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sábado, 28 de janeiro de 2012

Dercy Gonçalves



Devorei a biografia da atriz Dercy Gonçalves (1907-2008). Não vi a minissérie, que foi muito elogiada, mas aposto que o livro dá uma visão muito mais ampla e detalhada dos 101 anos de vida dessa mulher impressionante. Uma amiga minha, que como muita gente tem preconceito contra a Dercy, desdenhou: "Não é só porque ela viveu mais de 100 anos que tudo que ela fez é certo".

Claro que não, mas viver tanto com saúde e trabalhando até o fim não é para qualquer um. É uma prova de força, principalmente em se tratando de uma mulher num mundo dominado pelo macho.

Dercy perdeu a mãe ainda menina e teve que se virar numa família desagregada por um pai violento. Fugiu de sua cidade natal tachada de puta por todos quando ainda era virgem. Decidiu ser atriz nos anos 20, época em que essa profissão era quase marginal, e foi se virando, se defendendo de tudo e de todos, ganhando seu sustento dia a dia, apesar da confessa falta de educação e de estudo.

Durante décadas, foi alvo do escárnio da sociedade moralista e repressora, que sempre precisa de um judas para malhar. Seu hábito de falar palavrões, ou melhor, de, como ela define, pontuar as frases com palavrões foi um prato cheio para seus detratores. Sua comunicação fácil com o público, no entanto, permitiu que não sucumbisse e sumisse da ribalta como tantos outros.

Dercy sobreviveu a muitos altos e baixos (por isso adoro biografias, que nos mostram que temos que nos acostumar com a gangorra da vida). Nas vacas magras, ela chegou a dividir um prato feito com o marido num botequim; nos bons tempos andava com 25 quilates de diamantes nos dedos. Perdeu tudo e ganhou de novo várias vezes, mas jamais deixou de andar de cabeça erguida.

Nunca foi de beber nem usou drogas ilícitas, mas fumou durante décadas e muito (chegou à incrível marca de quatro maços por dia). E abusou dos doces e das frituras, o que prova que, em se tratando do ser humano, a ciência pouco sabe. Viveu um século e vão dizer que se fosse natureba teria vivido dois. Mas quem quer viver 200 anos? Só lembro do Beto Guedes...

E Dercy foi vivendo, vivendo. De tanto viver, viveu para ver seu talento reconhecido e para conquistar o respeito do público e da classe artística. Nunca foi plena no amor e mostrou que é possível ser feliz sem esse artigo tão raro quanto decantado. Venceu um câncer, fez oito abortos, foi estuprada pelo dono de um grande jornal de Londrina (PR), fez tantas plásticas quanto pôde, criou uma filha com decência e, depois que seu talento foi enfim reconhecido, recebeu muitas homenagens (inclusive na sua cidade natal, de onde saiu escorraçada) e ganhou toneladas de troféus. Desses, guardou uns poucos. A maioria jogou fora. Segundo ela, não valiam nada, eram gestos oportunistas da mesma gente hipócrita que por tantos anos a segregou. Dercy foi assim: autêntica, verdadeira e nesse livro não tem pudores em confessar suas fraquezas e defeitos.

Escrita por Maria Adelaide Amaral com base em dez horas de depoimentos gravados quando Dercy tinha 87 anos, essa biografia é imperdível para quem quiser entender um pouco melhor os mistérios da vida e a sociedade brasileira.



12 comentários:

  1. Desculpe a ousadia, MM, ms pretendo, na verdade, fazer uma homenagem a um(a) dos artistas brasileiros com mais pulsão de vida, de que tenho notícia.

    Originária de família muito pobre, nasceu no interior do estado do Rio de Janeiro em 1905, tendo sido registrada em 1907. Na época era muito comum registrar os filhos mais tarde, pela falta de acesso a cartórios e informações.

    Portanto ela morreu oficiosamente, e de verdade, com 103 anos.

    Considero-a das mais autênticas e singulares personas do meio artístico. Era dona de uma fenomenal presença de espírito, além de gaiata, debochada, escrachada, enfim, a própria encarnação do humor genuíno, sem canastrice ou concessão...na lata mesmo!

