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quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Traição

Alguém disse um dia que traição é mera questão de datas. Dependendo do tamanho do calendário, do prazo de validade de uma amizade ou de um amor, até acredito.

O fato é que quem nunca foi traído provavelmente será. Isso no que se refere ao cônjuge ou namorado, porque em se tratando de amigos ou colegas de trabalho não creio que ainda haja alguém que nunca tenha levado a tradicional punhalada pelas costas.

Quando eu tinha 15 anos, uma namoradinha colocou na minha cabeça o temível chapéu de touro. Ela tinha suas razões, porque nosso namorico estava para completar 15 dias e eu não vinha tendo uma grande atuação, se é que você me entende. Apesar da idade, era novato no ramo, enquanto ela já havia experimentado emoções muito mais fortes do que os beijos que eu lhe dava na boca.

Lembro que, na época, fiquei mais preocupado com o que os colegas iam pensar de mim do que com a quebra do elo de fidelidade entre eu e ela. Não fiquei deprimido quando um espírito de porco veio correndo me contar que a menina havia ficado com um cara na churrasqueira do clube. Churrascos nunca acabam bem... a carne é de difícil digestão...

Nos anos que se seguiram, descobri que o beijo na boca não era o ápice e tive outras namoradas. Também fiquei só por uma noite com outra penca. Não é que eu fosse um dom Juan, nunca fui eleito o muso das redações em que trabalhei, mas um cara na casa dos 30 com algum dinheiro no bolso sempre tinha seu eleitorado cativo.

Traí e fui traído. Quando fizeram comigo, não fiquei com raiva da dita cuja. Nem do cara. Esse é o ponto. Uma traição não diz respeito ao traído, mas ao traidor. É uma opção de quem trai, uma situação se apresentou e a pessoa resolveu agir daquela forma naquele momento. Não interpretei como falta de consideração dela para comigo. Apenas concluí que ela queria outra vida e que nosso caso estava encerrado. Ponto final. Sejam felizes.

Ninguém é propriedade de ninguém e muitas vezes algumas relações começam antes que haja tempo para encerrar formalmente outra, que já não faz mais sentido.

O problema da traição é quando ela deixa de ser um episódio isolado, imprevisto, irresistível para se tornar uma rotina. Aí sim é sacanagem. Aí é enganar uma pessoa mantendo relação com ela e com uma segunda que apareceu. Mas, se aconteceu, é só chegar para a vítima e explicar que tudo está acabado. Se algum tipo de traição conjugal pode ser condenado é aquele que se perpetua.

Mas não interpreto como falta de consideração com a sua namorada se você, ao dobrar uma esquina, se deparar com aquela que passou a acreditar, a partir daquele momento, ser o verdadeiro amor da sua vida. Aí, meu filho, vai fundo e depois explica para a outra que você descobriu que gosta dela "apenas como amigo"...

Quando estive na posição de "o outro", da mesma forma, não me achei o herege que estava destruindo a relação alheia, que estava separando um casal. Se aquela garota quis ficar comigo, é porque já não curtia o suficiente seu então namorado. O pior é que eu conhecia o cara. Conto isso porque faz muitos anos e nunca mais nos encontramos. Se cruzar com ele na rua acho que nem nos reconheceremos... espero.

Meu caso com sua então namorada não passou da primeira vez, mas o rapaz deve ter ficado sabendo depois e nunca mais falou comigo. Orgulho mata...

Remorso, eu? Senti mais quando, aos 11 anos, matei uma rolinha com um tiro de chumbinho.

Tudo bem. Se uma amizade não resiste a uma mera traição carnal e fortuita, é porque não era amizade. Amigos, amigos, mulheres à parte deveria ser o lema se não houvesse tanto moralismo e tanto egoísmo no mundo.

Sair correndo com um revólver atrás dos dois adúlteros só vai piorar as coisas, além de ser uma tremenda perda de tempo. Que o diga o cantor Lindomar Castilho, que vi esta semana no documentário Vou rifar meu coração. O ciúme é a vaidade em estado bruto.

Portanto, do alto do meu quase meio século, dou um conselho a você que acaba de ser traído: dispa-se do dogma da fidelidade e verá que o homem que acaba de roubar sua mulher, ou a mulher que surrupiou seu marido, lhe fez foi um grande favor.

domingo, 26 de agosto de 2012

O goleiro e o astronauta

Morreu um dos heróis da minha infância, o ex-goleiro Félix, do Fluminense e da seleção brasileira campeã da Copa de 1970. Logo depois, morreu outro, o astronauta Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na Lua. Ambos coloriram meu imaginário infantil.

