, o capitão do golpe virou o maior vilão da história. Ao contrapor-se à presidente, acabou por fortalecer o governo. Virou a disputa do ruim contra o pior. Graças ao marido da moça dos olhos arregalados, as manifestações previstas para este domingo prometem ser ainda menores que as anteriores.

Cunha é o expoente maior da classe política que sempre vicejou no Brasil. É o top de linha, o Justo Veríssimo em carne e osso. O último elo na cadeia evolutiva da cara-de-pau.  Nem ficar vermelho ele fica quando confrontado com o inexplicável.

Seus asseclas na Câmara, por sua vez, também não contribuem para conferir a qualquer votação da casa um mínimo de legitimidade.

Todos, direita e esquerda, querem vê-lo algemado.

Eduardo Cunha matou o impeachment.


Foto: Marcelo Migliaccio

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Ser namoradeira é ser puta?

Cá entre nós, tudo bem que o Serra, a princípio, nunca tem razão. Não sou e acho que nunca serei seu eleitor. Mas a ministra Kátia Abreu jogar vinho no rosto dele porque ele disse, em tom de brincadeira, numa reunião social, que ela era namoradeira...

Peraí, que ofensa há nisso que justifique reação tão agressiva? Tá na cara que o motivo não foi só a impertinência dele, mas para a opinião pública ficou parecendo que foi. E aí, pra mim, quem ficou mal foi ela. Sorte do careca que ela estava com um copo na mão e não com uma faca de cortar canapés...

Ser namoradeira é uma coisa, ser puta é outra.

Ah, mas ela é mulher, é diferente. Diferente, como? Qual o problema de ter namorado muito? A associação disso com promiscuidade é subjetiva e está na cabeça de cada um.


Me lembrei na hora da piada sobre o negro que via racismo em tudo. Um dia um cara disse pra ele que iria passar as férias numa fazenda. E a associação naquela mente enviesada foi imediata: Fazenda? Fazenda tem boi, boi é marido da vaca, vaca dá leite, leite é branco... tá me chamando de crioulo!

Mulheres não vivem pleiteando igualdade?

Então é preciso parar de perpetuar estereótipos com reações "que só as mulheres entendem".


Ah, ministra, espero que não fique chateada com a crítica, mas se ficar... prefiro cerveja.


Foto: Marcelo Migliaccio

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Quem não se comunica se trumbica

Ouvi Dilma falando ontem em Boa Vista. Ouso dizer que todos os problemas que ela enfrenta decorrem de sua dificuldade crônica de se comunicar.

Ela tentou explicar a pedalada fiscal pro povão do Minha Casa Minha Vida e se enrolou toda. Lula teria deitado e rolado. Não sei como o ex-presidente, ao escolher sua candidata à sucessão, não atentou para a máxima do Chacrinha: "quem não se comunica, se trumbica".

Foi só uma observação, o que interessa pra mim é que, desde ontem, mais 11 mil famílias têm sua casa própria.


E tem golpista de direita e de esquerda, caso de Luciana Genro, que pediu eleições gerais em 2016. a justificativa dela pra cassar três anos de mandato de Dilma é que a presidente não tem apoio popular. Hitler e Mussolini tinham...

Ainda bem que o Jean Willis se apressou em dizer que o rompante "Aecista" de Luciana não é a posição oficial do Psol.

Está estampado no rosto de Dilma que ela vive seu pior momento no governo. Mas a frase que eu mais gosto é "o mundo dá muita volta".

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O golpe quase concretizado

Cenas deprimentes no Congresso. Uma zona, cartaz do Lula vestido de presidiário sendo agitado por deputado no plenário, berraria, empurrões, manobras casuísticas vergonhosas. Esse parlamento é o retrato fiel da indigência mental a que levaram o povo brasileiro. Uma minoria lúcida lutando contra uma manada de ladrões antidemocráticos apátridas imundos.

Que vergonha, meu Deus...

Ou o STF entra em cena ou o impeachment é certo.

E ainda cantam o Hino Nacional...

Hoje talvez seja o dia mais vergonhoso da História do Brasil.


Foto: Marcelo Migliaccio

Enquanto isso, em Oxford...

Quer saber mais sobre a Venezuela? Então vale a pena assistir ao debate abaixo.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Constranger Marília Pêra? Nem pensar

Quando entrevistei Marília Pêra, ela chegou na defensiva. Depois de ter sido linchada verbalmente por ter apoiado Fernando Collor em 1989, ela, com razão, ficou com o pé atrás com jornalistas. Mas foi só lembrar de O Homem que Comprou o Mundo, filme em que ela havia contracenado com meu pai, que Marília relaxou. Falou das brincadeiras entre ambos e, gêlo quebrado, iniciamos o papo.

Do que falamos, lembro pouco, apenas que ela disse estar afastada da TV na época por um motivo bem feminino;

_ Atualmente, a televisão não tem tempo para dar a devida atenção a uma atriz da minha idade _ lamentou.

Ela mostrava preocupação com a sua imagem no vídeo, enquadramentos, luz etc. Entendi, perfeitamente.

A conversa transcorreu sem intercorrências até quase o final. Foi quando, seguindo um dos postulados do jornalismo que manda deixar a pergunta mais espinhosa para o último momento, eu disse:

_ Marília, eu não poderia deixar de perguntar...

_ Só veio aqui pra isso! _ ela me interrompeu, meio simpática, meio ríspida.

Sinceramente, hoje, nem me lembro qual era a pergunta. Só sei que não a fiz. Devia ser uma besteira qualquer, pedida por algum editor a fim de uma manchete oportunista e invasiva. Não me recordo sequer em que jornal eu trabalhava.

_ Marília, acho você uma das maiores atrizes do Brasil, jamais escreveria algo que te constrangesse, pode acreditar. Deixa a pergunta pra lá.

Ela sorriu e nos despedimos.

Saí de lá feliz por poder mostrar a Marília Pêra o quanto a admirava.


