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segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Nomes fictícios. Só os nomes

O telefone celular toca. Ela lê o nome do marido no visor e atende.

_ Oi, amor.

_ Maria!

_  O quê que houve!?

_ Presta atenção! Hoje eu vou chegar em casa com a farda cheia de sangue, mas não fica assustada, o sangue não é meu.

_ Ai, meu Deus, o que que aconteceu!?

_ O soldado Duarte levou um tiro do meu lado. Ele morreu do meu lado, Maria!

_ Minha nossa senhora!

_ A gente levou ele pro hospital, mas ele já tava morto... eu segurei ele... foi uma emboscada, Maria. Amanhã eu vou pedir pra sair da PM. Eu não agüento mais isso. Antes de morrer, ele olhou pra mim com os olhos arregalados e disse: eu tenho uma filha. E morreu! Morreu, Maria, nos meus braços.

O diálogo foi relatado pela mulher de um PM que serve na Unidade de Polícia Pacificadora do Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio. Recém-formado, provavelmente, como muitos outros, ele prestou concurso para a polícia para fugir do desemprego, sem nem saber ao certo o que o esperava.

Essa morte aconteceu há cerca de três ou quatro meses. Nem sei se o soldado que viveu essa experiência terrível saiu mesmo da PM. Nem mesmo sei se ele continua a patrulhar as vielas do Alemão, onde, neste fim de semana, outro policial foi morto por bandidos em situação semelhante.

O relato do diálogo foi feito a uma colega de trabalho pela mulher do policial.


Foto: Marcelo Migliaccio
Complexo da Penha: zona de guerra

11 comentários:

  1. Marcelo, discordo de você no seguinte:
    "ele prestou concurso para a polícia para fugir do desemprego, sem nem saber ao certo o que o esperava".
    Você acredita mesmo que a maioria dos jovens que entram na PM só querem fugir do desemprego e não sabem o que o espera lá dentro ??
    Eles não leem jornais ou assistem TV ??

    A PM do Rio é a que mais mata inocentes, e infelizmente a grande maioria dos que entram sabem muito bem que melhorarão o padrão de vida em pouco tempo.

    Um pequeno exemplo: Passa em frente a um quartel e veja os carros desses PMs, e depois responda como podem comprar carros tão caros, com um salário daqueles.

    Lamento a morte prematura de um jovem, sendo PM ou não, mas que as coisas lá dentro se parecem com o filme Tropa de Elite, não tenho a menor dúvida, claro que há honrosas exceções !!

    Cury


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  2. Complicada é mesmo, mas dizer que ele não sabia, só se vivesse em outro planeta...

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  3. Uma coisa é ouvir falar da morte, outra é tê-la nos braços.

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    1. Sem dúvida, mas nesse caso chama-se "cair a ficha" e não desconhecimento. É mais ou menos como o Kassab dizer que não sabia do que rolava entre os fiscais da prefeitura sobre suas barbas. Nesse caso ponto para o Haddad, que além de desmontar o esquema fez a mídia esquecer do aumento do IPTU.

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  4. Mauro Pires de Amorim.
    Já declarei em comentários anteriores feitos a outras postagens suas de que sou naturalmente desconfiado de militares e policiais brasileiros em função de sua formação histórica e isso influencia em seu caráter comportamental e institucional, voltando-os para o mercenarismo, o golpismo, a falsidade e a mentira.
    Não fico feliz com seu relato, mas tenho plena certeza de que o crime organizado, a máfia cresceu e prosperou no Brasil em função dos acobertamentos e relações intrincadas com os diversos governos militares. Portanto, foi com o aval e negócios realizados na cara de autoridades da época ditadura redentora que os negócios da máfia prosperaram e se fortalecerem e muitas dessas autoridades da época da ditadura redentora, deixaram nas instituições policiais e militares brasileiras seus sucessores institucionais que mantém esse esquema de acobertamento e proteção à máfia até os tempos atuais.
    Portanto é esse o preço a ser pago no presente pelas maciotas do passado e concordo com o leitor Cury em seu comentário acima, pois todos sabem da ligação intrincada das polícias com a máfia e quem entra para a polícia tem esse afeito à realidade, afinal, são maiores de idade e o pressuposto básico e incondicional da maioridade é o conhecimento maduro da realidade na qual se está inserido ou que vai se inserir. Com isso, achar que entrar para a polícia é solução para o desemprego é um argumento um tanto restrito, pois o mercado da polícia enquanto carreira é ser essa espécie de funcionário público e a escolha é ser esse tipo de funcionário público e seguir pelo caminho da honestidade ou seguir pelo caminho do esquema com a máfia e mão dadas com a corrupção.
    Pois bem, o mercado da polícia é somente esse por mim acima descrito, enquanto que, para fugir do desemprego, tem-se todos os outros mercados da economia disponíveis, sejam eles em termos de funcionalismo público ou mercado privado, sendo esses outros mercados fora da polícia e do militarismo, infinitamente maiores em termos de opções do que o mercado da polícia.
    Felicidades e boas energias.

