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sábado, 16 de junho de 2012

Galinhas de Angola

Uma das melhores coisas de viajar é encher o bandulho.

(Abre parêntesis) Bandulho é uma palavra em desuso mas, lá pelos anos 20, esse sinônimo de pança, barriga e rúnem, a zona larga no estômago dos ruminantes, estava na boca do povo. Encher o bandulho era uma expressão popular para comer muito. (fecha parêntesis)

Até linguiça de bode já comi por aqui. Uma delícia se for feita na hora.

O melhor amigo do homem é o cão, mas o melhor amigo do sertanejo é o bode. Ele resiste às piores secas. Enquanto o gado morre de sede, os caprinos estão lá, dizem, comendo até terra e pedra. Por isso fiquei grilado antes de mandar para dentro a tal linguiça, achando que poderia ter gosto de madeira ou algo assim. Nada.

Dizem aqui em Pernambuco que a transposição das águas do Rio São Francisco para irrigar o sertão anda a meia bomba. Aí, Dilma, vamos estalar o chicote em cima desses burocratas.

Um taxista local me lembrou que houve uma estatal em Pernambuco só para abrir poços na região seca. Mas, segundo esse mesmo taxista, que vota nulo há décadas por puro desencanto, os poços só eram perfurados nas fazendas dos abastados.

Típico do Brasil dos privilégios.

Não consigo calcular o mal que gente políticos como Ricardo Fiúza e Severino não-sei-de-que fizeram a essa gente. Inocêncio de Oliveira agora apoia Dilma (hay gobierno, soy a favor), mas isso não apaga o passado dele, não. Votou contra os trabalhadores em toda a Assembleia Nacional Constituinte e se fez nos currais eleitorais secos e famélicos desse estado.

Na estrada para Caruaru vi muito gado esquálido em meio àquela paisagem de arbustos e cactus. E olhe que o sertão barra pesada ainda estava a centenas de quilômetros dali.

Mas agora estou em Porto de Galinhas, uma praia linda apesar de alguns pesares.

Sempre encuquei com esse nome horrível para um lugar paradisíaco.

Mas o taxista me contou que era aqui que os galeões vindos da África desembarcavam as penosas de Angola. Como já era Brasil, a maioria desses navios trazia escravos malocados no porão para serem comercializados com os donos de engenho.

Bom, se for cascata foi o taxista que disse.

O fato é que Cabo Verde, na África, é mais perto daqui que São Paulo. O vôo para além-mar demora dez minutos menos que a ponte aérea para a terra da garoa (e do preconceito contra os nordestinos.

Disse o taxista.

Mas aqui também há preconceito. Pernambucanos acham baianos e cariocas preguiçosos e presunçosos.

"Só porque tem muita gente boa na música lá eles se acham sulistas", disse o taxista em relação á baianada. Ele, porém, me contou ter vivido durante um ano em São Paulo e sentido na pele o preconceito.

Preconceito que agora passa adiante.

Mais tarde, um novo relatório da expedição Pernambuco.

Logo que eu acordar do coma depois da feijoada...

Porto de Galinhas (PE)/Foto: Marcelo Migliaccio

6 comentários:

  1. Gosto nao se discute...
    Linguica de bode eh dose! Para este pobre mortal, ela eh tao intragavel quanto um Fiuza, um Severino, um Inocencio (mas nao muito).
    Sou mais um espetinho de queijo coalho. E pronto!

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  2. Prezado blogueiro...já provei a linguiça de bode (só digo que não gosto de algo se conhecer, se experimentar...evito qualquer tipo de preconceito ou pré-juízo) e confesso:
    gostei muito!

    O taxista, está corretíssimo quanto ao "bizarro" nome, senão vejamos:

    Segundo a história, antes de receber o atual nome, a praia de Porto de Galinhas chamava-se “Porto Rico”, até que a partir de 1850 começasse a aportar na área navios, trazendo escravos contrabandeados da África para trabalhar no cultivo da Cana-de-açúcar, os mesmos, vinham nos porões encobertos por engradados de galinhas D’angola, prato predileto dos senhores de engenho (Corte). Assim sendo, a tripulação dos navios e os escravistas em terra, criaram uma senha com uma palavra chave para anunciar a chegada de mais escravos. O brado era dado da seguinte forma: “Tem galinha nova no porto”. A palavra “nova” era a chave que significava uma nova remessa de escravos, por causa desses acontecimentos, o lugar ficou conhecido como Porto de Galinhas, que hoje é o maior pólo turístico do litoral pernambucano.

