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quinta-feira, 31 de julho de 2014

"Pô, Tiozinho!"

Aquilo me soou como uma bofetada. Seria melhor que o motorista do outro carro desfiasse o conhecido repertório de palavrões da língua portuguesa. Ouvir que eu era filho disso, e deveria ir tomar naquele lugar, seria melhor do que ser chamado, assim, de chofre, de "tiozinho".

Tudo bem, eu dei uma fechada no cara, mas nada justificaria tal ataque, vil, sórdido.

Era um moleque dirigindo pela Tijuca, um não, três. Acho que iam para alguma festa junina, pois o que estava ao lado do motorista ostentava um ridículo chapéu de caipira, aquele de palha e desfiado nas abas.

Fiquei sem ação, nem respondi à discriminação por faixa etária. Imaginei na hora o que teria levado aquele moleque a achar que eu era velho...

Ah, tô começando a ter cabelo branco onde ainda tem cabelo, deve ser isso... Fazer o quê? Pintar pode piorar as coisas.

Ser chamado de "tiozinho" é o fim da picada para todo garotão experiente como eu. Até "vovô" é melhor, porque soa carinhoso. Tiozinho é um deboche. A gente sempre pensa que tá nos trinques, que ainda pode cantar de galo, mas num belo dia um fedelho caridoso nos oferece o assento para idoso do vagão (bom, pelo menos isso nunca me aconteceu... ainda). Soube que alguns velhinhos até xingam quem lhes dá o lugar. Na cabeça, ainda se sentem como garanhões indomados.

Outro dia, li que um cantor sertanejo, da minha idade, brigou com uma fã que o chamou de tiozinho numa rede social. "Imagine você quando chegar aos 51 anos", disparou o cowboy do interior paulista.

Como medida de segurança, há alguns anos parei de olhar para garotas muito novas. Elas costumam ser impiedosas ao menor sinal de terceira idade se aproximando. A última que eu tentei azarar (xavecar, como se diz) me chamou sadicamente se "senhor".

Mas, tudo bem, um dia ela também será. Essa é a vingança dos coroas: saber que todo jovem chega lá.




terça-feira, 29 de julho de 2014

Tudo como antes

A Copa do Mundo foi uma festa no Rio. Até Eros, o Deus do Amor, entrou na onda, adornado por uma atmosfera de sonhos para todos os turistas verem. E Eros abriu as asas e voou...

Foto: Marcelo Migliaccio

Mas a Copa acabou, a carruagem virou abóbora, a polícia sumiu das ruas e Copacabana voltou a ser Copacabana. Não se passaram duas semanas, e cortaram as asinhas do Deus do Amor. Pelo menos uma delas foi vandalizada. E olhe que a estátua timha sido restaurada havia poucos meses.

Foto: Marcelo Migliaccio


Não se sabe se o responsável foi o mesmo vândalo, mas a pichação apareceu quase que simultaneamente. E tudo voltou a ser como antes.


Foto: Marcelo Migliaccio


LEIA TAMBÉM:

O dia em que Eros perdeu a cabeça

Até o Deus do Amor fez plástica




quinta-feira, 24 de julho de 2014

Chacina de menores agora é de maior

Ontem, a chacina da Candelária deixou de ser menor de idade, Já se vão 21 anos desde que três policiais militares mataram oito meninos que dormiam nas proximidades da imponente igreja, no Centro do Rio. Na época, eu trabalhava num prédio vizinho e, como jormalista, cobri os desdobramentos do fato _ da repercussão internacional às manifestações de apoio aos PMs, afinal, os jovens mortos pertenciam a um grupo que praticava assaltos naquela área.

A verdade é que os policiais receberam muito apoio da população, o que não evitou que fossem condenados, tempos depois, a dezenas de anos de prisão. Acho que os três já estão até soltos, já que nossa Justiça não gosta muito de manter criminosos na cadeia.

