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domingo, 2 de agosto de 2015

As garras do leão

Quando trabalhava no Jornal do Brasil tive o prazer de entrevistar um dos ícones da minha infância: o domador Orlando Orfei, que morreu hoje aos 95 anos. Em 2007 ou 2008, não me lembro, ele já não se apresentava com grandes felinos. Com a saúde debilitada, apenas administrava seu lendário circo, então em decadência justamente pela proibição de uso de animais em várias cidades, entre elas o Rio.

Sentado numa cadeira no centro do picadeiro, ele me esperava. Em volta, arquibancadas completamente vazias numa tarde cinzenta de um dia de semana, ali mesmo, na não menos lendária Praça Onze.

_ Luce (luz) !!!  _ gritou para alguém atrás das cortinas.

Iluminado, respondia às minhas perguntas com uma indisfarçável melancolia.

_ É uma burrice proibir animais no circo _ desabafou.

E falou de sua longa convivência com leões e tigres.

_ É melhor levar uma mordida de um leão do que experimentar suas garras. Elas te rasgam!

Fiquei olhando aquele homem fragilizado a falar de sua longa história e do número incontável de países onde sua caravana armou a lona durante mais de quatro décadas (talvez cinco).

E me lembrei daquela mesma voz ecoando nos meus ouvidos durante o intervalo de uma matinê a que assisti em meados dos anos 70, junto com meus pais, que, felizmente, me levavam a todos os circos que aportavam no Rio.

_ Una foto com lo leone! Una foto com lo leone! _ anunciava Orfei pelos alto-falantes.

E as crianças _ eu entre elas _ formaram uma fila diante de um empregado do circo que carregava um lindo filhote de leão preso em seu pulso por uma grossa corrente. Ao lado dele, um fotógrafo registrava, mediante o pagamento de algo em torno de R$ 10, a criança com o leãozinho entre os braços. Na verdade, quem segurava  o animal ainda era o funcionário, que se esquivava ao máximo para não aparecer na foto.

Durante anos, guardei a minha fotografia naquele momento mágico, mas ela se perdeu. Pode ser que esteja dentro de algum fascículo da enciclopédia Barsa.

Como um dia, infelizmente, se perderá na memória o grande Orlando Orfei.


7 comentários:

  1. A prefeitura, inimiga da população como sempre, proibiu o que o povo adorava, principalmente as crianças, que era a apresentação dos animais nos circos, por pura incompetência de fiscalizar quem maltratava os bichos, resolveu proibi-los.
    Com exceção do Cirque du Soleil que é um absurdo de caro, até hoje frequento circo com meu filho, mas quem viu Carequinha e os animais no picadeiro, não pode esquecer um ícone como Orlando Orfei.Também ia sempre ao Tívoli parque, que também era dele.
    Cury

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  2. Nada mais primitivo do que um circo com animais. Um bom circo pode sobreviver tranquilamente com bons palhaços, trapezistas e.mágicos. Já assisti grandes espetaculos nos quais animais não eram maltratados, pelo simples fato de ser tirado de seu ambiente natural. Orlando Orfei faliu por não saber se adaptar aos novos tempos. Se formos defender o uso de animais selvagens em circos em nome da tradição daqui a pouco teremos gente defendendo coisas como a escravidão ou a extirpação de clitóris feitas em alguns países da África.

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  3. Por falar em animais, vi uma foto muito engraçada:
    Finalmente prenderam um tucano (PSDB).

    http://blogdosimao.blogosfera.uol.com.br/
    Cury

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  4. Eu também sou contra o uso de animais. A maioria sofre maus tratos nos circos, é muito complicado fiscalizar, então é melhor proibir.

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  5. Tenho ótimas lembranças deste tipo de circo "orlandorfeiano".Vi todos os espetáculos dele ...que pude. O Fellini foi , igualmente, apaixonado por circos. Quando morei, na infância, no interior de Minas, adorava até os circos mambembes que por exibiam seus espetáculos.

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  6. Uma vez vi um domador espetar tanto os testículos de um elefante que o pobre animal defecou no picadeiro de tão nervoso. Acho que os circos poderiam se manter sem os bichos, como o maravilhoso Circo da China, por exemplo. Os mambembes também têm seu encanto.

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