Translate

terça-feira, 25 de outubro de 2011

O burro e o inteligente

Marcelo Migliaccio


Já xinguei muita gente de tudo que é nome. Quem não xingou, que atire o primeiro palavrão.

É salutar, desopila, se bem que é sempre bom manter a diplomacia. O fair play manda ir primeiro com os dois pés no peito do sujeito e só depois proferir o  impropério de boas-vindas.

Tenho uma amiga que é adepta da xingoterapia, uma arte milenar que consiste em passar 15 minutos mandando Deus e o mundo "praquele" lugar. Não, Deus ela não manda, não, porque é muito católica. No final, a moça garante, está novinha em folha para continuar a levar as traulitadas da vida.

Mas, falando sério, há uma coisa de que nunca se deve xingar uma pessoa.

De burro.

Ser burro é a pior das infelicidades humanas. O burro não tem futuro, nem presente, só um passado de frustrações. Quem não tem inteligência sofre muito. E, além de tudo, é uma injustiça com o burro animal, que não é mais burro que uma vaca ou um cavalo.

É o golpe baixo do xingamento: chamar de burro.

Quando se xinga alguém de FDP ou manda-se-o para a PQP, está implícito que aquilo é um mero chamamento para a briga. Ninguém conhece a digníssima genitora do oponente, quer apenas amassar-lhe a fuça o mais rapidamente possível.

Mas xingar alguém de burro cala fundo. Não há nem forças para uma reação física. O humilhado se dobra, resignado, nocauteado por sua própria condição intelectual, imutável, irreversível.

É desumano. O burro sofre dia e noite com algo que não pode modificar. O burro não fica inteligente nem se tiver dez pós-graduações. Em 26 anos de jornalismo, algumas das pessoas mais burras que entrevistei foram acadêmicos, professores universitários. Tinham vários títulos e aquele jargão que é o refúgio dos medíocres, mas era claro que não enxergavam um palmo à frente do nariz.

Faço a ressalva que tive alguns ótimos professores, mestres do conhecimento e da vida.

Os inteligentes, quando o são de verdade, muitas vezes conquistam poder e fortuna mesmo sem estudo, quando, evidentemente, se propõem a isso. Do outro lado, grandes empresas vão à falência pela burrice de seus gestores.

Silvio Santos é catedrático? Não, é um gênio da comunicação e dos negócios (ok, bajular a ditadura militar ajudou um pouco).

E Lula, o presidente que declarou não gostar de ler, mas se preocupou em construir faculdades? Sem estudo, deu bolsas a centenas de milhares de jovens carentes, para que não sofram o preconceito que ele sofre.

Isso é inteligência.

Na grande imprensa, os lacaios imortais só lembram que Lula não gosta de ler. Isso é burrice. Ou mau-caratismo.

A burrice está acabando com o planeta, Porque ser ganancioso é um sinal de limitação extrema, assim como ser egoista. O burro quer acumular porque é inseguro e tem medo de perder. Se puder, impede que seus semelhantes tenham iguais condições de desenvolvimento e concorrência. Não quer nem ouvir falar em bolsa família, por exemplo, porque ela é uma chance de um futuro melhor para muitos.

Quanta gente inteligente eu já vi condenada a limpar banheiros...

Como dizia Darcy Ribeiro, se deixarem esse povo se desenvolver, sai da frente.

17 comentários:

  1. Marcelo, vou te contar uma coisa: eu queria ter escrito este post!

    ResponderExcluir
  2. Eu sou uma pessoa que xingo muito. Já é um reflexo condicionado. Mesmo quando estou no trânsito, sozinha, vou xingando todo mundo que acho que me prejudicou, só que baixinho e com todos os vidros fechados. Isto porque, quando tirei carteira e estava dirigindo meu "fusquinha" na Lagoa, eu estava na pista da esquerda e atraz de mim vinha um carrão preto colado em mim, com o farol alto ligado. Eu como macaco de imitação que costume ser, muito dignamente, coloquei meu braço para fora e fiz sinal para que "passasse por cima". O carrão passou na minha frente e me fechou me obrigando parar. De dentro saiu um armário negro e com as mão na cintura veio como que em camara lenta em minha direção. Me encolhi no assento e encomendei minha alma a Deus. Mas que surpresa! O armario parou e deu meia volta, entrou no carrão e foi-se. Não entendi! Mas logo vi passar por mim uma patrulhinha da PM. Desde então não mais banquei e idiota no trânsito. E xingar só baixinho e sorrindo. Yves Rangel

    ResponderExcluir
  3. Eu nunca xinguei proibicionistas de 'proibicio-nazi-lunático-escrotildo-patas', nunca. Papai Noel tá de prova que nunca fiz isso.