Logo agora, me deixaram impressionado as imagens dos dois PMs levando para o alto do morro do Sumaré dois garotos, de 14 e 15 anos, que também roubavam pedestres na Avenida Presidente Vargas, onde fica a Candelária.

_ Vamos lá pra cima?

_ Descarregar a arma um pouquinho...

_ Jogar eles lá de cima.

Esse foi o diálogo gravado pela câmera do painel do carro da polícia, com os dois PMs em primeiro plano e os garotos trancados na caçamba, lá atrás. Rindo, os policiais levavam os infratores para a morte. O que chocou mais foi que aquilo parecia um processo corriqueiro, um ato banal, que não provocava sequer um sobressalto na respiração tranquila dos PMs.

O que pareceu é que os policiais estavam acostumados a fazer aquilo. O choro dos garotos evidenciava essa impressão. Sabiam que suas breves existências estavam chegando ao fim.

_ Já tá chorando, nem comecei a bater ainda _ diz um dos policiais a um dos garotos quando o carro para no alto do penhasco.

Sei que muita gente, muita mesmo, muita gente de prestígio até, acha que os policiais agiram certo. Mas, para azar dos exterminadores fardados, um dos garotos sobreviveu a dois tiros e eles agora estão presos. Não por muito tempo, sabe-se.

Centenas de menores continuam chegando ao mercado de assaltos todos os meses. Filhos de famílias desestruturadas, mães adolescentes, garotos que a escola pública sucateada não tem competência para segurar. Cedo se tornam assaltantes. Só no Rio, nos últimos cinco meses, foram 3 mil menores apreendidos.

Cedo, eles acabam caindo dentro da máquina de enxugar gêlo, que funciona a todo vapor no morro do Sumaré mas nem assim dá vazão à quantidade de crianças que o nosso sistema, gerador de tantos bilhões ao ano, não protege nem educa.



terça-feira, 22 de julho de 2014

Bukowski derrota Mao

Larguei pelo meio as biografias de Mao Tse Tung, Zhou Enlai e Chaplin. O motivo foi que Charles Bukowski me arrebatou. Quem quer aprender a escrever deve comer Bukowski com farofa de ovo. Seu estilo é inconfundível, delicioso e temática mais humana e despojada que a dele não há. Bukowski nos reduz ao nosso verdadeiro tamanho e assim, paradoxalmente, nos mostra a grandeza que podemos atingir ao aguçar nosso senso crítico sobre nós mesmos e a vida que levamos. O texto flui, porque ele escreve como se fala, que, em síntese, é como se deve escrever. Suas palavras, ao mesmo tempo que leves, têm um peso, uma densidade que as torna fundamentais.

Eis um trecho do conto O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio. Diz muito não só sobre o ofício de escrever, mas sobre a criação artística e o mercado.

"(...) Escrever pode ser uma armadilha. Alguns escritores tendem a escrever o que agradou seus leitores no passado. Daí, estão fodidos. A criatividade da maioria dos escritores tem vida curta. Ouvem os elogios e acreditam neles. Há apenas um juiz final do que foi escrito, que é o escritor. Quando é influenciado pelos críticos, editores, leitores, está acabado. E, é claro, quando for influenciado por sua fama e sua fortuna, você pode mandá-lo flutuando rio abaixo junto com a merda.

"(...) Não há nada que impeça um homem de escrever, a não ser que ele impeça a si mesmo. Se um homem quer realmente escrever, ele o fará. A rejeição e o ridículo apenas lhe darão mais força. E quanto mais for reprimido, mais forte ele se torna, como uma massa de água forçando um dique. Não há perdas em escrever; faz seus dedos dos pés rirem enquanto você dorme; faz você andar como um tigre; ilumina seus olhos e coloca você frente a frente com a Morte. Você vai morrer como um lutador, será reverenciado no inferno. A sorte da palavra. Vá com ela, mande-a. Seja o Palhaço das Trevas. É engraçado, é engraçado. Mais uma linha..."



sábado, 19 de julho de 2014

Sombras da ribalta

Nelson Ned, que já passou, cantava:

"Mas tudo passa, tudo passará..."

