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domingo, 1 de junho de 2014

Ídolos também morrem


A primeira vez que vi Marinho Chagas foi no estádio do Botafogo, na rua General Severiano, que podia ser definido como uma miniatura e deu lugar a um shopping center. O ano era 1974 e o jogo era entre Botafogo e Campo Grande. Marinho não jogou, estava na arquibancada, à vontade no meio da torcida, e por isso eu, com o olhar fascinado de um garoto de 10 anos, pude vê-lo de perto. Era um jovem atlético, com os cabelos escandalosamente pintados de louro, tinha um sorriso de criança. O rosto e a roupa não negavam: era um nordestino recém-chegado ao Rio.

Ainda naquele ano, Marinho comeu a bola na Copa do Mundo da Alemanha. Chutava bem com as duas pernas, era um craque. Na volta, foi cobiçado pelo rico clube alemão Shalke 04, que ofereceu-lhe uma fortuna. Mas Marinho disse que torcia pelo Botafogo e lá queria continuar. Marinho era uma criança.

Criança levada e genial que, em sua estréia pelo Botafogo, ousou passar a bola entre as pernas de ninguém menos que Pelé. "Você é abusado", reclamou o Rei do futebol ao final da partida, ao que Marinho, humilde, respondeu com um pedido de desculpas.

E nunca me esqueço das noites em que ouvia no rádio as transmissões de jogos do Botafogo e o locutor Antônio Porto descrevia:

_ Lá vai Marinho, cabeleira esvoaçante..

Marinho viveu o sonho do futebol. Teve carrões, mulheres, jogou no Fluminense, no São Paulo e até no Cosmos de Nova York. Da sua passagem pelo meu Fluminense, lembro que causou muito ciúme nos companheiros e que já não tinha o mesmo vigor. Certo dia, o treino começou atrasado porque Marinho fazia uma incursão cinematográfica, estrelando a obscura produção O Homem de 6 Milhões de Panteras. Também gravou um disco, o que provocou uma música crítica e revoltada de Benito de Paula, dizendo que seria legal se um cantor pudesse ser também jogador de futebol, mas que era impossível "um cara sentar numa praça, assobiar e chupar cana".

Mas um dia a badalação acabou, suas pernas cansaram e ele teve que acordar. Sem qualificação para outros trabalhos, viveu do pouco que as extravagâncias não consumiram até que não lhe sobrasse quase nada a não ser o álcool.

Há uns cinco anos, eu pedalava pelo Aterro quando o vi caminhando pela Praia de Botafogo. Marinho estava irreconhecível, muito gordo, acompanhado de uma moça baixinha e com uma lata de cerveja na mão.

Marinho, quando jogador, era um daqueles craques cuja idolatria transcende aos torcedores do clube que defende. Como Zico, Rivelino e Roberto Dinamite, ele era admirado por todos os cariocas que apreciavam o futebol bem jogado.

Dos seus jogos no Maracanã, guardo na memória a goleada da seleção brasileira sobre a Colômbia, pelas eliminatórias para a Copa de 78. Marinho fez dois golaços e mesmo assim não foi convocado para o mundial.

Depois daquele dia na Praia de Botafogo, ainda vi o Marinho uma vez, caminhando pela Avenida Pasteur, na Urca. Uma fã desceu de um carro para lhe pedir um autógrafo.

_ Marinho!!! _ ela gritou.

_ Oi, linda! _ disse o eterno ídolo, conservando o ar conquistador de outrora.

Tão logo a fã o deixou com um pedaço de papel autografado e dedicado ao pai, um velho botafoguense, fui tietar Marinho Chagas. Da conversa breve, só me lembro de seu rosto inchado e vermelho e de ele dizer que não participava das peladas de veteranos porque simplesmente não conseguia mais correr. Seus joelhos estavam irremediavelmente estragados após tantos anos correndo atrás da bola.

Dali em diante, só tive notícias do Marinho pela internet. Internação por alcoolismo e até transplante de fígado.  E agora, neste domingo lindo de outono, soube da sua morte, aos 62 anos, quando participava de um evento para colecionadores de figurinhas.

E lembrar que quando eu tinha 10 anos, era justamente a de Marinho, para mim, uma das figurinhas mais valiosas...

4 comentários:

  1. Fiquei muito triste quando li sobre Marinho, uma pena que uma pessoa que levou alegria a tanta gente tenha acabado dessa forma.
    Muito bem lembrado o filme O Homem de Seis Milhões de Cruzeiros contra as Panteras, eu era moleque quando assisti, eu também assisti Costinha contra o King Mong, e as filmagens eram perto de casa, não perdia um dia.
    Saudades daquela época !!
    Cury

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  2. Muito esclarecedora esta crônica sobre Marinho. Como não sou um ser futebolístico, ouvi no rádio, e passou batido. Agora me lembro dessa época, pois Marinho era idolatrado e estava sempre no noticiário. Que triste fim para quem tanto encantou a molecada da época. Yves.

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  3. A trajetória do Marinho Chagas mostra bem a linha tênue entre a glória e o fracasso...e considerando as suas origens com as relações características de nossa sociedade excludente, o final é quase sempre triste...

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  4. O interesse financeiro ta acima do espetáculo, em se tratando de futebol nos dia atuais.

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