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sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

O adestrado


Se é Natal, ele compra
Se é carnaval, ele pula
Se é réveillon, ele veste branco e vai ver os fogos

Se é novela, ele assiste
Se é mulher pelada, ele baba
Se é futebol, ele briga

Se é jornal, ele acredita
Se é político, ele odeia
Se é pobre, ele passa longe

Se é diploma, ele se curva
Se é farda, ele ajoelha
Se é dinheiro, ele rasteja

Se é filho, ele estraga
Se é vizinho, ele despreza
Se é esposa, ele chifra

Se é igreja, ele cala
Se é bar, ele grita
Se é rua, ele treme

Para um chimpanzé, todos os gatos são pardos




sábado, 21 de dezembro de 2013

Assim caminha a Humanidade

Zezinho é uma criança linda. Tem só um ano e dois meses. Seu sorriso contagia, sua inocência e pureza comovem. Sua alegria não precisa de motivos.

Mas o pai de Zezinho é um idiota. Ele ama seu filho, mas, o que se há de fazer, é um perfeito idiota.

Sua forma de demonstrar amor pela criança é colocá-la ao seu lado no sofá para assistir ao seu programa preferido na TV: lutas de UFC.

Zezinho olha com atenção… seu pai, seu espelho. E para esse pequeno ser a TV é a janela para o mundo. Um mundo de murros, socos e chutes em homens já caídos ao chão. Aí estão seus heróis.

Esse é o mundo que se apresenta ao meigo e adorável Zezinho.

Depois das lutas, no colo da mãe, Zezinho simula socos no rosto dela. Essa é a maneira que Zezinho aprendeu de demonstrar carinho. No começo ela se assusta, mas depois acha normal. Hoje em dia, tudo é normal.

Zezinho está crescendo.

Talvez, daqui a 15 ou 20 anos, seja membro de alguma torcida organizada e aí vai mostrar, à sua maneira, todo o amor que sente pelo seu time.




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A cultura da violência



terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Chinês herói, mas qual deles?

Reprodução da TV
Praça da Paz Celestial, Pequim, 1989


Quem foi o verdadeiro herói, o chinês que se colocou na frente dos tanques de guerra ou o piloto do primeiro tanque, que desviou e poupou a vida do manifestante?





sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Grandes encontros da História LI

O Fluminense está prestes a cair para a segunda divisão, mas não é o meu Fluminense, que morreu em 1987 junto com o futebol brasileiro. O meu Fluminense é o que jogou contra o Bayern de Munique, em 1975, no Maracanã (aquele Maracanã, não a arena impessoal e elitista de agora).

O time alemão era a base da seleção campeã do mundo um ano antes. Sessenta mil pessoas no estádio numa quarta feira à noite para ver um jogo amistoso. Atualmente, isso é público de decisão de campeonato, e olhe lá, porque um ingresso chega a custar R$ 800.

Aquilo é que era futebol!

Podem me chamar de saudosista, mas ninguém é mais vítima do saudosismo que o próprio saudosista, porque ele tem consciência de que o melhor já passou. E no caso do futebol, lamento dizer aos mais jovens, o melhor já passou. Claro que ainda há jogadores muito bons, lances bonitos e até alguns jogos emocionantes. Mas a essência do futebol, o esporte mais apaixonante já inventado pelo Homem, acabou quando um tecnocrata disse "ei, nós podemos fazer muito dinheiro com esse jogo". Aí, tudo se corrompeu, os clubes faliram e as empresas compraram a festa. Não existe mais o espírito clubístico nas equipes. O jogador não cria mais raiz, fica seis meses e vai embora. Zico jogou quase 20 anos no Flamengo; Pelé, outros 20 no Santos. Hoje não ficariam dois anos.

Que identidade com a camisa e que paixões na alma dos torcedores Zico, Pelé e outros craques teriam criado se tivessem ficado tão pouco tempo nesses clubes? Os pequenos torcedores não terão mais ídolos da grandeza de Garrincha, por exemplo. Nunca mais, a menos que a engrenagem financeira que rege o futebol seja revista. Hoje os times são todos iguais, perderam a personalidade que cada um tinha nessa ciranda de jogadores mercenários.

