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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Ah se fossem camelôs...

Nem a placa inibe os motoristas particulares e zelosos papais

Tão enérgica quando trata com mendigos e camelôs, a Guarda Municipal do Rio faz vista grossa para a baderna que os carrões dos alunos da Escola Britânica provocam diariamente na Avenida Pasteur, na Urca (Zona Sul do Rio).

São motoristas particulares que esperam os pimpolhos saírem da escola estacionados em qualquer lugar, principalmente onde é proibido.

É assim que esses estudantes aprendem desde cedo que o dinheiro os coloca acima das leis. São os futuros donos do poder.

Estamos mesmo bem parados... na favela, jovens acham que a lei é o fuzil; no asfalto, que ela se rende ao dinheiro.

Todos os dias é a mesma cena: trânsito engarrafado pelos carros em fila dupla e até tripla, porque alguns pais ou motoristas de madame se recusam a entrar na baia criada pela escola e furam a fila para deixar logo a juventude dourada na porta do colégio.

Tudo bem que a criminalidade assusta, mas faria bem a esses garotos e garotas pegar um ônibus de vez em quando, só pra ver como é.

Se é que a guarda já multou os proprietários desses carros, configura-se um nítido episódio de desobediência civil sistemática. Caso de se mandar o reboque e levar o maior número possível deles para um depósito.

No entanto, nada acontece, porque no Brasil o ditador é o dinheiro, que tudo pode e a ninguém teme.

Em tempo: a mensalidade do tal colégio chega quase a R$ 5 mil.

Mais um episódio que mostra o quão elitista é a atual prefeitura do Rio.

Quem tem grana estaciona em qualquer lugar



domingo, 17 de fevereiro de 2013

Amor e eutanásia

Acho que só vamos saber mesmo se Deus existe depois de mortos. Isto é, se ele de fato existe, porque senão não vamos saber de mais nada depois de mortos. Por via das dúvidas, quase todas as noites rezo um Pai Nosso e uma Ave Maria.

Rezo com sinceridade, afinal na hora do aperto é o que nos resta. Até o ateu mais agnóstico cai de joelhos quando a coisa aperta. A maioria, no entanto, cai de joelhos antes de a coisa apertar, já que o ser humano precisa acreditar que tem alguém lá em cima zelando por ele e por seus entes queridos.

Alguém que impeça, por exemplo, que um coco ou um meteorito caia bem na sua cabeça.

O ser humano é muito vulnerável. Pode morrer pisando num buraco na calçada ou tomando uma aspirina. Ou ser varrido em poucos meses por uma moléstia incurável. Ou levar um tiro de um assaltante... enfim, estamos à mercê do acaso e uma força superior veio bem a calhar para nos deixar pelo menos um pouco mais tranquilos.

Até acho que Jesus Cristo existiu, mas acho também que a Bíblia pode ser um dossiê mistificador elaborado e modificado por oportunistas através dos séculos para perpetuar uma eficiente forma de poder e de geração de renda: as religiões. O "apóstolo" Valdemiro Santiago, por exemplo, líder da evangélica Igreja Mundial, estaria comprando a rede CNT de televisão. Centenas de pessoas vão à frente das câmeras dele se declararem curadas dos mais variados males. Não duvido, pois a nossa força interior pode ser despertada até mesmo por um aproveitador com boa retórica.

Cristo deve ter sido apenas um cara bom caráter num tempo em que a barbárie campeava. Como campeia agora, aliás. Não creio que alguém possa abir um caminho no mar ou curar a cegueira alheia com um toque das mãos Só vi essas coisas até agora nas escrituras sagradas ou nas histrórias em quadrinhos dos super-heróis Marvel. Mas creio que a energia positiva tem um poder que nós, humanos, sequer podemos imaginar. E, como disse o outro, que, diga-se, também não era nenhum santo, "gentileza gera gentileza".

Já a igreja criada pelos homens só faz encher nossa cabeça de dogmas que não se sustentam diante de uma análise minimamente atenciosa. A condenação do clero à eutanásia, por exemplo, cai por terra com um inquietante filme em cartaz: Amor. Na história, um casal de octagenários é surpreendido pelo derrame da mulher, que fica com metade do corpo paralisado primeiro e, em seguida, involui para um estado quase vegetativo. Quase porque ela ainda se mantém capaz de sentir dores e de pedir, clamar pelo fim daquele sofrimento.