    ResponderExcluir
  4. Marcelo,quando estou no transito,e aparece um machão mal resolvido me mandando dirigir um fogão,confesso que tenho vontade de pular no pescoço dele com unhas e dentes,e mandar ele levar a senhora mãe dele para dirigir o fogão. Mas com essa violencia desenfreada que a gente está vivendo,eu fico com medo de levar um tiro na cara,aí prefiro ficar calada. Boa noite.

    Monica.

    ResponderExcluir
  5. "O Brasil não aceita..." (ACM Netto pressionando Ministro dos Esportes a renunciar)

    Quem passou procuração para este cidadão falar em nome de toda uma nação?

    ResponderExcluir
  6. O burro não teme a morte. - Sun Tzu, A Arte da Guerra.

    ResponderExcluir
  7. Mauro Pires de Amorim.
    Concordo com você e também acho uma injustiça com o animal. Evito xingar, mas tem certas vezes que é inevitável, seja por deboche, ironia ou irritação mesmo, mas ainda assim, uso os termos obtuso, idiota, parasita, moribundo, apodrecido, mau-caráter, malandro-otário, enfim, termos similares. Por mais que xingar possa causar alívio em algumas pessoas, não gosto da vibração de ter que me indispor com alguém, pois em mim, o xingamento embora alivie um sentimento entalado, logo após, em função da adrenalina, vem uma energia beligerante, que imediatamente me prepara para um possível embate, seja verbal ou até físico e isso não é nada agradável, aprazível, ao menos para mim. O melhor é viver em paz e harmonia, mas infelizmente existem pessoas insensatas, que são adictas em provocar os outros com sua necessidade insana de auto-afirmarem, como se isso fosse lhes conferir algum ganho ou prémio. No fundo são tolos que vivem fumando sentados em barris de pólvora, mas julgam-se grandes gênios, pessoas melhores que os outros.
    Felicidades e boas energias.

    ResponderExcluir
  8. Caramba!
    Você está inspirado!

    Aline Cleo Rodrigues

    ResponderExcluir
  9. Como ninguém é bom juiz, ou consegue isenção, em causa própria... só mesmo o tempo e o entorno:família, amigos, conhecidos, colegas de trabalho e até mesmo pessoas de encontros fortuitos ou casuais, podem nos dar a idéia , com mais realismo, se estamos "pastando" ou nos portando ou até postando de forma mais lúcida. Por "increça que parível"(beeeem antiga esta kkk), ainda não conheci alguém que confessasse: sou burro e, muito menos: sou feio.
    Estou ficando tentado a fazêlo , antes que, inteligentemtne, vocês concluam kkkk.
    Ato contínuo, nada a acrescentar às suas inteligentes e oportunas argumentações.Há, infelizmente, muitas pessoas que mais "arjumentam" (será que... "moi aussi"?! kkk)do que argumentam . Et la nave va!!!!
    Abraço.
    Marcos Lúcio

    ResponderExcluir
  10. Do jeito como anda a humanidade,o melhor xingamento seria chamar alguém de "ser humano". Afinal,alguém já viu um burro (de 4 patas)matar alguém? Xingar alguém? Ser arrogante? Oprimir alguém?

    ResponderExcluir
  11. Oi Marcelo!

    Estou numa correria louca, mas sempre estico o olho aqui.
    Nem sempre dá tempo de comentar. Só que depois de ver tanta inspiração, não resisti!
    Faço minhas, as palavras da Fernanda, embora reconheça que nem sempre é possível atingir a altura de um mestre como você!

    Mil bjs

    ResponderExcluir
  12. Mestre? E eu que achei que já tinham me xingado de tudo... bjs

    ResponderExcluir
  13. Nossa Marcelo!

    Você "tá que tá", hein?
    Sorte a minha de ter lido você, hoje, domingo, noitinha, quase saindo do computador.
    Quando leio você, constato que é possível se falar com humor, clareza e profundidade, sobre política e existência.

    Muitos beijos,

    Hanna Maria

    ResponderExcluir
  14. Valeu, Hanna, obrigado pela companhia.

    ResponderExcluir
  15. ha, ha, ha!
    Você é uma surpresa "previsível"! rsrs
    Certa vez ouvi o seguinte: "Como se identifica um mestre? Pelo número de títulos? Não. Pelo simples fato do ouvinte desejar ouvir continuamente o que ele tem a dizer e não se cansar." Preciso dizer mais alguma coisa?
    bjs

    ResponderExcluir
  16. xiiii
    Não assinei. O comentário acima, foi meu, Marcelo.

    Aline Cleo Rodrigues

    ResponderExcluir