Todos nós estamos de passagem mas, na ribalta, quando o tempo conjuga esse verbo o sujeito pira.

Leio agora que um dos Cassetas (é, aqueles humoristas que fizeram muito sucesso nos anos 90) mandou o repórter Vesgo, do programa Pânico, tomar no cú.

"Não vou dar ibope pra você!", esbravejou o humorista da Globo, que está na geladeira, já que seu programa saiu do ar por falta de... audiência. Ou seja: se há uma coisa que ele não está dando atualmente é ibope...

Vesgo é chato pacas. Faz um humor agressivo importunando pessoas conhecidas. O xingamento foi merecido, mas mostrou o quanto é forte a dor de cotovelo no meio artístico.

Quando o Casseta & Planeta surgiu, trouxe um humor novo em contraposição aos já desgastados Chico Anysio e Jô Soares. Jô se reinventou e virou entrevistador (já precisando se reinventar de novo...). Mas Chico entrou de sola nos então novatos logo que viu seu monopólio do riso na TV ameaçado.

Pois os anos se passaram, Chico, que realmente era um gênio na criação de tipos, morreu, e o humor do Casseta deixou de ser novo. Desgastado, perdeu audiência até o programa sair do ar.

E agora um de seus membros repete a história de muitos narcisos, desta vez no papel de vilão, porque é duro ficar fora do ar. Renato Aragão e Xuxa que o digam. Já provocaram filas de dar volta em quarteirão com seus filmes, faturaram milhões, foram unanimidades burras, e agora... morrer é doloroso, principalmente quando se ainda está vivo.

A mídia é assim: faz um carnaval com você enquanto as pessoas te comprarem. Numa época em que ficou fora do ar, Chacrinha desabafou: "Quem não tem ibope, não tem amigos".

João Ubaldo morreu ontem (mês passado, foi Marlene, "a maior"). Hoje, o escritor é primeira página de todos os jornais. Amanhã, estará esquecido. Depois de amanhã, a nova geração sequer saberá quem foi. Uma vida, um universo reduzido a um livro na estante.

A vaidade é o combustível de toda pessoa pública e também o veneno que a consome.


quarta-feira, 16 de julho de 2014

Ainda bem que vai começar

Vai começar em breve o horário eleitoral gratuito, que as emissoras de TV privadas convencionaram chamar de "horário eleitoral obrigatório" para desmoralizá-lo.

Graças a Deus ele é obrigatório, ou nenhuma dessas redes transmitiria, assim como a Hora do Brasil no rádio, que deputados do lobby das emissoras querem derrubar há tempos _ a última proposta é que as rádios possam escolher entre três horários para transmiti-la, acabando com a cadeia nacional às 19h. Aí o povo teleguiado poderia abrir mão de saber o que andam fazendo o Executivo, o Legislativo e o Judiciário para ouvir músicas de Michel Teló e Waleska Popozuda .

Mas, voltando à faixa destinada a propaganda dos partidos políticos e de seus candidatos a cargos eletivos, trata-se de um importante instrumento de equilíbrio frente ao manipuladíssimo noticiário das emissoras privadas. E, por outro lado, nos dá a exata dimensão do nível intelectual e cultural do povo brasileiro, principalmente quando observamos os candidatos a vereador.

Veja o caso do PT e da Dona (tratamento pejorativo) Dilma, a presidente da República eleita pela maioria do povo brasileiro. Há quatro anos, tudo que as emissoras e seus jornalistas papagaios de patrão fazem é depreciá-la. Toda a pauta sobre o governo do PT é negativa.  Não estou discutindo aqui se Dilma governa bem ou mal, só estou avaliando o teor das notícias veiculadas com base na minha consciência e nos meus conhecimentos de como funcionam as redações, acumulado em 26 anos de trabalho dentro delas (televisão, rádio, jornal e revista). Veja o escândalo das privatizações do PSDB, ou o afundamento da plataforma P-36 no governo Fernando Henrique, ou os apagões no mesmo governo. A imprensa tratou esses fatos com a maior condescendência, mas se tivessem ocorrido num governo petista, imagine...