Divulgação
Marília na novela Supermanoela, de 1974. Eu adorava a maria chiquinha dela

LEIA TAMBÉM:
Há perguntas que um jornalista não deve fazer



quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Golpeachment, o retorno

Cada um tem o herói que merece. O dos golpistas que não sabem perder quatro eleições seguidas chama-se Eduardo Cunha. Pedalada não é corrupção, todos os governos recorrem a elas. Cassar Dilma com base nisso é golpe sim.


Quebrar a ordem democrática é fácil.

Bastam meia dúzia de parlamentares sem vergonha, outro tanto de pilantras togados, uma imprensa tendenciosa, empresários saudosos da escravidão e um povo embotado por overdose de telenovelas.

A eles se juntam os omissos, que ficam em cima do muro, vomitando regra e criticando o mar de lama midiático enquanto o circo pega fogo.

Claro, o impeachment é previsto na Constituição, mas a Carta Magna também diz que a lei vale para todos. Pedalada fiscal é crime? Então que se prendam todos os ex-presidentes vivos e mandem os mortos de volta ao purgatório para uma revisão da pena celestial.

O que essa gente, que sempre votou em notórios corruptos, não perdoa no PT nada tem a ver com corrupção (ressalvando-se que a presidente é honesta). Não perdoam é que se alimente o povo, coloque-se seus filhos na escola, porque um faminto iletrado aceita qualquer salário de fome, aceita ser submetido pelo dono do Porsche a condições de trabalho aviltantes.

Lembra do que essa mesma turma fez com o presidente que criou as leis trabalhistas? E com o que tentou fazer reforma agrária em 1964?

Quando eu tinha 8 meses de idade, houve um golpe, apoiado pelos mesmos que agora querem rasgar meu voto ou por seus pais. Lembro que até o Sheik de Agadir caiu do cavalo. Quando a ditadura caiu de podre, eu já tinha 21 anos e nordestinos caçavam lagartos para não morrer de fome.

Restabelecer a ordem democrática leva décadas. Custa muitas vidas, exacerba a exclusão social, camufla e turbina ainda mais a corrupção. Divide o país ao meio e derrama sangue na bandeira.

Você, que está comemorando a chantagem de um verme contra um governo eleito limpamente, com certeza vai se arrepender um dia.



Essa capa do Jornal do Brasil é do último ano da ditadura militar. A foto fantástica é de Delfim Vieira

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Viver sem medo

Pensamento do dia:

Eu não vou deixar de atravessar ruas porque pessoas morrem atropeladas.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Muito mais que temas de novela

Conheci ontem um artista genial: Chico César.

Conheci de longe, ele no palco e eu lá em cima, no balcão. Conheci de vista, de ouvir.

Energia, poesia, talento, substância. Na banda, mais três paraibanos como ele, uma baiana, no acordeon, e um pernambucano na percussão, Escurinho, amigo de Chico desde os dez anos de idade.

A banda toda tem um punch, invejável, mas é o Chico, cantando suas músicas e tocando as únicas guitarras no palco, quem arrebata a platéia.

Confesso que pensei que seria chato. Aquele negocio meloso de "já fui mulher, eu sei". Nada! Som pesado, vigoroso, músicas novas. É incrível como a indústria cultural, com sua parada de cartas marcadas nas rádios, seus eleitos para temas de novela, fabrica engôdos e nos engana, reduzindo a obra de grandes artistas a uma ou duas músicas massificadas.

Na saída, fui correndo ao balcão comprar seu novo CD.

Se Chico César se apresentar perto de você, não perca!


Foto: Marcelo Migliaccio





sábado, 21 de novembro de 2015

Chatô

Não vou nem falar dos milhões consumidos pelo autor do filme, que tecnicamente é bom e bem dirigido. O roteiro funciona bem, embora fortaleça os comentários de que por ter havido problemas na hora de montar o que foi filmado.

Marco Ricca arrebata desde a primeira cena, com uma composição que beira o caricato mas é totalmente crível.

Só que quem assiste Chatô sai do cinema com uma pergunta:

Será que aquele personagem louco, mal educado, chantagista, pedófilo, machista e mau caráter não tinha mesmo nada de bom?

O neto tem razão de estar reclamando.


É curioso, porque o diretor do filme, Guilherme Fontes, afirma ter sido linchado pela mídia por conta do atraso da produção. Justo ele abusou do maniqueísmo ao reconstruir Assis Chateaubriand. Tudo bem que barão da mídia entre os anos 40 e 60 não devia ser flor que se cheire, mas em histórias assim um contraponto, uma pitada de humanidade dão outra dimensão ao filme.


Foto: Marcelo Migliaccio





quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A mancha

Firmar apressadamente o valor da indenização a ser paga pelo maior desastre ecológico da história do Brasil só favorece à empresa causadora da tragédia. É preciso esperar para ver a real extensão dos danos, principalmente quando a lama tóxica chegar ao litoral do Espírito Santo. Há quem diga que correntes se encarregarão de espalhá-la por parte da orla brasileira.

Tenho o pressentimento de que nós, cariocas, ainda veremos a parte de metal pesado que nos cabe nesse latifúndio.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Mocinhos e bandidos

Colocar o Estado Islâmico isoladamente como um bando de loucos disposto a acabar com o Ocidente é muito cômodo. São eles os vilões planetários? Chegaram num disco voador?

A violência não vem de fora, dos confins do deserto, ela está entre nós, faz parte de nós, nos impregnou irremediavelmente, nós a disseminamos diariamente com gestos, palavras ou pensamentos, somos todos pais e mães do radicalismo e da barbárie.

Excluímos milhões do sistema produtivo e da renda, nossas corporações matam rios inteiros em questão de minutos, as instituições estão corrompidas, roubamos verba de merenda escolar e de hospital, ensinamos sexo, consumo e violência às crianças, não respeitamos resultado de eleição e nem sinal vermelho, nosso esporte mais popular permite chutar o rosto de um oponente caído, mata-se nas ruas por um real, esfaqueia-se, esbofeteia-se, manipula-se notícias descaradamente, juízes vendem sentenças, PMs jogam meninos de rua do penhasco, mendigos são queimados vivos, fascistas perseguem refugiados de guerra, o desemprego mundial joga multidões nas trevas, as geleiras do pólo derretem, os CEOs das multinacionais esburacam a camada de ozônio, a água potável está no fim, estupro é o crime da moda...


