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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O homem que fumava

Não me lembro se foi no incêndio do Joelma ou do Andraus, tragédias ocorridas em São Paulo e que chocaram o Brasil na década de 70. Eu tinha uns nove ou dez anos de idade e via na TV os prédios ardendo em chamas, as pessoas se atirando lá do alto para a morte. No Joelma, 199 perderam a vida. Assim como agora, só depois disso é que as autoridades começaram a fiscalizar a existência de escadas de incêndio e extintores nos edifícios.

A imagem que mais me surpreendeu, porém, não foi a das pessoas desesperadas pulando dos prédios mas a de um homem que, em meio ao pânico geral, postou-se numa das pequenas sacadas e lá acendeu um cigarro. Isso mesmo, lamento muito nunca mais ter encontrado uma das fotos publicadas na imprensa daquele que talvez tenha sido o único ali a não se desesperar.

Em pé na varanda, ele levava serenamente seu cigarro a boca, dando tragadas longas e soltando baforadas lentas. A fumaça negra subia, o concreto estava quente, as escadas dos bombeiros só haviam chegado aos andares mais baixos. Nas ruas, pessoas levantavam cartazes pedindo que as pessoas não pulassem. No alto do prédio, helicópteros pousavam com dificuldade para salvar aqueles que, em vez de descer, subiram para o terraço.

E o homem, que, se não me engano vestia um terno claro, lá, sozinho, fumando.

Fico a imaginar o que passou pela sua cabeça. Daria tudo para saber.

No dia seguinte, meu pai comentou comigo a atitude inusitada daquele homem diferente e garantiu que ele fora salvo.

Os bombeiros conseguiram chegar até ele, disse meu pai, completamente arrebatado pela coragem e pelo sangue frio do homem que fumava na porta do inferno.


Graças ao leitor Bernardo, fico sabendo que a Wikkipédia fala desse homem no verbete sobre o incêndio no Joelma:

"Rolf Victor Heuer - Gaúcho, então com 54 anos, passou mais de três horas sentado em um dos parapeitos do edifício esperando para ser resgatado. Enquanto aguardava fumava vários cigarros, e sua imagem de aparente tranquilidade foi captada pelas câmeras dos noticiários de televisão e amplamente reproduzida. Antes de ser salvo, ainda conseguiu subir ao 19° andar, onde acalmou uma mulher que ameaçava se jogar de uma janela". 


Acho que aquela atitude é um exemplo não só para os casos de incêndio, em que manter a calma é a coisa mais difícil. E sei que ela não tem nada a ver com o episódio de Santa Maria, pois as condições eram completamente diferentes.

Mas eu acho que o que aquele homem fez naquele momento é a atitude que devemos ter na vida.

Nunca se desesperar diante do destino.


domingo, 27 de janeiro de 2013

Incêndio na boate vai ficar por isso mesmo

Tragédia. Centenas de jovens curtindo um show de música na cidade universitária de Santa Maria (RS). No palco, o vocalista da banda inicia uma performance pirotécnica. Quase todo mundo eufórico, muito energético, muita vodca. De repente, a chama pega na espuma do teto, O fogo se alastra, há uma só saída, trancada pelos seguranças. Em meio ao pânico da fuga em massa, eles exigiam que os jovens pagassem suas comandas...

Mais de 230 mortos, a maioria por asfixia, 100 feridos, dezenas deles em estado gravíssimo.

Dilma volta correndo do Chile, o campeonato gaúcho para, o governador Tarso Genro lamenta a maior calamidade da história do estado, segundo pior incêndio ocorrido no país. O brasileiro assiste consternado ao transporte dos corpos em caminhões.

Agora, a previsão num país previsível.

VAI FICAR POR ISSO MESMO.

A comoção passa, e os processos são lentos. Não me iludo com políticos e delegados prometendo punição exemplar no calor da emoção, muito menos com os gritos indignados dos apresentadores sensacionalistas da TV. Tudo vai esfriando, esfriando. esfriando. A lei tem brechas que advogados caros sabem como explorar e de cabeça de juiz você nunca sabe o que vai sair, pois tudo no Direito dá margem a interpretações diversas. Até mesmo um tiro no meio da cara. Se o assassino tem prestígio, vão provar que agiu "sob forte emoção", "legítima defesa da honra" ou outro subterfúgio conveniente...

Lembra do Bateau Mouche? Tem um culpado lá na Espanha, solto.