Outro exemplo é Leonel Brizola, que teve mais espaço no telejornal de maior audiência no dia em que morreu do que durante os oito anos em que governou o Rio. Isso é jornalismo imparcial?

Qualquer leigo que reparar bem pode perceber quando um órgão de comunicação tem simpatia ou antipatia por certo político. É só observar os verbos empregados em relação a ele, por exemplo, ou a quem o editor da reportagem dá o benefício da palavra final. Vão aqui Algumas dicas para ler jornais.

Outra estratégia eleitoral do partido da mídia é dar ênfase, nos noticiários locais, aos problemas de atendimento à população dos órgãos federais, como as filas para recebimento do seguro desemprego, por exemplo. A prefeitura e o governo do estado, ocupados por "parceiros" no caso do Rio, têm suas inúmeras mazelas ignoradas ou deixadas em segundo plano. Isso é fazer política às vésperas da eleição, usando uma concessão pública, visando atingir a um candidato, no caso a presidente que tenta a reeleição.

Então o horário gratuito é uma forma de dar ao governante uma chance de mostrar o que fez, porque a imprensa adversária só mostra, só dá ênfase e destaque ao que ele fez mal ou deixou de fazer. Tudo bem, aparecem umas figuras oportunistas e até desprezíveis no meio de tantos partidos, mas é um retrato do povo brasileiro, educado, mais que pelas escolas, pelas próprias emissoras de TV aberta e suas programações, com raras exceções, emburrecedoras.

Mais do que deixar de faturar com comerciais durante duas horas por dia, incomoda à meia dúzia de empresários que monopolizam os meios de comunicação privados no Brasil o fato de o presidente inimigo poder dar ao povo as informações que essa mesma confraria sonega de forma descarada com a desculpa de que jornalismo bom tem que incomodar o governante. Jornalismo bom tem que mostrar a realidade sem super-dimensionar problemas e esconder boas realizações. Cabe ao governante saber usar esse espaço para divulgar o que fez de bom ou será fatalmente derrotado.

Então viva o horário eleitoral gratuito, instituto sagrado da democracia num país de meios de comunicação irremediavelmente tendenciosos.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Futebol e eleição

A Alemanha mereceu, jogou melhor, mais organizada. E também com muita garra. Os argentinos só tiveram garra, perderam gols feitos e Messi sumiu. Mais uma vez, o craque do time teve ânsia de vômito num momento decisivo. Algumas pessoas são assim...

No futebol, o vencedor sempre merece a vitória.

Dilma foi vaiada e xingada de novo por parte da platéia mauricinha. Lula também foi vaiado no Pan e ganhou a eleição. Afinal, nem só de devoradores de novela é composto nosso gigantesco colégio eleitoral. A torcida da FIFA não ganha eleição sozinha, mas ontem conseguiu evidenciar uma Dilma visivelmente abalada e insegura. Sua cara fechada contrastava com a festa geral. Se alguém chegasse de Marte diria que aquela mulher era argentina e estava triste com a derrota.

Dilma, como Messi, tinha que se manter forte num momento crítico como aquele. A impressão é de que faltou controle dos nervos a ambos.

Como dizia o filósofo contemporâneo Vicente Mateus, "quem tá na chuva é pra se queimar".

Aliás, se Dilma perder, é porque terá merecido. Uma derrota do PT não se deverá apenas à campanha insidiosa da grande imprensa tucana, porque ela vem fazendo isso desde 89 e o PT já conquistou três vezes, no voto direto, a Presidência da República. Quando chegar a hora da campanha gratuita na TV, onde a iniciativa privada concessionária dos canais vive a atacar o partido, será preciso listar todas as realizações nos últimos 12 anos e comparar os governos petistas com os do PSDB.

