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domingo, 30 de agosto de 2015

A onda nazi

Na Alemanha, dezenas de neonazistas bêbados cercam um abrigo para refugiados sírios e iraquianos. Querem entrar e quebrar todos os "intrusos". A polícia intervém e o pau come.

Na rádio Fluminense AM, dois membros da equipe de esportes fazem piada e riem das sequelas que um AVC deixou no técnico do Botafogo, Ricardo Gomes.

Nas manifestações pró-golpe no Brasil, participantes ameaçam qualquer um que traje camisa vermelha. Em cartazes, dizem que a presidente deveria ter sido morta pelos militares em 1964.

No Rio Grande do Sul, conversa telefônica mostra um adolescente de classe média se vangloriando de ter furado o rosto de um outro com uma garrafa quebrada: "Bááá, foi tri!!"

Nos Estados Unidos, meca da cultura da violência, único país a ter coragem de jogar duas bombas atômicas numa população civil, aguarda-se a próxima chacina promovida por uma criança armada.

O esporte que mais cresce em popularidade no planeta permite continuar batendo no oponente mesmo que ele esteja caído no chão.

No Rio, torcedores do Vasco cercam um jogador do Flamengo numa lanchonete, ofendem e ameaçam espancá-lo.

Terroristas do Estado Islâmico, quando não estão explodindo templos milenares, cortam cabeças e distribuem o vídeo para o mundo.

É bom parar por aqui.


quinta-feira, 27 de agosto de 2015

A vida passa na TV mas não pode cair na prova

Podem os apresentadores desses programas policiais vespertinos posarem de indignados porque caiu numa prova de escola primária uma pergunta sobre o apelido de um traficante? 

Esses caras mostram e falam as maiores atrocidades no vídeo sem se importar com o público infantil mas, quando a escola aborda esse triste cotidiano, fazem um escândalo. 

E não faltaram também pais que não estão nem aí para o que os filhos assistem na TV dizendo que tráfico não é assunto para a sala de aula. Se já tivessem ouvido falar em Paulo Freire, diriam que é mais um "petralha safado".


O único garoto da sala que errou a questão passou a tarde anterior escrevendo uma carta para Papai Noel.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Um peixe chamado boi...

Foto: Marcelo Migliaccio


Meio sem jeito, o guia e agente de preservação do Projeto Peixe Boi diz que seu pai comia a carne desse incrível animal. Resisto mas não consigo evitar a brincadeira.

_ Devia ser bom porque era almoço tipo dois-em-um: peixada e churrasco ao mesmo tempo.

Felizmente, a algazarra no pequeno barco não deixa ninguém ouvir a piadinha ordinária.

Todos estão mais preocupados em avistar pelo menos um dos animais mantidos numa área controlada em Tatuamunha, município de Porto de Pedras, em Alagoas. Nem todos os turistas conseguem. Muitos vêem apenas os sinalizadores presos a cada um dos peixes e que ficam sempre flutuando na superfície. Aliás, para conseguir prender a engenhoca no peixe-boi, usa-se uma tática meio sacana, literalmente. Um dos tratadores começa a alisar o órgão sexual do animal até que ele fique excitado e envergue o corpanzil. Aí um segundo homem aproveita para colocar a cinta que prende o sinalizador. Depois, conta o guia, quando descobre o logro, o peixe-boi fica fulo da vida. E não queira levar uma lambada desse gigante que chega a medir 3 metros e pesar 500 quilos.


Foto: Marcelo Migliaccio

Nosso grupo até que teve sorte. Primeiro, vimos o dorso de um deles, dormindo, perto da margem do rio que leva o nome do lugar. Mesmo durante o sono, ele volta-e-meia coloca as narinas fora d'água para respirar.


Foto: Marcelo Migliaccio

O peixe-boi é um animal fantástico, aliás, como todo animal. Mamífero aquático como as baleias, ele no entanto é herbívoro. Estava sendo dizimado pelos pescadores, porque arrebentava redes com seu tamanho descomunal. Era abatido, pasmem, a pauladas. Mas a sacaneada, vilipendiada, esculachada e pujante Petrobras desenvolveu um projeto para preservar essa jóia da fauna brasileira. Opa!, agora próximo ao barco, outro peixe exibe suas ventas. Trata-se de um filhote brincalhão. Tremendo ladrão de oxigênio, olha só!


