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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Reflexão sobre a morte

Outro dia, eu estava pensando sobre a morte. Uma das razões pelas quais esse tema nos assusta tanto é justamente o medo que temos de falar dele. Outras culturas encaram o ocaso da vida de uma forma muito menos sinistra do que nós, ocidentais. Claro, ninguém quer levar um tiro num assalto ou sofrer um acidente fatal, mas a hora de cada um vai chegar. Em vez de fingir para nós mesmos que somos imortais, que tal começarmos a nos preparar psicologicamente e filosoficamente? O simples exercício de tomar consciência vem acompanhado de uma lição de humildade que, com certeza, vai aplacar muito da nossa vaidade e da nossa mesquinhez no dia-a-dia.

Vivendo em uma sociedade marcada pelo materialismo, não chega a ser surpreendente que encaremos como a maior das tragédias o fim do corpo físico (sobre o espiritual só vou saber quando o meu dia chegar).

Então, pensei: por que será que Deus (também conhecido por muitos como o acaso) fez do homem o único animal que tem consciência de que um dia morrerá? Todos os outros ignoram a própria finitude.

Pois bem, talvez essa distinção dada à nossa espécie não devesse ter sido transformada num pesadelo, que dura a vida inteira mesmo quando está trancafiado no nosso subconsciente. Pode ser que tenhamos essa consciência justamente para ter a chance de planejar como será nosso fim (ou nossa passagem, dependendo da religiosidade de cada um).

Essa mesma sociedade, onde os homens valem pelo que têm e não pelo que são, convencionou _ em lei, inclusive _ que o suicídio é crime. Ninguém, portanto, tem o direito de decidir como e quando quer morrer. O livre arbítrio é revogado quando se aproxima o momento derradeiro da existência.

O máximo que nos permitem é comprar um jazigo com antecedência. Lógico, pagando à vista...

Caso tenha uma dessas doenças terríveis como Parkinson ou mal de Alzheimer, o filho de Deus terá que suportar seu calvário até o fim.

O homem planeja sua vida inteira. Tudo que fazemos a vida inteira é pensar e planejar coisas. É isso que nos diferencia dos macacos: a parte frontal da cabeça (protuberante nos humanos e chata nos símios) onde se dá o planejamento. No entanto, não podemos usá-la num momento fundamental da nossa vida, o momento de morrer. Legisladores e religiosos decidiram isso por nós.

Sei que a eutanásia, o chamado suicídio assistido, é praticada a torto e a direito por aí, mas ainda é crime abreviar o sofrimento de uma pessoa. Sacrificamos cachorros (nossos melhores amigos), cavalos e outros animais doentes para evitar que sofram. Mas, se for um ser humano...

Li muita coisa nos livros budistas sobre a forma como encaram e vivenciam o fim do corpo físico. Uma coisa absolutamente natural que, entre nós, foi transformada em tabu, infelizmente.


Cemitério São João Batista, em Botafogo, no Rio. Foto de Marcelo Migliaccio
Pensar sempre vale a pena


24 comentários:

  1. Como dizia o poeta Gil, "se a morte faz parte da vida e se vale a pena viver, então morrer vale a pena..."

    Valeu Marcelo

    Um abraço
    Marcos Souza

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  2. Marcelo,
    só não entendi porque de repente esse tema de 02 de novembro. Será esse mês de agosto que muitos acham de desgosto, que o inspirou?
    Mas valeu pra refletir sim.

    Marcos Souza

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  3. São Francisco de Assis em seus últimos minutos de vida , exclamou: "Bem-vinda sejas, irmã minha, a morte!Para ele ,a morte não é negação total da vida, não é nossa inimiga, mas é passagem para o modo de vida em Deus, novo e definitivo, imortal e pleno.Talvez falte um pouco desta espiritualidade ou entendimento no mundo de hoje.Precisamos pensar como Leonardo Boff:' Enquanto Deus é Deus, enquanto Ele é o vivente e a Fonte de toda a vida, eu não morrerei, ainda que corporalmente morra!"