O povo vai dizer, em outubro, se quer continuar com o PT, a despeito dos jornalistas de aluguel e dos Facebooks da vida, que não tiveram poder até hoje, felizmente, de fazer a cabeça de 200 milhões de pessoas. Agora, até outubro, muita marola eles vão fazer.

O povo brasileiro vai dizer, em outubro, se os governos do PT devem ou não continuar. Se a maioria estiver satisfeita, Dilma seguirá no Palácio do Planalto. Se a maioria quiser Aécio Neves, ou Campos-Marina, será deles a missão de pilotar o boeing e o próprio povo, se os eleger, sentirá na carne o que vier a seguir.

A urna é soberana porque quem vota é que paga a conta.

Na eleição, como no futebol, quem perde sempre merece a derrota.

E aos argentinos, chegou a hora de dizer adeus.

Foto: Marcelo Migliaccio




domingo, 13 de julho de 2014

Domingo de carnaval em julho

Hoje foi domingo de carnaval no Sambódromo. Uma folia diferente. Na avenida, Grêmio Recreativo Escola de Tango Mocidade Independiente de Papa Francisco.

Foto: Marcelo Migliaccio

Alegorias e adereços...

Foto: Marcelo Migliaccio



Carros alegóricos...

Foto: Marcelo Migliaccio



A bateria tem até instrumento de sopro, um luxo só.

Foto: Marcelo Migliaccio


Homenagens a personagem folclóricos que fazem a cabeça...

Foto: Marcelo Migliaccio



Uma escola que desfila com o coração e se sacrifica por uns poucos dias de alegria dionisíaca.


Foto: Marcelo Migliaccio



Os carnavalescos estudam cada passo do desfile...


Foto: Marcelo Migliaccio


O carnaval é uma festa que acirra a libído, isso todo mundo sabe.


Foto: Marcelo Migliaccio

E a multidão delira!

Foto: Marcelo Migliaccio


Mas, tudo bem, se até a polícia vestiu as cores da escola...

Foto: Marcelo Migliaccio


É só sentar e assistir de camarote.

Foto: Marcelo Migliaccio







sábado, 12 de julho de 2014

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Sou Argentina!

Apesar de ter passado grande parte da minha infância e adolescência vibrando numa arquibancada, sempre tive plena consciência de uma coisa: não há nada mais inócuo que torcer.

Se torcida ganhasse jogo, China e Índia decidiriam todas as Copas do Mundo e, como sabemos, não é isso que acontece. Torcer é uma simples diversão, alguma coisa legal de fazer quando não se tem nada melhor pra fazer.

Por isso não torço mais, o que não me impede de apreciar com gosto bons jogos de futebol. E, no domingo, teremos um bom jogo, afinal é final de Copa do Mundo.

À minha volta, todos estão tomando partido. "Argentina ou Alemanha?", é a pergunta que mais se ouve "nas esquinas, nas retretas e nos velórios", como diria o mais citado cronista nacional, Nelson Rodrigues.

Eu gosto mais do futebol da Argentina. Jogam com técnica e com uma vontade contagiante. Dá gosto ver os argentinos em campo. Com eles não tem essa de apagão, podem até levar de 7 a 1, mas não com a pasmaceira com que perdemos para a Alemanha. E os torcedores argentinos torcem com uma paixão invejável, gritam, xingam, choram como tem que ser. Se é pra torcer, que subamos pelas paredes "como lagartixas profissionais", diria novamente o mais citado.

É comovente o esforço dos argentinos que vieram sem dinheiro, em ônibus e traillers velhos, estão há 25 dias comendo e dormindo mal, mas vieram.  A maioria nem tem ingresso, vê os jogos em pé, na rua, num telão. Podiam fazer isso na Argentina, mas vieram só para estar perto. Conta muito pra eles.