Foto: Marcelo Migliaccio

Alagoas é linda. Muita miséria da maioria contrastando com a opulência da minoria abastada. Às vezes, parece que as coisas aqui estão por um fio...


Foto: Marcelo Migliaccio

A pátria educadora nunca foi tão necessária.


Foto: Marcelo Migliaccio

Mas, de volta ao peixe-boi, fico sabendo pelo guia que o animal transita com desenvoltura pelo rio e pelo mar. E, no projeto, já até deu cria, o que só aconteceu depois de os biólogos e ribeirinhos descobrirem que era preciso soltar uma fêmea e dois machos, porque ela só aceita acasalar se, antes, o felizardo tiver sobrepujado um rival para merecê-la. Mulheres... bááá...


Foto: Marcelo Migliaccio

Tatuamunha é um dos muitos lugares fascinantes do Nordeste. É lá que fica a Praia do Patacho, das mais bonitas que já vi. Tem também o farol, as casinhas, a mata... uma delícia.


Foto: Marcelo Migliaccio

Claro, o peixe-boi não está sozinho nesse paraíso. Caranguejos habitam a área de manguezal, também preservada. Depois, fui provar a iguaria. Dá muito trabalho pra abrir e o conteúdo não compensa. A maior parte da carne tem gosto de coração de galinha, o mais gostoso está nas pernas, em doses pra lá de racionadas.

Foto: Marcelo Migliaccio

É melhor vê-los no mangue do que em cima da mesa...

Foto: Marcelo Migliaccio

Outra maravilha desse ecossistema são as raízes suspensas das plantas. Um emaranhado onde vivem dezenas de espécies. 


Foto: Marcelo Migliaccio

E a turistada lá, fotografando e falando sem parar. Talvez por isso os peixes-boi não apareçam tanto. Escutam e enxergam muito bem, diz o guia.


Foto: Marcelo Migliaccio

O passeio termina e vamos embora reverenciando novamente a natureza, torcendo para que o peixe-boi, mesmo tendo virado atração turística, continue sua incrível sina evolutiva.


Foto: Marcelo Migliaccio








quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Cartilha do jornalista esperto

Como manter o emprego na grande imprensa sem ser chamado de golpista em dez lições fáceis:

1 - Assuma um ar circunspecto e defina-se como uma pessoa completamente desprovida de paixões políticas.


2 - Fale que deve haver impeachment "se houver razões legais para isso".

3 - Alardeie que não participa de "Fla-Flu ideológico" e que os conceitos de direita e esquerda "estão ultrapassados"
.

4 - Lembre que não está em jogo um campeonato de quem roubou menos (embora seu patrão só noticie os roubos do PT e dos aliados).

5 - Brade contra todo e qualquer tipo de rótulo (até de maionese Hellman's).

6 - Evoque o princípio do jornalismo de que é preciso ouvir os dois lados (o da oposição na manchete e o do governo no pé da página).

7 - Faça crer que você é uma pessoa equilibrada e, de nariz empinado, critique quem fala de política nas redes sociais.

8 - Defenda sempre a liberdade de imprensa (mesmo que ela só exista para quem fala mal do PT).

9 - Esqueça que você venerava Herbert de Souza pela campanha do Fome Zero porque ela virou programa de governo do PT.

10 - Se lhe der uma vontade incontrolável de se posicionar, poste um videoclipe qualquer.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Fígado, tripa, bucho, bofe e chouriço

_ Posso tirar uma foto?

Os olhares desconfiados já eram em si uma negativa. Seria eu um agente infiltrado da vigilância sanitária?

_ É pro meu blog...

Como mágica, as expressões das duas atendentes se desanuviaram e pude apontar minha máquina para aquelas bizarras iguarias que eu nunca tinha visto.

O esquadrão é de primeira, um ataque dos sonhos, não há anti-ácido que dê jeito, mas trata-se de um campeão da preferência popular, pelo menos na curiosa feira dominical de Piabetá, na Baixada Fluminense. Com vocês o que minha companheira de explorações definiu cinematograficamente como "o quinteto bombástico": tripa, fígado, bucho, bofe e chouriço.


