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domingo, 17 de novembro de 2013

O homem triste

Pobre daquele que não tem fantasias. Imagino como deve sofrer quem guarda os próprios fetiches a sete chaves, num lugar tão fundo no subconsciente que ele não mais acharia se decidisse procurar. Falei "aquele" mas também poderia ter dito "aquela". Muita gente nunca atingiu o orgasmo na vida simplesmente porque esqueceu o caminho até o quarto escuro e cheio de mofo onde escondeu os desejos que realmente lhe dão prazer.

_ O fetiche é o tempero do sexo _ já dizia o Velho Deitado.

O bom e velho Velho Deitado… sempre na horizontal (mesmo após o advento do Viagra).

Mas voltando aquilo que realmente nos dá prazer, pra quem não sabe é quase sempre a mesma coisa que vai nos matar. O prazer tem um preço e todo mundo sempre disse que a felicidade custa caro. Só o que se deve fazer é colocar tudo na balança. Deus nos criou para andar na prancha. Como naqueles filmes de pirata onde o cabra marcado para morrer era obrigado a caminhar num trampolim na proa do navio, de olhos vendados, até pisar no vazio e cair no oceano cheio de tubarões. É assim com o ser humano: já nasce andando na prancha, sem saber quanto tempo teremos até o mergulho fatal. Só que Deus não foi tão mau assim e nos deu de presente o livre arbítrio. Graças a ele, podemos decidir como morrer (já que não sabemos quando será). Já que ninguém é eterno, portanto, que morramos com prazer e não num mundo chato e preto e branco de renúncia e abnegação. Nada impede o náufrago de sambar ou plantar bananeira na prancha diante dos ensandecidos piratas.

Já viu coisa mais deprê que um restaurante natural? Todo mundo comendo triiiiiiste. Será esse o preço da longevidade?

Já uma churrascaria parece um baile de carnaval.

Conheço um cara que diz que o único momento feliz do dia dele é quando toma sua única Coca Zero.

_ Se eu tiver que cortar a Coca Zero é melhor dar um tiro na cabeça _ confidenciou-me.

Isso é vida?

Outro dia eu caminhava à beira-mar quando dei de cara com um amigo que não via há muito tempo. Antes ele era, digamos assim, da pá virada. Chegou ao fundo do poço e sua primeira providência lá foi arranjar uma picareta para cavar mais fundo ainda. Seu prazer era destrutivo, compulsivo, incontrolável. Naquela época, ele estava à morte. Nem me lembro bem _ e nem seria preciso dizer _ qual era o seu pecado. Tanto faz. Era aquela história: tudo que eu gosto é imoral, ilegal ou faz mal pra saúde…

Enfim, pouco importa o que levou meu amigo à ruína, o fato é que ele conseguiu mudar. Sim, me contou que há três anos largou aquela vida. De fato, sua aparência melhorou bastante. Seu rosto afinou, a pele está mais corada, não é a figura de filme de zumbi com que topei na última vez em que o havia visto.

Hoje, tem emprego, recuperou a família, anda até fazendo esporte.

E, no entanto, meu amigo está numa tristeza inclemente. Seu olhar é o de quem perdeu o que mais gostava.

Quando chafurdava na lama, vivia rindo e contando piada. Já batendo às portas do cemitério, o sujeito irradiava felicidade. Ninguém entendia, nem ele...

Agora, porém, o dito cidadão respeitável parece estar sempre a ponto de chorar. Sempre irritadiço, vive de mal com o mundo.

E você, conhece alguém assim?


Foto: Marcelo Migliaccio

8 comentários:

  1. A vida tem a cor que pintamos, infelizmente muitas a pintam de preto luto, eu prefiro deixá-la bem colorida com cores bem vivas.

    Já dizia um sábio, que viveu do jeito que gostava, sem escrúpulos ou moralismos.
    "Quando todos praguejavam contra o frio, eu fiz a cama na varanda".

    E eu procuro fazer exatamente a mesma coisa.
    Cury

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  2. Não somente o Nietzsche não acreditava em livre arbítrio.Sempre tenho a sensação de que, quando - raramente - posso escolher (não escolhi altura, cor de pele, sexo, tipo sanguineo, sexualidade, pais, país, etc.), há algo anterior que impede outro tipo de preferência. Então, compartilhando uma matéria que li...nunca deixaram de existir aqueles que acreditam que o destino está escrito nas estrelas, é ditado por Deus, pelos instintos, ou pelos condicionamentos sociais. Recentemente, o exército dos deterministas – para usar uma palavra que os engloba – ganhou um reforço de peso: o dos neurocientistas. Eles são enfáticos: o livre-arbítrio não é mais que uma ilusão. E dizem isso munidos de um vasto arsenal de dados, colhidos por meio de testes que monitoram o cérebro em tempo real. O livre-arbítrio não existe...e foi criado, pensado, mais com a idéia de vigiar e punir.Quase sempre sou "escolhido" para tudo, inclusive gostos alimentares.Não consigo explicar - não é consciente -, porque gosto ou escolho este(a) e não aquel(e)a. É só uma descoberta, um reconhecimento, nunca uma escolha.Só conseguimos preferir coisas de que gostamos, ou com as quais nos identificamos, a priori.
    Novas pesquisas sugerem que o que cremos ser escolhas conscientes são decisões automáticas tomadas pelo cérebro. O homem não seria, assim, mais do que um computador de carne.

