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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Atletas e boemios

Vi Ricardo Gomes iniciar a carreira no Fluminense em 1983. Ele devia ter uns 18 anos, e eu, 20. Era um zagueiro magro e alto, canhoto, que raramente fazia faltas e nunca era desleal. Visava sempre a bola, não as pernas dos adversários. Ao lado de Pinheiro (que morreu terça à noite) e Edinho, está entre os três melhores zagueiros que o tricolor do Rio já teve.

A única vez que o vi dar uma botinada foi nos minutos finais da partida contra a Argentina, na Copa de 90, quando o Brasil foi eliminado com um gol de Caniggia em jogada genial de Maradona. A seleção já perdia e, quando um argentino partia em direção ao gol brasileiro, Ricardo aplicou-lhe uma tesoura voadora. Levantou e nem olhou para o juiz. Já se dirigiu ao vestiário, pois sabia que estava expulso.

Como técnico, foi campeão na França e demorou a se adaptar ao futebol Brasileiro. Agora, amadurecido, vinha muito bem no Vasco. Ganhou a Copa do Brasil e caminhava para a liderança do Campeonato Brasileiro. Já ouvi pelo menos dois jogadores de nome _ Felipe e Petkovick _ dizerem que foi o melhor técnico com quem trabalharam em suas longas carreiras. E olhe que esses dois craques deram muitas dores de cabeça a treinadores...

Sempre equilibrado nas entrevistas, frio à beira do campo, Ricardo Gomes chega a destoar no meio futebolístico tal é seu bom senso.

Domingo, no meio de um eletrizante Vasco x Flamengo, ele teve um acidente vascular cerebral. Naquela mesma noite, faleceu em Curitiba meu ex-sogro, Paulo Dannemann,  por quem eu tinha muito afeto. Dias antes, ele havia sofrido um derrame semelhante ao do treinador.

Espero que Ricardo tenha mais sorte que Paulo e sobreviva sem sequelas.

O destino é imponderável, imprevisível, não poupa atletas nem boemios, todos são de carne e osso. Seja Gianechini ou o doutor Sócrates.

E, já que nascemos com uma única certeza, só nos resta aproveitar bem o nosso tempo no carrossel.


Torcida do Fluminense. Foto de Marcelo Migliaccio

sábado, 27 de agosto de 2011

A pizza

Os dois estavam esfomeados. Larica da braba, se é que você me entende. Mas o Pequeno e o Dorgô não tinham um puto pra matar a danada.

Pausa.

Primeiro, é preciso explicar, por que "Pequeno" e por que "Dorgô". Eram apelidos colocados pela turma da rua, claro. Mas o Pequeno era alto pacas, um tremendo vara pau. Bom, ele não nasceu daquele tamanho, então passemos ao seu inseparável companheiro de ócio noturno. Dorgô é Gordo ao contrário, uma mania que os adolescentes não aposentam de jeito nenhum: inverter as sílabas para criar seus próprios códigos e dialetos.


Voltando aos dois panacas. A fome apertava, parecia que cada um deles tinha um buraco no lugar do estômago. E, como a necessidade é a mãe da invenção, logo surgiu uma ideia de jerico. Estava demorando.

_ Vamos ligar e pedir uma pizza! _ disse Pequeno após um longo e surumbático silêncio.

_ Tá viajando, cara! _ espanou Dorgô.

_ A gente entra naquela casa de esquina, que é uma clínica e hoje tá vazia. Aí, quando o entregador chegar, eu recebo a pizza por cima do portão, digo que vou pegar o dinheiro e a gente dá a volta na casa, pula o muro e sai fora pela outra rua.

Dorgô ficou pensativo com o plano mirabolante. Porém, mais mirabolante ainda era a fome que sentia e ele acabou topando a maluquice. Com uma ficha (naquele tempo ainda se usavam fichas para ligar do orelhão), telefonaram para a pizzaria.

_ Calabreza caprichada na cebola _ disse o Pequeno, salivando e fazendo voz de gente que tem dinheiro.

Apesar das dificuldades para alçar o Dorgô por cima do muro, ambos conseguiram entrar na casa. Aí foi só esperar o barulho da moto do entregador, que não tardou já que o rapaz avançou todos os sinais que pôde.

Tudo ia bem. Pequeno recebeu a pizza como um lorde inglês e gentilmente pediu ao motoboy que aguardasse alguns instantes enquanto fazia o cheque (naquela época ainda aceitavam cheques).

O rapaz ficou esperando, esperando, esperando... enquanto do outro lado da casa, Pequeno pulava o muro com a pizza na mão. O problema foi que o gordo empacou. Não saía nem voltava para dentro da casa.

Intrigado, o motoboy fez o que qualquer um faria, caminhou até a esquina e viu a cena dantesca. Pequeno puxando o Dorgô com uma mão e segurando a pizza na outra.

_ Pô, tá vendo, isso é que não pode! _ gritou o entregador, já chegando perto da dupla de pilantras atabalhoados.

_ Foi mal, cara, a gente tá duro, tá morrendo de fome _ argumentou Pequeno em tom de súplica.

_ Eu vou ficar no prejuízo?

_ Vai não, vem cá, senta aí _ convidou Pequeno, já agachando-se para sentar no meio-fio, enquanto Dorgô finalmente desabava na calçada. _ Come com a gente, na boa, pega aí.