Foto: Marcelo Migliaccio

Apesar do cardápio heterodoxo, as barraquinhas são até bem apresentáveis, com mesinhas para o pessoal degustar um almoço de domingo daqueles. E quando tudo se mistura na panela, num óleo fervente... Clique aqui e conheça a barraca da Tia Cléia.


Foto: Marcelo Migliaccio

A feira lembra aquela antiga lá de São Cristóvão, quando o ponto de encontro dos nordestinos no Rio ainda era na rua.


Foto: Marcelo Migliaccio

De repente, um ser inacreditável chama a minha atenção. Um galo gigante.


Foto: Marcelo Migliaccio

_ Pesa cinquenta quilos _ diz o moleque.

_ Quanto custa?

_ R$ 50.

_ Um real por quilo _ tento brincar.

_ Não, só vende ele inteiro.

_ Pesa pra ele ver _ ordena o pai do moleque lá de longe.

_ Não precisa! _ me apresso, procurando um plano zenital.

_ Como ele fica assim?

_ Ração _ ensina o infante mascate.

Morri de pena. Sem trocadilho.


Foto: Marcelo Migliaccio

Na feira tem de tudo, sementes que eu nunca tinha visto e que, segundo os vendedores, curam tudo, melhor que igreja evangélica, eu acho.


Foto: Marcelo Migliaccio

Grandes marcas, claro, marcam presença nesse concorrido evento...


Foto: Marcelo Migliaccio

E lembrei do filme Pinochio ao ver ali, na minha frente, Cléo, a peixinha dourada.


Foto: Marcelo Migliaccio


Balões de todas as cores e cabelos idem alegram ainda mais o colorido domingo de inverno na Baixada Fluminense.

Foto: Marcelo Migliaccio

Tudo sob os auspícios da Guarda Municipal de Piabetá. Confesso que ao ver o pólo gastronômico, senti falta de uma ambulância...

Foto: Marcelo Migliaccio

Você deve estar querendo saber se eu almocei lá. Não, era muito cedo...



sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Reunião de bacana

_ Ô Pilantra 1, vem cá.

_ Fala, Pilantra 2.

- Tão alimentando e educando o povo e isso pra nós é um péssimo negócio.

- Tô sabendo. O cara com fome aceita qualquer salário, qualquer condição de trabalho. Quando tá de barriga cheia começa a exigir coisa, encher o saco...

- E se estudar piora tudo. Bom é o analfa, que assina qualquer contrato sem ler, quáquáquáquáquá!

_ Adoro seu senso de humor, Pilantra 2, você é ótimo!

- Então escuta só: vamos combinar uma coisa. Você aumenta os preços dos seus produtos mesmo quando não houver motivo, só pra ajudar a puxar a inflação pra cima...

- Sou craque nisso!

- Sabe como é que é, os pobres gostam desse governo e a única linguagem política que pobre entende é inflação.

- Por mim vai ter até recessão, deixa comigo! 

- Eu, da minha parte, só vou dar notícia desfavorável ao governo no meu jornal.

- Show.

- Tem um juiz amigo meu que só vai prender ladrão do governo, o resto ele vai deixar roubar à vontade.

- Obrigado pela parte que me toca... eheheheh.

- E tem uns deputados e senadores da minha turma que vão votar contra tudo que o governo propor no Congresso.

- Você é meu ídolo!

- Mas tem um probleminha...

- Qual!?

- Falta arrumar um povo idiota que embarque nessa com a gente.

Foto: Marcelo Migliaccio

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A Ferrari e as casas de barro

Percorrendo o interior de Alagoas e vendo as condições em que esse povo vive, não sei por que, mas lembrei da Ferrari, do Lamborghini e do Porsche do Fernando Collor de Melo, eleito senador por esse estado tão pobre, de uma gente humilde que te encara completamente desarmada, pessoas de uma simplicidade e de uma ingenuidade quase indígenas. 


Foto: Marcelo Migliaccio

É incrível mas quanto mais miserável é a gente de um lugar, mais opulência ostenta a confraria de grandes milionários locais. Talvez esse contraste gritante explique o fato de Alagoas ter o maior índice de homicídios do país. Só vou acreditar na tal "meritocracia" quando as oportunidades de educação e o acesso à saúde forem iguais pra todos desde o nascimento. Usar essa palavra tucana antes disso é ignorância ou má fé.