Agora, saboreie um pouco do verdadeiro futebol! De um lado, Rivelino, Mario Sergio e Paulo Cézar Caju; do outro Beckembauer, Gerd Muller e o fantástico goleiro Sepp Maier.


domingo, 1 de dezembro de 2013

Hoje só deu praia pra eles

O dia era cinza. E um domingo cinza para o carioca é a morte. Na praia, porém, havia outras duas cores, o preto e o branco. A ordem é evitar os arrastões nas areias, cujas imagens correm mundo às vésperas da Copa do Mundo no Brasil.

Foto: Marcelo Migliaccio


Tinha posto de observação aérea, que não saiu do chão.

Foto: Marcelo Migliaccio


Ninguém pra tomar um coco gelado sob a proteção divina do Batalhão de Choque.

Foto: Marcelo Migliaccio


E restou aos homens fortemente armados jogar conversa fora falando de futebol. Seria pior se estivessem sob um sol de 40 graus, com essa roupa toda, e ainda tendo que correr atrás de ladrões de celular.

Foto: Marcelo Migliaccio


Mas nada é pior do que o drama desses mineiros, que viajaram centenas de quilômetros e encontraram a praia dos sonhos assim.

Foto: Marcelo Migliaccio



 Talvez na próxima vez o sol e os 40 ladrões apareçam...

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Zôo ilógico


_ Trata-se de alguma brincadeira, excelência?

Subitamente, o burburinho na sala de audiências cessou. Pela primeira vez naquela tarde, o juiz levantava seus olhos do par de lentes que usava na ponta do nariz para ler a interminável papelada. Sem mostrar temor, o advogado que estava diante dele respondeu com segurança.

_ De forma alguma, meritíssimo.

_ Mas o que eu leio aqui na sua petição é que os proponentes são… baleia, hipopótamo, macaco, burro, jegue, asno, jumento, toupeira, anta, vaca, elefante, porco, hiena, veado, cavalo, galinha, perua, piranha, pavão, cobra, gambá, rato, bode, urubu e gorila.

_ Isso mesmo, meritíssimo. O instrumento que vossa excelência tem nas mãos visa impedir que se perpetue uma injustiça caluniosa e injuriosa contra essas espécies de animais.

Todos na grande sala de audiências do fórum prestavam a maior atenção. Advogados, escrivões, secretárias, réus, bombeiros e policiais eram só ouvidos.

_ E que crime grave é esse, excelência? _ perguntou o magistrado com uma ponta de ironia.

_ É que há séculos o ser humano vem usando essas espécies, cujos nomes científicos estão aí listados mais adiante, para depreciar seus semelhantes. Os nomes desses bichos foram transformados em adjetivos que os humanos usam para se agredir.

_ Interessante, inusitado, excelência, continue _ pediu o juiz exibindo seu primeiro sorriso em semanas. Embora fosse um sorriso de deboche, era um sorriso.

_ Veja o porco, por exemplo. Ele não é um animal sujo, pelo menos não é mais sujo que nenhum outro. Quem o coloca num chiqueiro imundo é o seu dono. Mas o porco virou adjetivo para classificar um homem que não gosta de tomar banho.

Alguém gargalhou no fundo da sala, as pessoas cochichavam. O juiz ficou com o rosto vermelho, mas o advogado continuou.

_ E a galinha, excelência, não é promíscua, copula com apenas um galo. Assim como a piranha não cobra por sexo, como as prostitutas das quais virou sinônimo.

_ Vossa excelência sabe como o Judiciário está abarrotado de processos, não sabe?

_ Perfeitamente, meritíssimo.

_ De forma que eu acho um insulto à sociedade entrar com uma petição dessas.

_ Insulto é o que fazem com a baleia, excelência. Ela só se alimenta de peixes, carne branca, nada o dia inteiro, nunca foi sedentária, e no entanto chamam de baleia um ser humano obeso que não pratica exercícios e come compulsivamente alimentos calóricos. O elefante, que vive o mesmo drama, só come salada...