    Ainda que as pesquisas estejam corretas, os próprios neurocientistas reconhecem que a ideia de um mundo sem livre-arbítrio provoca estranhamento. Eles se esforçam, sobretudo, para conciliar sua teoria com o problema da responsabilidade pessoal. "Mesmo que a gente viva em um universo determinista, devemos todos ser responsáveis por nossas ações". "A estrutura social entraria em caos se a partir de hoje qualquer um pudesse matar ou roubar, com base no argumento simplista de 'meu cérebro mandou fazer isso'.
    Marcos Lúcio

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    1. Curiosa essa teoria, nunca tinha ouvido...

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    2. Pois é Marcelo...sugiro que faça uma pesquisa sobre o assunto da não existência do livre arbítrio, não só neurocientificamente.No meu caso, e de pessoas próximas (acredito que com todo mundo aconteça)não tenho dúvida alguma...pelo menos há mais de 30 anos, de que tudo na na vida parece - grosso modo e simplificadamente- cumprir um "script".Tudo que eu ingenuamente supunha ser escolha e sem entender como e porque e o para quê da escolha... percebi que não havia a menor possibilidade (ou havia, mas forçando desnecessariamente a barra) de escolher outra coisa. Se houvesse livre arbítrio, as pessoas poderiam mudar seus gostos, incluídos os gastronômicos e sexuais, à revelia ou quando lhes desse na telha...para ficar somente em 2 exemplos mais evidentes. E ninguém consegue explicar lucidamente porque gosta ou não de jiló rs...e, pior, os que não gostam, se comerem-no, não vão passar bem, claaaaaaaaaro!Até agora tenho convicção íntima de que sou escolhido para quase tudo...inclusive para morrer (e todos os viventes), o que ainda não é meu objetivo rs.Abração.
      Marcos Lúcio.

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    3. Tenho pensado sobre essa teoria, que é bem instigante.

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    4. Para instigar um cadinho mais, um recente artigo na Science... sobre característica biológica, demonstrou que há lesões identificáveis que podem ser responsáveis até por comportamentos antissociais. A deficiência genética da enzima MAOA=MONOAMINO OXIEDASE A, p.ex., está fortemente relacionada com comportamentos agressivos.É consenso que um menino que foi vítima de pedofilia, tem , lamentavelmente, todas as chances de se tornar um pedófilo, mais tarde, como consequência e não como escolha. Quem tem intolerância à lactose, ou que não goste de leite, não pode escolher laticíneos rs.Qualquer pessoa que possua uma sexualidade bem resolvida e satisfatória (privilégio de poucos rs)...sabe que é impossível utilizar o inexistente livre arbítrio para escolher/praticar outra. Ninguém pode em abril ser hétero, em maio ser homo e em junho ser bissexual rs, concorda?

      E assim , há inúmeros impedimentos ao livre arbítrio, comprovando sua inconsistência.Repito que para o Nietzsche, foi a habilidade teológica a inventora deste "conceito"...para tornar a humanidade dependente dos teólogos, afinal, em toda parte onde se procura responsabilidades, é geralmente o instinto de punir e julgar que estão em ação. Nada mais nazifascistóide, né? Felizes dos que "pensam" que podem escolher e mais felizes, ainda, os que se descobrem escolhidos.
      M.L.

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  3. Sempre desconfiei que existisse essa teoria, mas não havia lido nada a respeito, muito interessante.

    Cury

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  4. "Erro do livre-arbítrio", de Nietzsche
    Uma das teses que aproximaram - ainda que momentaneamente - Nietzsche a Spinoza foi aquela sobre a inexistência do livre-arbítrio. Em "Crepúsculo dos ídolos", no artigo "Os quatro grandes erros", Nietzsche escreve sua opinião - doxa, em Filosofia, não é legal! -, seu pensamento - sempre crítico e ácido - sobre o livre-arbítrio. Diz ele:
    "Hoje não temos mais compaixão pelo conceito de 'livre-arbítrio': sabemos bem demais o que é - o mais famigerado artifício de teólogos que há, com o objetivo de fazer a humanidade 'responsável' no sentido deles, isto é, de torná-la deles dependente... Apenas ofereço, aqui, a psicologia de todo 'tornar responsável'. - Onde quer que responsabilidades sejam buscadas, costuma ser o instinto de querer julgar e punir que aí busca. O vir-a-ser é despojado de sua inocência, quando se faz remontar esse ou aquele modo de ser à vontade, a intenções, a atos de responsabilidade: a doutrina da vontade foi essencialmente inventada com o objetivo da punição, isto é, de querer achar culpado. Toda a velha psicologia, a psicologia da vontade, tem seu pressuposto no fato de que seus autores, os sacerdotes à frente das velhas comunidades, quiseram criar para si o direito de impor castigos - ou criar para Deus esse direito...
    Os homens foram considerados 'livres' para poderem ser julgados, ser punidos - ser culpados: em consequência, toda ação teve de ser considerada como querida, e a origem de toda ação, localizada na consciência ( assim, a mais fundamental falsificação de moeda in psychologicis [em questões psicológicas] transformou-se em princípio da psicologia mesma...). Hoje, quando encetamos o movimento inverso , quando nós, imoralistas, buscamos com toda a energia retirar novamente do mundo o conceito de culpa e o conceito de castigo, e deles purificar a psicologia, a história, a natureza, as sanções e instituições sociais, não existem, a nossos olhos, adversários mais radicais do que os teólogos, que, mediante o conceito de 'ordem moral do mundo', continuam a empestear a inocência do vir-a-ser com 'culpa' e 'castigo'. O cristianismo é uma metafísica do carrasco..."
    Esse Nietzsche não mede palavras, hein!

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