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quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Game over

Foto: Marcelo Migliaccio
Foto tirada na redação do Jornal do Brasil (1891-2010) logo após do fechamento da última edição impressa




A demissão é um choque de realidade. Passei centenas, milhares de manhãs, tardes, noites e até madrugadas enfurnado numa redação tensa e claustrofóbica. Perdi os melhores momentos da infância dos  meus filhos equilibrando-me sobre um tapete que meus amigos virtuais puxavam dissimuladamente, dando-me tapinhas nas costas toda segunda-feira e perguntando como havia sido o fim de semana. 


Não importava pra mim se o jornal em que eu trabalhava apoiou dois golpes de estado e só desistiu na última hora de liderar o terceiro porque pegaria muito mal. Sentindo-me parte daquela família, eu relativiza toda a sacanagem. O que queria mesmo era poder entrar num shopping sábado à tarde e posar de classe dominante. Eu era o rei do supermercado, carteira cheia, empáfia, carrinho abarrotado. Venci, pensava, com cuidado para que meu orgulho besta não desse muito na vista. Parecia até que eu era dono de alguma coisa além da minha força de trabalho. De repente, percebi que tinha confundido tudo: uma coisa é o patrão, o dono da parada, a outra sou eu, o empregado, peça descartável como aquele faxineiro que coloca papel higiênico nos banheiros da redação. A culpa não é minha, qualquer um ficaria inebriado. Quem não gosta de free shop, de cheiro de carro novo? Sei, meus textos são ótimos, nesses anos todos, eu fiz isso e aquilo, entrevistei grandes astros, ministros, até presidentes. Mas isso tudo e nada para o manda-chuva é a mesma coisa. Meu belo currículo não resistiu à tesoura de um tecnocrata e descobri agora que Prêmio Esso não tem valor em nenhuma padaria da cidade. 

Então eu caí das nuvens (bem, é melhor do que cair do segundo andar). Pelos meus anos de dedicação e suor, recebi um rotundo pontapé no traseiro. Agora, ninguém vai mais convidar o "Fulano do Jornal Tal" para um almoço grátis. Porque o convidado na verdade era o Jornal Tal e não o Fulano. Entradas para teatro e cinema? Melhor esquecer. Daqui em diante, ou pago o ingresso ou fico na calçada da infâmia. 

Não, amigo, eu e você não somos da classe dominante, mesmo que tenhamos em algum momento defendido os ideais dos nossos patrões com unhas, dentes e a maior convicção do mundo. Nossas idéias neoliberais certamente não farão mais sentido a partir de hoje. Será preciso encarar os vizinhos sem aquele poderoso crachá no peito. É hora de engolir o orgulho. Tem um gosto meio amargo, mas a gente consegue.



6 comentários:

  1. Com o fim do JB impresso, não só os funcionários ficaram na mão, os leitores também.
    Estamos órfão de um bom jornal diário, ainda bem que podemos ler o JB online, com colunistas de qualidade e reportagens muito boas.
    Tenho saudade do tempo em que ao ler JB a mão ficava suja de tinta que soltava do jornal ao folhear suas páginas.
    Cury

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    1. Nao foi o JB impresso que acabou. Acabou AQUELE JB honesto que tanto gostava.

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  2. Concordo Cury. Nada se compara a sujar a mão de tinta enquanto lê o JB. Foi meu companheiro de inúmeras e intermináveis viagens de ônibus enquanto morei no Rio. Será que um dia a classe média (seja a nova criada nos governos do PT ou a velha classe média alta) vai perceber que a direita quer um governo só para ricos e que ela é usada apenas como massa de manobra que será descartada quando os objetivos da elite forem alcançados.

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  3. Realmente...concordo com os 3 comentaristas acima.Dos jornais de grande circulação que conheci e conheço, considerei e ainda considero o, agora on-lene, JB, o menos ruim ou o menos pior.Fui dele assinante por looooooongos anos. Ler o Globo...sinceramente, impossível/insuportável para mim. Tenho pena de quem acredita no sistema, como tão bem relatado pelo Migliaccio.

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  4. Marcos, tenho pena desses leitores que acreditam piamente no que a veja e o globo escrevem Não passam de massa de manobra, facilmente manipulados.
    Cury

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  5. Também leio Jb online. Jornais e revistas impressos deveriam acabar. A natureza agradece.

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