A gargalhada foi geral. Um faxineiro virou para o outro e disse:

_ Aí, Zé Gordo, é contigo!

O juiz pareceu ficar ainda mais impaciente com a diversão geral.

_ Ordem! Ordem! _ bateu com seu martelo na mesa.

_ O urubu não é agourento, a cobra não é traiçoeira, foge ao primeiro sinal de perigo.

Foi quando um militar que aguardada o julgamento de uma outra ação naquela tarde levantou a voz.

_ E os gorilas não torturam nem dão golpes de estado.

Todos aplaudiram. O juiz estava colérico, possesso, parecia que suas roupas estourariam a qualquer momento como as do incrível Hulk.

Uma mulher na primeira fila desceu do salto:

_ A perua não é mais vaidosa do que eu. O touro não é corno e o cavalo é um doce de pessoa...

E o estudante:

_ Rato rouba no máximo um pedacinho de queijo, não dá defalques de milhões no dinheiro público!

Mais risos.

_ Um gambá toma mais banho que o meu cunhado _ insuflou um gaiato lá do fundo.

_ SILÊNCIO! SILÊNCIO!

O juiz esperou o último resquício do vozerio se apagar e olhou o advogado com gravidade:

_ Vossa excelência acredita mesmo no valor dessa causa?

_ Com todo respeito, meritíssimo, gostaria que fosse criada uma jurisprudência em respeito aos animais.

_ Pois então vossa excelência terá muito tempo para confabular com seus clientes, porque eu o condeno a 30 dias de prisão...

E continuou quase aos berros para não ser abafado pelos comentários gerais de reprovação da platéia.

_ … 30 dias de prisão numa jaula do jardim zoológico municipal. Sem direito a fiança! Para deixar de ser burro e não me aparecer mais aqui com asneiras.


Foto: Marcelo Migliaccio
Pobre vaca, que nada tem de vadia











* Inspirado em uma conversa com o amigo Davis




segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O poste revolucionário

Amigos, eis a maior invenção da Humanidade depois da calça jeans, do cachorro-quente e dos óculos escuros: o poste pudico! Trata-se de um biombo de metal que esconde um mictório em plena calçada.



Todo homem sabe a dificuldade que é quando bate aquela vontade incontrolável de tirar água do joelho. Até os oito ou nove anos de idade, basta procurar uma árvore ou poste e colocar o passarinho para fora buscando alívio imediato. Todo mundo (ou quase todo mundo) acha bonitinho o garotinho fazendo um xixizinho inocentinho. E é sempre a mamãe que ensina.

_ Vai ali no poste, filhinho.

Mas, a partir dos dez anos, surgem os primeiros olhares de reprovação em cima do moleque mal educado. Com mais de quinze, o mijão em via pública está sujeito a ser conduzido à delegacia por atentado violento ao pudor. Isso se não levar uns tapas ou bolsadas pra deixar de ser sem vergonha. Realmente, a lei está certa em coibir tal prática, não só em respeito aos nossos olhos mas principalmente às nossas narinas, que sofrem com aquele odor característico da Cidade Maravilhosa em épocas de Carnaval ou Réveillon.

Então há, sim, motivos para comemorar a instalação dessas engenhocas pela cidade, embora eu só as tenha visto até agora na praça do Largo do Machado. Se a companhia de limpeza urbana conseguir manter aquilo limpo rotineiramente, terá sido um pequeno passo para o homem mas um grande passo para a Humanidade. Até porque hoje em dia o botequim mais furreca está cobrando R$ 2 para um não-freguês usufruir de seu amplo e perfumado banheiro.

Outra vantagem é que o poste pudico é exclusivo de humanos, já que os cachorros preferem os postes tradicionais. Só faltava essa: ter que esperar na fila, com vira-lata indócil atrás de você, até que um poodle de madame acabe de obrar.

Não creio que as mulheres gostem muito do novo invento, não existe similar para elas, no entanto acho que preferem isso à alternativa anterior.