Os alemães são frios demais, cerebrais demais. Seu futebol é sem graça até quando enfiam 7 a 1. Se ainda tivessem um Beckembauer, um Gerd Muller, um Overath. E as palavras de consolo que dirigiram à nossa esfacelada torcida e ao desmilinguido time brasileiro soam mais como uma fria estratégia para ganhar a simpatia dos locais na decisão. Será mesmo que ficaram condoídos? Estão de verdade com pena de nós, ou enaltecem o futebol brasileiro da boca para fora? Em se tratando de alemães, jamais saberemos.

Já os argentinos não. São transparentes. Gozam pra valer os brasileiros, mesmo estando na nossa casa. Sem cerimônia, estendem suas faixas na Avenida Atlântica. Prefiro gente assim, pois também podemos gozá-los quando for a nossa hora. Claro, se ganharem a Copa aqui vão encher o saco, mas e daí. Pelo menos podemos dizer que não compramos a seleção do Peru para ganhar a nossa Copa, como eles fizeram em 1978. Até porque o Peru não se classificou desta vez...

Quem aí quer gozar um alemão? Não tem a menor graça...

Essa rivalidade entre brasileiros e argentinos deveria ficar só no futebol, mas irresponsáveis de ambos os lados da fronteira contribuem para que, vez por outra, isso acabe extrapolando. Somos povos latinos,  passionais, nossos dramas se parecem, ainda tentamos quebrar correntes e nosso maior adversário é o mesmo: a ignorância.

No íntimo, os argentinos admiram tanto nosso futebol quanto nós o deles. Como não torcer para o craque Messi e seus aguerridos companheiros? Como não se emocionar com um filme argentino?

Melhor eles que os alemães, sempre todos iguais em campo, previsíveis (exceto para o Felipão).

Nossos hermanos ficariam honrados em levantar a taça no Maracanã. E isso nos engrandece.

Foto: Marcelo Migliaccio

terça-feira, 8 de julho de 2014

1 a 7



Davi Luiz voltou pra minha lista de PEREBAS! Tava mais preocupado com sua imagem no telão do que com a goleada. Falhou em pelo menos dois gols, um tremendo marqueteiro.

Não teve nem graça. Um jogo de 26 minutos. Mal a semifinal começou e já estávamos liquidados. Mais uma vez sem meio de campo. Felipão entrou com três atacantes menosprezando a Alemanha. Sem Neymar tentando resolver sozinho, nossa única jogada era Davi Luiz lançando para os atacantes, um zagueiro armando o jogo é o fim. Basta olhar para o nosso técnico e vê-se que é totalmente desprovido de inteligência. Aliás, o presidente da CBF foi filmado roubando uma medalha, precisa dizer mais?

Foi a maior humilhação da história do futebol brasileiro. Resultado de longo prazo de um esporte dominado por empresários e jogado em função da televisão, com os clubes completamente dependentes e descaracterizados, tanto na estrutura quanto em seus lendários uniformes.

A torcida almofadinha mal educada desta vez, pelo menos, não vaiou o hino alemão como fez contra o Chile. Mordidos pelo desrespeito, nossos competentes adversários teriam feito não sete, mas 14 gols no Brasil...

E, como não entende nada de futebol, a massa mauricinha elegeu Fred para Cristo. Em 1950, foi Barbosa. Agora é o Fred, que só recebeu uma bola boa na Copa e fez um gol. Mas o Bernard jogou alguma coisa? O Hulk? O Oscar? E o Davi Luiz? E aquele monte de volantes sem técnica nem imaginação?

Opositores radicais cantam em meio à algazarra alemã na cidade.

_ Dilma falhou no terceiro e no quarto gol deles! _ teria gritado um certo candidato a presidente durante uma animada festinha em Angra dos Reis.