    Como sou , naturalmente bem humorado e inconformado_ uma aparente contradição para os incautos, mas somente uma das provas de que sou humano_, foi ela a comediante que mais fez-me gargalhar a não mais poder. Outros comediantes ( quase todos parecem-me mais bobos ou idiotas, ou infantilóides, do que engraçados) não conseguiram, "de jeito maneira", fazer-me desopilar o fígado tanto quanto ela.

    Quanto à sua arguta observação de que ela não amou e foi feliz, Honoré de Balzac, vaticinou estas quase excludentes escolhas:
    "É possível amar e não ser feliz, é possível ser feliz e não amar, mas amar e simultaneamente ser feliz, isso seria milagre.

    Uma das frases que todos deveríamos ter em mente do amanhecer ao anoitecer, foi revelada por sua filha que disse lembrar de sua mãe como "uma figuraça, uma pessoa cheia de energia". "Ela sempre me falava: 'A gente precisa ser feliz, nem que seja na porrada'. Era essa a energia que ela passava para as pessoas.""

    Citarei, então, mais algumas frases que Dercy proferiu em diferentes situações, por considerá-las de grande sabedoria adquirida ,não só no dia-a-dia, quanto no vida-a-vida, na porrada , como diria ela.

    "Por maior que seja o buraco em que você se encontra, pense que, por enquanto, ainda não há terra em cima.


    "Fui sem educação, sem mãe, sem família, fui uma menina criada sozinha, sem nenhuma orientação, e consegui vencer. Isso para mim foi uma glória"

    “……NA VIDA TUDO É UM JOGO. PERDE OU GANHA. ATÉ NO AMOR. MÃE PRA FILHA, MARIDO PRA MULHER, TUDO É INTERESSE: SE EU NÃO TE DOU VOCÊ TAMBÉM NÃO ME DÁ……"



    Estamos desmoralizados, usam a maldade no lugar da bondade. Ainda bem que eu estou ótima, não tenho doença, só uma falta de açúcar que eu finjo não ter e me acabo de chupar balas. Quer saber? Desde que nasci, acho que sou a pessoa mais feliz do mundo. É difícil eu encontrar alguém mais feliz do que eu. Simplesmente por amor à vida!

    "Não tenho doença, não tenho dores, não tenho saudade de nada nem de ninguém. Não tenho ódio, não tenho amor, nunca fui apaixonada.
    Sou livre. Não tem outra igual a mim! Ninguém tem mais moral do que eu".

    "Palavrão, meu filho, é condomínio, palavrão é fome, palavrão é a maldade que estão fazendo com um colírio custando 40 mil réis, palavrão é não ter cama nos hospitais"

    Não fumo e nunca bebi. Não sou um tanque de combustível para botar álcool dentro de mim.

    Se tenho pecados, não lembro. A vida é um segredo. Num susto, se morre.

    Filho da puta não é palavrão, é elogio. É muito raro uma puta ter um filho

    Não quero estragar a minha vida por causa de uma tapa. Besteira você repetir o que o outro fez. É muito melhor apanhar. Muito melhor.

    Palavrão, mesmo que ninguém assuma, é a miséria, a falta de respeito, é a sacanagem que estão fazendo com o povo. Isso que é palavrão.

    "Porra?! As pessoas acham que 'porra' é palavrão. Mas não é! Eu, vc, todo mundo veio da porra, porra! Palavrão é 'fome', palavrão é 'pedágio', palavrão é 'imposto'..."

    Não sei se contribuí, mas contento-me em demonstrar meu respeito e admiração pela imortal, amoral e fabulosa guerreira.
    Abraço
    Marcos Lúcio

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  2. Não Marcelo,mesmo se a Dercy fosse natureba,não teria vivido dois séculos,pois ninguem vive tanto tempo.
    Eu tambem não assistí a minissérie,só fiquei a me perguntar,o que leva uma mulher fazer oito abortos...
    Boa noite.

    Monica.