E o melhor é que o poste pudico tem uns furinhos por onde o usuário pode contemplar a paisagem enquanto se livra de suas tensões fisiológicas. Tudo dentro dos mais altos padrões de civismo.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Ensaio cor de abóbora

O brilho do sol na primavera realça as cores de quem é invisível.

Foto: Marcelo Migliaccio



A maioria só olha pra eles no Carnaval, quando seu embaixador sambista tem permissão para exibir o sorriso diante das câmeras.

Foto: Marcelo Migliaccio



Apesar de executarem o trabalho mais pesado e importante para o nosso belo quadro social _ juntar as toneladas de lixo produzidas diariamente _ geralmente eles vão à praia apenas para trabalhar.

Foto: Marcelo Migliaccio



Quem sabe, recolher uma tartaruga morta que a maré trouxe.

Foto: Marcelo Migliaccio



Quanto às sereias, não são para o bico deles… pelo menos no horário de serviço.

Foto: Marcelo Migliaccio



O negócio deles é mesmo cuidar da paisagem.

Foto: Marcelo Migliaccio



E que paisagem!

Foto: Marcelo Migliaccio



Alguns já poderiam estar aposentados, como o septuagenário Sebastião, que varre as ruas da cidade desde 1971 e nem quer pensar em trocar o uniforme laranja pelo pijama e a ladainha da patroa.

Foto: Marcelo Migliaccio



À sombra de uma árvore exótica…

Foto: Marcelo Migliaccio



… só para limpar, não para descansar.

Foto: Marcelo Migliaccio



Nas manhãs de sábado, é deles e delas a dura tarefa juntar os cacos deixados no rastro dos boêmios.

Foto: Marcelo Migliaccio



E no Réveillon? Só mesmo uma tropa de choque que não tem direito a curtir a virada para limpar a Avenida Atlântica nas primeiras horas da manhã.

Foto: Marcelo Migliaccio



Haja lata de lixo!

Foto: Marcelo Migliaccio



Em pouco tempo, tudo limpo de novo e então, missão cumprida, só lhes resta voltar à invisibilidade.

Foto: Marcelo Migliaccio









domingo, 17 de novembro de 2013

O homem triste

Pobre daquele que não tem fantasias. Imagino como deve sofrer quem guarda os próprios fetiches a sete chaves, num lugar tão fundo no subconsciente que ele não mais acharia se decidisse procurar. Falei "aquele" mas também poderia ter dito "aquela". Muita gente nunca atingiu o orgasmo na vida simplesmente porque esqueceu o caminho até o quarto escuro e cheio de mofo onde escondeu os desejos que realmente lhe dão prazer.

_ O fetiche é o tempero do sexo _ já dizia o Velho Deitado.

O bom e velho Velho Deitado… sempre na horizontal (mesmo após o advento do Viagra).

Mas voltando aquilo que realmente nos dá prazer, pra quem não sabe é quase sempre a mesma coisa que vai nos matar. O prazer tem um preço e todo mundo sempre disse que a felicidade custa caro. Só o que se deve fazer é colocar tudo na balança. Deus nos criou para andar na prancha. Como naqueles filmes de pirata onde o cabra marcado para morrer era obrigado a caminhar num trampolim na proa do navio, de olhos vendados, até pisar no vazio e cair no oceano cheio de tubarões. É assim com o ser humano: já nasce andando na prancha, sem saber quanto tempo teremos até o mergulho fatal. Só que Deus não foi tão mau assim e nos deu de presente o livre arbítrio. Graças a ele, podemos decidir como morrer (já que não sabemos quando será). Já que ninguém é eterno, portanto, que morramos com prazer e não num mundo chato e preto e branco de renúncia e abnegação. Nada impede o náufrago de sambar ou plantar bananeira na prancha diante dos ensandecidos piratas.

Já viu coisa mais deprê que um restaurante natural? Todo mundo comendo triiiiiiste. Será esse o preço da longevidade?

Já uma churrascaria parece um baile de carnaval.

Conheço um cara que diz que o único momento feliz do dia dele é quando toma sua única Coca Zero.