Félix era o goleiro do meu time e, nas peladas na pracinha, quando eu resolvia jogar de goleiro, para insegurança e até desespero de meus companheiros de time, era o nome dele que eu gritava quando conseguia evitar um gol do adversário. Baixo para a posição (tinha só 1,79), Félix compensava isso com boa colocação e elasticidade.


Ficou tristemente marcado pelos gols que tomou na Copa de 1970, mas não era um frangueiro como alguns insistiram em estigmatizá-lo. Nas entrevistas, até recentemente, não conseguia disfarçar a mágoa que sentia pelas críticas que sofreu na seleção brasileira. Costumava atuar especialmente bem no Fla-Flu. Para mim, ele sempre foi o máximo. No Maracanã, já em 1975, eu ficava de binóculo observando-o, os detalhes da roupa quase sempre preta, a costeleta indefectível. Uma vez, cheguei a inventar na escola que o havia visto pessoalmente e falado com ele, tal era a minha admiração. Mais tarde, o vi de verdade na Praia Vermelha, com a família, no fim de uma tarde de domingo. Não tive coragem de tietar.

Taí, acho que Félix foi o meu primeiro ídolo, justamente na época em que o homem chegou a Lua. Em 1969, só se falava em Apolo 11, a nave que levou três astronautas a 340 mil quilômetros de distância e num lugar onde nem oxigênio há. Para mim, foi o feito mais fantástico da história do ser humano, não só por ir até lá como também por voltar. Neil Armstrong, que também morreu nesta semana, foi o primeiro a pisar no solo lunar.

No dia seguinte, lembro que a professora Raquel, do pré-primário do Instituto Souza Leão comentou com as crianças a incrível façanha, transmitida via satélite. Ela ressaltou que, antes de descer de fato do módulo lunar, o astronauta sentiu a superfície para ver se ela não afundaria.

Eu vi na TV o foguete se afastando da Terra com aquele rastro de fogo e fiquei fascinado aos seis anos de idade.

E, no dia em que a Raquel fez os alunos sentarem no chão em roda para perguntar a cada um o que queria ser quando crescesse, eu disse que seria astronauta.

De certa forma cumpri a promessa, porque, até hoje, eu vivo no mundo da Lua.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Grandes encontros da História XXIII


"Minha memória é um chão todo juncado de clássicos e peladas fenecidos."


Nelson Rodrigues






Isso é que era futebol...

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Vestido para morrer

Camisa oficial do Fluminense/Foto: Marcelo Migliaccio
Camisa usada pelo jogador Dirceu na decisão do Campeonato Carioca de 1976

Um dos meus fetiches que vêm da infância são as camisas de times de futebol. Lembro da primeira vez que vesti uma do Fluminense,  aos cinco ou seis anos, comprada numa pequena loja de dois irmãos gêmeos baixinhos perto da praça General Osório.

Quando adolescente, ficava fascinado ao ver de perto uma camisa oficial, de qualquer clube. Naquela época, não havia as já tradicionais butiques que vendem exemplares idênticos aos que os jogadores usam.

Às vezes, na Feira da Providência, era possível comprar uma daquelas camisas de algodão, quase sempre da marca Athleta, com grandes números e o distintivo do clube bordados. Foi lá que comprei uma oficial assinada pelo zagueiro Edinho, na época meu ídolo no tricolor. Tenho até hoje, embora tenha encolhido. Branca, com o número cinco vermelho às costas.

O outro jeito de arranjar uma camisa oficial era ganhá-la de algum jogador. Em 1976, tive a sorte de receber a que o ponta-esquerda Dirceu usou no primeiro tempo da decisão entre Fluminense e Vasco.

Hoje, as camisas oficiais de malha sintética fazem parte da paisagem. O novo material impede que os jogadores carreguem até quatro quilos extras ao final das partidas, já que o suor não adere mais ao tecido. Dos camelôs às lojas de shopping, há de todos os preços, genuínas ou piratas. Nem as horríveis logomarcas dos anunciantes impedem sua popularidade. Mas as antigas são insuperáveis, raridades guardadas a sete chaves por quem conseguiu alguma.

Só que usar uma camisa de time de futebol hoje é risco de morte. Se for de torcida organizada, pior ainda.

Ontem, torcedores do Flamengo mataram um cara só porque ele estava com a camisa do Vasco. Cinco tiros de pistola 9 milímetros e facadas. Aconteceu em Tomás Coelho, Zona Norte aqui do Rio.