    O nome “Porto de Galinhas” vem de muito tempo atrás. Era chamada Porto Rico, devido à extração de Pau Brasil. Há 350 anos, após a abolição da escravatura, os negros continuavam sendo escravizados clandestinamente. Desviados de Recife, onde havia fiscalização, os negros desembarcavam nesta praia escondidos em engradados de galinhas-d’angola. A chegada dos escravos na beira mar era anunciada pela senha “Tem galinha nova no Porto!”. Por causa disso, Porto Rico ficou conhecida como Porto das “galinhas”.
    Boas viagens, saúde(inclusive pra comer buchada de bode) e sorte...sempre!!!
    Abraço
    Marcos Lúcio

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  3. O comentário da querida Fernanda, sem discordar ou desmerecê-lo, instigou-me, uma vez que o bode deu pra mim (sem trocadilhos e maledicência ou mentes poluídas kkkk). Comi-o e gostei. Há estudiosos que garantem haver um preconceito ou uma antipatia, a priori, quanto ao valente animal, senão vejamos:

    Dar bode

    É evidente o significado de dar, que corresponde a resultar ou ter por resultado. Mas o que vem a ser bode?

    Lembramos que bode sempre esteve ligado às forças diabólicas, como lembra Câmara Cascudo, em seu Coisas que o Povo Diz: "Qualquer velha bruxa de outrora, sabedora de orações e remédios fortes, informava do poder do Bode, sinônimo diabólico, temido e respeitado na ambivalência natural."

    Aliás, segundo a tradição judaica, o bode era o animal escolhido para carregar todos os pecados de seu povo e, por isso, ser abandonado num deserto. Representando todo o mal, o bode expiatório era ao mesmo tempo vítima e réu.

    Dar bode é resultar numa situação infernal, indesejável, confusa.

    Embora o bode esteja quase sempre relacionado com a atividade sexual masculina (ôps!), em diversos provérbios e expressões populares, não há probalidade de haver conotações desta natureza na frase feita em questão.

    Relacionada com a idéia de vítima, conheço o seguinte anexim com a palavra bode: Quem menos pode é quem paga o bode.

    Vide também: Bode preto; Bode amarrado; e o execrável/maquiavélico/imperdoável/nazifascista BODE EXPIATÓRIO

    Usar alguém de bode expiatório é jogar doses de ódio, revés e frustração sobre uma pessoa, acusando-a injustamente no lugar do verdadeiro culpado. Em muitos casos, o próprio escolhido é incapaz de perceber que está sendo vítima.

    Ao longo da história, diversos bodes expiatórios surgiram e continuam surgindo, variando de acordo com o local , interesses políticos e o período. Entre eles, os hereges, índios, negros, judeus, deficientes, homossexuais, pobres, imigrantes, comunistas, bruxas, leprosos, ciganos e NORDESTINOS brasileiros.

    Em geral as minorias são usadas, injustiçada, perversa e estupidamente, como bodes expiatórios, pois são grupos mais 'fracos'".

    O porém é que NEM SEMPRE MAIS É MELHOR. MENOS, MUITAS VEZES É MAIS.
    . Abraço
    Marcos Lúcio

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    Respostas
    1. EstiMarcos... não, eu não tenho absolutamente nada contra o coitado do bode! Vou explicar direitinho antes que isso dê um bode danado: tenho até simpatia pelo dito cujo, inclusive ano passado foi justamente um bodinho bebê que me fez sorrir, numa época em que eu andava bem triste. Virou até filme no Alma Lavada, tenho certeza que você viu. AGORA... comer carne de bode são outros quinhentos. Não me convém, lembre-se que tenho estômago fresco. Além disso, tenho pena do bicho. Mas entendo e respeito quem goste... afinal, mesmo tendo pena dos porcos, das galinhas e das vacas, eu de vez em quando como carne.

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    2. QueriDannemann...a possiblidade de dar bode com você, sinceramente, é quase impossível, afinal, quantas vezes , no seu próprio blogue, onde bato ponto rsrs... já lavamos , enxaguamos, colocamos ao sol e (re)passamos...nossas almas?

      "Marrelógico" que entendo e respeito, perfeitamente, quem não goste _ por experiência ou impossibilidade_ seja do que for(exceto preconceituosamente).

      Diferenças e diversidades é a única normalidade real , constituidora e lógica da vida breve, não é mesmo?
      Beijão "procê" e abraço pro blogueiro.
      Marcos Lúcio

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