_ Se eu tiver que cortar a Coca Zero é melhor dar um tiro na cabeça _ confidenciou-me.

Isso é vida?

Outro dia eu caminhava à beira-mar quando dei de cara com um amigo que não via há muito tempo. Antes ele era, digamos assim, da pá virada. Chegou ao fundo do poço e sua primeira providência lá foi arranjar uma picareta para cavar mais fundo ainda. Seu prazer era destrutivo, compulsivo, incontrolável. Naquela época, ele estava à morte. Nem me lembro bem _ e nem seria preciso dizer _ qual era o seu pecado. Tanto faz. Era aquela história: tudo que eu gosto é imoral, ilegal ou faz mal pra saúde…

Enfim, pouco importa o que levou meu amigo à ruína, o fato é que ele conseguiu mudar. Sim, me contou que há três anos largou aquela vida. De fato, sua aparência melhorou bastante. Seu rosto afinou, a pele está mais corada, não é a figura de filme de zumbi com que topei na última vez em que o havia visto.

Hoje, tem emprego, recuperou a família, anda até fazendo esporte.

E, no entanto, meu amigo está numa tristeza inclemente. Seu olhar é o de quem perdeu o que mais gostava.

Quando chafurdava na lama, vivia rindo e contando piada. Já batendo às portas do cemitério, o sujeito irradiava felicidade. Ninguém entendia, nem ele...

Agora, porém, o dito cidadão respeitável parece estar sempre a ponto de chorar. Sempre irritadiço, vive de mal com o mundo.

E você, conhece alguém assim?


Foto: Marcelo Migliaccio

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Episódio biográfico ficcionado

Tim Maia atende o telefone com aquele vozeirão:

_ Alouuuu (ele está de bom humor).

_ Tim?

_ Quem é!? (ele já não está mais tão de bom humor).

_ Aqui é o jornalista Torquato por Quatro..., eu..

_ Eu o quê, mermão?

_ É.. eu tava pensando em... em escrever sua biografia (glub!)

_ Aaaaaaahhhhh, ôôô.

_ Contar a sua história, Tim, sua história é maravilhosa!

_ Dá um tempo, mermão. Tá a fim de se dar bem em cima de mim? Biografia é o caralho!

_ O Brasil precisa conhecer a vida de um dos seus maiores ídolos...

_ O Brasil precisa é ouvir minhas músicas, comprar meus discos, que eu lancei pelo selo Vitória Régia.

_ Mas proibir uma biografia não é uma forma de censura, Tim?

_ Censura? Censura é o que fizeram comigo depois que eu faltei a uma gravação de programa: proibiram que a emissora tocasse qualquer música minha lá. Isso é que é censura, mermão!

_ (...)

 _ Quer saber de uma coisa, mermão?

_ Fala, Tim.

_ Té mais!!!!




*************

A biografia não autorizada fere um princípio básico do jornalismo, que é checar as versões, ouvir o outro lado, que nesses casos é o lado mais importante, o lado do biografado. Como cumprir esse compromisso básico com a veracidade do que se publica sem ouvir o principal personagem da história em questão? Esse é apenas um dos muitos motivos pelos quais acho que cada um é dono da sua intimidade, e que o direito à livre expressão de um termina quando começa o direito à intimidade de outro.

É ou não é, Tim?

domingo, 10 de novembro de 2013

Existe um lugar

Eu sempre sonhei com um escritório à beira-mar. Sem prazos, sem chefes, sem metas e, ok, admito, nem tudo é perfeito... sem grana.

Foto: Marcelo Migliaccio



Mas um lugar com uma bela vista.

Foto: Marcelo Migliaccio


Bom pra parar e pensar.



Arrastar seus fantasmas até o mar e deixá-los por lá.

Foto: Marcelo Migliaccio


Um lugar pra congelar a emoção daquele gol de placa que você fez aos dez anos de idade.

Foto: Marcelo Migliaccio


Em suma, um lugar pra trocar de casca, de preferência, diariamente, mudar, mudar e mudar...