E o Andrauss, o Joelma, o Andorinhas... o desabamento do elevado da Avenida Paulo de Frontin, do edifício Palace II; a explosão do shopping de Osasco, do duto de Cubatão... Quem foi preso? Quem continua preso? Quem teve os bens confiscados? Quem foi indenizado?

E o juiz Nicolau? Preso em casa. Nunca vi ninguém ficar preso em casa, lugar de preso é na cadeia. E o Pimenta Neves, que, condenado por assassinato, levantou do banco dos réus e também foi pra casa.

O Brasil tem um câncer: impunidade.

O governador gaúcho disse que o dono da boate vai ter que apresentar todos os laudos e documentos para o funcionamento. Mas apresentar agora? Deveria ter apresentado antes da tragédia, se houvesse fiscalização séria e preventiva. Ou não fiscalizaram direito ou levaram propina.

Na Argentina, só mudaram as leis depois que 194 morreram em condições semelhantes numa boate em Buenos Aires.

Talvez o responsável pela casa de shows de Santa Maria pegue uns dois anos em regime fechado e depois saia da prisão para tocar a vida.

Mais um ou outro pagará algumas cestas básicas ou prestará serviços à comunidade. Talvez os fiscais, que não fiscalizaram nada.

E vamos em frente, porque amanhã outra manchete diferente fará a impunidade nos chocar de novo, apesar de dizerem por aí que o julgamento claramente político do suposto mensalão inaugurou uma nova era na Justiça brasileira.

Foto: Marcelo Migliaccio


sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

sábado, 19 de janeiro de 2013

Curitiba, gênios e GÊNIOS!!!

A primeira coisa que se aprende em jornalismo é que é possível falar mal ou bem de qualquer coisa e quem decide entre as duas opções é o dono do jornal. No caso de Curitiba, onde estive recentemente, pode-se dizer que é um oásis de tranquilidade ou que é um tédio. Depende do visitante.

Curitiba/Foto: Marcelo Migliaccio


Mas a primeira coisa que salta aos olhos é a limpeza das ruas. Mesmo no centro, onde dependentes de álcool e crack podem ser vistos pelas ruas, tudo é muito limpo. A sujeira só aparece quando se vai para a periferia, pois periferia é periferia em qualquer lugar do mundo.

Curitiba/Foto: Marcelo Migliaccio

Há bairros muito atraentes, com casas bonitas, muitas praças arborizadas e bem cuidadas, parques e... parques. Ah, ainda tem os parques. E eu ia me esquecendo de falar das... praças. E dos... parques...

Curitiba/Foto: Marcelo Migliaccio

Pra driblar a monotonia local, eu e minha cara-metade decidimos tomar umas margaritas num bar de estilo mexicano. E como ninguém toma margaritas impunemente, perdi lá meus óculos. É da vida...

Curitiba/Foto: Marcelo Migliaccio

Fui também ao zoológico que fica distante e isso me permitiu ver as favelas e o lixo amontoado nas ruas esburacadas do bairro Boqueirão. Não sei por que, mas lembrei do Rio ali. Já o decantado zoo, que dizem ser de primeiro mundo, com mais espaço para os animais é quase igual ao do Rio, com bichos deprimidos na maioria dos recintos.

Curitiba/Foto: Marcelo Migliaccio

O sistema de transporte da capital paranaense realmente é muito bem estruturado, o problema é que os motoristas dos carros de passeio em geral andam em velocidades incompatíveis com a via. São os motoristas mais agressivos que eu já vi. Atravessar uma rua em Curitiba é uma tarefa de alto risco, acredite.

Assim como em São Paulo, as quatro estações do ano dão o ar da graça todos os dias. Se você sai de casaco, pode crer que vai ter que carregá-lo na mão. E se sai sem casaco, vai passar frio. O frio lá é cruel e os que moram nas ruas sofrem. 

Curitiba/Foto: Marcelo Migliaccio




Outra coisa que é igual a São Paulo é que as garotas se vestem muito mal. Dá só uma olhada nessa vitrine:

Curitiba/Foto: Marcelo Migliaccio



Fui ao museu do Niemeyer, onde há uma exposição muito boa sobre o poeta Paulo Leminski. O museu tem as marcas presentes em várias obras do arquiteto: pouca sombra na área externa, curvas ousadas e interior claustrofóbico. 