_ Pior é que eu tô com fome mesmo _ admitiu o motoboy.

E assim, os três acabaram dividindo a pizza na madrugada.

Tem coisas que só acontecem no Rio de Janeiro...

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A mulher vem em ondas

Neste dia em que o mar do Rio acordou de ressaca, vi uma morena emoldurada pela fúria marinha e lembrei do grande poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto.

Morena na Praia de Copacabana. Foto de Marcelo Migliaccio


IMITAÇÃO DAS ÁGUAS
(João Cabral de Melo Neto)


De flanco sobre o lençol,
paisagem já tão marinha,
a uma onda deitada,
na praia, te parecias.


Uma onda que parava
ou melhor: que se continha;
que contivesse um momento
seu rumor de folhas líquidas.


Uma onda que parava
naquela hora precisa
em que a pálpebra da onda
cai sobre a própria pupila.


Uma onda que parava
naquela hora precisa
em que a pálpebra da onda
cai sobre a própria pupila.


Uma onda que parava
ao dobrar-se, interrompida,
que imóvel se interrompesse
no alto de sua crista


e se fizesse montanha
(por horizontal e fixa),
mas que ao se fazer montanha
continuasse água ainda.


Uma onda que guardasse
na paria cama, finita,
a natureza sem fim
do mar de que participa,


e em sua imobilidade,
que precária se adivinha,
o dom de se derramar
que as águas faz femininas


mais o clima de águas fundas,
a intimidade sombria
e certo abraçar completo
que dos líquidos copias.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Volta ao mundo com um camelô

Aprendi que devemos sempre fugir dos estereótipos, até porque neles está a gênese do preconceito. Mas, algumas vezes, as generalizações são inevitáveis. Eu diria que chegam a ser deliciosamente irresistíveis.

Veja só: acabo de ver um ambulante oferecendo uma espécie de harpa (ou seria uma cítara?) a um turista no calçadão da Praia de Copacabana. De uns dois palmos de largura, a engenhoca produz notas musicais de acordo com o toque em suas cordas. Você já deve ter visto por aí...

Imediatamente, pensei nas reações de turistas de diferentes nacionalidades à abordagem do ambulante:

Um alemão, seco, diria:

_ Obrigado, não estou interessado.

O americano, dono do planeta, logo perguntaria:

_ Você tem licença para vender isso?

O japonês nada diria, apenas observaria atentamente o instrumento para entender como foi feito.

O francês passaria direto, deixaria o camelô falando sozinho, porque francês não se mistura e, ainda por cima, é pão duro que só ele...

O italiano, sentimental demais, faria um pedido enfático ao mascate:

_ Toca La Traviatta!!!!

E o brasileiro?

Bom, o brasileiro, mais precisamente o carioca, diz ao vendedor:

_ Vai ficar por aí? Mais tarde eu passo aí, valeu?

Pergunte se ele passou?

Comentário sobre a enquete

Achei surpreendente o resultado da última enquete deste blog, que perguntava se o ser humano deve ter o direito de programar a própria morte.

De cara, os leitores demonstraram bom conhecimento do Código Penal brasileiro, que não considera crime o suicídio, e sim a indução a essa prática. Ninguém, portanto, assinalou a opção B.

A maioria, e essa foi a minha surpresa, preferiu a opção C, que dizia que, se existe o livre arbítrio, ele deve valer também na hora da morte. Entre os que participaram, 42% assinalaram essa resposta.

Eu achava que a mais votada seria a opção D, que concorda com a abreviação da vida apenas em casos de doenças graves com grande sofrimento. Foram 36% a marcar a opção da chamada eutanásia.

E 22% ficaram com a opção judaico-cristã, marcando a resposta A, que dizia que só Deus pode tirar a vida de alguém e que, portanto, fazê-lo, digamos, antes do tempo estipulado por Ele contraria as leis bíblicas.

Como eu disse no texto anterior sobre o assunto, creio que cada indivíduo é soberano para decidir sobre a hora de sua morte, pois trata-se de uma prerrogativa individual. Trocando em miúdos, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é e se fomos os únicos animais sobre a Terra a terem consciência de que morrerão, que isso não seja apenas um motivo de apreensão em nossa vida.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A história de Jorge

Hoje, o Jorge faz 40 anos.

O conheci ainda adolescente, nas esquinas da vida. De família numerosa e pobre, Jorge saiu de casa cedo, fugindo da violência do padrasto e da condescendência absurda da mãe, alcoólatra.

Começou a beber cedo, antes que isso se tornasse comum também na classe média. Viciou-se em cachaça, que era a droga dos jovens das favelas antes que o crack os tomasse de assalto. Sem rumo aos 20 e poucos anos, Jorge perdeu o abrigo na casa de uma tia e passou a viver nas ruas.

Cansou de acordar machucado sem lembrar o que havia feito para que lhe batessem e experimentou várias vezes aquela que, segundo ele, é a pior coisa que o vício em álcool pode provocar: a depressão de acordar de um porre no meio da calçada, ante os olhares reprovadores dos passantes. Sensação pior não há, me disse ele uma vez.


Um de seus irmãos foi preso. Foi ele quem contou a Jorge que, antes de partir para um assalto, a quadrilha se dava as mãos e rezava para que Deus protegesse a todos. Como jogadores de futebol na hora de entrar em campo.