Permitir à própria mente dar uma cambalhota em torno de si mesma.

Foto: Marcelo Migliaccio



E experimentar de novo aquela sensação de liberdade.

Foto: Marcelo Migliaccio



Taí. Será que esse lugar existe?

Foto: Marcelo Migliaccio



sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Foi-se

O primeiro sinal sempre é um caminhão de mudança.

Foto: Marcelo Migliaccio


Algumas semanas depois, estava no chão a famosa casa de pedra, a última no meio do paredão de prédios da Avenida Atlântica. Durante décadas, ela resistiu à especulação imobiliária, mas, como disseram John Lennon e muitos outros ao longo da História, "tudo tem que acabar um dia".

Foto: Marcelo Migliaccio


Poucos meses antes, já tombara a penúltima, ocupada até então pelo consulado da Áustria.

Foto: Marcelo Migliaccio


Eu seria capaz de apostar que nos dois espaços vão subir novos hotéis, de olho nos turistas que vêm para a Copa do Mundo e a Olimpíada. Na verdade, pouco importa. O que passou, passou.

Foto: Marcelo Migliaccio
Av. Atlântica, agora sem nenhuma casa



segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Nomes fictícios. Só os nomes

O telefone celular toca. Ela lê o nome do marido no visor e atende.

_ Oi, amor.

_ Maria!

_  O quê que houve!?

_ Presta atenção! Hoje eu vou chegar em casa com a farda cheia de sangue, mas não fica assustada, o sangue não é meu.

_ Ai, meu Deus, o que que aconteceu!?

_ O soldado Duarte levou um tiro do meu lado. Ele morreu do meu lado, Maria!

_ Minha nossa senhora!

_ A gente levou ele pro hospital, mas ele já tava morto... eu segurei ele... foi uma emboscada, Maria. Amanhã eu vou pedir pra sair da PM. Eu não agüento mais isso. Antes de morrer, ele olhou pra mim com os olhos arregalados e disse: eu tenho uma filha. E morreu! Morreu, Maria, nos meus braços.

O diálogo foi relatado pela mulher de um PM que serve na Unidade de Polícia Pacificadora do Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio. Recém-formado, provavelmente, como muitos outros, ele prestou concurso para a polícia para fugir do desemprego, sem nem saber ao certo o que o esperava.

Essa morte aconteceu há cerca de três ou quatro meses. Nem sei se o soldado que viveu essa experiência terrível saiu mesmo da PM. Nem mesmo sei se ele continua a patrulhar as vielas do Alemão, onde, neste fim de semana, outro policial foi morto por bandidos em situação semelhante.

O que eu sei é que autoridades corruptas jogaram centenas de jovens policiais sem experiência de combate num território hostil em nome de uma política de segurança eleitoreira.

O relato do diálogo foi feito a uma colega de trabalho pela mulher do policial.



Foto: Marcelo Migliaccio
Complexo da Penha: zona de guerra

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Grandes encontros da História XLIX

A onça está no zoológico, angustiada na clausura, andando de um lado para o outro ante os olhares dos visitantes. Sua natureza e sua essência de liberdade aprisionadas da forma mais cruel num recinto que só lhe permite repetir seu restrito movimento como um louco enjaulado num hospício. Mas eis que, num instante, e só por um instante, ela revela toda a sua alma selvagem.


quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Fla-Flu

Se eu tivesse uns 13 ou 14 anos estaria eufórico. Semana de Fla-Flu era especial. A ansiedade ia crescendo e culminava com 90 minutos de emoção. E o clássico se prolongava pelos dias seguintes, com as gozações na rua, a lembrança de cada lance que tornara aquela mais uma batalha épica dos eternos rivais.

Fla-Flu sempre foi festa, diferente de outros clássicos, marcados pela animosidade. Era ali a rivalidade entre pai e filho, entre vizinhos da Zona Sul do Rio. A turma da Gávea contra a turma das Laranjeiras. Um jogo colorido. Isso, um jogo colorido.