Nada como um dia após o outro. A oposição que já acusava o governo de estar faturando com o sucesso da Copa agora vai deitar e rolar no fracasso canarinho: "O povo está triste"... "quer mudança"... "o viaduto caiu"...

Guerra é guerra.

A verdade é que nosso time foi ridículo na Copa. Empatou com o México, quase perdeu para o Chile e só ganhou da Colômbia porque Davi Luiz acertou aquele chute improvável. Não chegar à final numa Copa em casa já seria péssimo. Sair com uma goleada dessas então...

Só falta tomarmos uma coça da Argentina no sábado... ou ver os hermanos levantarem a taça no Maracanã domingo.

Agora, cá entre nós, é só um jogo, não muda nada na vida de ninguém.



Foto: Marcelo Migliaccio

A "nova era" na Justiça...

Já soltaram, em menos de 24 horas, o inglês apontado pela polícia como um dos chefes da quadrilha de cambistas da Fifa.

Essa é a Justiça brasileira, que só prende petistas, pretos e pobres. Para os amigos do sistema, habeas corpus instantâneos. E, sabe como é, a Fifa tem parceiros importantes por aqui, a coisa estava chegando perto demais dos chamados intocáveis...

Joaquim Barbosa foi o homem, que, segundo a revista que pensa que o leitor é cego, acabou com a impunidade dos tubarões nos nossos tribunais. O tempo mostra que tudo não passou de mais um factóide para idiotas devoradores de novela engolirem.

Tudo continua do mesmo jeito no Judiciário. Pobre polícia, pobre Ministério Público, humilhados novamente. Um habeas corpus tão rápido simplesmente desmoraliza toda a investigação policial.

Agora, Barbosa, o mito, voltou atrás na sua aposentadoria do STF para poder influir na própria sucessão. Bem ao seu estilo, ele nem se preocupou em comunicar ao vice-presidente do STF que adiara seu pedido de afastamento... Há quem aposte que ele foi pressionado pelos seus entusiastas a tentar deixar no comando do Supremo outro baluarte da mesma estirpe.


domingo, 6 de julho de 2014

O dia em que encontrei o carrasco

Assis nunca foi um craque, mas dois gols em decisões contra o Flamengo fizeram dele um dos maiores ídolos da história do Fluminense. O ex-jogador, excelente cabeceador, diga-se, morreu, aos 61 anos, na madrugada deste domingo, em Curitiba, onde estava internado com problemas renais.

Há cerca de um ano, eu passava de bicicleta por Copacabana (sempre Copacabana) e vi que Assis e Romerito, outro ídolo tricolor dos anos 80, participavam de um evento promocional do Fluminense. Muito simpáticos, eles posaram para esta foto comigo, e hoje ela adorna minha casa num porta-retrato.

Comentei com Assis que algumas vezes o vi, junto com Branco, Tato e outros jogadores do Fluminense, na boate Studio C, uma das mais badaladas da época em que ele estava no auge da carreira. Ele se divertiu com a lembrança, e eu disse que nunca tinha visto Romerito por lá.

_ É que ele ficava escondido embaixo da mesa! _ brincou Assis, ao lado do paraguaio, que deu risada.

Adeus, Assis, carrasco implacável do Flamengo.

Arquivo pessoal/Marcelo Migliaccio
Foi um encontro inesperado com dois dos meus maiores ídolos, Romerito e Assis




sábado, 5 de julho de 2014

Por que não prenderam o colombiano?

Foi um crime. O colombiano que atingiu Neymar pelas costas, com uma joelhada na coluna vertebral, deveria ser autuado por lesão corporal grave. Não entendo por que um crime cometido durante uma partida de futebol não é punido na justiça comum. Zúñiga não deveria ter ido para o hotel depois do jogo, e sim para a delegacia. Foi lesão corporal grave e dolosa!