Mas o crime não seduziu Jorge, que sempre foi honesto. Sua revolta, ele afogava no álcool e nas drogas. Viu muitas das prostitutas com quem conviveu morrerem de aids e acha que foi um milagre não ter ido também.

Num certo dia, depois de dormir na chuva no canteiro de uma praça e acordar ensopado, Jorge decidiu mudar de vida. Entrou numa igreja evangélica e sentiu o arrepio da própria fé. Dela tirou forças. Na primeira vez em que conseguiu resistir a um copo de cachaça, chorou de emoção. Conta que sua mão queria ir em direção ao copo, mas alguma coisa a impedia. Ele mesmo, talvez...

Na igreja, conheceu uma jovem, que o tirou das ruas e com ele se casou. Lá se vão uns dez anos. Jorge é pai de Mateus, um garoto alegre a quem ele dedica todo o amor paterno que nunca teve.

Se antes sobrevivia como flanelinha, Jorge agora trabalha de carteira assinada. Começou como faxineiro e já é chefe do setor. Estuda à noite, vive me pedindo livros, qualquer assunto serve. O que lhe importa é ter o que ler.

Nos fins de semana, Jorge continua lavando carros e fazendo faxina em casas e prédios. Primo de um jogador de futebol que ficou milionário jogando no exterior, Jorge acabou se conformando com a indiferença do craque. Convenceu-se de que nada cai do céu, aliás, aprendeu isso a duras penas.

Vendo-o dar duro de sol a sol, digo a ele que todo mundo precisa de folgas, de momentos de lazer, mas ele responde, determinado:

_ Quero sair daquela favela, não quero que meu filho cresça naquele ambiente.

Jorge sabe o que faz. E aonde vai.

Parabéns.

Jorge com seu filho Mateus

sábado, 20 de agosto de 2011

Se beber, não dirija. Vá de ônibus

Bêbado em ponto de ônibus de Copacabana. Foto de Marcelo Migliaccio

Outro filmaço: 'Melancolia'

Outro filme muito bom (pra mim)  a que assisti recentemente foi Melancolia, de Lars Von Trier, aquele diretor que foi praticamente corrido do Festival de Cannes por dar uma declaração supostamente simpática ao nazismo. Nem vou entrar no mérito do que ele falou, porque o que me interessa num artista é sua obra e não o que ele diz ou faz na vida privada.

O filme é lindo e tem uma coisa que diferencia os clássicos do cinema: a unidade estética. Como em O grande ditador, The Wall, O delator, Blade runner e tantas outras obras-primas, em Melancolia, não há nada fora do lugar, todos os planos não poderiam ser mais felizes. Há uma identidade nas imagens, na textura, na fotografia. Os atores estão perfeitos nos papéis, e roteiro não tem gordura. Enfim é um filme tecnicamente inatacável.

Repito: é apenas a minha opinião, você pode detestar.

A temática, que afugentou muita gente, é a reação das pessoas diante do fim do mundo. Gozado que a ameaça de hecatombe é um atrativo de bilheteria nos filmes de catástrofe ou de aventura. As massas correm para ver Nova York inundada pelo oceano ou o Homem de Ferro a evitar que um gênio do mal acabe com tudo.

No entanto, mergulhar no interior de um punhado de seres humanos para mostrar como eles reagem ante a colisão de um planeta gigantesco com a Terra é considerado indigesto para muitos. E o diretor não precisou de efeitos especiais mirabolantes, prédios caindo e multidões em disparada. Aqui, o mundo acaba apenas com closes e diálogos.

_ Não vou ao cimena para ficar triste _ me disse uma amiga.

Não vi nada triste em Melancolia. Vi pessoas. Muito bem retratadas no que elas têm de mais íntimo. Uma noiva feliz que passa a evitar seu príncipe encantado ainda na festa de casamento. Sua irmã, durona e ativa, que no fundo morre de medo da morte. O otimista inveterado que acaba não se aguentando... assim são as pessoas. E o menino, provando mais uma vez que as crianças já sabem tudo.

Outra boa forma de avaliar um filme é observar por quantos dias você continua pensando nele. Você esquece um ótimo filme de ação, como Gladiador, por exemplo, 15 ou 20 minutos depois de sair do cinema. Outros continuam lhe provocando a reflexão por dias, o tempo passa e você segue descobrindo coisas. Esses são os filmes que marcam.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A última lagosta de Copacabana

Lá estava ela, a raridade em exposição


Colocada sobre um grande badejo (linguado, me corrige o Fred), a lagosta pouco aparecia na bancada de azulejos. Ao seu lado, um cação-martelo chamava mais atenção pela forma e também por não ser muito comum naquele mercado de peixes.

Mas era uma lagosta, em carne e casca! Já morta, não se mexia. Quem costuma frequentar a colônia de pescadores do Posto 6, em Copacabana, sabe que não é comum ver uma lagosta em exposição. Ela está em todos os restaurantes do bairro, cara como sempre, mas vem de longe, do Nordeste até, onde também já está ameaçada de extinção.

_ Vinte e cinco reais _ diz o velho pescador, que nem se lembra da última vez em que trouxe do mar o nobre crustáceo.

Diante da pausa do observador, o preço logo cai.

_ Me dá vinte, vai!

O pior vem agora, quando o pescador vira a lagosta de barriga para cima e mostra seu último trunfo:

_ Tá ovada, ó!

Sim, muitas ovas de lagosta que poderiam dar início a um repovoamento dos mares cariocas.

