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sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O super-herói


Reprodução do livro

Futebol não se aprende. Você joga ou não joga. Aos 3 anos, Roberto Rivellino já chutava do seu jeito mágico. Sua carreira foi tão brilhante, a tantos ele encantou mundo afora, que agora sua vida virou um livro. Um craque como Rivellino já nasce no auge, pronto, um campeão.

Reprodução do livro


Eu era o segundo da fila. Na minha frente, um quase eu. Nasceu no mesmo ano, quatro meses depois de mim, tricolor, claro, apaixonado por Rivellino desde a mais tenra infância. Enquanto o ídolo não chega, meu novo-velho-amigo me conta sua história com o dono da perna esquerda mais genial do mundo:

_ Quando eu tinha 12 anos, estava saindo com meu pai do Maracanã e o Rivellino vinha saindo também. Eu estava chupando um picolé e ele chegou e disse pra eu pagar um sorvete pra ele. Meu pai pagou um picolé de limão pro Rivellino!

Eu disse pra ele lembrar isso na hora em que o gênio da bola fosse autografar seu livro, embora eu saiba que todo ídolo, no fundo, despreza os fãs. Atrás de nós, surge o terceiro da fila, um senhor careca e de óculos. Sério.

_ Mais um fã do Rivellino... _ puxo assunto.

_ Joguei com ele _ diz o sujeito, com voz mansa.

_ Peraí, eu te conheço de algum lugar... você...

_ Zé Roberto.

_ Caramba! Você é o Zé Roberto?

_ Sim, vim lá de Três Rios.

_ E eu vim de Teresópolis _ diz meu novo-velho-amigo tricolor.

E ficamos lá, ouvindo as histórias que o Zé Roberto contava de sua convivência com Riva na Máquina de 1975. Ele lembra a única vez em que ousaram colocar o craque do time no banco de reservas. Foi num amistoso, no Maranhão talvez. Zé, então um garoto, aproveitou para tintar o ídolo que nunca sentava ali ao seu lado. Pegou um cadarço da chuteira, imitou o bigode famoso do companheiro e pediu que tirassem uma foto...


Reprodução do livro

O técnico Jair da Rosa Pinto, que cometeu a heresia de barrar um gênio, foi demitido assim que desembarcou no Rio.

Mais gente vai chegando à livraria, repórteres, cinegrafistas, tricolores de toda a Terra...


Foto: Marcelo Migliaccio

De repente, vislumbro o bigode inconfundível lá na entrada.

_ O homem chegou!


E lá vem o Rivellino, com aquele andar característico de boleiro das antigas, jogando as pernas como se estivesse se aquecendo para entrar em campo. Mas o tempo passou, o show nos campos terminou, segue apenas na nossa memória, pra sempre. O Garoto do Parque agora é um senhor, calvo, barriga saliente, muitas rugas que nos contam o início fulminante no Corinthians, a perseguição da Fiel, a redenção no Rio, três Copas do Mundo, vida de sheik na Arábia Saudita...

Evidentemente, também as benesses da fama. Zé Roberto entrega:

_ Uma vez o Riva chegou doido na concentração, disse que tinha ido ver uma peça e depois jantar com alguns atores e atrizes. Aí, ele sentiu que uma atriz, casada, o acariciava com o pé por debaixo da mesa. Essa atriz era linda...

Rivellino abraça o velho companheiro. Os dois se emocionam. Nós também.


Foto: Marcelo Migliaccio


Aparece Francisco Horta, o ex-presidente do Fluminense que revolucionou o futebol do Rio ao contratar o então melhor jogador do mundo. O visionário Horta, que deu a todos nós o melhor presente naquele Natal de 1974.


Foto: Marcelo Migliaccio

E, para o presidente, uma dedicatória especial...


Foto: Marcelo Migliaccio

Olho fixamente aquele homem autografando livros. Vejo meu passado, minha infância, aqueles anos felizes em que eu me imaginava ele nas peladas da pracinha. Volto aos meus 12 anos. A fila está grande. Um monte de marmanjos de 12 anos de idade, alguns de camisa do Fluminense, todos vivendo um delicioso transe.

Além de fazer o que queria com a bola, Rivellino faz o que quer com o tempo... coisa que só um super-herói faz.


Foto: Marcelo Migliaccio



3 comentários:

  1. Belo texto, mas não querendo ser espírito de porco, só faltou comentar sobre aquele episódio de Ramirez do Uruguai colocando Rivelino para correr, em pleno Maracanã lotado.
    A cena vista por milhões de telespectadores ao vivo com certeza manchou sua carreira.
    Cury

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    Respostas
    1. O reencontro não demorou. Um ano depois (1977), Ramirez foi contratado pelo Flamengo, clube pelo qual guarda enorme carinho e grandes lembranças. Quando realizava exames na Gávea, a Seleção Brasileira treinava no local. Ao ver Rivellino, então craque do Fluminense, Ramirez não pensou duas vezes:
      Ramirez, sobre o primeiro reencontro com Rivellino depois da confusão
      - Eu pedi desculpas para ele, disse que era romântico, que gostava de bolero, de violão. Ele me respondeu dizendo que adorava passarinhos. Nos abraçamos, foi tudo muito legal. Depois, no Fla-Flu seguinte, fomos recebidos por duas mulatas gigantescas com buquês de flores para selar a paz. Tudo na base da alegria. Quando eu saía para marcar o Riva, ouvia os gritos da geral: 'Pega ele, pega ele.' A gente achava graça. Hoje me arrependo muito daquilo. Não é meu cartão de visitas.

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  2. Já disse aqui e repito que são paulino que sou,meu sonho era ter o Riva no tricolor paulista,sonho que foi realizado numa única partida senão me engano contra a seleção da Arábia saudita nos anos 80,inesquecível,imagino pra vocês tricolores cariocas,abraço.

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