E o problema é o Estado Islâmico.

domingo, 15 de novembro de 2015

Era uma vez um rio

Mais do que todas essas mortes vãs, essa insanidade, choca o coração endurecido o assassinato do Rio Doce. Quando um rio morre, morremos todos.

Jue suis peixe do Rio Doce, vítima do estado lâmico.

Sempre soube que homens matam homens sem dó. Mas matar um rio inteiro assim, de uma vez... Isso é que é sinal de progresso.

E agora Vale, quanto vale o Rio Doce?



quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Crônica do Facebook (ou a divina comédia humana)

Fulaninho Bem Colocado posta:

"Ih, acabei de espirrar"

649 curtidas - 32 compartilhamentos


Comentários:


Josefina Gente Fina

"kkkkkkkkkk, muito bom!"


Pela Saco de Almeida:

"Melhoras, irmão!"


Mascarenhas i Morais:
"Essa friagem é culpa do lulopetismo!"


Baba Ovo Profissa:

"Conheço um bom médico, mando o endereço inbox"



Armando Amigo da Onça Junior:

"Vamos marcar de nos ver. Pode ser no dia em que o morcego doar sangue ou quando o saci cruzar as pernas. O que for melhor pra você"



Johnny Bajulaichon:
"Tamo junto, brother!"



Crente Queabafa:

"Segura na mão Dele que tudo vai passar."



Zé Ruela:

"Também espirrei, amigo!"

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Imagine...

Esconder o nome da Vale na tragédia de Mariana é a obsessão da mídia. Logo a Vale, que era nossa e FHC vendeu a preço de banana, e cujos prejuízos a grande imprensa atribui à crise internacional (se fosse estatal seria má gestão e corrupção). 

Imagine se fosse a Petrobras a dona da barragem... imagine se a maior plataforma de petróleo do mundo tivesse afundado num governo do PT e não do PSDB... imagine se tivessem contra Dirceu e Genoíno as provas que há contra Eduardo Cunha... teriam enforcado ambos em praça pública... imagine se tivessem apreendido o avião de um amigo do Lula lotado de cocaína...

O que muita gente não entende é que não se trata de comparar os governos do PT e os do PSDB _ até porque os indicadores econômicos e sociais são todos favoráveis aos primeiros, não há nenhum em que os tucanos tenham apresentado melhor performance.

O que se discute é o tratamento que a imprensa empresarial dá a ambos. A diferença na cobertura é flagrante e injusta. Alguns órgãos de imprensa querem fazer crer que a corrupção no Brasil começou em 2002, quando na verdade foi então que ela começou a ser combatida de verdade e denunciada com vontade pelos mesmos que a acobertavam.


sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O super-herói


Reprodução do livro

Futebol não se aprende. Você joga ou não joga. Aos 3 anos, Roberto Rivellino já chutava do seu jeito mágico. Sua carreira foi tão brilhante, a tantos ele encantou mundo afora, que agora sua vida virou um livro. Um craque como Rivellino já nasce no auge, pronto, um campeão.

Reprodução do livro


Eu era o segundo da fila. Na minha frente, um quase eu. Nasceu no mesmo ano, quatro meses depois de mim, tricolor, claro, apaixonado por Rivellino desde a mais tenra infância. Enquanto o ídolo não chega, meu novo-velho-amigo me conta sua história com o dono da perna esquerda mais genial do mundo:

_ Quando eu tinha 12 anos, estava saindo com meu pai do Maracanã e o Rivellino vinha saindo também. Eu estava chupando um picolé e ele chegou e disse pra eu pagar um sorvete pra ele. Meu pai pagou um picolé de limão pro Rivellino!

Eu disse pra ele lembrar isso na hora em que o gênio da bola fosse autografar seu livro, embora eu saiba que todo ídolo, no fundo, despreza os fãs. Atrás de nós, surge o terceiro da fila, um senhor careca e de óculos. Sério.

_ Mais um fã do Rivellino... _ puxo assunto.

_ Joguei com ele _ diz o sujeito, com voz mansa.

_ Peraí, eu te conheço de algum lugar... você...

_ Zé Roberto.

_ Caramba! Você é o Zé Roberto?

_ Sim, vim lá de Três Rios.

_ E eu vim de Teresópolis _ diz meu novo-velho-amigo tricolor.

E ficamos lá, ouvindo as histórias que o Zé Roberto contava de sua convivência com Riva na Máquina de 1975. Ele lembra a única vez em que ousaram colocar o craque do time no banco de reservas. Foi num amistoso, no Maranhão talvez. Zé, então um garoto, aproveitou para tintar o ídolo que nunca sentava ali ao seu lado. Pegou um cadarço da chuteira, imitou o bigode famoso do companheiro e pediu que tirassem uma foto...


Reprodução do livro

O técnico Jair da Rosa Pinto, que cometeu a heresia de barrar um gênio, foi demitido assim que desembarcou no Rio.

Mais gente vai chegando à livraria, repórteres, cinegrafistas, tricolores de toda a Terra...


Foto: Marcelo Migliaccio

De repente, vislumbro o bigode inconfundível lá na entrada.

_ O homem chegou!


E lá vem o Rivellino, com aquele andar característico de boleiro das antigas, jogando as pernas como se estivesse se aquecendo para entrar em campo. Mas o tempo passou, o show nos campos terminou, segue apenas na nossa memória, pra sempre. O Garoto do Parque agora é um senhor, calvo, barriga saliente, muitas rugas que nos contam o início fulminante no Corinthians, a perseguição da Fiel, a redenção no Rio, três Copas do Mundo, vida de sheik na Arábia Saudita...

Evidentemente, também as benesses da fama. Zé Roberto entrega:

_ Uma vez o Riva chegou doido na concentração, disse que tinha ido ver uma peça e depois jantar com alguns atores e atrizes. Aí, ele sentiu que uma atriz, casada, o acariciava com o pé por debaixo da mesa. Essa atriz era linda...