O velho até tenta contratar uma acompanhante cuidadora, mas não dá sorte e acaba demitindo a moça, não sem antes desejar-lhe que encontre alguém que a trate na velhice como ela tratou sua esposa doente.

Heróica e apaixonadamente, o velho se desdobra para cuidar de sua amada de tantas décadas. No decorrer do filme, porém, sem forças físicas e psicológicas para carregar aquela cruz, ele põe fim ao duplo calvário sufocando a mulher com um travesseiro.

Assassino?

Quem pode condená-lo?

Só a igreja e suas ovelhas mais obtusas.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O lado bom da vida

Você deve estar se perguntando: por que esse cara foi pra São Paulo no carnaval se tem um olhar tão crítico sobre a cidade?

Porque São Paulo no feriado é um barato. É outra cidade. É a mesma, mas é outra. São Paulo de folga é um convite ao desconhecido.

São Paulo/Foto: Marcelo Migliaccio

Com suas praças e parques que são sempre oásis para pensar no meio do caos do dia a dia.

São Paulo/Foto: Marcelo Migliaccio

Onde se pode observar os detalhes 

São Paulo/Foto: Marcelo Migliaccio

E a imponência da natureza oprimida entre os prédios

São Paulo/Foto: Marcelo Migliaccio

E que prédios estranhos...

São Paulo/Foto: Marcelo Migliaccio

Queria saber como colocaram essa casa em cima desse edifício...

São Paulo/Foto: Marcelo Migliaccio

No feriado, dá pra ver bem a mão do homem através dos tempos...

São Paulo/Foto: Marcelo Migliaccio

Sempre poética...

São Paulo/Foto: Marcelo Migliaccio

Mesmo em tempos cruéis.

São Paulo/Foto: Marcelo Migliaccio

Poesia em ferro e concreto...

São Paulo/Foto: Marcelo Migliaccio

... na cidade que trata mal os nordestinos encantados com o viaduto do Chá.

São Paulo/Foto: Marcelo Migliaccio

E diante da qual japoneses que cruzaram o mundo se curvam

São Paulo/Foto: Marcelo Migliaccio

São Paulo é assim: mar de gente até num feriado quando se trata de consumir.

São Paulo/Foto: Marcelo Migliaccio

A São Paulo que faz o homem engraxar seus sapatos...

São Paulo/Foto: Marcelo Migliaccio

Também lhe oferece um piano para tocar na estação de trem.

São Paulo/Foto: Marcelo Migliaccio

São Paulo tem cachorro quente à vontade, coisa que o Rio não tem.

São Paulo/Foto: Marcelo Migliaccio

São Paulo tem fartura no colorido mercado municipal.

São Paulo/Foto: Marcelo Migliaccio

Na mesa das cantinas italianas

São Paulo/Foto: Marcelo Migliaccio

Nas feiras de antiguidades.

São Paulo/Foto: Marcelo Migliaccio

Aliás, andaime aqui é coisa do passado. Limpa-se os prédios fazendo rapel.

São Paulo/Foto: Marcelo Migliaccio

São Paulo, onde os skatistas que desafiam os milhões de carros.

São Paulo/Foto: Marcelo Migliaccio

São Paulo é São Paulo.

São Paulo/Foto: Marcelo Migliaccio

E merece uma rosa.

São Paulo/Foto: Marcelo Migliaccio

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Mais "zambalo"

Procurei, procurei e, enfim, encontrei a Luz. A estação da Luz, pelo menos...


Foto: Marcelo Migliaccio

Linda, restaurada, limpa, bem cuidada, uma beleza... e com gente, muita gente...


Foto: Marcelo Migliaccio







Uma gente séria, tensa, desconfiada. Logo se vê que o carnaval acabou. Gente que anda na beira do abismo.

Foto: Marcelo Migliaccio

E, do lado de fora da bela estação, São Paulo se mostra de novo... jogada na calçada, parte da paisagem, sem provocar sequer um suspiro de compaixão.

Foto: Marcelo Migliaccio

Gente que quase não é mais gente.

Foto: Marcelo Migliaccio


De repente, São Paulo surpreende novamente. Uma roseira no Parque da Luz. E quem disse que não encontrei a luz? 