Gangues criminosas incorporadas às tradicionais torcidas organizadas marcam embates pela internet. Seu negócio é apenas violência, a maioria nem sabe escalar seu próprio time.

Mas se o grupo rival não aparecer, qualquer um serve para ser morto.

Um dia, um boçal desses estará espancando alguém por usar uma camisa diferente e, de repente, vai perceber que aquele infeliz é seu primo, tio, amigo de infância ou irmão, gente boa, que torce pelo time rival.

Olho para as minhas velhas camisas no armário...

Só olho...

É tempo de violência.


Camisa da Torcida Organizada Jovem Flu (1980)/Foto: Marcelo Migliaccio
Camisa da Torcida Organizada
Jovem Flu da década de 70




Camisa oficial do Fluminense/Foto: Marcelo Migliaccio
Camisa Adidas oficial usada
pelo Fluminense em 1980

sábado, 18 de agosto de 2012

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Só Pensa em Dinheiro Futebol Clube

Os atletas brasileiros tiveram ótimo desempenho na Olimpíada de Londres. Foram 17 medalhas, um recorde. Três ouros (só em Atlanta, 96, tivemos mais, cinco). As duas que igualariam ficaram pelo futebol e pelo vôlei masculino.

Tivemos medalhas inéditas no pentatlo moderno, no boxe e na ginástica. Nunca pensei que um brasileiro venceria chineses nas argolas. Fomos muito bem em vários outros esportes, mesmo não chegando no pódio.

Se lembrarmos que em Barcelona (92) ganhamos apenas três medalhas no total, a evolução em duas décadas é flagrante.

E ainda tivemos grandes atletas que perderam por detalhes, como a saltadora de vara que envergou com o vento. Ou como Diego Hipólito, que caiu na hora H. Foi crucificado, mas astros de outros países também vacilaram. Isso é do esporte. É do ser humano.

E aí não demorou a surgir na mídia aquela visão capitalista empresarial. Um jornal do Rio publicou balanço criticando o desempenho brasileiro. A alegação é de que foram investidos mais recursos no último quadriênio que no anterior e disputamos menos finais que em Pequim (2008). O velho vício brasileiro de procurar sempre um judas para malhar. Nisso nossos comentáristas são mestres. Pode ser que essa análise pessimista tenha a ver com a troca de emissora com exclusividade de transmissão, afinal, o referido jornal pertence ao grupo que perdeu os direitos depois de décadas transmitindo os Jogos.

Lembro que na primeira semana dos Jogos já havia gente trombeteando que esse era o nosso pior desempenho na História...

Acho que tem a ver também com essa visão tecnocrata que tomou conta dos corações e mentes. Matemáticos cartesianos tomaram para si a prerrogativa do juízo final sobre todas as coisas. São os novos senhores do bom senso, imagine, sempre com suas planilhas em mãos!

Se o custo benefício não for positivo, não presta, não valeu.

Esquecem o lado humano do esporte. Esquecem todas as lágrimas derramadas pelos nossos atletas, todos os dramas vividos nesses 16 dias. Não consideram as milhões de crianças por este Brasil afora que foram influenciadas positivamente pelo exemplo dado nas quadras, campos e ginásios londrinos (tanto pelos que venceram quanto pelos que perderam).

Segundo o filósofo Quincas Borba, personagem do grande Machado de Assis, "ao vencedor, as batatas".

Mas acho que as batatas, fritas, com bastante colesterol, devem ficar para esses idiotas da objetividade numérica. Eles que se fartem delas.

sábado, 11 de agosto de 2012

Sabadão em Madureira

Nada de praia, muito menos de shopping, nem de Pão de Açúcar, nem de Cristo Redentor. Peguei a outra metade da laranja pelo braço e rumei para a Central do Brasil. Logo na chegada, surpresa com a degradação da área que circunda a estação de trem no centro do Rio. Uma cracolândia foi instalada numa das ruas vizinhas. Pessoas terminais perto do terminal ferroviário... Mas a viagem estava apenas começando e aquela cena deprimente logo ficou pra trás.

Entramos num trem novinho (sorte) e rumamos para Madureira. De carro leva mais de uma hora num dia de semana; sobre os trilhos, sempre 20 minutos. Composição vazia, dia lindo, uma delícia. Ruim, só o preço da tarifa, R$ 2,90. Por isso, trabalhadores que não ganham o suficiente para ir e voltar para casa durante a semana, dormem sob as marquises do centro da cidade.

