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sexta-feira, 12 de abril de 2013

Anos de chumbo e batom

Terminei a leitura do interessantíssimo livro Um gosto amargo de bala, escrito pela jornalista Vera Gertel, também uma atriz de carreira construída principalmente no teatro.

Vera permeou sua própria biografia com a história política e social do Brasil dos anos 30 até 1974, quando a ditadura militar brasileira começou a dar os primeiros sinais de queda (sacramentada só dez anos depois, com a eleição indireta de Tancredo Neves para a Presidência da República).

Com um texto objetivo e muito informativo, como é próprio dos bons jornalistas, e, além disso, cheio de sensibilidade, característica da alma dos artistas, Vera produziu um documento histórico fundamental para quem viveu e para quem não viveu aqueles anos. Recomendo a leitura principalmente aos jovens, aos adolescentes, porque além de suas próprias descobertas íntimas, a autora conta as angústias e os absurdos da vida sob uma ditadura, fosse a de Getúlio Vargas ou a dos militares pós-1964.

Filha de comunistas, ela mesmo se tornou militante na juventude. Arriscou a vida mas sobreviveu para contar a história. E o faz de forma dinâmica e atraente, desde sua iniciação sexual numa época de extrema repressão moral ao nascimento de seu filho num tempo de repressão política. Narra a dificuldade dos artistas com a censura, as delações e torturas, as fugas para o exílio, as lutas de resistência. Traça ainda um panorama da onda libertária de 1968 pelo mundo e das ditaduras que tomaram conta da América do Sul nos anos 60 e 70.

Um trecho:

Quando eu fazia Pequenos burgueses, de Górki, com o grupo Oficina, na Maison de France, em 1965, uma noite o presidente (general) Castello (Branco) foi nos assistir (...) No intervalo entre o segundo e o terceiro atos, pediu para cumprimentar a equipe no palco, com as cortinas fechadas. Fui contra, junto com uma gaúcha guerreira também do elenco. Sentadas nos degraus à porta dos camarins, eis que o presidente e seu ajudante de ordens passam por ali inesperadamente para atingir o palco pelos fundos. Castello passou entre nós duas e cumprimentou:

_ Boa noite.

Silêncio.

O restante do elenco, enfileirado no palco com o diretor, foi cumprimentado com um aperto de mão e agradeceram. Nenhuma reação. Raros são os resistentes a cumprimentos, venham de onde for.

Ao final, fica difícil saber qual parte do livro é mais enriquecedora, se a história particular de Vera Gertel ou a trajetória social e política do Brasil.

Reprodução
Bilhete escrito pelo revolucionário Carlos Marighella para a autora do livro


Um gosto amargo de bala (Editora Civilização Brasileira, 271 págs.)

8 comentários:

  1. Eu li e gostei muito. Yves Rangel.

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  2. No momento em que FHC se candidata a uma vaga de imortal, mesmo depois de ter pedido que esquecessem o que ele escreveu, vários meios de comunicação relembram Roberto Marinho, mentor do editorial de 2 de abril de 64 em o Globo que dizia: "Ressurge a Democracia, Vive a Nação dias gloriosos" e que ainda assim se tornou membro da ABL. Quem quiser se contrapor à candidatura do criador de frases históricas como "Quem se aposenta antes dos quarenta e cinco é vagabundo" à ABL pode assinar a petição que pede "Amaury Ribeiro Júnior para a Academia Brasileira de Letras" que tornou imortal a Privataria Tucana, mesmo com todo o boicote que seu livro sofreu da mídia. Basta seguir o link: http://www.change.org/petitions/a-privataria-%C3%A9-imortal-amaury-ribeiro-j%C3%BAnior-para-a-academia-brasileira-de-letras?utm_campaign=friend_inviter_chat&utm_medium=facebook&utm_source=share_petition&utm_term=permissions_dialog_false

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  3. Lerei, certamente. Nos anos 1970, os mais perversos da Ditadura Militar, obscurantista, como todas as ditaduras, sofri no corpo e alma seus horrores, fato anteriormente, nesse mesmo espaço, creio, ainda no JB impresso. Foram dez dias com a namorada da época, como hóspedes no quartel da PE, na Barão de Mesquita, com direito a tratamento VIP , em matéria de sadismo Físico e psicológico. Nosso crime: PENSAR e externar nossas posições. Á epoca, fomos retirados com todo carinho, na companhia de outros estudantes e Professores para o citado quartel. Muitos, ninguém sabe por onde andam , se é que andam, até hoje.
    Nós dois fomos resgatados por dupla e feliz coicidência. Um de meus tios paternos, já falecido de causas naturais, era Capitão do Exercito, muita merda, naquele período. Ela, por seu lad.o, sobrinha, com sobrenome de um dos mais brilhantes Advogados do Brasil, com atuação destacada na defesa dos perseguidos pelo Regime.

    Foram muitos anos de Psicoterapia, que já fazia antes do episodio, para resigificar o vivido e desejo de vingança, cada vez que cruzava em qualquer lugar, com algum idiota vestido de verde-oliva.
    Por ironia, nos anos 1980, pós- Ditadura, Fui Profissinal credenciado em Instituições como Clube Naval, atendendo militares e seus dependentes. Nos anos posteriores, até 2006, também fui Psicoterapeuta, em meu consultório, de diversos jovens oficiais das Três Armas, alguns, crianças, outros, nem nascidos, quando vivíamos imersos nas trevas desse tenebroso momento em nosso país. A vida seguiu e segue, com algums momentos de preocupação, que, a pouca credibilidade de nossas Instituições Democráticas possa redespertar os golpistas de plantão.