Foto: Marcelo Migliaccio

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

São Paulo, de novo

Gosto tanto de carnaval atualmente que vim passar os dias de folia no túmulo do samba. Mas devo um desagravo a São Paulo, onde vivi por quase quatro anos e cidade à qual faço muitas restrições. Trata-se de um lugar ótimo para fotografar, principalmente nos seus redutos históricos.

Pra começar, encontrei um simulacro de bloco em pleno bairro italiano da Bela Vista. E os inimigos do ritmo castigavam mesmo...

foto: Marcelo Migliaccio


Aí partí para ver como anda a Justiça por aqui. E concluí que é igual à do resto do país.

foto: Marcelo Migliaccio

Desolado, corri para umas comprinhas, só pra espairecer, mas não dei muita sorte. Tava um pouco cheio...

foto: Marcelo Migliaccio

Saí correndo dali e procurei ajuda divina na Catedral da Sé.

foto: Marcelo Migliaccio



Haja Pai...

foto: Marcelo Migliaccio

Olhei pro céu procurando Deus mas só vi... São Paulo.

foto: Marcelo Migliaccio


Depois eu mostro mais da minha viagem à inclemente megalópole. Por ora, vou tomar um chops e comer dois pastel...


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Quando um quer, dois brigam

A manhã de domingo se arrastava modorrenta em Copacabana. Tudo que os entediados porteiros dos prédios poderiam pedir a Deus era um barraco que os divertisse, mas os pivetes (também conhecidos por aqui como "urmenó") dormiam sob as marquises.

Ora, estamos em Copacabana, um bairro em que o inusitado é iminente... até mesmo nas manhãs de domingo.

Pois o velho se preparava para atravessar a rua puxando seu carrinho de feira. Só os velhos de Copacabana e do Méier ainda puxam carrinhos de feira, esse apetrecho pré-histórico em vias de extinção.

Alheio ao velho que vinha da feira, um outro velho, não tão velho quanto o velho que vinha da feira, dá marcha à ré ao volante de seu carrão... e, no exato momento em que o pedestre ancião vai cruzar o asfalto em direção à outra calçada, o carrão lhe surpreende vindo no sentido oposto aos dos carros, numa manobra tão absurda quanto arriscada.

Até aí, descrevi o que não vi, deduzi, pois só olhei para a cena depois de ouvir os gritos do velho da feira:

_ Você passou em cima do meu pééééééé!!!!!

Quando olhei, já juntava gente para ouvir o velho da feira xingar pra valer o motorista não tão velho do carrão.

_ Porra, você me machucou!!!!! Seu irresponsável, barbeiro!!!!!

Meio acuado dentro de seu próprio veículo, o motorista primeiro fez um pedido sentido de desculpas, em voz baixa, talvez para não chamar a atenção de ainda mais gente na rua.

_ Me desculpe.

Senti uma sinceridade comovente ali. Acho que ele vinha da missa, mas sua vítima vinha da feira...

_ Desculpe é o caralho!!!!! Você podia ter me matado!!! _ o velho semi-atropelado estava irado. Se Nelson Rodrigues tivesse visto a cena, teria dito que os olhos daquele homem estavam "rútilos de ódio".

_ Desculpe! _ tentou de novo o homem ao volante.

_ Se você não tem mais idade pra dirigir fica em casa deitado na cama!!! _ continuou extravasando sua ira o velho do dedão do pé latejante, sem nem atentar para o fato de o outro ser mais novo que ele.

Os porteiros riam, ganharam o domingo. As senhoras paravam e se acomodavam para olhar, algumas cochichavam excitadas. Os pivetes sob a marquise, acordados pelo incidente, bocejavam ainda grogues de crack, solventes etc.

_ Eu estou pedindo desculpas ao senhor!  _ insistiu, um tom acima, o velho não tão velho do volante.

Mas o outro não colocava um ponto final nos impropérios:

_ Você não pode fazer uma coisa dessas, podia ter me matado, porrrrrraaaaaa!!!!!!

Foi quando o homem do volante deu sinal de impaciência, embora ainda em voz baixa, talvez na esperança que o pedestre desistisse de descarregar aquela ira toda em cima dele.

_ Eu já pedi desculpas, daqui a pouco vou mandar você tomar no cú.

O outro nem deu bola na sua catarse sem fim:

_ Tinha que ter um guarda aqui pra te prender!!!! Você é um irresponsável, babaca!!!!

E quem disse que quando um não quer dois não brigam? De repente, o sangue subiu pelo elevador de serviço e expulsou a condolência da cabeça do motorista.

