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segunda-feira, 30 de junho de 2014

Sei não...

Futebol é o esporte mais popular do planeta porque é o único em que o mais fraco pode vencer o mais forte. Por isso, não é possível fazer previsões com segurança. Além dos 22 jogadores e dos juízes, há o imponderável, o imprevisível, que fica por conta da esfera, às vezes indomável, traiçoeira, sarcástica, impiedosa...

Mas se eu tivesse que apostar em alguém entre Brasil e Colômbia, apostaria na pátria das Farc, da Shakira, do Higuita e do Pablo Escobar. Os colombianos vêm jogando bem, venceram todos os seus jogos até agora (sem pênaltis, no tempo normal).

Já o Brasil empatou dois jogos e ainda não jogou bem nesta Copa. O esquema do time só tem defesa e ataque. Ninguém arma nada. Nossa única jogada é o Neymar tentar passar por quatro caras e fazer o gol. Fred, nosso maior goleador, não recebeu uma única bola em condições de concluir. E olhe que trata-se do melhor finalizador que eu já vi jogar, capaz de chutar em gol de qualquer lugar da área e qualquer que seja o jeito que a bola vier.

Felipão, além de medíocre como estrategista, é teimoso. Tem o perfil de treinador que vem desde a ditadura militar, autoritário, turrão (lembra do Telê?). Não é à toa que Parreira ainda está lá, agora como auxiliar técnico. No último jogo, as câmeras mostraram claramente Parreira dizendo a Felipão o que deveria ser feito em campo. Com Felipão e Parreira, há poucas chances de o esquema do time mudar, nem que isso nos custe a eliminação. Falta um armador de jogadas ao nosso time, até as mulheres estão enxergando isso.

Historicamente, toda seleção brasileira leva um perna-de-pau entre os titulares para disputar uma Copa. Serginho em 82, Zinho em 94, Everaldo em 70, Valdomiro em 74, Muller em 90, Cafu em 2002, e por aí vai. Ok, não foram perebas de carteirinha, mas eram bons para jogar em clubes, destoavam do resto numa seleção. Pra jogar na seleção brasileira, não pode ser bom, tem que ser craque.

Nesta Copa temos vários pernas-de-pau no time, reflexo do domínio dos empresários no futebol. Hulk, Daniel Alves são dois. (Tirei o Davi Luiz da lista pelo gol de falta, dias depois). Tudo bem, jogam em grandes clubes da Europa, mas não jogam tão bem assim. Hoje, empresários levam qualquer um a qualquer lugar. O garoto que não tiver um empresário bem relacionado desde cedo não consegue nem passar por um período de experiência num grande clube. Ou aceita vender sua alma a um desses cafetões da bola, ou não chega a lugar nenhum.

Quem acompanha este blog sabe que nadar contra a correnteza é uma especialidade da casa, no entanto, nesse caso, a maioria dos torcedores brasileiros vai concordar comigo. Vai ser fogo passar pela Colômbia. Contra o Chile, fomos salvos pela trave no último minuto da prorrogação e novamente por ela na disputa de pênaltis. O Chile perdeu três; nós, dois.

Nenhuma seleção está tendo vida fácil nesta Copa de ótimo nível técnico, o problema é que o Brasil não está jogando, nosso jogo não flui, não há jogadas bem tramadas, o gramado é liso, impecável, nosso time é que tem um buraco no meio de campo. Cheio de volantes e desgovernado, assim é o ônibus do Felipão. Um Falcão, Cerezo, Zico ou Sócrates já bastaria para arrumar nosso time.

E nas arquibancadas, corremos o risco de levar um show da torcida colombiana, que veio ao Brasil em peso e é muito animada. Nossa platéia de mauricinhos já levou um cala-boca dos mexicanos, porque não entende nada de incentivo ao time, aliás, é gente que não entende nada de futebol, mas que tinha grana pra pagar os ingressos caros da Fifa. Essa turma que está indo aos jogos só dá show de falta de educação, xingando a presidente da República e vaiando o hino nacional dos adversários, o que, ainda por cima, os motiva ainda mais.

Fora de campo, vai tudo bem. O Rio está um paraíso: gringos, festa e polícia por todos os lados, principalmente na Zona Sul. Só não recolheram os mendigos, porque os abrigos da prefeitura estão lotados. Os pivetes também estão por aí, mas não assaltam ninguém. Nenhum deles é bobo de se arriscar a cair nas garras de um PM que está há três semanas sem folga e há 15 horas em pé.


Foto: Marcelo Migliaccio





quarta-feira, 25 de junho de 2014

Abaixo a Fifa, mas viva o futebol

Foto: Marcelo Migliaccio

Só o futebol faz isso. Só esse esporte fascinante, mais perfeita metáfora da vida, move pelo planeta essa multidão que veio parar no Brasil. Africanos, asiáticos, europeus e, principalmente, milhares de latino-americanos. Tem até gente de país que não está na Copa, já vi grupos de jovens peruanos e venezuelanos uniformizados na festiva Copacabana.

