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quinta-feira, 25 de abril de 2013

Até o deus do amor fez plástica

Jamais faria, mas não condeno quem se submete a uma operação plástica com fins unicamente estéticos. Tem gente que não gosta do nariz, vai lá no médico e serra. Ou tá se achando meio acabada e providencia aquela meia-sola. Como não sou chegado a hospital, fico fora dessa.

O Brasil, por sinal, é o líder mundial em cirurgias plásticas. Só que a preocupação do ser humano com a aparência parece ter chegado às raias do Olimpo.

Veja o caso de Eros, o Deus do Amor na mitologia grega. Sempre o vejo, pois ele costuma fazer ponto ali na entrada do túnel que separa Copacabana de Botafogo. Fica ali, olhando as ciclistas, de vez em quando dá um tiro certo...

Até já contei aqui que ele perdeu a cabeça uma vez por causa de uma formosura moradora da Rua Siqueira Campos, lembra?

(Se não lembra ou não leu, clique aqui)

Bom, depois de uns tempos sumido, o garanhão imortalizado nos filmes de Walter Hugo Khoury, reapareceu na área. E, pasmem, garanto que passou por uma recauchutagem geral na clínica do Ivo Pitanguy. O renomado mago dos bisturis, soberano de caras alheias, não cobra barato. Mas grana nunca faltou ao playboy Eros, que vive dos royalties pagos por cada vez mais sex shops mundo afora.

Mas que ele entrou na faca, entrou. Só pode! O cara era assim, como mostra essa foto tirada há cerca de cinco anos:


E reapareceu assim!


As pessoas deveriam aceitar e curtir a passagem dos anos, mas é difícil ver no espelho diariamente o próprio envelhecimento.

O que não impede que muitas plásticas fiquem simplesmente ridículas...

No caso de Eros, pelo menos, serviu para ele se animar e voltar a colocar as asinhas de fora. Embora fosse mais bonito antes (esse permanente no cabelo ficou de doer).



Agora, falando sério. A impressão inicial é de que a equipe de restauração da prefeitura do Rio ignorou a escultura original da fonte Adriano Ramos Pinto, inaugurada em janeiro de 1906 no bairro da Glória e transferida para a entrada do Túnel Novo em 1935.

Só que há outra versão: a de que o novo rosto é, este sim, o original da estátua e que o anterior havia sido feito aleatoriamente após uma depredação, sem uma foto da fonte, só agora encontrada, no livro Fonte Adriano Ramos Pinto _ O vinho do Porto e a arte da Belle-époque no Rio de Janeiro, de Ana Filipa Correia.

A obra em estilo neoclássico era belíssima, mas foi mutilada por vândalos durante décadas.

12 comentários:

  1. Acho que octagenária atacou de novo, e dessa vez na cidade maravilhosa.

    Lembra da senhorinha que "restaurou" aquela pintura na Igreja de Borja? O "Ecce Hommo"

    Eros vai ter que ser rebatizado com essa recauchutagem...

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    Respostas
    1. A título de cooperação e compartilhamento, a verdadeira versão é esta. A foto original está no link abaixo.

      A Fonte Adriano Ramos Pinto - Fonte da Juventude
      Entre as duas bocas do túnel em frente ao Shopping Rio Sul, no lado de Botafogo, está a Fonte Adriano Ramos Pinto, toda em blocos maciços de mármore, cujo conjunto apresenta um grupo de mulheres, tentando escalar um cume em direção ao amor, representado por Cupido.
      Quando a Cidade no início do século XX, passava por extensa remodelação urbanística realizada no quadriênio do presidente Rodrigues Alves, o prefeito Francisco Pereira Passos realizava grandes obras, entre muitas a abertura da avenida Beira Mar,onde se construiu novas muralhas, implantaram monumentos e jardins, os quais, converteram a orla dos bairros da Glória a Botafogo na nova atração comercial do incipiente mercado imobiliário da Capital Federal.
      Na Glória, em 1904 com a demolição de um velho mercado abandonado, criou-se um belo jardim de traçado romântico ornado de estátuas.
      Foi nesse momento que dois industriais vinícolas portugueses, os irmãos Adriano Ramos Pinto, do Pôrto, decidiram erguer e doar um monumento para novo jardim próximo à igreja da Glória. Quando os irmãos encontraram a maquete da escultura intitulada “Fontaine de Jouvence” , do artista Eugéne Thivier, logo trataram de encomendar a sua ampliação e execução. Assim, adquiriram um bloco de mármore de carrara com 37 toneladas e sete metros de altura.
      A obra foi inaugurada a 24 de janeiro de 1906, porem as opiniões sobre a obra foram divergentes. O Prefeito que gostou muito da escultura, sentiu que as “performances” femininas eram muito insinuantes, chegando até em pensar em chamar o escultor brasileiro Rodolfo Bernardelli, o maior escultor nacional, para entalhar alguns saiotes nos “traseiros”...
      Mas as qualidades artísticas da obra, falaram mais alto e a fonte ali permaneceu por quase trinta anos, até que, em 1935, o prefeito Pedro Ernesto mandou removê-la para a entrada do túnel do Leme.