_ Isso aqui com uísque é uma delícia. É só ferver e temperar _ ensina o lobo do mar.

Eu penso: vinte reais pela última lagosta de Copacabana, cheia de ovas.

_ Há uns vinte anos tinha muito, mas a pesca de arrastão e o cerco de rede acaba com tudo, pega até as ovas _ diz um outro pescador, mais novo, vendo que estou mais interessado na preservação do que na degustação.

O velho logo nos traz de volta à realidade:

_ Fazer o quê? É a lei da sobrevivência.

Contra fatos não há argumentos.

E eu saí me perguntando onde estavam os fiscais do Ibama nestes últimos vinte anos?

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Enfim, um grande filme brasileiro!

Andei reclamando aqui dos filmes brasileiros exibidos ultimamente nos cinemas, mas acabei de ver um belo exemplo de que por aqui podemos fazer algo mais que novelas filmadas de duas horas de duração.

Trata-se de Transeunte, de Eryk Rocha, que está em cartaz no Rio. Mas, atenção, a maioria talvez não vá curtir, porque não tem mulher nua, carrões, tiro, correria, artistas conhecidos da TV, lindas paisagens, piadas idiotas, enfim, nada do que se convencionou como atrativo de bilheteria.

Esse não é um filme para se assistir, devorar, como se fosse um saco de pipoca. Transeunte é para se observar, sentir. Às vezes, parece um documentário, tal o realismo de seus personagens.

Mostra apenas a rotina de um viúvo aposentado e sem filhos que mora num pequeno apartamento na parte mais feia do Rio de Janeiro. Já era tempo de uma produção brasileira valorizar o silêncio, voltar-se para o lado mais humano de cada um de nós, sem procurar o caminho fácil do sexo, da violência, das aparências ou do besteirol. Transeunte não exibe botox, mas rugas em big close com lentes macro numa inquietante e redentora visão do envelhcer na metrópole.

Na sessão em que eu estava, com 15 minutos de filme, duas senhoras se levantaram e foram embora. Devem ter ido procurar o Tarcísio Meira na sala ao lado.

Extremamente realista e ao mesmo tempo poético, Transeunte acompanha o dia a dia do protagonista (muito bem defendido por Fernando Bezerra) na sua invisibilidade dentro do formigueiro humano. Não é à toa que as primeiras falas do filme demoram a surgir e limitam-se às respostas do aposentado ao atendente do INSS e ao médico com quem se consulta.

Uma visita apressada de uma sobrinha distante _ e mais preocupada com o namorado que a espera no carro _ é a única lembrança de seu aniversário. Resta ao solitário ouvir o falatório estéril dos programas de rádio AM e torcer pelo seu Flamengo, paixão que lhe traz lampejos do entusiasmo infantil. Seu sexo no bordel não tem falas, coração, só carne, consumida como se fosse a última refeição de uma vida.

Expedito (esse é seu nome) se diverte também nos saraus da terceira idade em plena rua do centro, onde, num final digno de um grande filme, canta um bolero como que se despedisse da vida.

Adorei, há vida inteligente no cinema brasileiro!

Fernando Bezerra, como Expedito, nos mostra a solidão e a beleza do ser humano

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Reflexão sobre a morte

Outro dia, eu estava pensando sobre a morte. Uma das razões pelas quais esse tema nos assusta tanto é justamente o medo que temos de falar dele. Outras culturas encaram o ocaso da vida de uma forma muito menos sinistra do que nós, ocidentais. Claro, ninguém quer levar um tiro num assalto ou sofrer um acidente fatal, mas a hora de cada um vai chegar. Em vez de fingir para nós mesmos que somos imortais, que tal começarmos a nos preparar psicologicamente e filosoficamente? O simples exercício de tomar consciência vem acompanhado de uma lição de humildade que, com certeza, vai aplacar muito da nossa vaidade e da nossa mesquinhez no dia-a-dia.

Vivendo em uma sociedade marcada pelo materialismo, não chega a ser surpreendente que encaremos como a maior das tragédias o fim do corpo físico (sobre o espiritual só vou saber quando o meu dia chegar).

Então, pensei: por que será que Deus (também conhecido por muitos como o acaso) fez do homem o único animal que tem consciência de que um dia morrerá? Todos os outros ignoram a própria finitude.

Pois bem, talvez essa distinção dada à nossa espécie não devesse ter sido transformada num pesadelo, que dura a vida inteira mesmo quando está trancafiado no nosso subconsciente. Pode ser que tenhamos essa consciência justamente para ter a chance de planejar como será nosso fim (ou nossa passagem, dependendo da religiosidade de cada um).

Essa mesma sociedade, onde os homens valem pelo que têm e não pelo que são, convencionou _ em lei, inclusive _ que o suicídio é crime. Ninguém, portanto, tem o direito de decidir como e quando quer morrer. O livre arbítrio é revogado quando se aproxima o momento derradeiro da existência.

O máximo que nos permitem é comprar um jazigo com antecedência. Lógico, pagando à vista...

Caso tenha uma dessas doenças terríveis como Parkinson ou mal de Alzheimer, o filho de Deus terá que suportar seu calvário até o fim.