Só para comparar, uma Olimpíada reúne todos os outros esportes e não movimenta um décimo dessa massa que peregrina atrás da bola pelo mundo.

Quando o Brasil se candidatou a sediar a Copa confesso que achei um absurdo. Achei que o simples ato de pleitear esse evento bilionário era um desrespeito com milhões de pessoas que ainda precisam de saúde, educação e saneamento básico de qualidade. Mas as explicações do governo me convenceram. O investimento não chegou a 10% do orçamento anual da educação, por exemplo, e a maior parte do dinheiro gasto pelo governo, em forma de financiamento, voltará para os cofres públicos em parcelas. Se pudesse, FHC teria feito uma Copa, mas com o país ajoelhado diante do FMI, ele não teve condição.

Agora temos grana para bancar. Não há problema nos aeroportos, ao contrário do que a grande imprensa privada alardeou durante dois anos para atingir o PT. Não há roubos nas ruas, não há black blocs atirando coquetéis molotov na polícia, não há greves. Os sabotadores da Copa estão frustradíssimos. A revista semanal que pensa que o leitor é cego chegou ao fundo do poço do recalque em sua mais recente edição: "Só alegria, até agora". Esse até agora expressa o desejo inconfessável de que alguma coisa dê errado até o dia da final.

Até agora, a única bola fora foi a falta de educação da elite alienada que ofendeu, diante dos olhos do mundo, em plena cerimônia de abertura, a presidente da República, principal responsável pela festa, pois, afinal, foi ela quem abriu o cofre.

A Fifa é corrupta? Dizem que é. É a grande gigolô do esporte bretão? Com certeza. Promove jogos só para mauricinhos e patrcicinhas devoradores de novela assistirem nos estádios? É o que vemos.

Mas o futebol, quando a bola está rolando, é muito maior que tudo isso.

Numa arena, na calçada esburacada ou na várzea, a bola é o remédio para todas as mazelas.

Só o futebol faz isso: a mídia que critica a Copa feita pelo governo do PT é a mesma que fatura bilhões com ela.

Só o futebol faz americanos e iranianos trocarem apertos de mão e ramos de flores, faz a Colômbia passar por cima do Japão. Faz o Uruguai derrotar a Itália no grito e na mordida. Faz a Costa Rica chorar de alegria e a do Marfim, de tristeza...

Só um jogo maravilhoso como esse faz um moleque esquálido de Santos deixar um colosso de ébano camaronense no chão com um simples jogo de cintura. E não há outro esporte que transforme o gênio em burro e o burro em gênio numa fração de segundo.




sexta-feira, 20 de junho de 2014

O cara do táxi

O homem entrou na loja de sucos com um ar grave. Não ia comprar nada, parecia amigo do balconista, talvez fosse o segurança da rua, uma rua de Copacabana cheia de turistas uniformizados por todos os lados.

_ Tá tudo arranjado.

O balconista olhou de soslaio:

_ O quê tá arranjado?

Pro Brasil ganhar. Não viu o pênalti inventado no Fred. O cara do táxi me falou.

_ O cara do táxi?

_ É, o motorista. Disse que entraram dois gringos de terno no carro dele e disseram um pro outro que essa Copa tá comprada pro Brasil ganhar.

_ É mesmo?

_ É, o cara do táxi me falou. Ele ouviu os gringos de terno conversando.

_ Ah... sei.

Atenção, Ministério Público, FBI, Polícia Federal, Fifa, Dilma, cacique Cobra Coral, chamando todos os carros. Vamos ao encalço do "cara do táxi", ele é a testemunha chave, o homem a ser achado. O cara do bar, falou pro cara do balcão que o cara do táxi ouviu dois caras de terno conversando sobre alto suborno na Copa do Mundo de 2014.

Já vejo até a manchete na primeira página: "Cara do táxi revela trama internacional"...

O brasileiro é viciado em boato. Quem conta um conto, sempre aumenta um ponto, é uma tradição nacional tão arraigada quanto o futebol e o samba. A esquina é o templo onde se reza a ladainha vazia da fofoca. A maledicência pode envolver a mulher do português da padaria ou a presidente da República. Se alguém disse, deve ser verdade, onde há fumaça há fogo (ou mentira). A internet tornou a fofoca um hit planetário e, nos Facebooks da vida, vicejam inverdades de todos os matizes. O importante é intrigar, denegrir, deturpar ou, simplesmente, inventar. O brasileiro, que dizem ser o maior malandro da paróquia, se transforma num otário perfeito ao ouvir o boato mais inverossímil. Acredita, e, quando não acredita, espalha só de sacanagem.