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    1. Cara Mônica, veja por esse lado, ela deve ter dito seus motivos, algo inerente a todo ser humano.Por outro ângulo pense bem: Se vc já não suportava uma Dercy,imagine oito.
      Bom dia.
      Odemildo.

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    2. Odemildo,na verdade eu só quis lembrar dos métodos contraceptivos,se bem que naquela época não existia a variedade de hoje,mas qq mulher podia sim,criar a sua forma pessoal de evitar uma gravidez... Abs.

      Monica.

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  3. Putz, não gostava muito dessa mulher, não. Confesso que não conheço muito bem sua história e não tenho interesse em conhecê-la; quando digo que não gostava dela é porque todas as vezes que a vi na televisão, só a via falando palavrão, a impressão que tinha é que se ela não falasse palavrão não teria mais nada a dizer. Respeito quem a admirava, mas não via nada nela.

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  4. Admito que não se goste dela, afinal, este verdadeiro "doce de pimenta", esta figuraça tão sui generis assim, teve , mesmo, todas as chances _ a partir das condições da sua primeira década de existência_ de "dar errado".

    É, de fato, quase um milagre ter feito nome neste país tão preconceituoso, machista, e impregnado de (falsos) valores religiosos. Eu mesmo confesso, com relação à pessoa, ao ser humano Dercy, nada poder dizer, pois não tive o (des)prazer de conhecê-la pessoalmente.Do artista, interessa-me somente sua arte, que dele desvinculo, pois só poderei consumir ou ter acesso ao produto do seu trabalho.Justamente por isto não julgo ou faço juízo de valor, até porque, com relação a abortos, desconheço mulher que queira, espontaneamente fazê-lo (todas não tiveram ou não viram alternativas). Nas condições de total ignorância e desamparo em que sobreviveu, vou tentar exercer o altruísmo, supondo que outras mulheres, talvez, fizessem o mesmo. Duas frases dela, em especial, dão uma dimensão aproximada das condições que forjaram a sua peculiaríssima persona:

    "Quem me criou foi o tempo, foi o ar. Ninguém me criou. Aprendi como as galinhas, ciscando. O que não me fazia sofrer eu achava bom.

    Sentei o pé nele e saí porta afora. Socorro! Esse homem me furou! Imaginei que tinha enfiado um facão e rasgado minhas tripas. Obs.: Depois de ver o sangue ao perder sua virgindade, com o cantor Eugenio Pascoal.

    Entretanto, como comediante de melhor tempo de comédia, na minha modesta avaliação, e dona de uma característica tão única para representar (que parece de verdade, inclusive os palavrões saíam como da boca de uma criança, tamanha a espontaneidade e o intuito exclusivo de escrachar, jamais ofender) é que faz-me admirar seu trabalho humorístico ímpar, incomparável e insuperável...outros comediantes eatão a léguas do talento fenomenal da grande cômica Dercy.

    Seu post é irrepreensível e a contribuição do Marcos Lúcio é digna, também, de sincero elogio.

    Abração

    Danilo

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  5. A Dercy é a prova de que não basta querer ser ator. Tanto quis, saiu de sua cidade, brigou pela profissão, foi à luta, e era péssima atriz! Basta revê-la em filmes reprisados pelo Canal Brasil, ou pela TV Cultura. Também era muito ruim no teatro, fui vê-la no Canecão quando eu tinha uns 20 anos (há quase 30), e me decepcionei! Ela era uma pessoa engraçada, admirável, cativante, mas no papel de Dercy.

    Denise Coutinho

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  6. Isso mesmo, Denise, ela era uma personalidade, sempre o mesmo personagem. Nunca foi atriz. Bj

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  7. Talvez tenha sido aberta a temporada para resgatar a memória das comediantes brasileiras, posto que quase simultaneamente a TV e o Teatro trazem para o público, duas mulheres, que além da profissão,tem muito em comum; Dercy Gonçalves e Zezé Macedo.

    Dercy que pelo espectador comum é lembrada como a velha desbocada e Zezé como a velha feia que “só pensa naquilo”, tem histórias de vida surpreendentes para quem se acostumou com a retratação caricata e estereotipada.

