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terça-feira, 15 de novembro de 2011

Unidade de Terapia Intensiva social

Blindado da Marinha desce a Av. Niemeyer: alguma coisa está fora da ordem...


Quais as consequências do egoísmo?

Basta ver o que o Estado brasileiro está precisando fazer para retomar áreas dominadas  por criminosos no Rio de Janeiro. Os canhões, os tanques de guerra e as centenas de soldados armados nada mais são do que a UTI móvel necessária para o procedimento de emergência. A doença é grave e foi alimentada durante 500 anos de abandono.

Como conceber o uso de força de guerra para entrar numa comunidade encravada entre os bairros da Gávea e de São Conrado? Como o estado foi capaz de deixar que tantos bandidos se juntassem e se armassem a ponto de organizar ali um governo paralelo, com suas próprias leis e sua vara de execuções penais. Eu disse vara? Leia-se vala.

A maioria de nós não tem ideia da miséria que campeia nas favelas brasileiras. Escolas caindo aos pedaços, professores desestimulados e mal preparados, postos de saúde ineficientes, esgoto a céu aberto, barracos insalubres, desemprego e subemprego.

Foi isso que nossa elite, a mais egoísta do mundo, construiu ao sonegar oportunidades a seus semelhantes durante décadas e décadas. Apoiou governos concentradores de renda, governantes que se esmeraram em negar cidadania a gerações e gerações. Em 1989, pesquisa mostrou que o percentual de lucro no Brasil era o maior do planeta. Passaram-se 22 anos, idade de muitos marginais de hoje que eram bebês naquela época.

Não é de espantar que tantos tenham optado pelo caminho do crime. E não é de espantar que milhares estejam se suicidando nas cracolândias. O crack é a ponta do iceberg da desesperança. É uma geração inteira jogando a toalha e dizendo que não quer mais viver. Não por acaso, a maioria das vítimas dessa epidemia entorpecente nasceu em favelas. Só estão dizendo ao mundo que, nos papéis que lhes deram, não querem mais brincar.

Agora, a mídia tucana trata a tomada da Rocinha como se aquela área tivesse acabado de ser descoberta. Como se seus moradores fossem uma tribo indígena só agora encontrada pelo homem branco. Quanta hipocrisia. Há décadas aquelas pessoas estão lá, pedindo socorro e só agora, quando os efeitos colaterais da miséria ameaçam as compras da classe média nos shoppings, é que resolveram "resgatar" aquela região. Conversa fiada, estão apenas tentando salvar sua própria pele e os rolex que ostentam em seus pulsos.

Depois da fuga dos bandidos, mandam para a gigantesca favela uns três caminhões de coleta de lixo, um trailer para emissão de carteiras de identidade ou de trabalho e acham que vai ficar tudo bem. Talvez instalem também alguns postes de luz e tubulações de esgoto nas ruas principais.

Com isso, acham que as coisas estarão resolvidas. Tudo perfeito para que os turistas estrangeiros curtam a Copa do Mundo e a Olimpíada no Brasil sem medo de levar uma bala perdida de fuzil no meio da ideia.

Os comentaristas dos jornais e revistas tucanos atiram todas as pedras que têm no Bolsa Família, mas tratam os moradores das favelas recém-ocupadas pela polícia como incapazes que precisaram ser salvos das garras da bandidagem. Na verdade, sempre foram vítimas da falta de atenção de governos tutelados pelos eternos detentores dos meios de produção e de comunicação.

Os moradores da Rocinha não são vítimas dos bandidos, sempre foram vítimas dos que agora se autoproclamam seus salvadores.

Outra história da carochinha da qual tentam nos convencer é a de que o Estado não levava educação, saúde etc às favelas porque os marginais que se estabeleceram nelas não deixavam. É exatamente o contrário: as bocas-de-fumo cresceram e se fortaleceram ali justamente porque era uma região aonde o poder público nunca ia. Ninguém é besta de montar boca na Avenida Vieira Souto ou na Paulista, porque o Estado sempre esteve lá. É mais seguro transgredir em Manguinhos ou no Capão Redondo. E a Casa Grande só passou a se preocupar com a senzala quando dela começaram a vir tiros de AR-15 e de AK-47.


Para os moradores do Leblon, essas pessoas prestam para servi-los nos bares e restaurantes e para lavar seus banheiros, mas não para viver dignamente, se densenvolver, fazer uma faculdade e, que heresia, competir com os filhos da elite dourada no mercado de trabalho.