O homem planeja sua vida inteira. Tudo que fazemos a vida inteira é pensar e planejar coisas. É isso que nos diferencia dos macacos: a parte frontal da cabeça (protuberante nos humanos e chata nos símios) onde se dá o planejamento. No entanto, não podemos usá-la num momento fundamental da nossa vida, o momento de morrer. Legisladores e religiosos decidiram isso por nós.

Sei que a eutanásia, o chamado suicídio assistido, é praticada a torto e a direito por aí, mas ainda é crime abreviar o sofrimento de uma pessoa. Sacrificamos cachorros (nossos melhores amigos), cavalos e outros animais doentes para evitar que sofram. Mas, se for um ser humano...

Li muita coisa nos livros budistas sobre a forma como encaram e vivenciam o fim do corpo físico. Uma coisa absolutamente natural que, entre nós, foi transformada em tabu, infelizmente.


Cemitério São João Batista, em Botafogo, no Rio. Foto de Marcelo Migliaccio
Pensar sempre vale a pena


domingo, 14 de agosto de 2011

Resultado da enquete!

O prestígio das grandes empresas jornalísticas brasileiras não anda lá muito alto, pelo menos entre os leitores deste blog. Prova disso é o resultado da enquete encerrada neste domingo.

Para 61% dos leitores, os tais "princípios editoriais" alardeados recentemente pela maior empresa de comunicação do país, são da boca para fora, porque esses grupos manipulam o noticiário segundo seus interesses".

Outros 36% disseram não acreditar nessas juras de imparcialidade e isenção porque "ao longo da história essas empresas já deram prova de que não têm compromisso com o Brasil".

Apenas 2% levam fé nas cartilhas de bom comportamento como a divulgada recentemente pelas organizações que têm nome de biscoito de praia e votaram na opção "essas empresas fazem o melhor que podem pela democracia".

A resposta "sim, o fato de firmar compromisso mostra que essas empresas estão querendo melhorar o serviço que prestam" não teve nenhum voto.

Pra mim, esses "princípios editoriais" são uma constrangedora tentativa de limpar um pouco a barra feita por quem pratica, há décadas, um jornalismo tendencioso e comprometido.

Eu, de minha parte, gostaria de saber apenas se, pelos "princípios editoriais", um repórter pode ligar para torcedores dando o endereço de onde um jogador de futebol está bebendo com amigos, como tera feito um repórter do jornal Extra (que também é nome de biscoito de praia), segundo o atacante Fred, do Fluminense.

O jogador mostrou também a conta do bar naquela noite: 27 drinques consumidos por seis pessoas, e não 60 como divulgou o jornal, acusado de perseguição pelo atleta.

Se isso acontece no esporte, imagine as relações promíscuas na política e na economia...

Leia também Os mitos apagados pela mídia

sábado, 13 de agosto de 2011

Bom dia!

Hoje, quem fala não sou eu, mas o poeta Vinicius de Moraes. Porque hoje é sábado, e vale a pena ouvi-lo até o fim.


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A indústria do medo

Nestas minhas férias, que infelizmente (ou felizmente) estão perto do fim, pude constatar como anda a todo vapor a nossa indústria do medo. Basta ligar a TV já às sete da manhã para que o desfile de crimes e doenças comece a semear em você o pavor de viver.

Estupro, sequestro, crime passional, latrocínio, tráfico de drogas, epidemia de crack, roubo, furto, atentado, bala perdida, explosão de bueiro, arrastão, homofobia, encontro de cadáver, atropelamento, desastre de carro, batida de trem, queda de avião, estelionato, pedofilia, violência contra menores, mulheres, idosos...

A lista é extensa, e os programas jornalísticos seguem pela manhã inteira, alternando-se com desenhos animados violentos, muitos anúncios para tornar as crianças consumistas e programas de fofoca, maledicência e invasão da vida privada. Na hora do almoço, o cardápio continua indigesto, com os RJs temperando seus crimes com alarmes sobre doenças que podem estar germinando, claro, dentro de você, telespectador.

A tarde começa com mais fofoca, muita fofoca. O galã está com câncer, é fantástico! E reprise de novelas inadequadas para o público infantil, mas quem se importa? Os filmes da sessão vadiagem também, quase sempre, têm temáticas violentas ou são aulas de sexismo.

E aí começam os programas policiais do início da noite. A cidade alerta, o Brasil urgente e você já apavorado, com medo de ir até a esquina comprar um pãozinho francês para comer com manteiga, aquela mesmo que um médico mauricinho acabou de dizer que vai entupir suas artérias e te levar pro buraco mais cedo. Obrigado, doutor!

Sim, a mídia vive de nos assustar. Seja com seu show policial ininterrupto ou com seus programas que explicam didaticamente quantas doenças você pode ter se não se cuidar (e até mesmo sendo um hipocondríaco de carteirinha, assíduo frequentador de consulórios médicos e laboratórios de exames).

Claro que há crimes demais, tanto nas metrópoles quanto no interior. É muita gente, educação caótica, famílias desestruturadas, falta de oportunidades de estudo e trabalho, miséria, incentivo ao consumo, ausência de espiritualidade, culto à violência etc. E, como se não bastasse tudo isso, ainda tem um monte de gente que rouba e mata porque é espírito de porco mesmo. Só de sacanagem.

Mas isso não justifica que nos deixemos contagiar pelo medo. Um estupro em São Paulo é um estupro num estado de 20 milhões de habitantes. Ok, vamos supor que tenham sido 10 estupros ontem, mas que as TVs só noticiaram um. Mesmo que fossem 10, é muito pouco diante de tanta gente para que você se sinta a próxima vítima.

