Translate

terça-feira, 31 de março de 2015

Dia triste

"Hoje o dia deu em nublado".

Um dia cinza. O telefone mudo, o chuveiro sem água, problema na bomba. Mesmo assim, o chão do banheiro está inundado. 

Abro a gaveta e vejo que ontem me deram o troco errado.

"Um dia daqueles sem graça, de chuva a bater na vidraça". Sei bem como é, Raul.

O e-mail traz mais, e más, notícias: problema nos papéis da firma.

Ver a filha triste com a mãe que sofre me joga na lona outra vez.

Levanto ainda grogue... levantar é a nossa única missão.

Olho pela escotilha e vejo os fascistas subindo pela borda da caravela. Agora, estão prestes a colocar na cadeia as crianças que não conseguem educar. E nada de ventar.

E, de novo pela internet, vem a cereja desse bolo solado: a morte do companheiro Massimo Gentile​, cuja competência e a doçura testemunhei, primeiro na Manchete e depois na Folha de S. Paulo. Massimo parecia ter pressa de desembarcar, era inteligente e sensível demais pra isso aqui. 

Adeus, amigo italiano.

Que dia... e não dá meia-noite de jeito nenhum...


Ciao, Massimo!





domingo, 22 de março de 2015

Do craque galã ao velho do rio

Morreu Claudio Marzo, que foi o craque Duda na primeira versão de Irmãos Coragem. Lembro uma cena que ele levava um tiro na perna e desfalcava o Flamengo por vários jogos. As cenas no Maracanã misturavam takes de um jogo real com imagens dele conduzindo a bola gravadas em separado. Só que não tinha nem pinta de atleta. 


Uma vez, muitos anos depois, o entrevistei no apartamento em que vivia, na Gávea. Tudo muito modesto para quem esteve entre os galãs do primeiro time. Contou que nos anos 70, depois de se arriscar em protestos contra a ditadura militar, pirou com a fama e largou tudo. Deixou a barba crescer e deu o relógio para um garotinho que encontrou na rua. "Depois, acabei comprando outro relógio", comentou, rindo.

Outra lenda que cercava Cláudio Marzo era que ele não tinha a menor paciência com fãs. E que costumava brindar tietes nas ruas com desaforos em vez de autógrafos. Meu ídolo... 

Foi para a Manchete porque uma vez se recusou a gravar na Globo em apoio a uma greve do pessoal da técnica. Fez sucesso em Pantanal como o Velho do Rio e logo voltou à antiga casa. Também disse que seus problemas de saúde eram decorrentes de suas "extravagâncias" na noite durante muitos anos. Contou que tinha parado de beber por ordem médica e apontou uma garrafa de uísque na prateleira: "Mantenho aquela ali só para contemplação".


No verão passado

Aquele domingo de sol escaldante foi o dia mais feliz na vida do vendedor de guarda-chuvas que faz ponto em frente ao teleférico do Pão de Açúcar. Uma fila quilométrica, com espera de até três horas.



Acho que ele pagou todas as dívidas no dia seguinte.




domingo, 15 de março de 2015

A golpeata

O dia 15 de março de 2015 vai entrar mesmo para a História: será eternamente lembrado como o dia da primeira Golpeata (a passeata golpista).

Agora, só falta o Congresso, em vez de votar a reforma política e acabar com o financiamento privado de campanhas políticas, dizer que precisa ser sensível ao grito das ruas e iniciar as manobras para votação do impeachment. É capaz de cobrarem um troco pra não derrubar o governo. Eu contribuo com R$ 5.


Depois de muita discordância e delírios (1 milhão na Av. Paulista dá 333 pessoas por metro quadrado), a "imprensa escrita, falada e televisada" está chegando a uma conclusão sobre o número de manifestantes que estiveram nas ruas ontem: 1,8 milhão no país inteiro, segundo Folha e Uol.

Menos de 1% da população brasileira.

Nossa, que movimento pujante!


Mas o mais engraçado é ver os malabarismos verbais feitos por jornalistas que não querem ser tachados de golpistas mas também não querem desagradar seus patrões, aqueles dos milhões de dólares sonegados no HSBC suíço.

Estão cassando o seu voto, devagarinho, passo a passo, até o dia em que vai eclodir o ovo da serpente.