Se agora precisamos de tanques de guerra para entrar nesses bolsões de miséria, esses blindados nos dão a exata dimensão do quanto fomos egoístas e insensíveis (mesmo lhes dando roupas e brinquedos velhos em época de Natal).

Vamos ver o que daremos a essa gente toda agora além de novos fuzis a intimidá-los e de novos xerifes a tomarem conta de suas vidas.

11 comentários:

  1. Marcelo, suas palavras são uma lucidez chocante, de uma verdade que chega a dar vergonha na gente.

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  2. Moro em Laranjeiras, mas rodo o dia todo de carro pela zona oeste, em Campo Grande, Santa Cruz, Bangu, etc... há muitas Rocinhas, mas o prefeito, o governador e os políticos só aparecem lá durante as eleiçoes.
    Da uma dor no coração ver como os moradores sobrevivem em um lugar como esse, e ódio dos politicos que usam eles para se beneficiar.

    Paulinho Cury

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  3. Caro Marcelo,as causas que leveram à atual situação são bem mais complexas do que as mencionadas. Se pobreza e miséria fossem determinantes para a transgressão não existiriam crimes cometidos por playboys da zona sul nem roubalheiras em Brasília.O problema está em grande parte do povo brasileiro,que reclama da corrupção da PM mas não vê nada demais em pagar uma mixaria pra um flanelinha achar uma vaga em cima da calçada,afinal,"é melhor do que estar roubando". Este mesmo povo ainda tem uma visão romântica do tráfico,vendo nele uma versão moderna dos Panteras Negras,lutando contra a opressão do Estado. Junte a isso o interesse do Estado em enxergar nas favelas usinas de votos e o estrago está feito.

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  4. Boa Marcelo, é isso aí, foi a mentalidade capitalista, selvagem, depredatória e dissimuladora da mulambagem social, impulsionada pela cultura do lucro rápido e fácil dos mercados financeiros e seus derivativos, que desde a década de 1970 até os dias de hoje, plantou em nossa sociedade o pensamento de que a pessoa tem que ser considerada segundo os bens materiais que possuí e ostenta, não importando os meios pelos quais utilizou-se para obtê-los, em detrimento das regras sociais que permita ascensão e mobilidade pela valoração daquilo que a pessoa produz enquanto aperfeiçoamento de estudo, técnica, conhecimento e a utilização ética dos mesmos.
    Segundo o autor Russel Mokhiber, em sua obra Crimes Corporativos, o poder e influência dos altos executivos das grandes corporações econômicas e financeiras, inclusive na mídia, na política e consequentemente no Estado, são maiores do que o poder de fogo de todas as armas de fogo do planeta reunidas. No entanto, as pessoas comuns quando pensam em crime, enxergam usualmente os grupos armados com armas de fogo que a mídia usualmente noticia e estampa em seus noticiários, num processo contínuo de condicionamento pavloviano das massas para que enxerguem somente o noticiado, enquanto mantém-se e perpetua-se a cultura e mentalidade de valoração social baseada no consumismo desenfreado, ostensivo e exibicionista de bens materiais como fator de aceitação, inclusão, ascensão e mobilidade social, como demonstrativo de prosperidade, em detrimento de valores produtivos baseados no aprimoramento do estudo, da técnica, do conhecimento e da consequente utilização ética dos mesmos.
    No mesmo sentido, pode-se ver tal mentalidade capitalista depredatória e dissimuladora da mulambagem social, no excelente documentário do cineata Michael Moore, entitulado, Capitalismo: uma história de amor, referente às origens da atual crise econômica global, mostrando que tal crise tem origens na perda gradativa e conceitual de valores éticos na sociedade norte-americana, impulsionada pelos executivos das grandes corporações econômicas e financeiras, sua influência na mídia, na política e no Estado, mostrando inclusive, o discurso de Jimmy Carter, em 1979, na época em que era Presidente da República dos EUA, quando faz o alerta à sociedade daquele país de que os conceitos e valores éticos estavam em detrimento, sendo sobrepujados pelo critério de valoração social baseado no consumismo desenfreado em busca da ostentação de bens e consequente aceitação, inclusão, ascensão e mobilidade social, como demonstrativo de prosperidade.
    Ambas as obras, tanto de Mokhiber, com de Moore, embora relatem constatações feitas nos EUA, é inegável a presença desse país no planeta, por ser o maior influenciador da economia, dos mercados financeiros, das mídias e de governos de outros Estados ditos soberanos, valendo a pena serem conferidas.
    Sinceros desejos de felicidades e boas energias.