E tem crime na Suécia, na Dinamarca, na Noruega, no Sudão, em todo lugar.

Um dos primeiros conselhos que os médicos dão a quem tem síndrome do pânico é parar de assistir a esses telejornais alarmistas.

Não, isso não vai acontecer com você. Se acontecer, é porque você ganhou na Mega Sena ao contrário.

E, como você não vai ganhar na loteria, fique tranquilo e viva a vida.

Mulher corre em Copacabana/Foto: Marcelo Migliaccio
Quem tem medo do escuro nunca vê o sol nascer



quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Os mitos apagados pela mídia

A Polícia Federal (leia-se governo Dilma Rousseff) prendeu mais uma gangue no Ministério do Turismo. Essa não foi depois de a imprensa noticiar, como no caso dos Transportes. Dilma só vem ganhando pontos, mesmo com quem não votou nela, ao se mostrar uma presidente séria, honesta e trabalhadora.

Exatamente como eu achei que seria.

Mordam-se, Dilma é honesta. Não vai tolerar ladrão, que é o que mais tem por aqui...

A imprensa ainda está mais interessada em desconstruir Lula do que em atacar Dilma. Lula firmou-se como um dos maiores líderes populares que o Brasil já teve (senão o maior) e também teve seu trabalho e sua trajetória reconhecidos internacionalmente. A mesma elite que levou Getúlio Vargas ao suicídio, que derrubou João Golart, matou Juscelino num acidente suspeitíssimo de carro e perseguiu Brizola, agora quer matar o mito Lula, frisando sempre, por exemplo, que o esquema nos Transportes vinha desde seu governo.

A gente sabe como é esse pessoal. Deram um golpe em João Goulart porque ele falou em reforma agrária. Veja bem: ele não fez reforma agrária, apenas disse que faria. E o apearam do poder..

Quem pegar os jornais no futuro para pesquisar pensarará que Lula foi um antidemocrata corrupto, assim a imprensa o pintou em suas páginas durante seus oito anos de governo. Mas foi o cara que tirou milhões da miséria e que saiu com 80% de aprovação. Houve problemas em seu governo? Houve, em todos há, mas nunca a Polícia Federal prendeu tantos corruptos (que a Justiça logo soltou).

Distribuir renda num país de cultura escravocrata é uma heresia. Todos os citados, assim como Lula, o fizeram ou tentaram fazer. Getúlio, chamado de ditador, ampliou os direitos do povo, as leis trabalhistas, deu direitos democráticos às mulheres. Se hoje ainda se encontra trabalho escravo no interior do Brasil, imagine nos anos 20, 30 e 40...

Representando a UDN (depois Arena, depois PDS, depois PFL e agora DEM), a grande imprensa enxovalhou o presidente Vargas. Seu crime? Olhar para os pobres. Tinha defeitos, claro, todos temos. Mas o povo não foi chorar nas ruas e depredar redações de jornais à toa quando o então presidente meteu uma bala no coração.

Ontem, leve minha filha ao Memorial a Getúlio, na Glória (Zona Sul do Rio). Estava vazio, como das outras vezes em que fui lá.

É fácil para a mídia condenar um mito ao esquecimento. Bastam o passar dos anos e muita desinformação no rádio, no jornal e na TV.

Brizola teve mais espaço na TV Biscoito de Praia no dia em que morreu do que nos 30 anos anteriores, quando governou o Rio por duas vezes e tentou educar aquelas crianças para que não se tornassem os criminosos que hoje sequestram ônibus, traficam, assaltam e matam.

A elite odeia líderes populares. Veja a manipulação do noticiário referente à Venezuela, por exemplo. Lá surgiu um líder que rompeu com a tradição colonialista espanhola e respeitou seu povo. É também tachado de ditador, embora tenha se mantido no poder com plebiscitos. A vida é assim.

A todos vocês que não são teleguiados por essas empresas que precisam jurar que têm "princípios editoriais", um bom dia!

Antigo plenário da Câmara dos Deputados exposto em Brasília. Foto de Marcelo Migliaccio
Nesses velhos plenários da República, muitos líderes populares foram sabotados

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Sobre a crise nas bolsas de valores

No colo da Gisele Bundchen

Vou-me embora pra Pasárgada
Manuel Bandeira


Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d'água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.


Texto extraído do livro Bandeira a Vida Inteira, Editora Alumbramento – Rio de Janeiro, 1986, pág. 90

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Dois momentos da mesma manhã

Uma neblina fortíssima escondeu parte do Rio hoje pela manhã. No aeroporto Santos Dumont, filas nervosas se formaram. Eram os cariocas atrasados para suas reuniões matinais em São Paulo. Na metrópole vizinha, também tensão em Congonhas, onde os paulistas que trabalham no Rio esperavam o nevoeiro se dissipar para dar as caras por aqui. Muitos não conseguiram chegar a tempo, nem aqui nem lá, para seus compromissos (e acho que ninguém morreu ou ficou mais pobre por causa disso...)

Nas ruas, o espetáculo da natureza ignorava a ansiedade dos mortais. E, com o tempo, a bruma londrina deu lugar ao sol e ao céu azul do inverno na Cidade Maravilhosa.

Feliz de quem teve tempo de olhar para o céu.