Mas, por via das dúvidas, olho no juiz que vai apitar Brasil x Camarões.




terça-feira, 17 de junho de 2014

O melhor da Copa é Copacabana

Quase não dá pra acreditar que andaram cerca de 3 mil quilômetros...

Foto: Marcelo Migliaccio

O design clássico não nega: são velhos pacas.


Foto: Marcelo Migliaccio

Mas são as casas dos argentinos em Copacabana.


Foto: Marcelo Migliaccio

Tem até argentino da Bahia...


Foto: Marcelo Migliaccio

Com a bênção do Papa patrício, a fé removeu montanhas e pedágios até o distante Rio de Janeiro.


Foto: Marcelo Migliaccio

Engarrafamento de ônibus velhos, quem diria? Só faltava essa no currículo da Avenida Atlântica.


Foto: Marcelo Migliaccio

A poeira do caminho agora é um troféu como a taça da Copa do Mundo. Tem um lava-a-jato, ali, ó...


Foto: Marcelo Migliaccio

O descanso do viajante, um chimarrão na varanda do hotel...


Foto: Marcelo Migliaccio

Pensando na vida... e se a Argentina pegar o Brasil na final?


Foto: Marcelo Migliaccio

Alguns visitantes, ganharam fãs como Neymar, e partiram corações como Cristiano Ronaldo.


Foto: Marcelo Migliaccio

Dizem que o argentino é "um italiano que fala espanhol e pensa que é inglês". Sendo assim, dando asas à fleuma britânica, um pouco de diplomacia com os donos da casa é sempre bom...


Foto: Marcelo Migliaccio

Também falam que os argentinos têm o rei na barriga. Esse aí tem o rei do tango na barriga.


Foto: Marcelo Migliaccio

Será que ele aguenta voltar pra casa? Mas que o coroa é bonito, é...


Foto: Marcelo Migliaccio

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Perder e ganhar

Na Copa do Mundo de 1966, eu tinha 3 anos. Minha vida era uma sucessão interminável de mamadeiras, brincadeiras e choradeiras. Da de 70, uma das poucas coisas de que me lembro era de um locutor gritando:

_ Cabeça na bola Brito!

E também dos meus pais pulando pela casa em um dos gols do Brasil no tricampeonato. Minto. Lembro também de um cara na porta do meu prédio disparando um morteiro para o alto em meio à algazarra em que se transformou a rua Visconde de Pirajá após o jogo final. Nos anos seguintes, decorei todos os lances de tanto assistir aos vídeos na TV. Mas da Copa do México mesmo, quando aconteceu, só lembro desses  flashes mencionados.

Ah, lembro também que um dia no colégio, um garoto me perguntou quanto tinha sido Brasil x Inglaterra, na véspera. Sem graça por não saber, e com aquela ingenuidade comovente de criança, respondi a primeira coisa que me veio na cabeça:

_ Não sei, eu tava no banheiro.

Só muito tempo depois fui descobrir que uma partida demora uma hora e meia.

Em 1974 foi diferente. Já com 10 para 11 anos, eu sabia tudo, vi quase tudo na TV. Até Chile x Austráia eu tive saco para assistir. Reproduzia as jogadas com as miniaturas de jogadores, uma trave de futebol de botão e uma bola feita de miolo de pão. Quando o Brasil perdeu para o carrossel holandês, foi uma comoção no dia seguinte na escola. E nunca me esqueço da lição que a diretora nos deu:

_ Vamos saber perder como souberam as outras seleções que derrotamos quatro anos atrás.

Saber perder, a grande lição da vida. Ganhar é mais fácil, se bem que também tem gente que não sabe. Aquele que precisa tripudiar sobre o adversário, pois, mesmo vencedor, ainda se sente menor.

De 78 em diante, eu já não era mais criança. Aquele fascínio foi desaparecendo Copa após Copa. E o que era quase tudo na vida, hoje é um passatempo.

O mais importante, o futebol já havia me ensinado, pelas palavras sábias daquela diretora do Instituto Souza Leão, a Dona Marta.

_ Temos que aprender a perder.

Perdemos em 78, sem perder nenhum jogo, voltamos da Argentina nos autoproclamando "campeões morais" (o campeão imoral foi o Peru, que abriu as pernas para a seleção dona da casa). Perdemos em 82, de novo os melhores, mas com Paolo Rossi no caminho. Perdemos em 86, e morri de pena do Zico, que perdeu um pênalti contra a França. Perdemos em 90, com um técnico limítrofe que escalou Romário mancando por causa de uma fratura no pé sofrida três meses antes da Copa.