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  4. Mauro Pires de Amorim.
    Concordo contigo, mas a única coisa 100% certa na vida é a morte, que invariavelmente um dia irá acontecer. A questão portanto, já que não podemos fugir desse evento inevitável, passa a ser, em que condições a morte nos alcançará? Portanto penso que é isso que atormenta a maioria das pessoas, ter que viver planejando e antecipando situações para fugir da morte. Mas sem dúvida que viver assim, cança e causa estress, fazendo com que as pessoas se abstraiam, quase não externando ou tocando nesse tipo de assunto, deixando-o para os momentos íntimos de reflexão e planejamento. Apesar de vivermos em sociedade, com grande densidade populacional e fartos recursos de comunicação, no fundo, estamos sozinhos, principalmente pela banalização da palavra "amigo", que virou praticamente um sinônimo da maioria das relações sociais, enquanto que as palavras "conhecido" ou "colega", praticamente desapareceram ou caíram em desuso.
    Felicidade e boas energias.

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  5. Como viver é que importa, como trilhar o caminho, como nos relacionamos, sem questionar o porquê, apenas agregando, sem tirar, apenas contribuindo, para acrescentar consciência à coletividade, e aos indivíduos, sempre. Transmitir o conhecimento que nos foi transmitido, analisar os fatos com simplicidade, criticar apenas dentro de um contexto discreto, julgar apenas se for adquirir para sí.

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  6. Veja Marcelo. 4 comentarios e todos anonimos. Ou voce acaba com eles ou eles acabam com o Blog, pois eh dificil manter um debate com quem se esconde no anonimato da internet.

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  7. Caro Alexandre, os comentários, apesar de entrarem como anônimos, estão assinados. Acho que assim fica mais fácil para as pessoas participarem, já que o sistema é um pouco complicado. Abraço

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  8. Cruz credo Marcelo,que assunto macabro! Veja bem: No mês que vem,eu completo 50 anos,e na minha cabeça essa faixa etária,é sinônimo de morte. Abro a internet leio em um portal: Ator de 52 anos morre de repente.Entro no blog,vc está falando em comprar jazigo com antecedência... Por favor isso é perseguição. Abs.____________________Monica

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  9. Pois é meu nobre amigo Marcelo, falar da morte me entristece um pouco, pois traz lembrança e saudade dos entes queridos que se foram, porém, ela é inevitável. Como diz meu tio, "lá do outro lado não deve ser ruim, senão os brasileiros já tinham voltado". Parabéns amigo, uma bela reflexão!

    forte abraço do leitor,

    c@urosa

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  10. Bem acho espetacular esse negocio de ir morrendo aos pouquinhos, a conta-gotas... a morte e fascinante por se cercada de vida em todos os quadrantes...a morte e sempre noticia...bem mais importante do que os nascimentos anonimos....amanha, estaremos ligeiramente mais mortos com o incomodo de ter que ir arrastando os restos de vida....

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  11. Meu caro... é claro que a “fé”, seja ela qual for, tem um papel fundamental na forma como se encara a morte e a vida e o seu sentido.

    Epicuro, de cujas idéias sou adicto, filósofo grego nascido em 341 A.C., examina a morte como não sendo nada. Ele diz: “A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais.” Será o nada, o não mais ser? Ou o portal para o tão aguardado prémio ou temido castigo?


    Quando você se refere ao sábio Gil, letrista e poeta ímpar e inspiradíssimo da gloriosa e sofisticada MPB de qualidade, a única que me interessa e ouço, este pensamento audaz tenho como de autoria do
    Immanuel Kant : “Se vale a pena viver e se a morte faz parte da vida, então morrer também vale a pena…” Portanto, será ela uma passagem, uma porta para outra dimensão, o acesso a outro nível de consciência, o encontro com a nossa alma, o regresso à nossa essência espiritual?
    Quiçá...
    Certezas? Para poucos. Dúvidas - diria eu - são muitas, assim como são as preocupações para a maioria das pessoas, embora ela aconteça democratica e inesperadamente para crentes e céticos.