Curitiba/Foto: Marcelo Migliaccio


Casa de Cultura de Le Havre
Sinceramente, não gosto de algumas coisas do Niemeyer. Ele pode até ser gênio, mas não é aquele GÊÊÊÊNIO!!!! como dizem por aí. Taí, Niemeyer é um gênio com letras minúsculas. Charles Chaplim é um GÊNIO COM MAIÚSCULAS. Se quiser uma opinião sobre Niemeyer, pergunte aos franceses, que pagaram os olhos da cara a ele para que plantasse esse reator nuclear em Le Havre. É um centro cultural, mas, olhando de fora, eu poderia jurar que é a usina de Angra.




Voltando a Curitiba, esse fim de tarde valeu a viagem...

Curitiba/Foto: Marcelo Migliaccio



E é com versos de Paulo Leminski que me despeço de Curitiba.





Me enterrem com os trotskistas
Na cova comum dos idealistas
onde jazem aqueles
que o sistema não corrompeu

Curitiba/Foto: Marcelo Migliacciome enterrem com meu coração
na beira do rio
onde o joelho ferido
tocou a pedra da paixão


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O mito do brasileiro cordial

Foto: Marcelo Migliaccio

Confesso que menti.

Lamento desapontá-lo, mas não passei o último Réveillon na Lua. Só tinha vaga em pé no foguete e 370 mil quilômetros segurando naquela alcinha não dá... e hoje em dia ninguém mais cede o lugar a um idoso...

Fui mesmo é pra Curitiba, a decantada capital do Paraná que já disseram ser apenas a maior cidade do interior de São Paulo. De fato, o povo é muito parecido com o paulista, só que atende pior nos bares e restaurantes. Se você entra numa loja, experimenta uma roupa e não compra, o vendedor só falta te xingar. Nem até logo eles dão. Garçons também atendem com uma má vontade de tirar o apetite.

E aí me lembrei que em Recife também vi uma gente arredia nas ruas. O pernambucano é insolente, assim como o carioca, que (atenção gringos!) não tem nada de brincalhão. O carioca é aquele cara que pode até estar bem humorado, mas esse bom humor nunca é gratuito, tem sempre um interesse por trás, seja financeiro, sexual ou lá o que seja. Via de regra, o carioca te encontra na beira da praia, faz aquela festa debochada e se despede com um "me liga aí!", sem no entanto deixar o número do telefone.

O paulista dá até medo. Fechadíssimo, desconfiadíssimo (principalmente dos cariocas). Podemos ter uma ideia de sua hospitalidade pelo modo discriminatório como tratam os nordestinos que, na verdade, são os que tocam aquela gigantesca fábrica de malucos.

Em Brasília, vizinhos de porta não se falam, nem se olham. Como tem gente de todo canto do país, a comunicação é ainda mais difícil. O goiano médio, ali do lado, é um primor de deseducação. Espirra na sua cara sem a menor cerimônia. Veja bem que sempre há exceções, como o... o.... depois eu lembro o nome.

Nelson Rodrigues disse que o mineiro só é solidário no câncer, o que tem um fundinho de verdade, assim como quando ele escreveu que a pior forma de solidão é a companhia de um paulista. Ok, é piada, mas mentiras sinceras me interessam.

Vale ressaltar que fazer amizades nunca foi o meu forte,  só que a gente sempre tem a prentensão de que as pessoas sejam amáveis diante da nossa antipatia atávica...

Também conheço alguma coisa de Alagoas e a capital de Santa Catarina, onde encontrei gente relativamente mais simpática que nos outros lugares. Nada porém que me fizesse querer mudar pra lá.

No fundo, a conclusão a que cheguei viajando por aí é que esse negócio de brasileiro cordial é um mito, mais uma história da carochinha inventada talvez por algum empresário do ramo hoteleiro.

Mas não se trata de um problema do nosso país, da nossa gente. O ser humano é agressivo por natureza. Ele apenas disfarça, às vezes. Dê um amistoso tapinha nas costas de um inglês e ele será seu inimigo para o resto da vida. O que salva o mundo de virar um octógono gigante é o freio da lei, que intimida a maioria a não sair por aí mordendo os outros. E da religião, que segura muitos rebanhos de selvagens entorpecendo-os com o conto da prosperidade financeira abençoada por Deus.

Como se não bastasse tudo isso, a paranóia da violência urbana acabou com a instituição do flerte nas ruas, hoje restrito apenas aos adolescentes. Se um adulto mexer com uma mulher na via pública, periga ela chamar a polícia.

