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segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Vestido para morrer

Camisa oficial do Fluminense/Foto: Marcelo Migliaccio
Camisa usada pelo jogador Dirceu na decisão do Campeonato Carioca de 1976

Um dos meus fetiches que vêm da infância são as camisas de times de futebol. Lembro da primeira vez que vesti uma do Fluminense,  aos cinco ou seis anos, comprada numa pequena loja de dois irmãos gêmeos baixinhos perto da praça General Osório.

Quando adolescente, ficava fascinado ao ver de perto uma camisa oficial, de qualquer clube. Naquela época, não havia as já tradicionais butiques que vendem exemplares idênticos aos que os jogadores usam.

Às vezes, na Feira da Providência, era possível comprar uma daquelas camisas de algodão, quase sempre da marca Athleta, com grandes números e o distintivo do clube bordados. Foi lá que comprei uma oficial assinada pelo zagueiro Edinho, na época meu ídolo no tricolor. Tenho até hoje, embora tenha encolhido. Branca, com o número cinco vermelho às costas.

O outro jeito de arranjar uma camisa oficial era ganhá-la de algum jogador. Em 1976, tive a sorte de receber a que o ponta-esquerda Dirceu usou no primeiro tempo da decisão entre Fluminense e Vasco.

Hoje, as camisas oficiais de malha sintética fazem parte da paisagem. O novo material impede que os jogadores carreguem até quatro quilos extras ao final das partidas, já que o suor não adere mais ao tecido. Dos camelôs às lojas de shopping, há de todos os preços, genuínas ou piratas. Nem as horríveis logomarcas dos anunciantes impedem sua popularidade. Mas as antigas são insuperáveis, raridades guardadas a sete chaves por quem conseguiu alguma.

Só que usar uma camisa de time de futebol hoje é risco de morte. Se for de torcida organizada, pior ainda.

Ontem, torcedores do Flamengo mataram um cara só porque ele estava com a camisa do Vasco. Cinco tiros de pistola 9 milímetros e facadas. Aconteceu em Tomás Coelho, Zona Norte aqui do Rio.

Gangues criminosas incorporadas às tradicionais torcidas organizadas marcam embates pela internet. Seu negócio é apenas violência, a maioria nem sabe escalar seu próprio time.

Mas se o grupo rival não aparecer, qualquer um serve para ser morto.

Um dia, um boçal desses estará espancando alguém por usar uma camisa diferente e, de repente, vai perceber que aquele infeliz é seu primo, tio, amigo de infância ou irmão, gente boa, que torce pelo time rival.

Olho para as minhas velhas camisas no armário...

Só olho...

É tempo de violência.


Camisa da Torcida Organizada Jovem Flu (1980)/Foto: Marcelo Migliaccio
Camisa da Torcida Organizada
Jovem Flu da década de 70




Camisa oficial do Fluminense/Foto: Marcelo Migliaccio
Camisa Adidas oficial usada
pelo Fluminense em 1980

6 comentários:

  1. Acho curioso, você um esquerdista nato torcendo por um time elitista e historicamente preconceituoso e conservador ! Mas é assim meu caro, paixão a gente não escolhe, acredito eu. Um abraço, Renato

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  2. Mauro Pires de Amorim.
    Concordo plenamente com você e também não uso camisa de time de futebol, afinal, aquí em nosso país, existem aquelas pessoas que adoram copiar posturas e atitudes lamentáveis e reprováveis em qualquer meio coerente e civilizado.
    Copiar, colar, é mais fácil do que raciocinar e internalizar em termos de razoabilidade e isso, virou padrão comportamental em nosso mundo contemporâneo, tendo, essa postura mental autômata e comodista se firmado, muito em função da mentalidade consumista, onde, as pessoas não raciocinam e internalizam em termos de razoabilidade a necessidade de se ter o bem, produto ou postura que observam, quer seja nos outros, quer seja na publicidade e propaganda. As pessoas simplismente copiam, guiadas por um impulso ou instinto fútil, frívolo. As decisões em relação às posturas, atitudes, aquisição de produtos ou bens que desejam e são observados nos outros, são tomadas dessa forma, com essa energia, afim de que, com isso, tais pessoas se tornarem inseridas ou prestigiadas num determinado círculo ou meio social almejado, havendo o elo identificatório em comum com o meio social ou círculo ao qual se pretende estar inserido.
    Esse tipo de comportamento de se deixar levar pelo copismo, sem se raciocinar e internalizar em termos de razoabilidade, tem sido o maior responsável pelos problemas em nossa sociedade.
    Definitivamente, a humanidade está involuíndo, ficando cada vez mais idiotizada e estúpida.
    Em termos ao fato específico por você mencionado, o bárbaro, fútil e covarde assassinato do torcedor do C. R. Vasco da Gama, lembro que, o C. R. Flamengo, venceu a partida.
    Portanto aqueles torcedores Rubro-Negros, deveriam estar de bom humor, felizes. Mas se num momento de bom humor e felicidade, tira-se tão banalmente e futilmente a vida alheia, imagina o que não ocorreria se o resultado da partida de futebol fosse o inverso. E falo isso como Rubro-Negro também, mas acima do fato de ser Rubro-Negro, sou cidadão e não coaduno de forma alguma com esse tipo de atitude, pois, a vida, a saúde, são bens preciosos demais para serem ceifadas ou colocadas em risco por conta de preferência por clubes esportivos.
    Felicidades e boas energias.
    Felicidades e boas energias

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    1. O pior, Mauro, é que o crime foi antes do jogo...

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  3. Mauro Pires de Amorim.
    Esse detalhe de que o crime ocorrera antes do jogo eu desconhecia, mas mesmo assim, a humanidade está em franca involução. Raciocinar, ponderar e internalizar em termos de razoabilidade, está virando excessão. Copiar, imitar, colar e agir atabalhoadamente, alopradamente é nitidamente e lamentavelmente, o padrão vigente.
    Mais uma vez e sempre, minhas mais altas estimas e apreço, bem como, sinceros desejos de felicidades e boas energias.

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  4. Concordo, Marcelo, são lindas as camisas do Flu! Eu me lembro de você usando a camisa da Torcida Organizada Jovem Flu, de 1970. Acho que é a mesma da foto que tenho de você e meu irmão jogando botão na varanda lá de casa, na Urca.
    Mudando de assunto, sábado passado, recordei um pouquinho da minha infância, ao ver a exposição "Um olhar sobre O Cruzeiro: as origens do fotojornalismo no Brasil", no Instituto Moreira Salles, na Gávea. Cheguei a ler esta revista, mesmo em seus anos finais. Muito legal.
    Beijos, e parabéns pelas fotos sensacionais que você nos oferece todos os dias. Denise Coutinho.

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    1. Valeu, Denise, acho que é a mesma camisa da foto mesmo, que encolheu e não cabe mais em mim. Aliás, esse era o único problema das camisas de algodão: encolhiam. Beijo

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