O ingresso de um Fla-Flu era um troféu a se guardar

Mas era outra época. A diferença básica é que os jogadores eram identificados com seus clubes. O Zico era o Flamengo, o Fluminense era o Carlos Alberto Pintinho, que o próprio craque maior da Gávea declarou ter sido seu melhor marcador. Cada clube tinha os seus jogadores, não havia essa ciranda mercenária e irreal de hoje. O amor à camisa pendurou as chuteiras junto com Liminha, Félix, Merica, Denílson. Até com salário atrasado eles corriam. Agora, mesmo os garotos que vêm das divisões inferiores só pensam no dia em que pegarão um avião e se mandarão para a Europa. As empresas bancam salários absurdos, anabolizados pela verba da TV, que alavanca grandes patrocinadores e deixa os estádios quase sempre às moscas. Quanto ganha um professor? Um policial? Os craques faturam R$ 700 mil, R$ 1 milhão. Quem ganha R$ 1 milhão por mês nunca vai dar o sangue pelo time. Com um salário desses não se ama a camisa, só a camisinha.

Os atletas de ponta hoje são alimentados a pão de ló. Não por acaso, o melhor jogador do Campeonato Brasileiro é o obeso Walter, do Goiás.

Vi o documentário Fla-Flu - 40 minutos antes do nada e senti imensa nostalgia de um futebol que não existe mais. Embora os torcedores mais velhos tentassem em seus depoimentos fazer crer que a chama ainda está acesa, o Fla-Flu não é mais o mesmo porque os clubes não existem mais a não ser para alugarem seus lendários uniformes para empresas fazerem propaganda. Num dos trechos do documentário, é mostrada a comemoração dos jogadores do Flamengo ao final da decisão de 1963, contra o tricolor. Diante de inacreditáveis 194 mil pessoas, a alegria dos atletas rubro-negros, pulando e dando cambalhotas como crianças é impensável hoje em dia. Na era do Cifrão Futebol Clube, o jogador vibra pela glória pessoal, pela chance de ganhar mais dinheiro em outro clube na próxima temporada. Antes, eram torcedores de chuteira defendendo suas bandeiras com o coração. Agora, não há o menor vínculo afetivo. O triste é que os momentos mais emocionantes do filme se passam num Maracanã que não existe mais, transformado hoje numa fria arena onde o povão não tem grana para entrar.

Sou do tempo em que os jogadores tinham identificação com os clubes, do Zico contra o Rivelino


Domingo tem Fla-Flu e, francamente, eu não estou nem aí. Talvez eu esteja ficando velho, porque a impressão que tenho é que os jovens de hoje se contentam com esse futebol porque não conheceram a magia do outro.

A imprensa vai fazer tudo para dizer que a mística do clássico ainda está viva, mas é forçar a barra para vender um produto como outro qualquer, a novela das seis ou o novo reality show, por exemplo.

Totalmente subordinado à emissora de televisão que detém os direitos de transmissão dos jogos, o futebol hoje é um espetáculo eminentemente televisivo. Os horários são proibitivos a quem trabalha no dia seguinte. Quem pode chegar em casa à 1h de quinta-feira se precisará levantar cedo dentro de poucas horas? E para que gastar dinheiro e tempo se o jogo é exibido ao vivo em TV aberta para a própria cidade onde se realiza?

Aliás, até na TV está difícil ver futebol hoje em dia. Como aturar comentaristas que chamam estádio de "equipamento", craque de "jogador diferenciado" e passe de "assistência"?

Mas o pior é quando dizem que o jogador Fulano de Tal (hoje todos têm dois nomes) "vai buscar a titularidade".

Vai buscar onde, amigo, no cartório?

Que saudades do Saldanha, do William Prado e do Nelson Rodrigues, para quem, aliás, "tudo é Fla-Flu, o resto, paisagem". Era.



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O fim do futebol
O meu Maracanã
O velho amigo
Homenagem póstuma a uma paixão nacional

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A partir de agora, todos nus

A grande imprensa anuncia de forma triunfal que os artistas capitularam. Desistiram de postular a obrigatoriedade de autorização prévia para que pretensos biógrafos escrevam sobre suas vidas privadas baseados em versões de terceiros. Caetano, Chico, Gil, Djavan, Roberto e Erasmo, entre outros membros do grupo Procure Saber, vão continuar a ter que ir aos tribunais se não gostarem do que está sendo publicado sobre eles.

