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sexta-feira, 17 de maio de 2013

Homenagem póstuma a uma paixão nacional

Já viu quanto vão custar os ingressos no novo Maracanã?!

Trata-se da última etapa do processo de elitização do futebol iniciado em 1987, quando uma emissora de TV e uma fábrica de refrigerantes arrendaram o esporte mais popular do Brasil e criaram a Copa União, da qual participavam apenas os times de maior torcida (mercado consumidor, quero dizer...).

Nessa virada de mesa absurda e indecente, a CBF jogou para a segunda divisão clubes de tradição, como o América do Rio e o Guarani de Campinas, vice-campeão brasileiro da primeira divisão no ano anterior. Esses dois clubes nunca mais se recuperaram da rasteira aplicada pela CBF, pela TV e pelo refrigerante. Hoje, beiram a falência, para tristeza de seus torcedores e de todos que amavam o futebol como esporte (agora virou negócio). Já o Coritiba, que tinha sido rebaixado em 86, subiu para a primeia divisão na indecente Copa União de 87, o ano em que assassinaram o futebol brasileiro.

É bom lembrar que o futebol chegou ao Brasil como esporte de elite no início do século passado, mas acabou adotado pelo povo mais pobre, pois, ao contrário do remo e do cricket, exigia apenas uma bola feita de papelão e meia para ser praticado. Os negros conquistaram seus lugares nos clubes e foi negro o maior jogador de todos os tempos, Pelé.

Com o mercantilismo que tomou conta da paixão nacional, o futebol vira cada vez mais, novamente, um esporte de elite. Repare nas imagens das arquibancadas hoje em dia: não se vê mais negros nas torcidas. Há muito, eles já não têm dinheiro para pagar os caros ingressos. Apesar de toda a transferência de renda dos últimos anos, ir ao futebol agora é um programa para a classe média alta, como ir ao teatro. E a classe média alta ainda é predominantemente branca. A meta dos executivos é que o povão assista as jogos pela TV enquanto os almofadinhas e as patricinhas fazem pose nas cadeiras dos estádios.

O Maracanã foi entregue de mão beijada pelo governador elitista do Rio a meia dúzia de mauricinhos, que agora são os donos daquele que foi um monumento do povo carioca, do povo brasileiro. Pode até ter ficado lindo depois das reformas bilionárias que fizeram a alegria das empreiteiras, só que não é mais o nosso Maracanã. Agora, com esse preço anunciado, ainda mais alto do que o que já se vinha cobrando, o povo não entra mais. Assiste aos jogos em casa, pela TV Monopólio, ou na calçada, diante de um botequim cujo dono comprou o pacote pay per view _ até os nomes ingleses voltaram, como no tempo em que Charles Muller trouxe a primeira bola ao país que se tornaria professor de futebol no planeta.

E o pior é que ninguém fala nada na mídia, ninguém reclama desse absurdo, porque ninguém ousa desafiar a emissora dona do futebol, que é parceira de fé do governador elitista, da Fifa e dos mauricinhos que agora são os senhores daquele maravilhoso estádio que um dia esteve no coração de todos os cariocas. Ninguém pode por a mão na taça da Copa das Confederações, só o Galvão Bueno. Nem Mario Filho, o cronista esportivo que deu o nome ao Maracanã, se vivo fosse, reclamaria do apartheid econômico no novo estádio, porque o irmão mais famoso de Nelson Rodrigues, provavelmente, também usaria um crachá da detentora dos direitos de transmissão.

O ministro do Esporte, Aldo Rabelo, deveria mostrar que é mesmo comunista e intervir nesse absurdo, criar um setor popular permanente. A muito custo, e com a oposição da colonizada mídia antipetista, ele conseguiu uma cota da Fifa para a beneficiários do Bolsa Família durante a Copa do Mundo. Mas e depois? Só vai entrar mauricinho no estádio?

Parece que está todo mundo enredado nessa engrenagem cujo cifrão é a mola mestra. Um pai que queira levar seus dois filhos para ver o jogo da seleção brasileira contra a Inglaterra, na reinauguração oficial, vai gastar R$ 270 só para entrar _ um reles saco de pipoca custará R$ 10.

Aí vem um desses caras do governo estadual tentar justificar a reforma bilionária, dizendo que quem ia na geral ficava levando xixi na cabeça vindo da arquibancada. Isso é uma questão de educação, não de estrutura do estádio. E dizem também que os banheiros do estádio sempre foram imundos. Para limpar os banheiros não era preciso gastar mais de R$ 1 bilhão...