Rivellino abraça o velho companheiro. Os dois se emocionam. Nós também.


Foto: Marcelo Migliaccio


Aparece Francisco Horta, o ex-presidente do Fluminense que revolucionou o futebol do Rio ao contratar o então melhor jogador do mundo. O visionário Horta, que deu a todos nós o melhor presente naquele Natal de 1974.


Foto: Marcelo Migliaccio

E, para o presidente, uma dedicatória especial...


Foto: Marcelo Migliaccio

Olho fixamente aquele homem autografando livros. Vejo meu passado, minha infância, aqueles anos felizes em que eu me imaginava ele nas peladas da pracinha. Volto aos meus 12 anos. A fila está grande. Um monte de marmanjos de 12 anos de idade, alguns de camisa do Fluminense, todos vivendo um delicioso transe.

Além de fazer o que queria com a bola, Rivellino faz o que quer com o tempo... coisa que só um super-herói faz.


Foto: Marcelo Migliaccio



quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Lamento ponderado

Eu não gosto de ser radical. Verdade, detesto. É como uma droga. Você usa e depois do barato, da catarse, se arrepende. Vem uma certa ressaca moral. O radicalismo político, então, carrega, além da eterna dúvida sobre a pertinência do maniqueísmo, o risco de se colocar a mão no fogo por outrem. 

Mas quando eu leio um texto como o do Nelson Motta achincalhando a mulher do Lula, ou do Jabor, dizendo que o Lula decepou o dedo de propósito para não trabalhar, ou quando fico sabendo que o Jornal Nacional ignorou a queda do dólar e a alta nas ações da Petrobras, olho na banca a capa da Veja, ou topo com idiotas pedindo a volta da ditadura militar... me pergunto: que saída me resta?

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Herbert de Souza

Ontem, Betinho faria 80 anos. Não viveu pra ver seu Fome Zero virar programa de governo. Enquanto foi uma andorinha idealista, a direita até o reverenciava. Quando efetivamente começaram a matar a fome dos milhões de brasileiros, sua figura foi esquecida, sua imagem sumiu da mídia.

Se vivo ainda fosse, talvez estivesse sendo enxovalhado na internet e até na mira do justiceiro Moro. "Vai pra Cuba, comunista!", gritariam as coxinhas histéricas na Avenida Paulista...




terça-feira, 3 de novembro de 2015

Hommer Simpson, o monstro

Enquanto os neofascistas brasileiros estavam xinjgando e até ameaçando matar a presidente, era uma "revolta natural", mas bastou a truculência sobrar para a atriz negra e a indignação seletiva dos deformadores de opinião tomou conta das primeiras páginas.

Quando os nazistas devoradores de novela da Barra da Tijuca e de Alphaville saírem do controle, essa mesma mídia _ que os vem turbinando com seu noticiário enviesado, manipulado, tendencioso e discricionário _ se arrependerá amargamente. Alguém precisa avisar logo aos "jornalistas isentos" que o Hommer Simpson, como tão bem o locutor-âncora certa vez definiu seu público-alvo, pode deixar de ser apenas um idiota conveniente para se transformar num monstro perigoso. Uma aberração que nasce do acasalamento entre tubarões e gorilas.

Será tão absurdo relacionar o atual estágio de indigência mental do povo brasileiro ao poder descomunal que a mídia adquiriu no país nas últimas décadas? Quem educa o brasileiro na realidade não são nossas escolas públicas sucateadas mas os desenhos violentos da manhã, a novela sexista da tarde e o noticiário viciado da noite. No turno vespertino, nossos alunos estão entregues a professores honoris causa com doutorado em fofoca, maledicência e crimes bárbaros.

E o espírito, ah, o espírito... tão bem cuidado por Malafaia, Macedo, Valdemiro...

Há mais de dez anos, os principais órgãos de imprensa do Brasil vêm promovendo a demonização de um partido político e, com isso, fomentando a intolerância. Esquecem que a serpente que toma corpo não é só uma criatura antipetista, como desejam, é também racista, violenta, machista, falso-moralista e, claro, calhorda como seus criadores.

Boa noite.


domingo, 1 de novembro de 2015

Vida

Para uns, a vida é uma corrida, para outros uma caminhada.

Para os da corrida, a graça é ultrapassar, deixar adversários pelo caminho.

Os da caminhada se contentam em andar lado a lado.

Quem corre nem vê por onde passa.

Melhor desfrutar do caminho.

Corredores falam com pressa, ficam sem ar.

Andarilhos conversam com quem está do lado.

E não se importam com os esbarrões dos apressados

Afinal, todos se encontrarão na linha de chegada.

Foto: Marcelo Migliaccio



domingo, 25 de outubro de 2015

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

O poder da Universal está no ser humano

Em 2010, eu escrevi uma crítica à Igreja Universal e também ao tratamento que a mídia lhe dá. O bispo Macedo gostou e até publicou no blog dele, como exemplo de "jornalismo imparcial".

Eis o texto:

Foi um tsunami diferente. Bem carioca. Em vez de água, na última quarta-feira as ruas da cidade foram inundadas por ônibus. Entraram por todos os lados, vindos dos quatro cantos do estado do Rio em pleno feriado de Tiradentes. O mar de mais de 1 milhão de evangélicos confluiu para a Enseada de Botafogo, onde a Igreja Universal do Reino de Deus promoveu mais uma de suas maratonas de louvor.
Não vou ficar perguntando de quem foi a culpa pelos engarrafamentos gigantes que incomodaram tanto. Vale mais refletir sobre a força desse movimento, que na verdade mostra a pujança do ser humano.
Já fui a um culto da Universal, na Catedral da Fé, uma imponente construção em Del Castilho (Zona Norte). Foi na época da eleição municipal de 2008. A ordem no jornal era averiguar se havia algum tipo de proselitismo político durante a celebração – Marcelo Crivella, bispo licenciado e senador, era um dos candidatos a prefeito.
Não constatei nenhuma menção eleitoreira no interior da catedral. No máximo, alguns cabos eleitorais de candidatos a vereador ligados à igreja distribuíam santinhos e seguravam cartazes do lado de fora. Na calçada, onde a lei permite.
Lá dentro, vi ao vivo o que já tinha assistido nos programas de TV. O mesmo discurso dos pastores, invocando trechos bíblicos, batendo forte na tecla da autoestima e, no final, pedindo aos fiéis que deixassem suas contribuições para a obra. Confesso que no momento em que o pastor pediu doações de R$ 20 mil reais me assustei. Era um culto destinado a pequenos e médios empresários em dificuldade. Ninguém foi ao palco deixar o polpudo donativo, e o pedido foi baixando até chegar a R$ 50, momento em que várias pessoas se levantaram e ofereceram seu sacrifício financeiro na esperança de ter melhor sorte no futuro. A vinculação fé-prosperidade é a tônica das pregações.
De outra vez, eu passava em frente ao templo da Universal na Nossa Senhora de Copacabana, por volta das 7h. Havia um culto lá dentro e vi que um mendigo, imundo, muito sujo mesmo, e alcoolizado, se dirigia para a porta de entrada. Parei para ver se o obreiro iria barrá-lo. Que nada, o homem entrou sem ser importunado. Como ele, muitos devem ter chegado à Universal naquele estado e se recuperado. O obreiro devia saber disso. Como os outros, aquele mendigo poderia em breve ser mais um membro do rebanho de Edir Macedo.
Acho que o ovo de Colombo dos líderes evangélicos foi descobrir que todo ser humano precisa ouvir palavras que o façam acreditar em si mesmo. Os cultos exploram essa neurolinguística, oferecem injeções de otimismo em doses cavalares. É isso que os pastores dão a seu rebanho: pensamento positivo e autoconfiança. Não é pouco para pessoas cujo cotidiano se resume a trabalho pesado, salário insuficiente, moradia indigna, família desagregada, vizinhança perigosa e saúde combalida por tanta infelicidade. Essas pessoas precisam tão desesperadamente acreditar em algo que não têm olhos para reparar se o pastor é canastrão.
As palavras bíblicas são muito poderosas, afinal séculos e séculos de perenidade lhes conferem autoridade. Nas igrejas evangélicas, pessoas que nunca tiveram disciplina adquirem um norte, mudam velhos costumes. Abandonam drogas pesadas, resistem ao apelo do álcool, sossegam o facho e reconstroem casamentos nos quais ninguém apostava mais um centavo.
Esse poder não está nos pastores, nem nessa ou naquela denominação. Quem se levanta do fundo do poço é o ser humano, cuja força interior é ilimitada.
Nenhum crente se preocupa muito em saber se o pastor lá na frente acredita naquilo que prega com tanta ênfase. Tentativas de derrubar o império da Universal foram muitas e não deram em nada. A igreja só cresceu apesar dos ataques e denúncias que volta e meia afloram na mídia e ecoam no Judiciário. De nada adiantam vídeos comprometedores, porque os fiéis aprenderam que quem vai contra Deus é o Diabo e estão mais preocupados em reconstruir suas próprias vidas. O que, aliás, é mérito exclusivo de cada um deles, e não de bispo ou pastor.


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Sai pra lá




Em meados dos anos 70, uma festinha animada acontecia na Zona Sul do Rio. Dirceu, na época ponta-esquerda do Fluminense e um conquistador emérito, dava em cima da bela Yoná Magalhães.

Nem aí para o craque tricolor, ela não aguentava mais o assédio e resolveu mandar um recado definitivo por um intermediário:

_ Vai lá e diz pra ele que eu sou Botafogo!




quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Miele e o boliviano

Miele, que a minha avó Jandira já achava "um showman completo", contava esta história. Rolava uma festa da alta sociedade carioca, daquelas com políticos, artistas, profissionais liberais, empresários. Dançavam, comiam e bebiam do melhor na maior animação mas a expectativa era pela chegada de um boliviano que traria farta porção daquele produto típico de seu país, com alto grau de pureza.

Miele conversava com amigos numa rodinha no interior da mansão quando percebeu que alguns convidados, todos já pra lá de Bagdá, inventaram de jogar na piscina, de roupa e tudo, todo mundo que chegava.

Apavorados, alguns ainda correram em direção à piscina para impedir que o emissário dos Andes fosse também vítima da brincadeira.

Tarde demais. Quando viram, o boliviano já estava em pleno vôo.

Depois da imersão, o traficante levantou a cabeça molhada para fora d'água e disse, decepcionado:

_ Se fué...

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Coração

Foto: Marcelo Migliaccio

Os humanos dizem que eu não tenho coração
Tenho veneno, ferrão mas não tenho coração

Faço a minha teia, não mexo com ninguém
Mas vem uma vassoura e me manda para o além

Humanos são assim
E eu é que não tenho coração...


Foto: Marcelo Migliaccio




sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Me conformei...

Apesar da virulência dos últimos posts quero anunciar a toda nação (rubro-negra e dos 318 pastores) que já me conformei com o golpe. É assim mesmo. Vai rolar e pronto.

Aprendi cedo a lidar com isso, todos nós aprendemos. Quando criança, quem não teve um amigo que no meio da brincadeira disse: "não vou mais brincar"? Geralmente, era o garoto que não conseguia pegar ninguém no pique, ou aquele perna-de-pau que saía do jogo quando seu time estava levando uma goleada. Ou ainda a menininha mimada que sempre perdia no jogo da memória e, irritada, jogava todas as cartas pra cima.

A direita simplesmente cansou de perder. Levou quatro piabas seguidas nas urnas, viu que não ganha no voto e simplesmente decidiu melar o jogo. Disse que só joga se a bola ficar com ela a partir de agora.


Ok, vamos deixar a bola com ela. A gente toma de novo, no voto.

O que não dá pra aceitar são os idiotas achando que vai ser iniciada uma nova fase a partir de agora. Vão tirar o "governo corrupto" e estará instaurada a moralidade no país. Só pode ser imbecilidade ou má-fé acreditar que a partir de agora o Judiciário não vai fechar os olhos para os desmandos do novo governo, que a imprensa não vai ignorar seus escândalos, como faz com as contas de Eduardo Cunha na Suíça, com o metrô paulista, com a Operação Zelotes.

Quem acredita nessa baboseira? Os mesmos que acreditaram na Nova República do Tancredo/Sarney, no Plano Cruzado, na caça aos marajás do Collor... acreditaram até que a bandeira brasileira fincada pelo Bope no alto do morro do Alemão era a "retomada do território pelo estado". Choraram de emoção ao verem os traficantes fugindo em disparada, mas eles voltaram e hoje fazem tiro ao alvo nos PMs das UPPs.

Quer tirar o PT no casuísmo, numa chicana sem vergonha? Ok. Mas não venha com esse papo de que tudo será diferente...




quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Falta pouco para o golpe

Com a votação dos honestíssimos homens do TCU, foi percorrido meio caminho para a cassação de Dilma Rousseff e seus mais de 54 milhões de votos. Agora, falta o honestíssimo Congresso jogar a última pá de cal na democracia. A imprensa de negócios privados comemora o "dia histórico", afinal ela não consegue apoiar um golpe de estado desde 1964, jejum agora prestes a ser quebrado. Depois dessa lavagem cerebral midiática nunca vista, ninguém vai protestar nas ruas, ao contrário, vão comemorar com fogos o desrespeito descarado à maioria do eleitorado. Só não vale você, que se dizia de esquerda mas reforçou o coro dos indignados-seletivos, ficar com remorso. Ninguém precisa mais do exército para derrubar um presidente, basta um cartel de mídia e um bando de políticos e magistrados sem escrúpulos. Alguém acreditou no editorial dizendo que não apoiava o impeachment? Quem assumirá após o golpe? Cunha, Aécio Neves, Bolsonaro, Datena, Romário, Tiririca, Faustão? Tanto faz.

Foto: Marcelo Migliaccio



segunda-feira, 5 de outubro de 2015

"Petista bom é petista morto"

Quando vão começar a responsabilizar a imprensa antipetista por esse ódio nunca visto? Por acaso o PT foi mais corrupto que militares, Collor, Sarney e FHC? Claro que não, além de ter combatido muito mais a corrupção. Mas essa histeria foi o que o noticiário direcionado produziu nas cabeças de fascistas retardados que só precisavam de uma onda a legitimar seu preconceito. Sim, a mídia um dia tem que responder pela lavagem cerebral sem precedentes na História do Brasil. E por eventuais crimes decorrentes dela.

O mar de lama que levou Getúlio Vargas ao suicídio é uma marola diante desse tsunami contra a presidente reeleita. O silêncio dessa mesma imprensa discricionária ante as contas de Eduardo Cunha na Suíça, ao escândalo de corrupção dos tucanos nos trens e metrô de São Paulo e à sonegação empresarial descoberta pela Polícia Federal na Operação Zelotes, por exemplo, só desmoraliza ainda mais a perseguição ao PT, parece na verdade um repúdio do Brasil escravocrata às políticas de redistribuição de renda e ampliação de oportunidades no país.

E aí vem a ironia do destino: Getúlio deu um tiro no próprio coração em 54. Dilma teve 54 milhões de votos que agora querem cassar de qualquer maneira.



E o neonazismo à brasileira não se manifesta só na política. Pesquisa do Datafolha mostrou a aprovação de mais de 50% da população à máxima "bandido bom é bandido morto". Em vez de ver processados os PMs que executam bandidos já rendidos, a maior parte da nossa população gostaria mesmo é de aplaudi-los em praça pública. 

domingo, 4 de outubro de 2015

Canivete suíço

Sempre ouvimos falar da Suíça como um lugar frio, onde se fazia um bom chocolate e se podia guardar muito dinheiro em contas numeradas. Para mim, era o paraíso dos corruptos, que tinham ali um porto seguro para depositar a grana conseguida em negociatas inconfessáveis. A Suíça, portanto, era como a caverna da história de Ali Babá e os 40 ladrões, que guardavam nela os tesouros amealhados em sua pilhagens.

Só que a história mudou. Depois de ser criticado por décadas e décadas, o governo suíço reviu os dogmas se seu sigilo bancário. E não foi apenas isso. O país que legitimava, junto com outros paraísos fiscais do planeta, a triste máxima de que no Brasil o crime compensa, passou de vilão a herói quando seu ministério público começou a investigar o escândalo das propinas pagas pela companhia francesa Alstom a membros do governo de São Paulo durante a expansão do metrô paulistano. Claro que a imprensa daqui, tucana até a medula, só noticiou, timidamente, porque a roubalheira foi descoberta na Suíça. Mesmo assim, esqueceu o caso rapidinho. Os suíços não.

Também da Suíça veio uma lista de brasileiros com contas no HSBC de lá, muitas delas, ou a maioria, não declarada ao nosso fisco. Outro escândalo, aliás, negligenciado pelos nossos jornais, sempre tão severos quando se trata de atingir o PT e seus aliados.

E agora surgem as contas secretas do presidente da Câmara Federal, deputado Eduardo Cunha, e de seus parentes. Pelo menos US$ 5 milhões, coincidentemente a mesma quantia que Cunha teria recebido, segundo quatro delações premiadas da Operação Lava-Jato, para facilitar contratos assinados pela Petrobrás.

Ou seja, a Suíça, em pouco tempo, transformou-se num agente da moralização no Brasil. Só falta nossas autoridades punirem os criminosos.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Réquiem para um amigo

Foi-se um amigo. Ainda ontem eu estava falando com ele, sentindo sua respiração no ar, vendo angústias nos seus olhos. Bolas, quem não está desesperado?, pensei.

Ele tentou. Saiu da sarjeta, da cachaça, da família desagregada, do padrasto violento. Depois de muito apanhar na vida, escondeu-se numa igreja evangélica. Disciplinado pelo pastor, seduzido pela  prosperidade declarada em tantos testemunhos, constituiu família, arranjou emprego. Trabalho braçal num clube de elite. Carregava peso o dia inteiro vendo os ladrões dos nossos milhões passearem de iate com belas aproveitadoras.