Na Argentina, encontrei um povo rude, nas raias do beligerante. Tanto lá como aqui, idiotas alimentam uma pseudo-rivalidade com brasileiros na mídia, o que mascara uma admiração mútua entre os povos que melhor jogam futebol no planeta.

Nos Estados Unidos nem se fala, o preconceito em relação aos que nasceram abaixo da linha do equador está no ar, jamais pretendo voltar lá...

Por isso, agora decidi: viajar, só pra Lua.



PS: Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais terá sido mera coincidência...

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Pantheon de Caxias

O prefeito de Duque de Caxias ficou com raiva da população que não o reelegeu no último pleito e simplesmente interrompeu a coleta de lixo nesse município da Baixada Fluminense por mais de dois meses, os derradeiros de seu mandato.

Parêntesis: fui uma vez ao centro de Caxias fazer uma reportagem sobre o barulho. Lá é o lugar mais barulhento e com o ar mais poluído em que já estive. Um caos e a algazarra era tanta que até deu defeito no aparelho medidor de ruídos levado por um técnico a pedido do jornal em que eu trabalhava. Isso mesmo: o aparelho não aguentou o barulho daquele lugar. Até a máquina ficou surda.

Fico imaginando Caxias, além de barulhenta, calorenta e com seu ar irrespirável, cheia de lixo na rua.

Só no Brasil um político faz isso com o povo e nada lhe acontece. Capaz até de votarem nele de novo daqui a quatro anos...

Com as ruas da cidade cheias de lixo, os ratos se multiplicaram. E vieram as chuvas de verão, porque estamos no Brasil e tudo sempre pode piorar um pouco. Ou muito.

As ruas ficaram alagadas e rios transbordaram, pessoas perderam suas casas, houve até morte. Há muitos casos de leptospirose, a doença transmitida pela urina dos ratos, e de dengue.

Mas não acabou aí.

O novo prefeito de Caxias descobriu agora que em sua cadeira no gabinete havia um microfone escondido. A peça, que permitiria que ouvissem suas conversas, planos e confidências, foi entregue à polícia.

Claro que o suspeito de ter plantado a escuta é o cidadão que sentava naquela cadeira até o último dia primeiro de janeiro, quando prefeito eleito tomou posse.

Depois dessa, deveriam mudar o nome da Baixada Fluminense para Baixaria Fluminense...


sábado, 5 de janeiro de 2013

Paulo Leminski

Desencontrários 

Mandei a palavra rimar,

ela não me obedeceu.
 Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
 Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.

 mandei a frase sonhar,

e ela se foi num labirinto.
 Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
 para conquistar um império extinto.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Direto da Lua

Bom, como vocês sabem eu vim passar o Réveillon na Lua. Uma beleza! Nada de fogos, nem um mísero estalinho, nada daquelas juras de amizade etílicas. É verdade que a ceia de areia com quartzo tava meio seca, mais seca que o peru de Natal da minha tia. E o pior é que o máximo que eu achei pra molhar a garganta foi uma mísera molecula de água, aquela mesma que fez os cientistas acreditarem que aqui viveu o tataravô do abominável homem das neves.

A virada aqui tava meio mal de mulher, mas eu trouxe a minha namorada e nem liguei. Aliás, recomendo aos sovinas de carteirinha que nas próximas férias tragam suas amadas pra passear na Lua: não tem shopping center, não vai ter gastança. Mas, se vai, vá logo, porque com o ser humano andando por aqui não demora ficar daquele jeito. Ontem, até vi um cara jogando um guardanapo de papel no chão. Aposto que é brasileiro. Carioca!

Se bem que o preço da internet aqui tá estratosférico, o que me fez ficar ausente do blog por uns dias. E o meu telefone Vivo aqui ficou mortinho da silva. Essas privatizações...

Agora tô atrasado pro cinema no Cineclube Cratera 6, vou ver o filme O Impossível, sobre uma família americana que tava naquela pousada inundada pelo tsunami de 2004 na Tailândia. Depois eu conto o que achei.

Meu foguete de volta pra Terra parte na sexta, 16h.Tomara que não tenha nenhum russo roncando na poltrona de trás. Pelo menos na viagem estarei livre dos americanos,que vão todos na primeira classe.

Agora está anoitecendo e eu fico contemplando o nosso planeta e pensando na frase dita pelo Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar aqui, quando olhou pra trás e viu de onde tinha vindo. Assim ele definiu esse milagre da natureza onde vivemos:

_ Uma bolha de vida suspensa num deserto de nada.