      Até 1983 funcionou como fonte, quando foi suspenso o abastecimento de água e a fonte cercada por grades.

      Essa obra de arte tão delicada exposta a mais de cem anos, às agressões de vândalos e da natureza fez com que os rostos finos, os polidos contornos, sofressem com o tempo profundos desgastes.

      Contudo a história mais interessante surgiu quando conheci a publicação de Ana Filipa Correia, a "Fonte Adriano Ramos Pinto - O vinho do Porto e a arte da Belle-èpoque no Rio de Janeiro". Nesta publicação na página 48 apresenta uma foto da fisionomia original do cupido,de longos cabelos e olhar feliz... em nada se parece com a que hoje existe.
      Decapitada anos atras, um falso elemento foi anexada a obra, descaraterizando o trabalho de Eugene, que poderia se perpetuar, sem essa importante pesquisa de Anna Filipa Correia.

      http://ashistoriasdosmonumentosdorio.blogspot.com.br/2010/01/a-fonte-adriano-ramos-pinto-fonte-da.html

      Vera Dias
      Arquiteta, pós-graduada em Urbanismo; Gerente de Monumentos e Chafarizes da Secretaria de Conservação da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro; Professor titular da Cadeiras de Preservação de Bens Culturais e Centro Históricos da Faculdade de Arquitetura Silva e Souza; Membro Honoris Causa da Academia Brasileira de Belas Artes

      Abraço,

      Marcos Lúcio

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    2. Beleza...esqueci de parabenizar pela bela foto das gotas d'água na folha...de 25.04.13...sem desmerecer as demais.Vou salvá-la.
      M.L.

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  2. O Narcisismo, auto-investimento libidinal, é vital para o desenvolvimento e manutenção da auto-estima, não limitando-se, claro, ao culto exacerbado da beleza física, hoje, uma das mais perversas ditaduras. Gozar com a própria imagem especular é patologia narcísica.
    Interessante observar que pessoas preocupadas patologicamente com a beleza física, raramente estabelecem relações afetivo-sexuais genúinas. Pudera, buscam no olhar do parceiro eventual , o refllexo de sua melhor imagem e não vendo-a, como canta mestre Caetano, acha-a feia.
    Abusando de liberdade ideo- conceitual, o Narciso patológico é EROS aprisionado em si- mesmo, flexas envenenadas cravadas no próprio coração.

    ANTONIO CARLOS

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  3. Como bem destacou Antonio Carlos, o texto nos remete aos velhos tempos de Caetano quando narciso ilustrava os versos belissimos de Sampa.

    Hoje, quando vejo coisas como o que Caetano escreve na letra de musica abaixo, percebo,resignado que o tempo passou.

    "O velho transformou o mito das raças tristes Em minotauros, júnior ciganos, em José Aldo, Lyoto Machida, Victor Belford, Anderson Silva e a coisa toda
    A bossa nova é foda Ahhhhhh A bossa nova é foda..."

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  4. Infelizmente a Cidade está cheia de obras de arte "restauradas" que acabam perdendo sua originalidade, lembro-me do triste fim de um belíssimo órgão de tubos que tem na igreja Cristo Redentor, em Laranjeiras, um padre boçal que assumiu a igreja a uns 20 anos, resolveu pintar os tubos do órgão, resumo da história: O tubos continuam pintados, o órgão caiu em desuso e o belo Coral Santa Cecília do meu amigo Alberto Mathias não se apresenta mais lá e o órgão ficou pintado e esquecido.

    Qualquer dia o nosso "genial" prefeito vai desistir de restaurar os óculos da estátua de Carlos Drummond de Andrade e dizer que ele está usando lentes de contato !!

    Cury

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  5. De todo o exposto, o importante é que Eros, a despeito do tempo, se faz presente na entrada do túnel. Mérito dele! Me divirto demais com o Rio Acima. Excelente postagem.

    Têmis



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  6. Alegrou meu dia, Marcelo, os textos de hoje e o antigo, que eu não tinha lido. Muito bom!

    Bjs, denise coutinho

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  7. Valeu a pena rever a foto àcima. Maua deve tá um friozinho gostoso.
    Sergio.

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