Este ano, estive no tradicional bairro da Zona Norte carioca para gravar uma entrevista. Achei o coração comercial daquela área muito interessante e, desde então, já voltei umas duas vezes lá, a passeio.

Trem suburbano no Rio/Foto: Marcelo Migliaccio

Aos sábados, o comércio fica ainda mais fervilhante e o epicentro é no Mercadão de Madureira, um shopping popularíssimo, pródigo em lojas de artigos para festas infantis e para umbanda e candomblé em seus dois andares. Mas as ruas em volta também ficam lotadas, como mostra a passarela.

Madureira, Rio/Foto: Marcelo Migliaccio

As ruas, aliás, são muito sujas, há calçadas esburacadas e o carioca nunca primou pela educação mas, de vez em quando, eu preciso tomar um banho dessa carioquice mais rústica e Madureira é um dos melhores lugares do Rio para isso. Só nesta cidade maravilhosa, o currículo do cabeleireiro ganha em destaque na fachada.

Madureira, Rio/Foto: Marcelo Migliaccio


Olha como ficou a loja por causa da liquidação. Não dava nem pra andar lá dentro.

Loja em Madureira, Rio/Foto: Marcelo Migliaccio


As crianças se fascinam mesmo é com os peixes no Shopping dos Peixinhos (é esse o nome de um outro centro comecial de lá). Foi ali que tomei um suco de laranja na loja de um chinês. Ou o suco já estava pronto ou o china deveria entrar pro livro dos recordes como espremedor de laranja mais rápido do Oeste. Ou melhor, da Zona Norte. Todo sorrisos, ele garantiu que fez na hora, mas acho que já foi contaminado pela malandragem carioca.

Menina olha um peixe/Foto: Marcelo Migliaccio


Opções de comida não faltam. Tem até uma pizzaria a céu aberto. Barata, diga-se de passagem, pena que não provei pra contar se é boa.

Comércio de rua em Madureira (RJ)/Foto: Marcelo Migliaccio

Dentro do Mercadão tem de tudo para fazer um despacho vestido com pompa. Em frente as uma das lojas, uma mulher dizia à outra:

_ ... Ela ganha salário mínimo, como vai gastar cem reais pra fazer macumba contra mim?

Loja de umbanda em Madureira (RJ)/Foto: Marcelo Migliaccio


Há dois aviários dentro do Mercadão. Num deles, pela primeira vez, vi uma galinha do pescoço pelado, que só conhecia de nome... ela estava pensativa, talvez apreensiva quanto ao seu futuro.

Galinha do pescoço pelado em Madureira (RJ)/Foto: Marcelo Migliaccio


É possível comprar até filhotes de bode. Ouvi dizer que muitos acabam sacrificados em rituais, uma maldade. Cento e dez reais cada um. Vai?

Bodes à venda em Madureira (RJ)/Foto: Marcelo Migliaccio


Se um bode é demais, leve um filhote de hamster.

Hamsters à venda em Madureira (RJ)/Foto: Marcelo Migliaccio


Mas a fome apertou e Madureira não é um lugar onde se possa comer sem medo. Então foi melhor pegar o caminho da Zona Sul, onde uma intoxicação alimentar, pelo menos, custa caro. Antes de voltar, uma olhada na singela igrejinha no alto do morro São José.

Igreja no Morro São José, em Madureira (RJ)/Foto: Marcelo Migliaccio


Na volta, num trem velho e enferrujado (azar), um solitário passageiro lia a Bíblia.

Trem suburbano no Rio/Foto: Marcelo Migliaccio


Até outro dia, Madureira.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Revolta aos 10 anos

Texto escrito por uma menina de 10 anos, aluna do colégio de aplicação da UFRJ.



Vcs que sempre tiveram colegio particular se poe no meu lugar, meu colégio está de greve a quase 5 MESES ,não sei se os meus amigos passão porisso mais eu passo por um sofrimento mt grando pq 95% passo em casa e os outros 5% são ,inglês natação e teatro , e vc acha isso legal pois eu não acho não paro de pensar no meu futuro.Me pediram pra eu ter paciência, pacência eu tive no segundo mês de greve.Se vc for penssar nois que estudamos num colêgio federal também esudamos em um particular pois nossos imposto vão para onde mesmo? Pro governo né?E sabe pra onde pra Olimpiadas e etc ,então quer dizer que as Olipiadas são mais importantes que a edução???Não precisa curtir comentar ou compartilhar só quero qure vcs entendão que greve não é legal ,só isso !Tachau Bjs !