Fico imaginando o drama do Neymar. Até anteontem estava correndo, driblando, chutando, andando de iate. Agora está numa cama e mal pode se mexer por causa das dores. Rico, mas quebrado.

Isso é o futebol. Isso é a vida.

Outro drama: morreu o avô do lateral Marcelo, simplesmente o homem que o criou e fez os maiores sacrifícios para levá-lo ao Fluminense ainda criança. Marcelo é um craque, mas, como disse o técnico da Argentina: "um grama de neurônio pesa mais que cem quilos de músculos". Sábio homem.

O Brasil jogou bem, pela primeira vez nesta Copa, teve meio de campo. Também jogou com raça, porque ninguém ganha da Colômbia, do Uruguai ou da Argentina sem raça. Do Chile ainda vai... mesmo assim quase perdemos.

Queimei a língua. Tinha colocado Davi Luiz na minha lista de perebas, mas com aquele gol de falta, ele passou a ser craque. Assim é o futebol, de perna-de-pau a craque num segundo. E queimar a língua é inerente a esse esporte imprevisível. A contradição é a tônica no buteco, na banca de jornal da esquina. Ninguém sabe nada, mas todo mundo dá palpite. Cada um tem um veredito, uma sentença sobre o que quer que diga respeito ao esporte bretão.

Viva Davi Luiz, meu ex-pereba.

Nunca vi um chute daqueles, de chapa, com a parte interna do pé, de tão longe e com tanta força. Normalmente se bate de chapa um pênalti, curta distância, mira certeira no canto. Mas de 30 metros, aquela pancada, a bola não girou na própria circunferência, foi o chamado canudo. E com uma parábola genial que a fez entrar no ângulo quando todos pensamos que passaria por cima do gol.

Viva Davi Luiz. Um golaço!

E eu fico aqui, feliz da vida e com a língua queimada.

Ah, tem alemão levantando a taça no Leme. Vão ter que passar por cima do Brasil na terça...

Foto: Marcelo Migliaccio
Campeões das caipirinhas, eles já são...

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Gol de placa da polícia

O gol mais bonito desta Copa do Mundo não foi feito por Messi, Neymar ou Cristiano Ronaldo. Foi da Polícia Civil do Rio, que, com o Ministério Público, prendeu uma quadrilha graúda que fraudava a venda de ingressos há quatro copas.

Os mafiosos, liderados por um argelino que vivia como rei, foram presos justamente no Brasil, país conhecido pela corrupção, impunidade etc. Nossa polícia foi padrão Fifa e desbaratou esse esquema milionário de venda de ingressos, que rendia, pasmem, R$ 200 milhões por mundial, o suficiente para que a quadrilha passasse os quatro anos seguintes sem "trabalhar".

Segundo o promotor do caso, as escutas telefônicas mostram que o esquema tem raiz dentro da própria Fifa, entidade que chegou ao Brasil dizendo que o governo merecia "um pontapé no traseiro" por causa do atraso das obras. Aliás, os aeroportos e os estádios estão aí, ao contrário da previsão da revista semanal que pensa que o leitor é cego. No auge da sabotagem, ela publicou que a obras só ficariam prontas em 2038 (alguém ainda acredita nessa revista?).

Voltando ao esquema fraudulento da Fifa, as escutas revelaram também que teve gente da comissão técnica da seleção brasileira repassando ingressos de cortesia para que os cambistas vendessem. Se a Justiça apertar, o negócio vai feder ainda mais...

Quanto aos 11 presos, como não são do PT, logo um juiz brasileiro vai soltá-los.

Não importa, o gol de placa da nossa polícia e do nosso Ministério Público foi marcado.

A Copa é um sucesso, os estrangeiros estão adorando a festa. Se a iniciativa privada que vai administrar os estádios não der calote no governo, o dinheiro investido voltará aos cofres públicos.

E a imprensa tucana mais uma vez pagará um mico enorme por ter apostado no fracasso da Copa no Brasil.