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  5. Se o salário do policial fosse cinco mil, pra trabalhar em capitais como Rio e São Paulo, (que vão sediar copa do mundo e olimpíadas) já não valeria a pena pelo risco.
    Sergio.

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    1. Mauro Pires de Amorim.
      Sérgio, você acha justo pagar R$ 5.000,00 para um policial em início de carreira, com o nível comportamental que eles tem para com os cidadãos?
      Pois essa é a questão. As polícias só sabem exigir mais dinheiro. Os policiais só tem olhos para o dinheiro, não pensam em exigirem mais aprimoramento no critério de ingresso, de formação nas academias, de estudo, conhecimento e melhor preparo, pois isso exigiria da parte deles, mais estudo e esforço.
      Esse é o lado mercenário de policiais e militares e isso está institucionalmente estabelecido na mentalidade de suas formações e veio dos anos de maciota da revolução redentora e mantém-se até hoje.
      Em países bem mais sérios do que o Brasil, sempre que a administração pública oferece aumentos salariais, é exigido e cobrado daqueles determinados funcionários públicos um maior grau de aprimoramento avaliativo e quem não se adaptar, que peça o boné e vá ser outra coisa na vida, vez que, já que o nível do valor representado e expressado pelos salários subiu, a contrapartida do bom senso administrativo requer também um aprimoramento e subida de nível de preparo e capacitação para aquela função.
      Nesses países, ninguém dá peixe de graça para ninguém principalmente em se tratando do Estado e seu orçamento e administração. Eles te dão a oportunidade de pescar, se quiser. Então a opção é se adaptar e atingir o índice ou pular fora, seja pedindo as contas ou tendo as contas fechadas por estar fora dos padrões. Lá não tem maciota. Vacilou, dançou.
      Felicidades e boas energias.

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  6. Será q algum dos protagonistas dessa estoria q vc nos contou, Marcelo, teria a ilusão de q seria feliz com a vida q leva? Qual deles é o medico? Qual é o monstro? Ambos são execrados...
    Para mim, o q o comportamento de certos segmentos da sociedade, (como uma parcela da PM, Civil, ou os marginais q elas combatem e tantas vezes terminam se igualando) só evidencia que vivemos em uma sociedade doente em processo de auto fagia, como aquela experiencia com ratos em situação de superpopulação.
    A America Latina, acho q o Brasil em especial, são laboratorio de comportamento social.
    Essa desagregação social q vivemos, não é casual, nao poderia ser, com o minimo se senso critico podemos sentir essa indução pairando em nossas vidas, e das mais diversas formas e disfarces.
    De onde isso vem? Cada um tem de achar sua resposta, mas só quando ouver consenso é que poderemos consertar, e enquanto isso nao acontece, tudo será mero paliativo...
    Até lá é lutar pra sobreviver

    Torelly

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  7. Acabei de ouvir que a cartilha que a PM está distribuindo na Rocinha diz que todo cidadão deve ser tratado com respeito.
    Mas precisa de cartilha para a PM saber disso ??
    Pensei que já tivesse visto tudo e nada mais me surpreenderia...
    Mas se tratando da pior polícia que o Rio já teve, tudo é possível.
    Até a Polícia Especial que era truculenta, foi melhor l
    Cury

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