    A morte poderá ser decisiva, poderá ser o fim em si mesma, mas também pode ser compreendida, sentida, chorada. Pode ser entendida como lição de vida e de amor das pessoas que fizeram parte do nosso mundo individual, que recordamos com saudade e que deram, e dão, sentido à nossa existência fazendo parte de nós e da nossa história.

    Vale a pena o atrevimento de sermos felizes, de sermos o que quisermos, de fazermos o que decidirmos (se pudermos...)e de viver intensamente cada minuto como sendo o último, e único, porque nada está garantido, ou se repete do mesmo jeito. E a vida? É tão frágil!, impermantente, circunstancial, imponderável, que para morrer é bastante estar vivo.

    O medo da inexorável finitude não impede, não posterga e nem evita que ela ocorra...portanto, só nos resta viver da melhor forma possível...pois não há ensaio, nem bis (lucidamente, ninguém se recorda de como ou onde já viveu... ou se reencarnou, e não estou negando esta possibilidade, sou um humilde aprendiz). Dou voz ao rei das letras, então.
    Medo da morte? - Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)
    Medo da morte?
    Acordarei de outra maneira,
    Talvez corpo, talvez continuidade, talvez renovado,
    Mas acordarei.
    Se os átomos não dormem, por que hei-de ser eu só a dormir?

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  12. Brilhante, Marcos, se os átomos não dormem...

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  13. Bom, Valmir! "arrastando restos de vida"...

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  14. Nossa, Marcelo!

    Que beleza. Estou emocionada demais para escrever.

    Um abraço fraterno,

    Wanda Rodrigues

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  15. Que bom ler seu "Reflexão sobre a Morte" especialmente hoje Marcelo.

    Beijos, Denise Coutinho.

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  16. Marcelo

    Tudo na vida tem um por quê, inclusive o sofrimento com as doenças: é triste, mas a realidade é que o sofrimento nos ensina muito; quando sofremos, evoluímos. Deus, perfeito em sua sabedoria, não é um pai-carrasco; não nos faz sofrer por sadismo. O suicídio é sim um pecado, e não devemos nos envergonhar de recorrer a esta palavra, como se acreditar em Deus em seguir Suas leis nos tornasse menores. O suicídio vai contra as leis na Natureza, porque a vida é o maior dom e a maior dádiva que recebemos. Já vi gente sofrendo para morrer, sei o quanto isso é terrível (tanto para quem está doente quanto para quem está por perto, tentando, de alguma forma, ajudar). Mas ninguém quer morrer. Só os desequilibrados anseiam pela morte, e isso também é tristíssimo. Enquanto há consciência, há vida. E nós estamos aqui para viver.

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  17. Respeito sua opinião, Fernanda, mas acho que discordo.

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  18. Acho q que a codificação espírita trata todos estes assuntos de forma clara, objetiva e racional. Acho um ótimo exercício paras todos créduls ou não, materialistas ou não, ler por exemplo o Livro dos Espíritos que considero uma obra científica e uma lição de português, por trazer uma linguagem rica e escrita de forma indefectível.
    Abraços a todos

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  19. Marcelo,

    Entre tantos comentários e tantas opiniões, prefiro me calar e deixar a palavra com Raul Seixas e aquela que é sua mais bela canção.

    http://www.youtube.com/watch?v=HcbKehMjmaI

    Abraço de sempre.

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  20. Concordo com o thcleal. leiam também além do (livro dos espiritos) Nosso lar de André luiz e
    Violetas na Janela da menina patricia que desencarna com 19 anos. Tanto Andre luiz quanto Patricia após a chamada morte, acordam em outra dimensão. Como é bom crer nisso!!
    Nosso lar virou filme.
    Sergio.

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