_ Quer saber de uma coisa? VAI TOMAR NO CÚÚÚÚÚÚÚÚ!!!!! _ gritou o motorista antes de arrancar com seu carrão, deixando o velho da feira com seu carrinho e sua raiva ai mesmo, no meio da rua.

Copacabana é uma festa...

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Sobre jornalismo



Reproduzo a seguir artigo do jornalista e fotógrafo Pedro Mox, publicado no site Nota de Rodapé

Ele mostra como pensam os jornalistas que têm um mínimo de visão crítica sobre o exercício dessa profissão hoje no Brasil





sábado, 2 de fevereiro de 2013

Cansei de ser honesto

Cansei de ser honesto. Daqui por diante roubarei, passarei a perna nos outros, seguirei à risca nossa famosa lei de Gérson, “levar vantagem em tudo”. Para me livrar de toda e qualquer acusação, direi apenas: sou jornalista.

Claro, isto é uma grande bobagem – a primeira parte, apenas. Infelizmente. Foi o que pensei ao assistir a retirada dos nomes de Policarpo Júnior, redator-chefe e diretor de Veja em Brasília, e de mais quatro jornalistas da CPI do Cachoeira, no final do ano passado. Policarpo relaciona-se com Cachoeira, segundo o relatório, desde 2004, atuando em favor do grupo do contraventor. Servir também “aos desideratos valorativos e às visões de mundo que movimentavam uma determinada linha editorial”, como explica reportagem de Carta Capital. A CPI pedia o indiciamento de PJr por formação de quadrilha.

Em suma, no mínimo uma séria investigação deveria ser feita, e foi, por parte da comissão. Entretanto seu resultado será nulo.

Em seu site, no texto que relata a retirada dos nomes, Veja trata o relatório como “ataques à imprensa”, “tentativa de atingir sua credibilidade”. No entanto, as dezenas de capas publicadas com denúncias infundadas, falta de provas e textos tendenciosos são plenamente aceitos em sua redação. Suposições transformam-se em fatos, e ninguém se importa com provas. As gravações com conversas entre Policarpo e Cachoeira, bastante contundentes, parecem entretanto não convencer seus editores.

O jornalista Luis Nassif, autor de ampla análise sobre o semanário, resume o “método Veja de fazer jornalismo”: Veja se especializaria em “construir” matérias que assumiam vida quase independente dos fatos que deveriam respaldá-las. Definia-se previamente como “seria” a matéria. Cabia aos repórteres apenas buscar declarações que ajudassem a colocar aquele monte de suposições em pé.

O juiz britânico Brian Levenson
A liberdade de imprensa é, sim, direito assegurado a todo jornalista. Da mesma forma, está escrito no Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, muito próximo ao direito à informação: “a divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação e deve ser cumprida independentemente da linha política de seus proprietários e/ou diretores ou da natureza econômica de suas empresas”. Porém, estranhamente esta parte nunca é citada pela grande mídia que adora reclamar qualquer questionamento como “censura”.

Tal liberdade também precisa ser analisada com critério, levando-se em conta quem comanda a telecomunicação no Brasil. Basicamente, podemos dizer que seis grupos pautam o noticiário em nosso país – aí incluídos jornais, TVs e rádios: Globo, Abril, Folha, Estado, Bandeirantes e Record. Apenas a Abril, dona da Veja, detém 74 veículos, conforme o site Donos da Mídia. Toda a proposta de regulamentação é tratada como tentativa de censura, ainda que emissoras sejam concessões públicas. Enquanto isto, no Reino Unido, o juiz Brian Leveson recomenda a existência de uma lei de imprensa, após os escândalos com o magnata das comunicações Rupert Murdoch.

A grande mídia age defendendo claros interesses políticos e econômicos – todavia travestidos na carapuça da “imparcialidade e objetividade”.

Quando um prédio desaba, o engenheiro responsável é procurado. Se esquecer um bisturi na barriga de alguém, o médico sofrerá consequências. Então por que jornalistas não devem ter responsabilidades, ou pior, não podem ser investigados quando agem com má-fé? A imprensa não está acima do bem e do mal, embora goste de pensar assim, e deve obedecer às mesmas leis que qualquer cidadão. Ao escrever, o jornalista tem o dever de informar sem distorcer informações, como diz o juramento que fazemos todos os egressos desta academia. Torçamos para que assim seja.

Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR