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sábado, 20 de agosto de 2011

Outro filmaço: 'Melancolia'

Outro filme muito bom (pra mim)  a que assisti recentemente foi Melancolia, de Lars Von Trier, aquele diretor que foi praticamente corrido do Festival de Cannes por dar uma declaração supostamente simpática ao nazismo. Nem vou entrar no mérito do que ele falou, porque o que me interessa num artista é sua obra e não o que ele diz ou faz na vida privada.

O filme é lindo e tem uma coisa que diferencia os clássicos do cinema: a unidade estética. Como em O grande ditador, The Wall, O delator, Blade runner e tantas outras obras-primas, em Melancolia, não há nada fora do lugar, todos os planos não poderiam ser mais felizes. Há uma identidade nas imagens, na textura, na fotografia. Os atores estão perfeitos nos papéis, e roteiro não tem gordura. Enfim é um filme tecnicamente inatacável.

Repito: é apenas a minha opinião, você pode detestar.

A temática, que afugentou muita gente, é a reação das pessoas diante do fim do mundo. Gozado que a ameaça de hecatombe é um atrativo de bilheteria nos filmes de catástrofe ou de aventura. As massas correm para ver Nova York inundada pelo oceano ou o Homem de Ferro a evitar que um gênio do mal acabe com tudo.

No entanto, mergulhar no interior de um punhado de seres humanos para mostrar como eles reagem ante a colisão de um planeta gigantesco com a Terra é considerado indigesto para muitos. E o diretor não precisou de efeitos especiais mirabolantes, prédios caindo e multidões em disparada. Aqui, o mundo acaba apenas com closes e diálogos.

_ Não vou ao cimena para ficar triste _ me disse uma amiga.

Não vi nada triste em Melancolia. Vi pessoas. Muito bem retratadas no que elas têm de mais íntimo. Uma noiva feliz que passa a evitar seu príncipe encantado ainda na festa de casamento. Sua irmã, durona e ativa, que no fundo morre de medo da morte. O otimista inveterado que acaba não se aguentando... assim são as pessoas. E o menino, provando mais uma vez que as crianças já sabem tudo.

Outra boa forma de avaliar um filme é observar por quantos dias você continua pensando nele. Você esquece um ótimo filme de ação, como Gladiador, por exemplo, 15 ou 20 minutos depois de sair do cinema. Outros continuam lhe provocando a reflexão por dias, o tempo passa e você segue descobrindo coisas. Esses são os filmes que marcam.

11 comentários:

  1. Hummmm! Sei não hein,estou achando que vou perder um blogueiro,e ganhar um cineasta...


    Monica.

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  2. Você tem bola de cristal, Monica?

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  3. Realmente, prezado, é o filme do ano...que já está quase acabando numa velocidade pra lá de vertiginosa...Tenho especial predileção por filmes, músicas e artes, de modo geral, que pouquíssimos gostam e nunca esforcei-me por isto; acontece naturalmente...Não consigo ser nem gostar de coisas populares, lugares comuns, televisão, shopping, mais do mesmo, mainstream, da moda, emoções baratas, livro best seller, da hora, filmes piegas, comerciais, blockbuster, muito barulho por nada,etc, enfim, adoro exceções e não regras gerais...e nem acho que sou melhor ou pior por conta desta especificidade; aceito-a e adoro este meu perfil esquisito ou contracorrente ou rês desgarrada rsrs...Que fique claro:adoro a natureza e as coisas simples, jamais o simplório. Todo o blá-blá-blá, pra corroborar sua excelente crítica, irreparável, deste filme que saiu entranhado em mim, ou seja, saí do cinema, mas não do filme. Assisti-o em êxtase, quase de joelhos rsrs...e tive orgasmos intelectivos ou neuronais (embora eu só possua dois neurônios e um deles já esteja cambaio rsrs...).Raros filmes causaram-me tanto impacto e maravilhamento, concomitantemente, mas advirto os amigos e conhecidos e colegas: só vá assisti-lo se você gostar de arte maior_ no caso uma verdadeira obra prima_ radicalidade (raiz das questões), ousadia, singularidade e não for chegado a concessões ou fórmulas...e completo dizendo: não estou recomendando, somente relatando uma raridade exclusiva para os raros (que muita gente chama de chatos rsrs...). Já ganhei o sábado com seu comentário tão afinado com a experiência ímpar e inesquecível_ que em nada deixou-me melancólico, muito pelo contrário, entusiasmado mesmo_ graças à`genialidade do sempre imperdível Lars Von Trier. Os discordantes são, também, filhos de Deus, por supuesto.

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  4. Não Marcelo,ainda não tenho,mas nada como um sexto sentido em plena atividade,para desvendar algumas situações, rs abs.

    Monica.

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  5. Melacolia é um filme visual. As cenas são de uma delicadesa e encantamento sem par. São pinturas dignas de um Miguel Angelo. O pincel do cineasta é a câmera. As atitudes mais comezinhas da personagem não chocam e apenas relatam seu estado de espírito, que como os animais irracionas prescentem que algo esta por acontecer na natureza. O que interessa não é o cataclisma do fim, mas sim como o ser humano pode se apresentar numa situação limite. É o tipo de filme que faz a gente pensar na ilusão da vida.

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  6. Exatamente, anônimo (que eu acho que sei quem é). A noiva desiludida teve a mesma reação dos cavalos ante o fim do mundo. Bj.

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  7. Já tenho duas sugestoes de filme p/ ver. não tenho muito tempo para cinema mas vou procurar em DVD
    Sergio.

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  8. Ainda não assisti ao filme mas estou curiosa. Gosto de filmes que prendem e têm a capacidade de nos deixar boquiabertos. Um filme que vi recentemente e me deixou assim, é um de 1995 (eu acho), com o Vincent Cassel, chamado O ódio (La Haine). O filme não poderia ser mais atual, frente aos "riots" na Inglaterra. Uma obra prima do cinema francês.

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  9. Esse eu ainda não vi, Tatiana, mas, do cinema francês, 'Minhas tardes com Margueritte' me emocionou muito recentemente. E a comédia 'O closet' é imperdível.

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  10. Marcelo,
    Eu não consigo separar o artista da pessoa, mas não sei se Lars foi injustamente atacado pelos controladores da sétima arte ou não. Matrix dos Wachowsky ou Speed Racer? Filosofia ou entretenimento? Existem diversas formas de se passar mensagens, Roberto Carlos Ramos, em entrevistas disponíveis no u-tube, mostra o que se perdeu das antigas tradições.
    Tem gente que é tão acostumada com novela, com entretenimento, que acha que cultura é triste. Documentários seriam impensáveis. Mas existem até novas vertentes de documentários, 'God, save us from your followers' é uma divertida opção, 'The god that wasn't there' é uma menos elaborada, com partes desnecessárias, mas vale.
    Hoje em dia, a educação e a desinformação vem pela TV, de Supernanny à grotesco pseudo-jornalismo. A internet é que nos salva.

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  11. Tambem nao consigo separar o artista e sua obra, mas assim como dizem que a declaracao da Sandy foi "fora de contexto" talvez a do Lars tambem tenha sido...De qualquer forma Lars vem surpreendendo desde o movimento Dogma 1995. Ja quanto a nao se preocupar com as atitudes do artista, nao aguento ver a Band fazer campanhas contra a violencia no transito enquanto mantem Edmundo como comentarista. Eh no minimo hipocrisia e uma falta de respeito com a familia daqueles que morreram no acidente causado por ele.

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