O último réptil agourento viveu 21 anos. Quando finalmente morreu, caiu de podre, a ditadura deixou uma concentração de renda indecente, êxodo rural e formação de favelas nunca vistos, estatais sucateadas, dívida externa gigantesca, fome, milhões de desdentados, desvalidos, educação abandonada, meios de comunicação nas mãos de meia dúzia. Sem falar nos mortos e torturados.

E, claro, corrupção em todos os níveis, como é próprio das ditaduras, de direita ou de esquerda.

Instabilidade social à vista, meus amigos. Se um presidente for derrubado no grito, outro também poderá ser. Aí vira zona.

E lá vai, Brasil, de volta para o passado.

sábado, 14 de março de 2015

Então...

Cabe agora à Receita Federal divulgar quais desses correntistas do HSBC que enviaram dinheiro ao exterior declararam isso no Imposto de Renda.

Quem não declarou cometeu crime de sonegação e não tem moral para apontar o dedo para a Petrobras. Muito menos para conspirar contra um governo reeleito pela maioria da população.

Isso é continuar mudando de verdade o Brasil.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Serviço essencial

Garis do Rio entraram em greve. Agora é que a coisa vai feder...

Candidato não falta, veja a fila para a prova de seleção da Companhia Municipal de Limpeza Urbana, há algumas semanas.

Foto: Marcelo Migliaccio

quinta-feira, 12 de março de 2015

Carta ao PSOL


Meu caro, PSOL, o PT já foi assim: idealista, purista etc. Mas quando se chega ao poder a coisa muda. Como o PSOL aprovaria seus projetos no Congresso caso chegasse à Presidência da República? Como teria os votos desse parlamento fisiológico e de direita? Na base da conversa? Duvido. Acho que, na prática, o saldo do PT ainda é muito positivo, como prova o referendo da maioria da população nas quatro, eu disse quatro, últimas eleições.

 O que acontece é o seguinte: durante décadas, séculos, a roubalheira no governo foi geral e irrestrita. Aí, chega um partido que pela primeira vez dá independência à Polícia Federal pra prender até gente do próprio partido. É bom lembrar que o chefe da PF tucana era filiado ao PSDB, ia prender quem? Prender grandes empreiteiros, quando isso foi visto? Devassar a quadrilha que desde sempre saqueou a Petrobras, pela primeira vez! Aí, passam a dizer que esse partido, o primeiro a botar a pilantragem na cadeia, é um partido de pilantras. 

A oposição do PSOL é válida, necessária e respeitável, mas quando se governa um país deste tamanho, o discurso e a prática mudam, ou não se muda nada. Os aproveitadores e ladrões chegam aos montes, do porteiro do prédio da estatal ao presidente da empresa, do enfermeiro que rouba esparadrapo ao diretor do hospital que desvia milhões, passando pelo médico que frauda plantão. 

Ser estilingue é fácil, difícil é ser vidraça. E ainda têm as mentiras espalhadas na internet, tipo Dilma vai inaugurar busto para traficante executado na Indonésia. Dizem até o local e a hora. É mole?

terça-feira, 10 de março de 2015

Duvido ter ouvido


O cheiro de golpe no ar está cada vez pior. Não ouvi panela nenhuma ontem à noite, mas quem lê os jornais pensa que ficou surdo de uma hora para a outra e não escutou o suposto maior protesto popular da História do Brasil. Logo, logo, a gente vai ter que levantar a bunda da cadeira e mostrar a essa turma ressentida e sem caráter que resultado de eleição é sagrado.

Se tirarem Dilma da Presidência, esse país vai conhecer o maior quebra-quebra de sua História, e os golpistas vão se arrepender amargamente do que estão fazendo.

Dilma não é Fernando Collor. É honesta e tenta governar em meio uma sabotagem econômica flagrante (essa alta do dólar, por exemplo, é artificial e apenas aumenta o clima para o ato antidemocrático de domingo). E também uma conspiração política que se alastra pelo Congresso, tendo à frente essa figura deprimente que é o presidente da Câmara, Eduardo Cunha.

Dizem que são esperadas 100 mil pessoas no ato pró-impeachment em São Paulo. Isso não significa absolutamente nada no universo eleitoral paulista. Vai ser uma passeata de coxinhas, como aquela pró-Aécio na Praia de Ipanema, durante a campanha eleitoral.

A natureza desse movimento elitista é ditatorial e isso se reflete nos argumentos dessa gente e na sua forma de protestar. O tal panelaço inaudível aqui onde moro, visava abafar a fala da presidente na TV. Essa turma é assim: como não tem argumentos, não deixa o adversário falar, ou tenta não deixar que o ouçam.