Adquiriu uma hérnia, a prosperidade anunciada pela igreja revelou-se apenas um crediário na Casas Bahia. Cansou de carregar os barcos dos pilantras e dos exploradores nas costas, largou a igreja e voltou a beber. Logo foi demitido. Todo o desamparo veio à tona de novo, com muito mais força. É difícil não ter com quem se aconselhar. É difícil não ter nenhuma palavra de consolo ou incentivo sincera, nem mesmo a ladainha positivista que o pastor lhe vendia em troca do dízimo e das ofertas.

O coração sofrido não aguentou muito tempo.

Você tentou, amigo.

Todos nós estamos aqui tentando.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

O país das maravilhas

Os bastiões da moral e da honestidade no país são Romário e Jair Bolsonaro, o ídolo da garotada é o Anderson Silva, a mulher que as garotinhas querem ser quando crescerem é a vadia da novela das nove, as fontes de informação são o Jornal Nacional e a Veja, o livro mais comentado é a biografia de Andressa Urach, o que mais se ouve é axé e sertanejo, o craque da bola sonega R$ 189 milhões, o Batalhão de Choque tem que ocupar a praia senão não sobra ninguém, a bancada evangélica manda no Congresso, juiz do STF faz política partidária... e a culpa é da Dilma.

Foto: Marcelo Migliaccio

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

MMA na praia

Era tudo que eles queriam. Poder praticar MMA na praia e com um motivo legitimado pela grande imprensa, apoiadora incondicional do governo do Estado e da prefeitura, que querem barrar os pobres antes dos túneis Rebouças e Santa Bárbara para evitar arrastões. A milícia pitboy está pronta para entrar no ringue das areias de Ipanema e promete quebrar a turba do Jacarezinho e de Manguinhos. 

A onda nazi está virando um tsunami e na crista dela surfa o Bolsonaro, provável deputado mais votado nas próximas eleições. Quem ainda se arrisca a defender o estado de direito e os direitos individuais é rebaixado a escória do mundo. Não é de bom alvitre contrariar os nazi. Eles não estão pra brincadeira. Se querem uma garota, beijam à força. Se não gostam do resultado de uma eleição, tiram a presidente no tapa. O que não farão então com um bando de pivetes?

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A praia será privatizada

O festival de arrastões nas praias no último fim de semana fez com que as autoridades e parte significativa da imprensa voltassem com força total a pedir medidas de exceção, tipo dar à Polícia Militar o direito de entrar num ônibus e retirar dele quem acharem com cara de ladrão. É muito mais fácil reprimir direitos individuais do que atacar as causas da proliferação de desajustados, entre elas a concentração de renda, a falência da educação federal, municipal e estadual, a falta de saneamento básico, de moradia digna etc.

A solução encontrada é novamente dar aos PMs o direito de entrar num coletivo e pinçar aqueles que lhes parecerem assaltantes. Mesmo que retirem dezenas de jovens que realmente iriam à praia roubar, se apenas uma pessoa que queria se divertir no fim de semana for impedida de aproveitar seu dia de folga já terá sido cometida uma injustiça irreparável.


Como ainda não está em vigor a solução simplista e inócua da redução da maioridade penal, querem subverter o estado de direito, que admite prisão de menores apenas em flagrante delito. Como não dão mais conta de policiar as praias, acham agora que a solução é manter os pobres longe delas. Ingenuamente, o secretário de Segurança disse que a nova diretriz é só deixar embarcar nos ônibus na periferia jovens que tiverem dinheiro para pagar a passagem. Ué, não deveria ser sempre assim? 

Não sei se o fascismo à carioca _ vitaminado pelo pavor da classe média e pela revolta dessas legiões de jovens das periferias _ vai perder a queda de braço para o estado democrático de direito. Pra mim, falta pouco para colocarem grades e bilheteria nas praias. Vão acabar privatizando: entregam Ipanema, por exemplo, a uma grande empresa, como a Vivo ou a Coca-Cola, e esta toma conta do lugar, com cercas, bilheteria, segurança privada e banheiro químico pra todo mundo ficar numa boa enquanto o mundo explode lá fora. Já tiraram os pobres do Maracanã, está chegando a hora de tirá-los também das praias.

A onda nazi é tão forte que o próprio governador do Rio apoiou a ação repressiva dita preventiva, que escancara nosso fracasso como sociedade. A medida de Pezão, Beltrame e cia., ditatorial, racista e discricionária, é prima da tal presunção de culpa, usada em julgamentos quando se quer condenar o réu de qualquer jeito. E olhe que, diante do ódio que parte da classe média está nutrindo, essas iniciativas do estado são até moderadas. Tem coxinha que nem quer mais baixar a maioridade penal, quer é colocar todos esses adolescentes no paredão mesmo. Resta saber se os pitboys justiceiros de Copacabana serão tratados pela polícia e pela justiça da mesma forma que os ladrões da periferia.


O que me assusta é que os arrastões não têm ocorrido só nas praias, já se espalharam pelas ruas de Copacabana, Ipanema e Lagoa. A tragédia já se antecipou às medidas fascistas paliativas. Ouso dizer que nosso futuro, se a coisa continuar nessa progressão, é viver ao lado de uma faixa de Gaza cercada pelo Exército para que os ensandecidos não nos trucidem.

Para um país onde querem porque querem tirar uma presidente do cargo na marra, é um futuro bem factível.



Foto: Marcelo Migliaccio




domingo, 20 de setembro de 2015

FIFA 2015

De um lado, o videogame tentando se aproximar ao máximo de um jogo de futebol de verdade; do outro, o futebol de verdade ficando insosso como um videogame. Espremido na tela da TV, com jogadores sem sangue, sem paixão clubística, sem inventividade e em volta deles uma torcida de shopping center.
Os clubes perderam sua essência, que era o vínculo afetivo dos atletas com a agremiação. Agora só alugam os uniformes para empresas exibirem suas marcas na TV e, com o dinheiro, contratam jogadores de determinados empresários por curtos períodos.