Na primeira vez em que pisei no Maracaná, no jogo Brasil x Bulgária, em abril de 1974, fiquei maravilhado. Vi todos os extratos da sociedade brasileira ali, ao meu redor, curtindo a magia de uma partida de futebol. Haviam setores para todos os poderes aquisitivos. Na geral, pagava-se três cruzeiros para ver o jogo em pé, abaixo do nível do campo, com o pescoço esticado mas feliz da vida. Via-se a chuteira de seu craque preferido ali, bem perto, sentia-se a emoção de um jogo jogado com o coração. Não era como hoje, com jogadores mercenários e sem nenhum vínculo afetivo com os clubes, que agora vendem seus lendários uniformes para que grandes empresas estampem suas marcas. Os de agora são atletas sem alma, que nem ligam de jogar para arquibancadas vazias, já que pelo preço de um ingresso é possível comprar todos os jogos do campeonato para ver sentado no sofá de casa.

Esse novo Maracanã é o símbolo maior da morte do futebol romântico tal qual os que têm mais de 35 anos o conheceram. Tenho pena das crianças de hoje, principalmente das mais pobres, que jamais sentirão a alegria que eu senti naquela tarde de abril de 1974. A elas, só restam os videogames...

Maracanã/Foto tirada por Marcelo Migliaccio aos 9 anos de idade
O primeiro jogo que eu vi no Maracanã: Brasil 1 x 0 Bulgária, em 1974. O gol foi de Jairzinho. Como eu estava feliz naquele dia!


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O meu Maracanã

23 comentários:

  1. O nosso governador (sempre ele) premeditou tudo, depois de fazer a reforma bilionária no Maraca, entregou de presente as chaves para os amigos Eike Batista e Odebrecht, claro que o preço do ingresso iria disparar.

    Tenho saudade da época em que o locutor dizia:
    " Suderj informa: público pagante..."

    Cury

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  2. Quantas vezes eu fui ao maraca na geral(não precisava,sou de classe média), para esperar uma bola perdida e poder chutá-la,era um sarro!roberto vianna.

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    1. Também fui muito de geral, mas nunca consegui dar um chute na pelota...

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  3. Poucas vezes vi tanta besteira escrita num só texto. Daqui a pouco o fracassado jornalista vai defender que voltemos a residir em cavernas, a ter cavalos como único meio de transporte e passemos a jantar a luz de velas , abrindo mão de energia elétrica, apenas porque ele acha romântico.

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    1. Sugiro voltarmos ao escambo, o que vc acha?

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    2. Será que o amigo "anônimo" ainda continua pensando o mesmo? Será que teve dinheiro para assistir algum jogo da Copa das Confederações?

      Parabéns Marcelo, mais uma bela reflexão!

      Cadu Hildebrandt - Saquarema - RJ

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  4. Vejo um pouco de nostalgia nessas manifestacoes. Tirando o preco caro do ingresso e as maracutais do governasor confesso que vi muito jogo na geral, mas nao morria de amores pelo local, onde ficavamos o tempo todo com o pescoco esticado e sempre exposto aos banho de urina que vinham da cadeira ou arquibancada. Por tudo isso eu morria de inveja de amigos que tinham assistido jogo na Europa e me relatavam o quanto era bom poder comprar ingresso com lugar marcado e ter alguem para te levar ate o seu lugar. Os arroubos de nostalgia sao tao grandes que outro dia ouvi na TV alguem falar que tinha saudade de ver um homem de cor que sempre ia de geral e fazia questao de sorrir para a camara com sua boca banguela. Espero que a melhoria que o Pais apresentou nos ultimos dez anos tenha permitido a esse cidadao negro a realizacao de um tratamento dentario.

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  5. Uma vez estava na geral, e vi algumas pessoas pulando para a cadeira, ai eu também resolvi pular, 2 PMs me pegaram e de sacanagem me deixaram sentado no chão, de costas para o gramado até o jogo acabar.
    Sai de lá muito p da vida, ao menos o Mengão ganhou a partida.

    Por acaso, semana passada, estava em um churrasco com uns amigos e um deles que estava comigo no Maraca, lembrou desse triste episódio, foi uma gargalhada geral, depois de mais de 30 anos !!

    Cury

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  6. O carnaval não é mais do povo, nem o futebol. Daqui a pouco vão se apoderar do samba!

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  7. Poxa, Marcelão! Parabéns pelo texto. Se você permite que seja feito um resumão sobre o teu texto seria:"O dinheiro comprou tudo e todos.". Ninguém quer privatizar o Sousa Aguiar? Salgado Filho?, assim poderiamos oferecer padrão "Europeu" de atendimento para a população da cidade mais alegre do mundo.

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  8. Marcelão, e esta do pré-candidato almofadinha dizendo que: "O PT faz gerência da pobreza". E o partido deles,faz gerência da Elite?

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    1. Os tucanos vão ter que amargar mais quatro anos de Dilma e outros oito de Haddad depois... isso se o Lula não quiser mais se candidatar...