    Claro que o livro deve ter outro sabor, porque a leitura faz a imaginação construir cenas que a formatação comercial inviabiliza, mas no primeiro capítulo da minissérie já se podia ver que a Dercy era muito mais que palavrões e escracho, além de conferir que afinal de contas Heloisa Perisse tem seu valor como atriz, e que finalmente a Tati agora é problema da Thalita Rebouças, que é morena!

    Zezé não mereceu uma homenagem global, mas não menos importante e talentosa, já que Betty Gofmam, por uma hora e meia, ressuscita a figura aparentemente frágil, de voz esganiçada, desprovida de beleza estética, que desabrochou para arte cênica somente aos 38 anos, realizando o sonho da menina de Silva Jardim, e que ironicamente ficou marcada pela personagem D. Bela, mesmo tendo feito quase 100 filmes.

    Assim como Dercy, Zezé perdeu a mãe cedo, e por força das circunstâncias, após perder o pai, casou-se com um mecânico narcisista. Teve um filho, que morreu ainda bebê, e em virtude do trauma perdeu a voz temporariamente, recuperando-a com o timbre afetado, vindo a ser justamente a voz, uma das principais marcas do seu trabalho, num daqueles acontecimentos inexplicáveis da vida, que o só o acaso conhece as razões.

    E o destino também se encarregou de colocar Zezé no palco pela primeira vez, ainda quando era secretária do dramaturgo Dias Gomes na Rádio Tamoio. Trabalhando há dois anos na função burocrática, sem perspectiva de uma chance no programa de rádio, já que o chefe não queria de jeito nenhum perder a eficiente secretária, foi intimada a cobrir um buraco na programação dominical deixado pela estrela da companhia que tivera um imprevisto, e recitou um dos poemas de sua autoria, logo sendo contratada para viver uma doméstica no programa da Tv Tupi,fazendo no ano seguinte (1954) seu primeiro filme (O Petróleo é Nosso), alcançando sucesso popular ao lado de Oscarito e Grande Otelo em muitas chanchadas da Atlântida, com passagem até pelo teatro de revista.

    Apesar da vida artística intensa, Zezé Macedo não colecionou prêmios como Dercy, mas recebeu em 1986 um kikito no Festival de Gramado pela atuação no filme As Sete Vampiras, sendo o discurso da atriz no momento da premiação, uma das cenas mais belas do espetáculo, na qual ela sutilmente se refere à Dercy, quando diz que seu humor é malicioso, mas que não fala palavrão por achar feio.

    Dercy não foi feliz no amor, mas Zezé, depois de amargar um casamento infeliz, do qual se libertou, encontrou o amor em um colega de profissão com quem foi casada por 38 anos, até ser vítima de um derrame cerebral que a tirou de cena definitivamente.

    Tinha muitos espelhos pela casa – prova de que a vaidade é uma necessidade humana e não privilégio dos belos – e assim como Dercy adorava plástica, procedimento que fazia a cada dois anos, e a seu ver, era exigência da profissão, pois era parte da composição da personagem, uma jovem e pura.

    Zezé e Dercy, cada uma a sua maneira quebraram tabus, sonharam, fizeram do sonho e a sua própria razão de viver, não importando qual preço a vida lhes cobrasse – e ela sempre cobra – mulheres determinadas, autênticas, ousadas, que enfrentaram preconceitos, mas não se acovardaram diante deles

    Cometeria blasfêmia se as comparasse a Teresa de Ávila? Penso que não, pois todas elas foram mulheres apaixonadas pelo que fizeram e movidas pela necessidade de expressão, assim como tantas outras que seguem anônimas mundo afora.

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  8. UMA MULHER COM PERSONALIDADE FORTE,QUE NÃO SE DEIXAVA LEVAR POR NADA E NEN NINGUÉM.

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  9. Para aguentar os percalces da sua vida vitoriosa, só com muitos palavrões.
    Palavrinhas não serviriam para a grande mulher que ela foi. Adorável debochada! Igual Dercy não tem para ninguém.

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