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sábado, 29 de outubro de 2011

A garota de Ipanema



O que me chamou a atenção foi a altura do saco de latinhas, quase do tamanho da catadora e rivalizando em perspectiva com o Morro Dois Irmãos ao fundo. Era uma pilha ensacada sobre um carrinho, que ela empurrava pela paisagem paradisíaca da Praia de Ipanema.

_ Você catou isso tudo sozinha? _ fui logo perguntando (ô raça perguntadora essa de jornalista).

_ Foi _ disse ela, voz baixa, me olhando de canto de olho, visivelmente desconfiada.

Reparei que ela usava luvas, um cuidado pouco visto entre os catadores.

_ A que horas começou?

_ Ontem, às sete da noite.

Eram nove e meia de uma linda manhã de sol. A mulher havia recolhido latinhas no chão e nas lixeiras durante toda a noite.

_ Há quanto tempo você cata latinhas?

_ Eu não cato sempre, não, estou fazendo isso pra pagar a minha taxa de incêndio _ surpreendeu-me ela.

Pela roupa e o jeito de falar, percebi logo.

_ Você é crente?

_ Sou.

Não vou dizer a qual igreja evangélica ela pertence porque não tive autorização dela para identificá-la. Mas é uma igreja grande, enorme. A mulher disse frequentar os cultos há uns sete anos e, como obreira, ganhou um apartamento para morar. Só que a igreja não paga a taxa de incêndio, o que obrigou-a, aos 56 anos, a se virar no extenuante trabalho de catar latinhas, amassá-las e vendê-las.

No mercado 65 latinhas, que pesam cerca de um quilo, são vendidas por R$ 2,50, em média.

Além de passar a noite inteira andando atrás da sua taxa de incêndio, ela ainda iria amassar uma por uma e levar até um ponto de venda.

_ Mas eu faço uma coisa que Deus não gosta _ falou, causando-me nova surpresa.

_ O quê?

Ela parou por alguns segundos, como que a pensar se valia a pena mesmo contar aquilo a um estranho. Acho que ela precisava contar, então, melhor que fosse a um estranho.

_ Quando eu amasso as latinhas, coloco areia dentro para pesar mais.

_ E eles não percebem.

_ Não. É muita latinha. Agora eu vou indo.

E lá se foi ela, andar vagaroso, em meio às garotas de Ipanema mas não a caminho do mar.

11 comentários:

  1. O engraçado Marcelo,é que ela tem consciência,que está desagradando a Deus,e mesmo assim faz o desagrado... Vá entender a raça humana. Abs.

    Monica.

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  2. Prefiro, ao invés de entender, me solidarizar, tendo compaixão e entendendo a dor dessa mulher, dessa cidadã.

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  3. Diz o livro primeiro de Moisés,no seu capítulo 1, versículo 27, versão da Bíblia traduzida por João ferreira de Almeida: "E criou Deus à sua imagem ...". Assim é o homem, mulher também, a exata imagem de Deus. - no rights reserved, William Blak

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  4. Marcelo também fez uma coisa que Deus com certeza não gostou, divulgou que essa incansável trabalhadora coloca areia na lata, para ficar mais pesado !!
    E se o comprador de latas ler essa coluna ???

    Paulinho Cury

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  5. O comprador provavelmente sabe e considera pra cotar o preço.

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  6. Pena que esta não é a única ou última excluída "garota de Ipanema". A dificuldade faz, de fato, o(a) sapo (a) pular. Quantas alternativas ela teria? Não seria demais imaginar que, se na situação dela estivesse eu, muito provavelmente faria o mesmo. Ser honesto com as contas pagas e com a vida digna, sinceremente, é muiiiiiiiito mais fácil, embora haja muitos ricos desonestos,evidentemente.
    Abraço,
    Marcos Lúcio

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  7. Eu catei lata. Fiquei desempregado e morando de favor em casa de parentes, estudando pra concurso público. Minha vó sempre me dava um trocado de vez em quando e eu filava cigarros da minha tia. Entretanto não me sentia à vontade. Na praia me deram essa dica. Fiz as contas e preferi não aplicar a técnica, ganhando assim tempo pra catar mais latas.