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Lágrimas olímpicas

Fabi busca uma bola impossível com o pé no fundo do ginásio. As lágrimas inundam olhos com a mesma rapidez da jogadora de vôlei brasileira.

Mas a sul-coreana Kim tem atuação de Pelé e o Brasil perde o jogo. Numa Olimpíada, a emoção não tem bandeira.

Atletas choram ao ouvir o hino nacional e ver a bandeira do país subindo. Sentimento patriotico que, para muitos, só aflora em Jogos Olímpicos ou numa Copa do Mundo.

Às vezes, numa eleição presidencial.

O choro do esporte que faz bem ao coração. É a essas lágrimas que os médicos se referem como terapêuticas, não àquelas da tristeza, da amargura, tão tristemente mais comuns...

A emoção do judoca jorra pelos olhos, mesmo que a medalha conquistada seja de bronze.

No caso da adolescente lá de Teresina, onde nem tatame havia para treinar, as lágrimas valeram ouro.

E quisera o Homem Aranha ter a força que há no braço de um desses ginastas. Músculos que sustentam posições impossíveis para nós, os mortais não atletas.

Mas, humanos que são, eles também beijam a lona, afinal, não são heróis de história em quadrinhos. São realidade, não ficção.

Na Olimpíada, é a catarse. Foram quatro anos de uma rotina monástica, exercícios à exaustão, nada de festas, nada de noite, nada de farra. Comida racionada, hora para dormir, almoçar, acordar. Cobranças e mais cobranças. Quatro anos de nunca-está-bom. A dor sempre correndo atrás do resultado como se fossem gato e rato.

Na natação, acho que é pior, pois são 20 anos embebidos em cloro. O campeão Ricardo Prado nunca mais entrou em uma piscina depois que encerrou a carreira.

E, na hora H, tudo pode se esvair em um segundo, numa desatenção, num golpe, numa ponta de espada detectada pelos sensores eletrônicos, numa respirada errada no momento crucial da prova.

Quatro anos de sangue, suor e lágrimas podem ir pelo ralo diante de uma esguia cortadora coreana em dia de graça.

_ O mais difícil é ter ânimo para voltar a treinar _ desabafou o campeão de natação Cesar Cielo depois de voltar de Londres sem medalha.

Mas a emoção da vitória é que contagia, arrepia e jogamos junto com esses super-heróis por 16 dias. Um super-herói que pode nem ter as duas pernas, mas recebe a reverência humilde e agradecida do homem mais veloz de todos os tempos.

Nada como cuidar do coração derramando lágrimas olímpicas.

Reprodução/ TV Record


sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Noites cariocas

Nada como uma metrópole às quatro e meia da manhã. No inverno, ainda está escura e deserta nesse horário. É possível pedalar na contra-mão em plena Nossa Senhora de Copacabana. Uma cidade quase fantasma. Nem os passarinhos acordaram, silêncio total. Um notívago aqui, um PM ali, outro PM acolá. De madrugada, a Avenida Atlântica tem um carro da polícia a cada 300 metros, isso sem falar nos guardas municipais.

E tem também um maluco que foi dormir às dez da noite pra madrugar e fotografar a noite carioca.

Copacabana Palace, Rio/Foto: Marcelo Migliaccio


Só depois de muito tempo pedalando, um comércio aberto enfim, essa loja de sucos, na esquina que, durante o dia, é uma das mais movimentadas e barulhentas da cidade: Barata Ribeiro com Figueiredo Magalhães. A loja simplesmente nunca fecha.

Loja de suco em Copacabana/Foto: Marcelo Migliaccio


Olha a Praia de Ipanema dormindo...

Praia de Ipanema, Rio/Foto: Marcelo Migliaccio


Mas a noite passa rápido, quase tão rápido quanto a vida.

E o Quadrado da Urca vai acordando...

Quadrado da Urca, Rio/Foto: Marcelo Migliaccio


Na Praia Vermelha, os primeiros movimentos do dia...

Praia Vermelha, Rio/Foto: Marcelo Migliaccio


... se misturam aos últimos da noite.

Praia Vermelha, Rio/Foto: Marcelo Migliaccio

Num passe de mágica, o sol dá medalha de ouro aos prédios da Praia do Flamengo.

Praia do Flamengo, Rio/Foto: Marcelo Migliaccio


Um belo dia pra não falar de política.