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quarta-feira, 14 de março de 2012

Jornalismo para iniciantes

Por uma molecagem do destino, caiu-me nas mãos a edição desta semana daquela revista que pensa que o leitor é cego.

Depois de passar de passagem por páginas e páginas de anúncio, que mostram quem são os verdadeiros donos de qualquer meio de comunicação privado, cheguei ao editorial, que eles chamam de Carta ao Leitor e que, sabendo a imagem que a revista tem de seu público, me surpreendi por não estar escrito em Braille.

Com uma foto da presidente Dilma chorando em recente cerimônia de troca de ministro, o sempre deliberadamente míope semanário ataca o governo dela, bem como os de Lula, o que não é novidade. Critica a coalizão montada pelo Executivo para ter maioria no Congresso e, assim, aprovar seus projetos. Diz que essa prática, usada em qualquer regime democrático, gera apadrinhamentos e corrupção (como ocorreu nos governos do PSDB, aliás, só que com menos gente sendo presa ou demitida).

Em suma, na primeira metade do texto, a revista para quem somos todos caolhos, surdos, mudos e retardados, prepara o que vem a seguir. E é aí que ela se revela.

Afirma o texto que Dilma deveria usar sua ampla base de apoio para "fazer as reformas pelas quais o Brasil todo clama" (bonito isso...)

E, veja só, a revista começa a enumerar suas prioridades, que, felizmente, não são as de Dilma Rousseff:

"(...) reformar as leis trabalhistas brasileiras dos tempos do fascismo e, assim, baratear o custo da mão de obra" - Ou seja, a revista quer que você, trabalhador, dê menos despesa ao seu patrão, possivelmente deixando de receber adicional de 30% nas férias, aviso prévio de 30 dias, multa de 40% no FGTS em caso de demissão sem justa causa.

"(...) acabar com a injstiça tributária (...)" - Claro, o choro de todo o sovina, que diz que vende caro porque paga impostos demais. Gozado é que, quando cortam os impostos, ele continua vendendo caro e põe no bolso a diferença...

"(...) reduzir o gigantismo do estado" - Aqui a meta é que seja vendido o que resta do patrimônio brasileiro, mas o estado brasileiro somos nós. A Petrobras, uma das maiores empresas do mundo, é minha e sua, no entanto eles querem que seja vendida a preço de banana a um desses megaempresários que guardam a ferrari na sala de jantar. Reduzir a presença do estado é aumentar a concentração de renda nas mãos de uns poucos, é fazer das insensíveis leis de mercado as senhoras da vida e da morte. A iniciativa privada gosta muito é de um subsídio, pergunte aos concessionários das barcas, trens e metrô aqui no Rio.

Ou seja, a revista apenas defende os anseios dos empresários que a sustentam com seus anúncios.

É de chorar, não é mesmo? Não. Ainda há o grand finale, quando o texto se encerra com a defesa do voto distrital, que leva ao bipartidarismo, favorece candidatos com maior poder econômico, dificulta a renovação dos ocupantes de cargos eletivos e vem sendo abandonado por um número de países muito maior do que aqueles que o adotam.

Agora pode chorar.

Sorrindo, só na posse. Agora, a presidente só aparece chorando

15 comentários:

  1. marcelo,

    com dizem por aí,esta revista é o detrito de maré baixa.roberto

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  2. Mauro Pires de Amorim.
    Muito se fala em inserir o país no contexto da modernidade global. No entanto, as propostas de tal inserção são de conteúdo copistas. Simplistas desse jeito: vamos copiar de países estrangeiros considerados modelos os contextos de inserção na modernidade global que nos interessam e vamos vender publicitariamente e mercadológicamente essa imagem de avanço rumo à modernidade, ao futuro.
    Ocorre que, embora cronológicamente e referencialmente vivamos no tempo do calendário ocidental unificado em 2012. A história, desenvolmento, nível de relacionamento e ética em nossas sociedades não são idênticas. Portanto, as propostas copistas dos modelos estrangeiros considerados ideais para inserção do país no contexto da modernidade global, visam unicamente atender os interesses dos donos do mercado. E dono do mercado em nosso país, é o dono do capital, o patrão, uma vez que o trabalho é muito pouco valorizado em termos de referência social. Tais propostas copistas, sugerem a queima de etapas, do salto de degraus crusciais na evolução e maturação das mentalidades em nossa sociedade.
    Mais uma vez na história do Brasil, com essa mentalidade copista, de cola, criam-se monstrengos. Afinal, colar, copiar é sempre mais fácil do que desenvolver e aplicar um projeto afeito às realidades nacionais e externas em ponto de equilíbrio. Por tal motivo não conseguimos passar do modelo social patrimonialista enquanto parâmetros de valorações, para o modelo do Estado Social, que lá fora, em língua inglêsa é conhecido como Wellfare State e que serviu de base desenvolvimentista de valorações sociais para o atual estágio desses sistemas e sociedades. Mas falar-se em Estado Social no Brasil, é em certos meios, interpretado como Socialismo, Comunismo. Coisa típica de quem não estuda, entende, mas que, microcéfalamente, cola, copia.
    Por esse motivo, é que, diante da atual crise de recessão econômica que se verifica no planeta, povos, sobretudo em países que vivem na prática e têm o conceito de valoração do Estado Social, protestam em defesa de tais direitos. Uma vez que, a perda de tais conceitos e valores referenciais nas relações sociais em suas sociedades, representará um retrocesso histórico ao tempo do patrimonialismo e mais valia.
    Felicidades e boas energias.