Mas ganhamos em 94, com o mesmo Romário em estado de graça e praticamente obrigando o técnico teimoso Parreira a convocá-lo. E com o genial Dunga, o patinho feio do time que se converteu no principal responsável por aquele título.

Perdemos de novo em 98, ganhamos em 2002, a vida é um perde ganha danado. E o futebol é a mais perfeita metáfora da vida. Como dizia o "seu" Miranda, meu avô por afeição:

_ Não ligue para uma derrota no futebol. É assim mesmo: perde hoje, ganha amanhã.

Obrigado, "seu" Miranda, obrigado, Dona Marta. Obrigado, futebol.

domingo, 1 de junho de 2014

Ídolos também morrem


A primeira vez que vi Marinho Chagas foi no estádio do Botafogo, na rua General Severiano, que podia ser definido como uma miniatura e deu lugar a um shopping center. O ano era 1974 e o jogo era entre Botafogo e Campo Grande. Marinho não jogou, estava na arquibancada, à vontade no meio da torcida, e por isso eu, com o olhar fascinado de um garoto de 10 anos, pude vê-lo de perto. Era um jovem atlético, com os cabelos escandalosamente pintados de louro, tinha um sorriso de criança. O rosto e a roupa não negavam: era um nordestino recém-chegado ao Rio.

Ainda naquele ano, Marinho comeu a bola na Copa do Mundo da Alemanha. Chutava bem com as duas pernas, era um craque. Na volta, foi cobiçado pelo rico clube alemão Shalke 04, que ofereceu-lhe uma fortuna. Mas Marinho disse que torcia pelo Botafogo e lá queria continuar. Marinho era uma criança.

Criança levada e genial que, em sua estréia pelo Botafogo, ousou passar a bola entre as pernas de ninguém menos que Pelé. "Você é abusado", reclamou o Rei do futebol ao final da partida, ao que Marinho, humilde, respondeu com um pedido de desculpas.

E nunca me esqueço das noites em que ouvia no rádio as transmissões de jogos do Botafogo e o locutor Antônio Porto descrevia:

_ Lá vai Marinho, cabeleira esvoaçante..

Marinho viveu o sonho do futebol. Teve carrões, mulheres, jogou no Fluminense, no São Paulo e até no Cosmos de Nova York. Da sua passagem pelo meu Fluminense, lembro que causou muito ciúme nos companheiros e que já não tinha o mesmo vigor. Certo dia, o treino começou atrasado porque Marinho fazia uma incursão cinematográfica, estrelando a obscura produção O Homem de 6 Milhões de Panteras. Também gravou um disco, o que provocou uma música crítica e revoltada de Benito de Paula, dizendo que seria legal se um cantor pudesse ser também jogador de futebol, mas que era impossível "um cara sentar numa praça, assobiar e chupar cana".

Mas um dia a badalação acabou, suas pernas cansaram e ele teve que acordar. Sem qualificação para outros trabalhos, viveu do pouco que as extravagâncias não consumiram até que não lhe sobrasse quase nada a não ser o álcool.

Há uns cinco anos, eu pedalava pelo Aterro quando o vi caminhando pela Praia de Botafogo. Marinho estava irreconhecível, muito gordo, acompanhado de uma moça baixinha e com uma lata de cerveja na mão.

Marinho, quando jogador, era um daqueles craques cuja idolatria transcende aos torcedores do clube que defende. Como Zico, Rivelino e Roberto Dinamite, ele era admirado por todos os cariocas que apreciavam o futebol bem jogado.

Dos seus jogos no Maracanã, guardo na memória a goleada da seleção brasileira sobre a Colômbia, pelas eliminatórias para a Copa de 78. Marinho fez dois golaços e mesmo assim não foi convocado para o mundial.

Depois daquele dia na Praia de Botafogo, ainda vi o Marinho uma vez, caminhando pela Avenida Pasteur, na Urca. Uma fã desceu de um carro para lhe pedir um autógrafo.

_ Marinho!!! _ ela gritou.

_ Oi, linda! _ disse o eterno ídolo, conservando o ar conquistador de outrora.

Tão logo a fã o deixou com um pedaço de papel autografado e dedicado ao pai, um velho botafoguense, fui tietar Marinho Chagas. Da conversa breve, só me lembro de seu rosto inchado e vermelho e de ele dizer que não participava das peladas de veteranos porque simplesmente não conseguia mais correr. Seus joelhos estavam irremediavelmente estragados após tantos anos correndo atrás da bola.

Dali em diante, só tive notícias do Marinho pela internet. Internação por alcoolismo e até transplante de fígado.  E agora, neste domingo lindo de outono, soube da sua morte, aos 62 anos, quando participava de um evento para colecionadores de figurinhas.

E lembrar que quando eu tinha 10 anos, era justamente a de Marinho, para mim, uma das figurinhas mais valiosas...