A guerra com a mídia foi pesada como mostrou a entrevista que Roberto Carlos deu a um programa dominical de TV. Segundo a colunista Sonia Racy, do Estado de S. Paulo, o Rei ficou chateado com a edição que fizeram de suas declarações, suprimindo deliberadamente três pontos que ele julgava fundamentais. E olhe que trata-se de um artista exclusivo da emissora...

Brigar com os donos dos meios de comunicação de massa nunca foi a desses artistas, com exceção de Chico Buarque numa determinada época. Se o black bloc Tim Maia ainda estivesse vivo, talvez essa queda de braço tivesse sido mais dura. Seria um vozeirão a mais contra a exposição não autorizada da intimidade, sobre a qual, pela lei, todo cidadão tem pleno direito.

Com a amarelada do grupo Procure Saber, fica então valendo aquele argumento de que, se os artistas precisam da mídia e do público para ganhar a vida, que entreguem de mão beijada sua privacidade. Os incomodados que reclamem nos tribunais.

Acho que na prática, todos eles colocarão seus advogados para agir assim que souberem que tem gente escarafunchando suas vidas particulares a pretexto de "contar a História do Brasil". Se é isso que o biógrafo quer, que escreva sobre suas carreiras, não sobre suas brigas conjugais ouvidas por vizinhos de ouvido colado na parede.

Eu, de minha parte, continuo acreditando que somos donos da nossa intimidade e que esse direito individual se sobrepõe à muitas vezes tirânica, e conveniente apenas para alguns, "liberdade de expressão". Afinal, leis só existem porque bom senso é um artigo raríssimo no mercado.



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Biografias: a intimidade é sagrada
O babaca da história

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Pré-sal para sairmos da pré-história

Excelente o resultado do leilão para a exploração do petróleo no pré-sal. Nem a Miriam Leitão conseguiu falar mal (e olhe que ela se esforçou). Contrato vantajoso para o povo brasileiro, soberania preservada. A Folha, cuja diretoria toda pegou um avião e foi a Recife beijar a mão de Eduardo Campos (será que foram propor uma coligação?), caiu mais uma vez no ridículo em seu editorial. Chamou o bônus de R$ 15 bilhões que as petrolíferas pagarão à União e o percentual de 41% da produção que terão que deixar aqui no Brasil de "resultado modesto" para a Petrobrás.

E os lacaios colonizados choramingando que a Esso, a BP e outras gigantes não quiseram participar. Na certa, seus capitalistas profissionais acharam que 75% para o Brasil é muito. E os nossos colunistas lamentando e dando ênfase ao beicinho ganancioso dessas multinacionais. Isso é que é complexo de vira-lata, o resto é figuração.

Com dores lancinantes no cotovelo, Aécio Neves acusou Dilma de usar o acordo do pré-sal para fazer campanha na TV. Ele queria que ela deixasse apenas a oposição falar.

E a Marina Silva? Com seu discurso vazio e cheio de chavões de sempre, ela preferiu falar do Código Florestal no Estadão, que foi correndo procurar sua comentarista política preferida para avaliar o leilão da camada do pré-sal no campo de Libra, que vai tornar o Brasil o quinto maior produtor mundial de petróleo (hoje é o número 22). Já vou preparar minha roupa de sheik árabe e deixar de novo o cavanhaque crescer. Como é doce o pré-sal...

Na porta do hotel na Barra da Tijuca onde ocorreu o leilão, os black blocs e os petroleiros xiitas jogaram pedras em bilhões a mais para a educação e para a saúde. É muita grana, que vai melhorar muito a vida da população se prefeitos, secretários de saúde e diretores de hospitais e de escolas não desviarem a verba _ e se a Justiça condenar sem dó aquele que desviar.

Foto: Marcelo Migliaccio