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  9. Acho que se Lula estiver bem de saude, depois do segundo mandato da Dilma ele deveria pegar pelo menos mais quatro anos de presidencia. O desespero eh tanto que a fabrica tucana de boatos esta espalhando que o bolsa familia vai acabar.

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    1. Esse boato parece coisa do Serra

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  10. Fala jornalista meu camarada jornalista! Tranquilidade? Estou aqui lendo o JB e vendo as merdas do governo Cabral e do governo Paes finalmente serem tacadas no ventilador. Esta divertidissimo. Agora lendo essa sua postagem sobre o maracanã eu lembrei de quando você defendeu o Paes no blog logo depois da eleição do gabeira. Não é triste saber que o ovinho da cobra chocou justamente na primeira reforma do maracanã? lembra?! Foi de la que o eduardinho veio. Mal posso esperar para ver toda a bosta que var sair daquela velha invasãoo complexo do alemão, da relação amistosa que o Pezão tinha com o Pezão, do assalto que a oderbrochant fez nesse estado,etc. Lembrei também de uma entrevista meio crítica que você deu a pouco tempo antes de sair do JB no qual você dizia que a principal renda do jornal vinha de enventos (leia-se patrocinios). Ahhhhhhhh..sim...como eu gostaria de te ver afiar a caneta e tacar algumas coisas desses anos de degenerado em que trabalhou para jornais em um livro! Mas em fim...que bom que esta regenerado. Parabéns pelo blog que sempre foi ótimo, tirando é claro aquela postagem elitista e rídicula sobre um passeio na supervia. Espero que já tenha arrumado uma namorada e largado de estresse. Caso não, saiba que a bodwaiser esta R$ 5,50 no unico boteco verdadeiro da urca.

    Uma braço de um velho troll frequentador de seu blog. Drapetomaniaco!

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    1. Um livro sobre minha experiência em grandes redações? Quem sabe...

      Sim, estou feliz no amor... e já a levei para um passeio elitista pela Supervia...

      Cheguei na Urca há 42 anos e nunca conheci um boteco verdadeiro por aqui... ainda mais que venda essa marca de cerveja.

      Abração

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  11. Oi Marcelo,

    Sabe, eu nem ia no Maracanã assistir aos jogos. Não tenho isso na minha história. Uma prima minha adorava ia ver o nosso flamengo, mas eu não ia. Só fui fazer provas. No entanto eu estou indignada com essa operação que tornou o Maracanã privativo de uma meia dúzia. Eu acompanhei o processo pela imprensa. E a impressão que eu tive foi que, literalmente da noite pro dia esse final infeliz foi firmado. Eu não entendi nada. E fiquei pensando no que aconteceu durante esta noite. Mas eu sou meio ignorante nesta área mesmo.

    Enfim, sinto um desgosto, que nem sei explicar direito. Acho que é por ver algo virar inacessível pra tanta gente. Essa perda. Talvez tenha a ver com pertencimento, com paixão nacional, sei lá. Eu vi um depoimento do Chico Buarque falando "O Maraca é nosso", e tantos e mais tantos outros com este sentimento, e isso valia pra mim, também.

    Mas eu tenho um consolo, que é pensar com todo o carinho do mundo na força do meu voto.
    A gente não pode esquecer o que alguns políticos (ou será a maioria?)fazem, com o poder que lhes é delegado.

    Outro consolo, é fazer um agrado ao meu coração lembrando da minha alegria quando o Lula ganhou, a Dilma ganhou, o Haddad ganhou, etc. E como o Lula continua a ser referência de esperança e de possibilidades, pra mim, e acho que pra muitos.

    Beijos,

    Sandra

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    1. Eu sempre quis que minhas cinzas fossem jogadas no Maracanã, onde vivi alguns dos melhores momentos da minha vida,. Mas não nesse Maracanã, naquele...

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  12. Marcelo, você disse quase tudo, mas um grande crime, que passou despercebido, foi a redução absurda do tamanho do campo em nada menos que 1.110 m2, pois "roubaram" 5m no comprimento e 7m na largura. Isso faz uma enorme diferença e era uma vantagem dos times do Rio quando enfrentavam visitantes retrancados. Os times do Rio, sobretudo Flu e Fla ( e agora o Botafogo também, depois do mico do teto do Engenhão),foram e serão muito prejudicados com esse ex-maior estádio do mundo. Tenho quase 52 anos e sendo tricolor, vi vários jogos com mais de 100 mil pessoas. A capacidade máxima agora é de cerca de 70 mil. Ridículo! São os criminosos associados de sempre... Um abraço, André Guimarães

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    1. Bem lembrado, a redução do gramado. Agora, o de Moça Bonita eh o maior do Rio...

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  13. O último comentário foi deletado indevidamente, peço ao leitor que o envie novamente.

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