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  5. Mauro Pires de Amorim.
    Marcelo, antes de escrever meu comentário, esquecí de identificar-me, tal qual faço agora. No entanto, como sempre envio desejos de felicidades e boas energias, tenho certeza que você relacionou-o à mim.
    Mais uma vez, sinceros desejos de felicidades e boas energias.

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  6. Marcelo,eu lí parágrafo por parágrafo,e confesso que não encontrei uma vírgula,fora da verdade... Parabens pela lucidez,e pela coragem tambem. Boa noite.

    Monica.

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  7. caraca marcelo, gostei dessa vez voc~e mandou bem mesmo. muita hipocrisia, esse tal q se diz "governador" é um insano, uma piada. É preciso fazer por nós mesmos, livrar o povo dos empregos escravos como vc mencionou, com meios existentens como permacultura, energias limpas e renovaveis, quando começar a faltar mão-de-obra para os "nobres" do reino encantado e dourado da zona sul, vão percebr o valor dos escravos das favelas. a liberdade deve vir, chega de tamanha concentração, mas precisamos liberta-los das novelas e do futebol alienantes. outra coisa a tal empresa se chama petrobras, ou petroRio? E os combustiveis fosseis nao devem ser trocados por formas mais limpas e renovaveis? e o planeta? e a responsabilidade socio-ambiental? ABRAÇOS

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  8. Observador, concordo em parte, porque acho que se houvesse mais atenção e investimentos em educação, saúde e saneamento na Rocinha nas últimas décadas, aquelas quadrilhas teriam uns 30% do contingente atual. Abraço

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  9. Marcelo creio que a educação não é somente uma via de mão única vindo somente do Estado,mas também da consciência da pessoa ao ver seus vizinhos e parentes entrarem para o tráfico e morrerem uns após outros e se conscientizarem de que esta vida não vale a pena,daí o fato de grande parte dos moradores de comunidades escolherem o trabalho honesto,até saindo de localidades assim,como foi meu próprio caso,mas estou de pleno acordo contigo de que só UPP não vai bastar,pois soberania implica em presença plena do Estado em todos os seus setores.
    Em tempo: sua matéria sobre os zoológicos foi genial. Parabéns. Abraço.

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  10. "Nem" deu uma entrevista pra revista fora de época das organizações biscoito, antes da da gloriosa retomada do monte da roça pelas forças heróicas do estado corrupto, me lembrei de notícias de uma guerra particular, das palavras de Hélio Luz. "O povo é pacífico..."

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  11. Irretocável ou inquestionável seu post, para quem sabe que " berimbau não é gaita", ou seja, pra quem vê a vida como ela é.Outros pareceristas também comprovam sua assertividade, seu "match point" . Considero, por outro lado, que um dos problemas maiores é a reprodução irresponsável, ou seja, estas novas senzalas são verdadeiras fábricas de novos escravos ou mão de obra barata, isto quando há emprego. Pobres se reproduzem, ignorantemente, em quantidades absolutamente insustentávels, parecendo que querem deixar, como herança, exatamente a repetição da pobreza,ou a vida "boa demais" que levam???. É de chorar esta falta de consciência deles.E com as escolas públicas de péssima qualidade, nem chance de sair do "sufoco" eles têm,infelizmente, com raríssssssssimas exceções.Não concordo com o Joãozinho Trinta quando afirmou que pobre gosta de luxo...se fosse verdade, imitariam os ricos para quem trabalham em troca de salários módicos.Seus abastados patrões, quando possuem filhos, sensatamente, não passam de dois, salvo rarísssssssimas exceções, "again".Portanto, por melhores intencionadas sejam as iniciativas (a Marta Suplicy quanda prefeita de São Paulo concluiu isto, com grande mal estar, pois quanto mais creche fazia, mais creche precisava fazer, sem limites), não passam de enxugar o chão. Alguém tem de fechar as torneiras, urgentemente, já passou da hora e o crescimento exagerado (ainda que fosse mínimo) da pobreza não é bom pra ninguém, principalmente para as inconscientes e exploradas vítimas.
    Marcos Lúcio

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