Foto: Marcelo Migliaccio

Essa favela na capital alagoana chama a atenção de um carioca acostumado a ver a miséria apeada para o alto dos morros. A Grota do Índio fica num vale, um vale dos horrores produzido pela concentração de renda durante séculos. A menos de um quilômetro dali, fica o shopping center mais luxuoso de Maceió.


Foto: Marcelo Migliaccio

A fome tira a dignidade, acaba com a autoestima. Faz a pessoa pensar que nasceu mesmo para sofrer... e que a única alternativa é a Igreja Universal.


Foto: Marcelo Migliaccio

Na estrada para o interior, fazendas e mais fazendas com canaviais intermináveis. Os cortadores de cana pedalam ou caminham por muitos quilômetros para penar horas e horas com a foice debaixo de um sol escaldante, Se for bom de braço, pode ganhar até R$ 50 por dia. Só para comparar, um servente de pedreiro no Rio ganha diária de R$ 90.


Foto: Marcelo Migliaccio

Aqui vivem brasileiros que talvez nunca tenham ouvido falar de Renan Calheiros e do próprio Collor, que um dia representou o sonho de dias melhores num dos maiores contos do vigário da História.


Foto: Marcelo Migliaccio

Matar a fome é o primeiro passo na direção da justiça social. Graças a Deus, e ao Bolsa Família, vi muitas crianças indo e voltando da escola. São elas a esperança de um futuro que não repita o passado.


Foto: Marcelo Migliaccio


E que não se vote mais no colecionador de Ferraris, Lamborghinis e Porsches...

Carros de Collor apreendidos e depois devolvidos






domingo, 2 de agosto de 2015

As garras do leão

Quando trabalhava no Jornal do Brasil tive o prazer de entrevistar um dos ícones da minha infância: o domador Orlando Orfei, que morreu hoje aos 95 anos. Em 2007 ou 2008, não me lembro, ele já não se apresentava com grandes felinos. Com a saúde debilitada, apenas administrava seu lendário circo, então em decadência justamente pela proibição de uso de animais em várias cidades, entre elas o Rio.

Sentado numa cadeira no centro do picadeiro, ele me esperava. Em volta, arquibancadas completamente vazias numa tarde cinzenta de um dia de semana, ali mesmo, na não menos lendária Praça Onze.

_ Luce (luz) !!!  _ gritou para alguém atrás das cortinas.

Iluminado, respondia às minhas perguntas com uma indisfarçável melancolia.

_ É uma burrice proibir animais no circo _ desabafou.

E falou de sua longa convivência com leões e tigres.

_ É melhor levar uma mordida de um leão do que experimentar suas garras. Elas te rasgam!

Fiquei olhando aquele homem fragilizado a falar de sua longa história e do número incontável de países onde sua caravana armou a lona durante mais de quatro décadas (talvez cinco).

E me lembrei daquela mesma voz ecoando nos meus ouvidos durante o intervalo de uma matinê a que assisti em meados dos anos 70, junto com meus pais, que, felizmente, me levavam a todos os circos que aportavam no Rio.

_ Una foto com lo leone! Una foto com lo leone! _ anunciava Orfei pelos alto-falantes.

E as crianças _ eu entre elas _ formaram uma fila diante de um empregado do circo que carregava um lindo filhote de leão preso em seu pulso por uma grossa corrente. Ao lado dele, um fotógrafo registrava, mediante o pagamento de algo em torno de R$ 10, a criança com o leãozinho entre os braços. Na verdade, quem segurava  o animal ainda era o funcionário, que se esquivava ao máximo para não aparecer na foto.

Durante anos, guardei a minha fotografia naquele momento mágico, mas ela se perdeu. Pode ser que esteja dentro de algum fascículo da enciclopédia Barsa.

Como um dia, infelizmente, se perderá na memória o grande Orlando Orfei.


Olimpíada no Rio...


Padrão COI (Comitê Olímpico Internacional) no evento teste em Copacabana: nenhum grão de areia no tapete...

Foto: Marcelo Migliaccio

E o padrão COCOI (na raia de iatismo da Praia de Botafogo): esgoto despejado sem pudor...