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  3. Essa revista é um pavor! Me causa arrepios quando vejo alguém lendo-a avidamente, ou quando vejo vários exemplares dela sobre a mesa da sala de espera de algum dentista ou similar. A maioria dos leitores daquela publicação consideram-na "A" revista do Brasil, a mais respeitada etc. Credo em cruz!... Temos mesmo q abrir os olhos dos mais incautos.

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  4. Antigamente, quando uma revista era ruim, as pessoas paravam de ler e ela sumia do mercado. Mas isso acontecia há uns 30 anos, que é o tempo em que ouço tanta crítica à revista dos cegos, e ela não desaparece. Que fenômeno será esse? De qualquer modo, obrigado Marcelo por esse texto tão claro, objetivo e fácil de ler.

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  5. Na Argentina, a revista já teria sido, minimamente, advertida. Em permanecendo com síndrome de pinóquio já, há muito, teria sido fechada, cpf's responsabilizados e impedidos de exercer jornalixo pra todo o sempre.

    Drumm

    PS: "A fé em Deus é nosso freio"
    (Marisa Lobo, ex-psicóloga, cassada pelo Conselho Federal)

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  6. Mauro Pires de Amorim.
    Marcelo, cometí um erro de grafia em meu comentário anterior. No 3º parágrafo, na 8ª linha, escreví
    "Wellfare State", quando o correto é "Welfare State".
    Mais uma vez, felicidades e boas energias.

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  7. O Marcelo, Nao vou escrever sobre essa revista. Nao merece o tempo que eventualmente gastaria.
    O papo eh com voce: Que negocio eh esse de voce ser contra o voto distrital e escrever "que leva ao bipartidarismo, favorece candidatos com maior poder econômico, dificulta a renovação dos ocupantes de cargos eletivos"?
    Em qualquer sistema politico, candidato com mais dinheiro "investe" mais na eleicao. Um numero gigantesco desses senadores e deputados que estao ai "representando" a gente, se elegeram/reelegeram gracas ao poder economico! (E nao falo so da grana que eles tem mas tambem -principalmente- da que eles conseguem, em troca de futuro favores, nao?)
    Sou a favor do pluripartidarismo. O tempo da mentira do MDB/Arena ja acabou mas, convenhamos que a existencia de 29 partidos politicos hoje (e digo hoje pois amanha...) nao faz sentido (ou nos somos uma nacao composta por pessoas de tao diferentes posicoes politicas?). A verdade, sabemos, eh que existem inumeros partidos criados unicamente para obter favores e vantagens em troca do apoio (nanico, claro) que trara beneficios aos partidos principais aos quais passaram a apoiar: Um carguinho aqui, uma influencia ali, um favor acola, e toma o povo que sustenta isso! So no ano passado apareceram mais dois: PSD e PPL...
    Mas afirmar que o voto distrital trara o bipartidarismo nao concordo!
    O voto distrital obriga o eleitor a escolher um representante do seu distrito e creio que fica mais facil ao eleitor lembrar em quem votou e que esse que foi eleito passa a ter mais responsabilidades e obrigacoes com o seu eleitorado, que eh limitado a uma regiao, caso queira continuar no cargo! O voto distrital deveria ser aplicado na eleicoes para vereadores e deputados estaduais.
    O voto distrital, ao contrario do que voce afirma, facilita a renovacao e isso eh matematico. Um distrito tem um “x” numero de representantes e um “XX” numero de candidatos. Se os que ocupam cargos (lembre que sao poucos os representantes de um distrito) nao funcionam eles acabam sendo defenestrados muito mais facilmente do que pelo atual sistema onde um eleitor da Urca vota em um candidato de Madureira e um candidato com grana faz um curral eleitoral e garimpa alguns outros votos la fora e fatura um cargo mole, mole. Fatura tambem por consequencia desse sistema ridiculo que permite o voto proporcinal, o voto de legenda. Coisas que fazem com que um individuo seja eleito com 12000 votos preterindo um que recebeu 30000 votos. Que permite que um partido lance alguem como um Tiririca, por exemplo, que vai receber um numero astronomico de votos e isso fara com que outros desse mesmo partido sejam eleitos na “garupa” do chamador de votos. Voce concorda com isso que ocorre agora? Compare como esta e com como seria pelo voto distrital e voce concluira que o voto distrital eh mais vantajoso para o eleitor.
    Abraco distrital!