Foto: Marcelo Migliaccio
Na divisão por castas que começou em 1987, quem está embaixo fica sempre embaixo no futebol brasileiro

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

No fiofó da Fifa

Esse Jérôme Valcke não é aquele gringo da Fifa que veio aqui dizer que o Brasil precisava de um "pontapé no traseiro" e virou ídolo dos coxinhas e da imprensa que apostava no atraso das obras para a Copa do Mundo? Agora será processado no exterior por chefiar a venda de ingressos falsos para jogos do mundial.

Esse pessoal, colonizado ao extremo, adora endeusar pilantras... sugiro que em breve não deixem de visitá-lo na prisão, levando, quem sabe, umas laranjas, uns maços de cigarro... Ainda bem que o Aldo Rebelo, meu comunista favorito, deu um passa fora nele na época. 

E pensar que a polícia carioca prendeu toda a máfia dos ingressos da Fifa mas a nossa Justiça-pra-preto-pobre-e-petista soltou...



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quinta-feira, 17 de setembro de 2015

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Tá com peninha?

Quem vender imóvel por mais de R$ 20 milhões vai pagar 30% de imposto. Você está com peninha de quem tem imóvel de R$ 20 milhões pra vender? A imprensa tucana, a Fiesp, o Ronaldo Caiado e o Eduardo Cunha estão. 

E dos bancos e grandes cartéis e monopólios, que vão pagar bilhões com a CPMF para que os aposentados possam receber em dia, você está com peninha? O quarteto fantástico da concentração de renda está. 

Como se não bastasse, a Receita Federal vai cobrar R$ 20 bilhões de 400 sonegadores, tadinhos, imagine, fazer uma sujeira dessas com o "Brasil que produz e dá empregos", que coisa feia...

Ah, mas congelaram o reajuste dos servidores públicos por um ano... Se eu tivesse estabilidade no meio dessa avalanche de demissões no mercado, não reclamaria, ainda mais sabendo que o setor público paga, em média, mais que o privado pela mesma função.

domingo, 13 de setembro de 2015

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

O patético anti-petismo...

A direita paulista não sabe mais o que fazer contra o prefeito Fernando Haddad. Depois de dizer que ele pintou a ciclovia de vermelho por ser a cor do PT (quando trata-se de um padrão internacional), abriu guerra contra os radares que multam por excesso de velocidade. Subitamente, alguns baluartes da imprensa e do Ministério Público viraram defensores dos motoristas assassinos. Alguém tem que dizer a eles que radar não leva propina, radar é radar. 

O que se faz no Brasil não é "mau jornalismo", não. É sacanagem mesmo. Então, que contratem logo o Fábio Júnior para apresentar o telejornal.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Cucarachas, go home!

O grande recalque da brasileirada que tava lá em Nova Iorque aplaudindo as asneiras do Fábio Junior é que, se o Brasil tivesse mudado antes, muitos deles não precisariam ter emigrado pra lavar banheiro de americano. A maioria saiu daqui durante a ditadura militar ou nos governos FHC. Agora, ficam ouvindo noticiários manipulados e dando pitaco sobre o Brasil. Aliás, tava na hora de partir mais uma leva... afinal, lugar de Batman e Robin é nos EUA, não no Brasil.

Foto: Marcelo Migliaccio

sábado, 5 de setembro de 2015

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Game over

Foto: Marcelo Migliaccio
Foto tirada na redação do Jornal do Brasil (1891-2010) logo após do fechamento da última edição impressa




A demissão é um choque de realidade. Passei centenas, milhares de manhãs, tardes, noites e até madrugadas enfurnado numa redação tensa e claustrofóbica. Perdi os melhores momentos da infância dos  meus filhos equilibrando-me sobre um tapete que meus amigos virtuais puxavam dissimuladamente, dando-me tapinhas nas costas toda segunda-feira e perguntando como havia sido o fim de semana. 


Não importava pra mim se o jornal em que eu trabalhava apoiou dois golpes de estado e só desistiu na última hora de liderar o terceiro porque pegaria muito mal. Sentindo-me parte daquela família, eu relativiza toda a sacanagem. O que queria mesmo era poder entrar num shopping sábado à tarde e posar de classe dominante. Eu era o rei do supermercado, carteira cheia, empáfia, carrinho abarrotado. Venci, pensava, com cuidado para que meu orgulho besta não desse muito na vista. Parecia até que eu era dono de alguma coisa além da minha força de trabalho. De repente, percebi que tinha confundido tudo: uma coisa é o patrão, o dono da parada, a outra sou eu, o empregado, peça descartável como aquele faxineiro que coloca papel higiênico nos banheiros da redação. A culpa não é minha, qualquer um ficaria inebriado. Quem não gosta de free shop, de cheiro de carro novo? Sei, meus textos são ótimos, nesses anos todos, eu fiz isso e aquilo, entrevistei grandes astros, ministros, até presidentes. Mas isso tudo e nada para o manda-chuva é a mesma coisa. Meu belo currículo não resistiu à tesoura de um tecnocrata e descobri agora que Prêmio Esso não tem valor em nenhuma padaria da cidade. 

Então eu caí das nuvens (bem, é melhor do que cair do segundo andar). Pelos meus anos de dedicação e suor, recebi um rotundo pontapé no traseiro. Agora, ninguém vai mais convidar o "Fulano do Jornal Tal" para um almoço grátis. Porque o convidado na verdade era o Jornal Tal e não o Fulano. Entradas para teatro e cinema? Melhor esquecer. Daqui em diante, ou pago o ingresso ou fico na calçada da infâmia. 

Não, amigo, eu e você não somos da classe dominante, mesmo que tenhamos em algum momento defendido os ideais dos nossos patrões com unhas, dentes e a maior convicção do mundo. Nossas idéias neoliberais certamente não farão mais sentido a partir de hoje. Será preciso encarar os vizinhos sem aquele poderoso crachá no peito. É hora de engolir o orgulho. Tem um gosto meio amargo, mas a gente consegue.