A igreja e a torre do Rio Sul  às 8h40
E às 10h40

domingo, 7 de agosto de 2011

Refeição ligeira


A rotina deles é dura. Cliente criador de caso, fumaça de cigarro no nariz, bêbados inconvenientes e aquele constante cheiro de comida que embrulha o estômago, por melhor que seja o restaurante. Fora os muquiranas que não deixam nem os 10% para serem divididos entre eles e os abnegados da cozinha. Além disso, garçons vivem pra lá e pra cá, chegam a andar quilômetros numa única noite de trabalho.

Pois eis que, num domingo de folga, um grupo se reuniu na Praia de Copacabana para a já tradicional corrida de garçons. Com uma garrafa de ice e três latinhas na bandeja, eles mediram pernas para saber quem é o mais rápido e o melhor no equilíbrio.


A briga foi boa, e o detalhe é que todos correram de... sapato. Ou não seriam garçons, nunca vi um trabalhando de tênis. A maioria dos experts nesse ofício é nordestina, mais precisamente do Ceará, o estado de onde vêm os melhores garçons e cozinheiros dos bares e restaurantes do Rio e de São Paulo.

Servir bem é uma arte. A pior coisa é garçom mal humorado ou confiado. Há que se ter muito feeling para ser um bom garçom, no caso do cozinheiro então, ou ele é um artista da culinária, ou deve mudar de profissão urgentemente. Conheci ótimos restaurantes italianos e japoneses onde quem dá as cartas na cozinha é um cearense.


Traz a conta.

sábado, 6 de agosto de 2011

A torcida extrapolou!

Como torcedor do Fluminense, eu reprovo a atitude dos supostos tricolores que perseguiram o atacante Fred pelas ruas de Ipanema, após encontrá-lo num bar bebendo com amigos. Isso é o cúmulo da invasão de privacidade e do desrespeito. O jogador, assim como qualquer outra pessoa, tem o direito de fazer o que quiser nas horas de folga.

Se a bebida está atrapalhando o desempenho do Fred em campo (e eu acho que está há muito tempo), cabe à torcida protestar no estádio para que a diretoria o mande embora.

É bom lembrar, porém, que Fred é o maior craque contratado pelo Fluminense desde Rivelino. E teve participação decisiva no título brasileiro de 2010.

O pior é que muito jornalista, principalmente no rádio, criticou apenas o fato de o Fred estar bebendo, e não a conduta dos torcedores. Foram até escarafunchar a conta da mesa dele e descobriram inacreditáveis 60 capirinhas de saquê. Tudo bem, seriam oito pessoas, mas entre elas estavam quatro mulheres, que teoricamente bebem menos, e outro jogador, Rafael Moura, que jura de pés juntos ser abstêmio. É muita caipirinha para quem teria que jogar dois dias depois. Agora, perseguir o cara pela rua é ridículo e contra a lei, tanto que ele deu queixa na delegacia.

O que acontece no Fluminense é mais profundo. Os jogadores não respeitam a diretoria. Conto as dezenas de craques que no Flu não estavam nem aí e, quando foram para outros clubes, arrebentaram. Leo Moura é um belo exemplo: passou um ano no tricolor e não entrou em nenhuma dividida. Agora, no Flamengo, vai na bola como um faminto avança num prato de comida. Isso é o resultado de um clube onde o patrocinador manda mais que o presidente e os contratos e verbas são mais importantes que as três cores que traduzem tradição.


ENQUETE
Para 33% dos leitores deste blog, Ronaldinho Gaúcho merece uma nova chance na seleção brasileira. Segundo eles, o craque pode se motivar e até mesmo jogar a próxima Copa do Mundo.

Outros 22% acham que Ronaldinho deve ser convocado novamente porque vem jogando muito bem no Flamengo, independentemente de estar ou não no time de 2014.

No entanto, 32% dos leitores do Rio Acima acreditam que a vida noturna do jogador não o credencia para mais uma convocação. E outros 16% dizem que ele não deve ser mais chamado porque estará muito velho em 2014.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Informe-se sobre o Brasil no exterior

Oooooh, mas que crise!

Jobim vai sair... Chamou a colega de ministério de "fraquinha". Pior, disse que ela está "gordinha". Os jornais e rádios do sistema monopólio fazem a festa. Morrem de rir.

Crise no governo! Mais uma! Sabe aqueles teatros de revista decadentes? Aquelas peças com piadas surradas em teatros mofados, com poltronas rasgadas e vazias? Atores com a maquiagem borrada...

O noticiário que se vê me parece isso. Um show requentado e sem imaginação.

E a "rede de corrupção" no Ministério dos Transportes? Ok, corruptos têm que ser demitidos e presos. Demitidos, já foram quase 30... É aquela história de como a imprensa age com amigos e inimgos: se fosse um político amigo dariam ênfase às punições (lembram do governador que saiu como herói de uma blitz da Lei Seca?).

Bom, tudo bem, o jogo é esse.

Mas eu gostaria de ler em jornais brasileiros, ou ver nas nossas emissoras, reportagens sobre a cultura predatória da soja em Mato Grosso e agora na Amazônia. O pior é que essa soja vai engordar os porcos das multinacionais de fast food. Ou seja, a cada Big Lanche Feliz que fazemos, devoramos uma pequena porção da floresta amazônica, e o molho é o sangue de algum brasileiro expulso de sua terra pelos grandes grileiros.