Nunca antes na história deste país houve um movimento tão calhorda como este que visa tirar o PT do poder depois de quatro vitórias seguidas em eleições limpas e diretas.

segunda-feira, 9 de março de 2015

África lírica

Sábado, estive na tradicional Sala Cecília Meirelles, que foi reformada e ficou linda. E melhor ainda foi a apresentação do cantor lírico Maurício Luz, que, acompanhado por instrumentistas de primeira, mostrou músicas do recém-lançado CD Ritos e Ritmos. Dono de uma voz deliciosa e potente _ além de uma elegância que chama a atenção _ Luz passeou pela influência africana nas canções que nasceram nas mais diversas vertentes americanas.

O detalhe curioso é que Luz, membro do cast do Teatro Municipal do Rio, também é dublador. Emprestou sua voz a muitos blackbusters conhecidos de nós como os desenhos Pocahontas e A Bela e a Fera.

Do gospel dos Estados Unidos ao samba carioca, o show foi algo muito diferente do que a mídia costuma nos servir diariamente.

No vídeo a seguir, mesmo gravado com celular, é possível ter uma idéia do que foi aquela maravilhosa noite de sábado.

video



sábado, 7 de março de 2015

Pergunta do dia

Depois da prisão do garotinho roubando cordão de ouro em São Cristóvão, já apareceu algum fascista pedindo pra baixar a maioridade penal para 6 anos?



SOBRE O TEMA:
Baixar a maioridade penal não vai mudar as coisas

quinta-feira, 5 de março de 2015

Salve-se quem puder

Caiu a última redoma de segurança da burguesia. Assaltos e sequestros dentro dos shopping centers do Rio mostram que nem nos templos do consumo se está seguro. Eis a turba de excluídos tentando te enforcar na janela do carro, como cantou Cazuza, pouco antes de morrer, já há quase três décadas.

Minha amiga, assustada com o arrastão na principal avenida da Barra da Tijuca, diz que quer sair do Rio. Eu pergunto pra onde. As cidades do interior estão piores que as metrópoles. Não há para onde correr.

Para o exterior? Lá nos esperam os terroristas do estado islâmico, com seus punhais prontos para decepar cabeças. E os neonazistas, sempre à espera de um estrangeiro para barbarizar.

Fizeram as UPPs no Rio, uma tentativa de ocupar militarmente as favelas. Sem investimentos sociais para resgatar 500 anos de exclusão, só fizeram desempregar a mão de obra do tráfico, que desceu para o asfalto para assaltar. O ufanismo da imprensa amiga do governador quando fincaram a bandeira do Brasil no alto do complexo do Alemão mostrou-se uma grande piada.

Os mesmos bandidos que fugiram como formigas na pia da cozinha já voltaram. Atacam os policiais militares a tiros de fuzil. Que pacificação foi essa?

A única solução para a criminalidade que cresce em progressão geométrica seria a legalização de todas as drogas e sua venda em firmas legalizadas nas favelas. Mas isso nosso moralismo de fachada jamais permitirá. Se um dia legalizarem, vão entregar o comércio aos grandes laboratórios farmacêuticos e às redes de drogarias.

E salve-se quem puder da bandidagem.


segunda-feira, 2 de março de 2015

Overdose de vodca


Impressionante o enfoque enviesado da mídia nas reportagens sobre a festa em Bauru em que um jovem morreu de overdose de vodca e outros três foram internados em estado grave. O culto ao álcool, incentivado no Brasil desde a mais tenra idade com esse festival de publicidade na TV, não foi sequer mencionado, claro. O problema, para os telejornais, é que a festa não tinha alvará nem estrutura para socorro. Vê se pode? 

E que os milhões da Ambev e dos fabricantes de destilados continuem entrando nos cofres das emissoras, patrocinando programas esportivos etc. 

Não sou a favor da proibição de nenhuma droga, nenhuma, nem do álcool, que está entre as mais pesadas. Quem quiser usar, que use, cada um sabe de si. Mas sou contra qualquer tipo de publicidade de substância psicoativa, e a do álcool, como é feita no Brasil, é criminosa.

Esse projeto que em breve tornará crime a venda para menores só vai inaugurar uma nova prateleira nas bocas de fumo. As que vão vender bebida alcoólica a menores.

E a curiosidade continuará a ser aguçada, desde cedo, pela babá eletrônica.