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  8. Tempos atrás, quando pegava condução em frente à Igreja da Candelária, sentido Zona Sul, um senhor que aparentava mais de 65 anos, magro, bem franzino, também catador de latinhas, se plantava em frente ao ponto de ônibus todo fim de tarde. Naquela hora ele já trazia consigo todo o material conseguido pelas redondezas, sabe Deus, desde que horas da manhã. Não tinha carrinho para ajudar. De um saco grande tirava dezenas de sacolinhas de supermercado cheias de latinhas, e, cada vez que um ônibus parava no ponto, ele, cuidadosamente, ajeitava a sacola bem próxima ao pneu. Num segundo, bastava a roda gigante rolar sobre o saco, estavam elas lá, amassadinhas, amassadinhas. Mas havia um erro de cálculo na operação; o saco era frágil demais e as latas acabavam espalhadas pelo asfalto, o que tornava o intento ainda mais complicado e arriscado.

    Ficava aflita vendo aquilo, pois faltava pouco para ele sofrer um acidente grave, ficando a mão esmagada tal qual a latinha.

    Uma vez uma senhora perguntou:

    - O senhor não tem medo de ficar sem a mão?

    Ele levantou os olhos em sua direção e respondeu:

    - Deus me protege. Deus me protege.

    Enquanto a “garota de Ipanema” cata latas para quitar o tributo estadual, paradoxalmente, a igreja da qual faz parte, possui imunidade à cobrança do imposto. Talvez a falta de informação da protagonista a esteja obrigando ao cumprimento dessa desgastante e insalubre atividade desnecessariamente, pois há algumas situações previstas na lei que isentam do pagamento da famigerada taxa. Ou será o imóvel que a benevolente entidade lhe deu para morar é uma cobertura nesta mesma avenida?

    Provavelmente seu contato com o mar e com a vista paradisíaca, que nem sobra tempo, nem vontade para reparar, é quando impelida por sua honradez e coragem sai de seu humilde recanto para extrair do lixo a complementação de renda e para o exercício da Palavra, sua fonte de força e fé.

    Se a areia deixa as latas mais pesadas, assim também estão para serem carregadas.

    Contrição a custa de muito suor e humilhação.

    “ 11Pelo contrário, o maior dentre vós deve ser aquele que vos serve. 12Quem se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado.”(MT 23, 11-12)

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  9. Se eu sou maluco, não estou só quando penso que a posse é desnecessária. É, a meu ver, possível cada pessoa ter tudo o que precisar. Não há necessidade de existência do dinheiro.

    Palestra de Peter Joseph em 15/09/09, na Universidade Maharishi, em Nova York.

    Peter Joseph - Para Onde Vamos? - Parte 2
    Aos 57:17: "Não há razão para abuso nesse sistema porque não há o que ganhar"

    http://www.youtube.com/watch?v=ZkOWOUA-FvY&feature=player_embedded#!

    Força, Marcelo Freixo.

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  10. Monica, não que um erro justifique outro, mas por um acaso você já parou para pensar se não estaria desagradando mais a Deus aquele que paga apenas 2,50 por um quilo de latinhas?

    Paulinho Cury, você reparou que o Marcelo não divulgou o nome e nem informações que possam identificar a mulher?

    Adriana Rodrigues, você reparou que seu comentário ficou maior que o próprio post?

    Marcelo, acho que colocar a palavra "crente" em um post é tiro e queda pra fazer a seção de comentários bombar (não que vc precise ou esteja interessado nisso, claro. Mera observação)... rsrsrs. "Só Jesus"!... rsrsrsrs.

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  11. Bernardo,ainda que o comprador de latinhas,pagasse C$10,00 por um quilo,certamente a vendendora colocaria areia da mesma forma.
    Sabe aquela história,do "querer mais mais e mais"? Pois é. Abs.

    Monica.

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