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terça-feira, 22 de julho de 2014

Bukowski derrota Mao

Larguei pelo meio as biografias de Mao Tse Tung, Zhou Enlai e Chaplin. O motivo foi que Charles Bukowski me arrebatou. Quem quer aprender a escrever deve comer Bukowski com farofa de ovo. Seu estilo é inconfundível, delicioso e temática mais humana e despojada que a dele não há. Bukowski nos reduz ao nosso verdadeiro tamanho e assim, paradoxalmente, nos mostra a grandeza que podemos atingir ao aguçar nosso senso crítico sobre nós mesmos e a vida que levamos. O texto flui, porque ele escreve como se fala, que, em síntese, é como se deve escrever. Suas palavras, ao mesmo tempo que leves, têm um peso, uma densidade que as torna fundamentais.

Eis um trecho do conto O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio. Diz muito não só sobre o ofício de escrever, mas sobre a criação artística e o mercado.

"(...) Escrever pode ser uma armadilha. Alguns escritores tendem a escrever o que agradou seus leitores no passado. Daí, estão fodidos. A criatividade da maioria dos escritores tem vida curta. Ouvem os elogios e acreditam neles. Há apenas um juiz final do que foi escrito, que é o escritor. Quando é influenciado pelos críticos, editores, leitores, está acabado. E, é claro, quando for influenciado por sua fama e sua fortuna, você pode mandá-lo flutuando rio abaixo junto com a merda.

"(...) Não há nada que impeça um homem de escrever, a não ser que ele impeça a si mesmo. Se um homem quer realmente escrever, ele o fará. A rejeição e o ridículo apenas lhe darão mais força. E quanto mais for reprimido, mais forte ele se torna, como uma massa de água forçando um dique. Não há perdas em escrever; faz seus dedos dos pés rirem enquanto você dorme; faz você andar como um tigre; ilumina seus olhos e coloca você frente a frente com a Morte. Você vai morrer como um lutador, será reverenciado no inferno. A sorte da palavra. Vá com ela, mande-a. Seja o Palhaço das Trevas. É engraçado, é engraçado. Mais uma linha..."



5 comentários:

  1. Enquanto você escrevia, mais um avião pousou no aeroporto do Aécio! ;-)

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  2. Li o texto, mas nem sei o que comentar. Como disse o Jorginho sobre a volta do Dunga à seleção
    "nada como um dia após o outro".

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  3. Nada como alimentar a alma com arte ou com palavras que entram como luzes faiscantes no breu das nossas brenhas mentais, na minha desimportante conceituação. Isto acontece quando lemos , p.ex., o excepcional Bukowiski , que foi uma criança atormentada por um pai extremamente autoritário , frustrado e alcoólatra violento, que descontava os seus problemas espancando-o pelos motivos mais fúteis. O ódio por seu pai foi o combustível do seu talento nato, senão vejamos:

    O amor é uma espécie de preconceito. A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse? Mas a gente nunca conhece.

    Bem, todos morrem um dia, é simples matemática. Nada de novo. A espera é que é um problema.

    Beleza não vale nada e depois não dura. Você nem sabe a sorte que tem de ser feio. Assim quando alguém simpatiza contigo, já sabe que é por outra razão.
    Literatura é que nem mulher: quando não presta, nem vale a pena perder tempo.

    Definição de bom bairro: lugar onde a gente não tem condições econômicas para morar.

    Nunca espere demais, da sorte ou dos outros, no fim não há quem não decepcione você.

    Quando a verdade de outra pessoa fecha com a sua, e parece que aquilo foi escrito só pra você, é maravilhoso.”

    Esse é o problema com a bebida, pensava, enquanto enchia o corpo. Se acontece uma coisa boa, você bebe pra comemorar; se não acontece nada, você bebe pra que aconteça alguma coisa.

    Se o homem pode fazer apenas uma pessoa feliz durante toda uma vida, então sua vida foi justificada.

    “A Bíblia diz: 'Amai ao próximo.' - Isso poderia significar algo como: 'Deixe-o em paz.'”

    O que eu odeio é que algum dia tudo se reduzirá a nada, os amores, os poemas. Acabaremos recheados de terra como um taco barato. Que coisa mais triste, tudo é tão triste - a gente passa a vida inteira feito bobo pra depois morrer que nem besta.

    Não há nada que ensine mais do que se reorganizar depois do fracasso e seguir em frente.

    É possível amar o ser humano caso você não o conheça tão bem.

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  4. Conheci Bukowski nos anos 80 no auge da juventude,me dizia muito naquela época de pouca responsabilidade e grandes dramas existenciais;agora já ''tiozinho'' como no outro texto do Marcelo,me diz muito mais!!!!
    J.Leão

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