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    1. Acho que o poder econômico vai atuar em qualquer sistema. Não disse que o voto distrital leva ao bipartidarismo, mas favorece. O fato da maioria dos muitos partidos que existem hoje no Brasil ser formada por picaretas não me faz achar que tenhamos necessariamente que ter menos partidos. O curral eleitoral distrital vai existir e será ainda mais barato. Por fim, o fato de essa revista defender o voto distrital já deprecia muito esse sistema. Abração

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    2. Mauro Pires de Amorim.
      Concordo contigo, até porque, de nada adianta modificar ou alterar a regra num sistema corrompido na base. A verdade é que a política é um enorme e lucrativo negócio e o meio de se chegar ao poder ou negociar parcela do poder, seja no Legislativo ou Executivo, é pelo voto e para se ter voto, tem-se que ter partido político.
      Com isso, os partidos políticos, em sua maioria, servem unicamente como estamparia formal. Para cumprimento dos requisitos legais, simplismente pró-forma jurídica. Todo mundo sabe que basta ter dinheiro e/ou ser bom angariador de voto, que se compra ou consegue vaga em qualquer partido político. Projetos e preparo é o que menos importa. Assim como a maioria dos seres humanos, o órgão ou ponto mais sensível da maioria dos partidos políticos brasileiros é mesmo o bolso.
      Mais uma vaz, felicidades e boas energias.

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    3. Desculpe Marcelo mas voce escreveu que "leva ao bipartidarismo" e eu entendi assim.
      Quando falo que existem 29 partidos quero com isso dizer que fundar um partido eh tao facil como abrir uma barraca de camelo sem licenca e (minha opiniao) as leis deveriam ser mais serias nao facilitando tanto pois, no final, quem vai pagar a conta somos nos e, novamente, muitos deles existem com a unica finalidade de barganhar para conseguir algo.
      Com outra parte do que voce escreveu, eu concordo. Curral eleitoral sempre vai existir principalmente dentro de um sistema onde o voto eh obrigatorio! Mas creia, voto distrital renova mais e aprimora a representatividade. Imagine previas partidarias onde filiados votam nos pre candidatos escolhendo alguns que irao participar da eleicao. Se temos 29 partidos e cada um pode apresentar um determinado numero de candidatos para um distrito (digamos 1o vezes o numero de cadeiras disponiveis para esse distrito e considerando um numero minimo de 2 cadeiras, falamos de 580 candidatos para que apenas dois sejam eleitos. Voce acha isso ruim? Eu nao! Isso vai fazer com que o candidato eleito esteja sempre proximo ao seu eleitorado apresentando projetos e requerimentos visando melhorias para o seu distrito pois se apenas sentar na cadeira para favorecer amigos nao ficara la muito tempo...
      Voto distrital significa voto pleno. Nada de voto proporcional, por legenda, etc. Ganham os dois mais votados e ponto final!!
      Quanto a revista apoiar o voto distrital, voce deve conhecer a frase "As vezes o tiro sai pela culatra".
      Abraco distrital,
      Ariel

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    4. É, pode ser um tiro pela culatra, há argumentos bons nos dois sistemas, mas não acho que a simples troca vá solucionar os problemas de curral eleitoral existentes hoje, pode até acentuar. E com menos candidatos possíveis pelo número de vagas, pode fazer com que só quem tem mais recursos consiga chegar lá...

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  8. Ótimas observações, Marcelo! E por falar em fotos, no poder que elas têm de nos encantar, emocionar e, até, de nos enganar e confundir, recomendo a exposição "Simplesmente Doisneau", no Centro Cultural da Justiça Federal, na Cinelândia. A mostra é complementada por um documentário, imperdível, narrado pelo próprio fotógrafo francês, que nos revela os segredos e mistérios das suas fotografias. Bjs, Denise Coutinho.

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  9. Irretocável e prá lá de realista, bravo e combatente blogueiro. nADA A ACRESCENTAR, PORTANTO.Considero esta foto da presidenta Dilma, bela e digna "dilmais da conta", em que pese estar na capa da tenebrosa, fascistóide; maquiavélica, e insuportável revista que alguns mais sarcásticos, cognominaram-na de "ÓIA" , "NÃOVEJA", "VEJASÓ!", "VEJAMAL", "NEGATIVEJA",
    "VEJANADA", "VEJAMERDA", "PERCEVEJA", "NÃOMEVEJA",etc.
    Abraço
    Marcos Lúcio

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  10. Essa revistinha ainda apregoa aos quatro ventos que foi perseguida pela ditadura por causa de matérias consideradas subversiva pelos militares !!
    Cury

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