    ANTONIO CARLOS

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    1. Seu comentário/desabafo deixou-me aturdido .Sempre fico pasmado, melhor:indignado... quando leio relatos sobre perseguidos/torturados/exilados/desaparecidos, enfim, das inúmeras vítimas deste vergonhoso momento do nosso país. Ainda bem que "A vida seguiu e segue".Minha condolência.
      Marcos Lúcio

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  4. Vou aceitar a sugestão, ainda mais vindo do Marcelo, encomendei esse livro na estante virtual, deve chegar essa semana.
    O último livro que li sobre a ditadura e sua tortura foi "Batismo de sangue" sobre Frei Tito, escrito por seu amigo Frei Betto.

    Cury

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  5. Desculpe, mas terei de fazer 2 posts.

    Engraçado .... nenhum dos sete maiores países do mundo é uma
    ditadura militar, e a região do mundo onde temos o maior número delas é África, o continente mais pobre do mundo. O regime ditatorial é
    sempre nefasto, em qualquer época e país, nas mãos de militares toscos,
    truculentos e caricatos, com pouca inteligência e (quase) nenhuma cultura geral.
    Dizem que o cavalo do Figueiredo era mais inteligente e elegante do
    que ele kkkk.

    Que linda ditadura tivemos, diz a direitalha birrenta, pois se podia dormir de noite e sair à rua sem medo. Salvo os resistentes ao regime, os "subversivos" que eram torturados ou mortos.
    Todos ditadores dizem ser do "bem".Isso não tem nada a ver com combater o crime. Quem utiliza de torturas e outros absurdos jamais está na boa intenção; é simplesmente um criminoso que quer a imunidade que um sistema repressor fornece aos que o comandam. Por acaso Médici e sua gangue eram homens bons? Ou eram assassinos sanguinários? Quando Nelson Rockfeller visitou o Brasil, em 1969, seis mil “baderneiros” foram “preventivamente detidos” só no Rio de Janeiro. Como gosto de números, vou compartilhar alguns aqui, tirados de um dos capítulos , intitulado “O milagre econômico”, do livro, “Estado e oposição no Brasil”, de Maria Helena Moreira Alves. É de arrepiar, o nosso êxito.
    A inflação do período militar foi modesta, em torno de 20% ao mês. A dívida externa pulou de 3,9 bilhões de dólares, em 1968, para 12,5 bilhões em 1973. A turma dos camarotes rurais adorava, pois as exportações eram subsidiadas. Ela resume: “A política governamental elevou acentuadamente a participação dos membros mais ricos da população na renda global diminuindo a dos 80% mais pobres”. Sem dúvida, um mecanismo eficiente de redistribuição de renda. Para cima. Os números dão uma surra de realidade. Em 1970, 50,2% dos brasileiros ganhavam menos de um salário mínimo. Em 1972, já eram 52,5%. Que milagre! Apenas 78,8% dos trabalhadores ganhavam até dois salários mínimos. Uma proporção, com certeza, pequena. Um decreto de 1938 estabeleceu o que o salário mínimo devia comprar.
    Nossa bela ditadura alterou esses dados. Passamos de 12 para 14 horas de trabalho diário para poder comer. Em 1959, um trabalhador precisava de 65 horas e cinco minutos de trabalho para comprar a cesta básica fixada pelo decreto de 1938. Em 1963, eram 88 horas. Em 1974, 163 horas e 32 minutos. Nenhuma democracia faria melhor. Saltamos para 25 milhões de crianças passando fome. Uma pesquisa revelou que 60% das crianças entrevistadas trabalhava mais de 40 horas por semana. Chamava-se isso de educação pelo trabalho: 18,5% da população entre 10 e 14 anos de idade trabalhava. O efeito pedagógico foi espetacular: 63% das crianças entre 5 e 9 anos de idade, em 1976, fora das escolas. Nunca mais se foi tão longe. Era difícil um país nos bater em analfabetismo ou semianalfabetismo. Tudo isso pela segurança nacional.
    Marcos Lúcio

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  6. Continuando, pois este nefasto período dá pano pra manga, gola, punho e colarinho, né?

    A ditadura também mudou a composição dos orçamentos. Uma extraordinária revolução. O da Saúde passou de 4,29% do total, em 1966, para 0,99% em 1974. O da Educação despencou de 11,07% para 4,95% no mesmo período. Em compensação, os três ministérios militares, muito mais úteis à nação, abocanhavam 17,96% dos recursos. Fixamos pena de morte, prisão perpétua, banimento, fechamos o Congresso, controlamos os meios de comunicação, prendemos e arrebentamos, montamos, segundo o general Viana Moog, “a maior mobilização de tropas do Exército”, 20 mil homens para caçar 69 guerrilheiros do PCdoB no Araguaia. Entre 1977 e 1981, foram mortos apenas 45 líderes sindicais rurais. Tivemos míseros 12 mil presos políticos entre 1969 e 1974.
    O sucateamento da educação brasileira foi um dos maiores crimes de lesa cidadania.
    A reinvindicação da esquerda era por educação de qualidade para todos. Mas a reforma que houve foi a do Acordo MEC-USAID (Ministério da Educação e United States Agency for Internacional Development), que, em geral, ampliou o ensino público, mas sem qualidade (permanece igual ou pior). Era necessário formar técnicos, proletários, brasileiros que soubessem ‘apertar parafuso. Uma ditadura realmente admirável. Tão admirável que conseguiu se autoanistiar. Nenhum torturador foi julgado ou punido. Que êxito!
    Marcos Lúcio

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    1. Parabens, obrigado por partilhar todas essas informações.
      Reedite-as sempre que puder
      Torelly

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