Tive que aprender isso num documentário estrangeiro, porque se dependesse do nosso teatro de revista...

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Ele canta por mim

Hoje, deixo uma linda e poética música do Arnaldo Antunes, que para mim era a alma dos Titãs. Quando ele saiu, a banda virou só uma boa banda de rock. O nome é Meu coração.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Por que o Brasil é assim?

As alterações do processo penal pela lei 12.403, decretada em maio deste ano, confirmaram a interpretação constitucional dada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) de que a liberdade provisória tem prioridade sobre a  prisão preventiva. O resultado é que, mesmo em presos em flagrante, muitos criminosos estão se livrando da cadeia.

Foi o caso do traficante de ecstasy preso na última sexta-feira com 1.280 comprimidos da "laranjinha canadense", como os cerca de 350 frequentadores da rede social do rapaz chamavam a droga.

Um juiz "interpretou a lei" e o mandou para casa, apesar do flagra.

O traficante posou para fotos na delegacia com um tremendo sorriso nos lábios. Parece que sabia que ficaria apenas 24 horas na cadeia até que o magistrado de plantão o colocasse em liberdade.

O Ministério Público e a Polícia Civil protestaram, mas esta última deveria explicar por que o nome do chefe da quadrilha, filho de um alto funcionário da União, não foi divulgado. Este, segundo as investigações, repassava a droga ao bagrinho preso e logo solto. Anonimato para o chefão e exposição predatória na mídia para os pés de chinelo. Atenção, alunos: isso é o que se chama de pirâmide social.

Já escrevi no blog que sou a favor da liberação das drogas. Usa quem quer, proibição só gera mais crime. Mas, já que é proibido, que prendam também os traficantes de classe média e alta, e não só os descartáveis dos varejos das favelas e do asfalto. Quando a lei não vale para todos, dá nisso que vemos por aí: revolta, desesperança, criminosos cada vez mais violentos e essa epidemia de crack, a maior prova de que o sistema produtivo-concentrador-materialista-predatório não deu certo.

Nosso Código Penal é um convite ao delito. Seu artigo primeiro deveria ser: o crime no Brasil compensa. É assim desde que o primeiro português aqui aportou. Em vez do "Ordem e progresso", que tal estamparmos na bandeira "Privilégios, mamatas e barganhas"?

A polícia prende, e a Justiça solta. Impunidade, impunidade, abre as asas sobre nós...


Treinamento da PM na Praia Vermelha, Rio

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Quase meio século

Semana que vem, completo 48 anos. Hoje de manhã, ao parar perto do aeroporto Santos Dumont para esticar os músculos retesados pela bicicleta, me dei conta de quanta história já deixei para trás.

Bem ao meu lado, estava a fachada do Clube Santa Luzia, onde, no início dos anos 80, eu fiz musculação na esperança de que meu corpo longilíneo ficasse igual ao do Superman. Ao me aproximar de uma das janelas do clube, vi os mesmos velhos pesos de ferro com que os fisiculturistas se exercitavam ali há 50, 60 anos. Os homens do passado se foram, deram lugar aos jovens bombados de hoje, mas os pesos são os mesmos. Isso é que é perenidade! Só os ferros do Santa Luzia e o Superman são imortais, aprendi com a idade.

Ainda viajava naquelas rodelas de 20, 40 e 50 quilos quando o som do rádio de um carro parado ali perto me chamou a atenção e me levou para outro momento remoto dessa minha jornada. Um motorista de estatal cabulava o serviço e cochilava ao som de um flash back, Camila, na versão do grupo Nenhum de Nós. E da velha sala de musculação do Santa Luzia me transportei para Brasília, onde eu morava quando aquela música tocava o dia inteiro nas rádios. Eu já era um pouco mais velho, experiente o bastante para crer que músculos pouco significam fora dos ringues de luta livre, mas ainda era ingênuo a ponto de acreditar na nobreza do jornalismo.

Cheguei mais perto do carro chapa branca desperdiçado para curtir o flash back quando notei, mais adiante, o imponente prédio do Museu de Arte Moderna, onde, aos 5 anos, ia com meus pais assistir a espetáculos de arte e exposições. Lembrei imediatamente do meu primeiro e único sapato branco, com o qual eu, pirralho maravilhado, corria por aqueles imensos espaços do MAM. Ali, naquela idade, eu já tinha aprendido tudo da vida, mas logo depois, na escola, me convenceram do contrário e quebraram minha bússola para sempre.

Ainda mais além do MAM, vi o prédio onde fica a sucursal de um grande jornal paulista em que trabalhei, isso já nos anos 90. E, às minhas costas, senti a maresia e o bater dos barcos da Marina da Glória, em cujo palco tive a rara oportunidade de assistir, há muitos, muitos anos, um show daquele grupo de rock feminino chamado Sempre Livre, lembra? "Free, sempre free, eu sou free demais..."

Andar pelo Rio quando se está perto de completar meio século é um constante relembrar. As memórias estão por toda a paisagem, com gostos ora doces, ora amargos.

Admiro os mais velhos por tudo que viveram. Admiro a imunidade a sobressaltos que adquiriram com o passar dos anos, com o cair e levantar. Não dão mais pulos de alegria nem se desesperam. Aprenderam que o tempo não passa, quem passa somos nós, nosso choro e nossas risadas.


Todo mundo aqui é passageiro.