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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Charlie Chan e o desabamento

Marcelo Migliaccio
Villa-Lobos (ou será Carlos Gomes?) estava de costas para a tragédia


Compro ou não compro esse DVD do Charlie Chan?

Poderia ter sido meu último pensamento, o derradeiro dilema da minha existência, se eu tivesse parado diante daquela banca de jornal na Avenida 13 de Maio cerca de uma hora e meia mais tarde. Eram seis e meia da tarde de ontem e, às 20h10, o prédio de 20 andares em frente ao jornaleiro desabou.

Foi um golpe de sorte. Dessa vez, escapei aos caprichos do imperador do acaso. Posso considerar que tirei a sorte grande, mas ninguém sabe o dia de amanhã, e é por isso que os bares e as igrejas estão lotados. Ou se acredita que alguém lá em cima está zelando por nós, ou a saída é apelar aos anestésicos...

Acho que o calor escaldante que fazia no Centro do Rio me compeliu a seguir adiante e a não parar naquela banca que vende DVDs de filmes clássicos a preços de antigamente. E é difícil achar por aí os longas em preto e branco do detetive chinês que resolvia os mais intrincados crimes de forma banal e estapafúrdia. Quando eu era pequeno, as películas de Charlie Chan (nada a ver com Charlie Sheen) eram exibidas na TV. Rever seus filmes é uma forma de voltar no tempo, não no espaço. Porque o espaço existe de fato, enquanto o tempo é uma invenção nossa.



O detetive chinês era o ator
sueco Warner Oland, bem maquiado

Hoje pela manhã, bem cedo, voltei à 13 de Maio, de bicicleta, claro. A nuvem de poeira ainda não se dissipara. Caminhões e caminhões recolhiam o que sobrou dos três edifícios (sim, outros dois ruíram em seguida). Bombeiros procuravam um suspiro, cães farejavam uma gota de suor ainda viva debaixo das toneladas de concreto. Curiosos se aglomeravam, na certa pensando que também foram befejados pela sorte por não estarem no lugar incerto na hora errada.

Dias depois, conheci um cara ainda mais sortudo que eu. Ele teria uma aula no prédio naquele horário fatal, mas faltou justamente no dia da tragédia que matou 20 pessoas. Aliás, conheci o cara no... bar.

Me arrisco a dizer que a tragédia ocorreu por duas razôes. Os contratantes da obra no nono andar, que, tudo indica, desestabilizou o prédio maior, nâo se preocuparam em notificar o Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura porque pensaram que acidente só acontece na casa do vizinho. Agora vem o pior: mesmo considerando a hipótese de um acidente, os contratantes da obra sabiam que estavam no Brasil, terra da impunidade. Se o prédio cair, a imprensa faz um carnaval por alguns dias, depois o caso cai no esquecimento e, após um processo que dura anos, um juiz absolve. Ovi dizer até que os donos da boate Kiss estão processando o Estado, acredite.

Não vi mais a banca que vendia DVDs do Charlie Chan. E o mistério da minha sorte naquela quarta-feira de cinzas talvez nem o herói do cinema desvendasse.


Marcelo Migliaccio

11 comentários:

  1. Em todos os jornais que li sobre o assunto, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, diz que a principal hipótese para os desabamentos aponta para problemas na estrutura de um dos prédios.
    Em um dos jornais o CREA-RJ diz que duas obras ilegais estavam sendo realizadas em um dos prédios que desabou; se não me engano, no prédio de 20 andares.
    Se o CREA-RJ estiver certo, antes do problema estrutural um outro problema mais grave ocorreu: a falta de fiscalização.
    Agora é esperar para que as investigações sobre os acidentes apontem a(s) verdadeira(s) causa(s) e que o(s) responsável(is) seja(m) punido(s).
    Agora, falando não apenas do Rio, mas de qualquer outra cidade brasileira, não é incomum encontrar prédios antigos com as estruturas visivelmente comprometidas e que a qualquer
    momento podem vir abaixo. O problema é que as autoridades só investigam ou tomam alguma providência depois do leite derramado, ou melhor, depois do prédio desabado.

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  2. Marcelo, Voce possui uma energia positiva de amigos do passado como eu do CSVP e tambem do presente.Vá a Igreja da Candelaria e agradece. abracos luiz

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  3. Pois é, meu caro...realmente ninguém sabe o dia de amanhã, e, se "Foi um golpe de sorte. Dessa vez, escapei aos caprichos do imperador do acaso", acenda uma vela por seu anjo da guarda ou cante o ponto do seu orixá rsrs....Que Deus o proteja, sempre! Na verdade, encontro eco nos vaticínios da maior e melhor escritora de que tenho notícia, a insuperável e caleidoscópica e lisérgica rsrs... Clarice Lispector, com suas palavras enfeitiçadas, aqui, mal costuradas por mim: "o próximo instante é desconhecido///corro perigo
    Como toda pessoa que vive
    E a única coisa que me espera
    É exatamente o inesperado /// o que me atormenta é q tudo é 'por enquanto', nada é ' sempre'“///Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento".
    A propósito, a estátua na Cinelândcia é do Carlos Gomes, ok?
    Abraço.
    Marcos Lúcio

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  4. É Marcelo,vc falou que a banca de jornal não estava mais no local,e queira Deus que o pobre rapaz vendedor tenha conseguido sair a tempo... bjs.

    Monica.

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  5. Acredito que um monte de inimigos seus lamentaram_ e ainda lamentam, acredito_ o fato de vc ter deixado pra comprar o dvd outro dia.Mas é que a sorte favorece os bravos de vez em quando também. Isso não é prerrogativa só de político corrupto e seus pares, não.
    Também faço parte desse seleto grupo, amigo. Que a força esteja conosco sempre.E dos desafortunados idem.

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  6. Valeu, gente, mas também não foi por tão pouco assim. Estive no local uma hora e meia antes do desabamento e, mesmo que eu entrasse na banca para comprar o DVD acho que não demoraria tanto tempo.. abraços.

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  7. Oi Marcelo,

    De qualquer jeito, acho que vale agradecer, pela sorte, pelo acaso, pela vida.

    E ficar muito triste, pelos que não tiveram sorte. E que tenham paz.

    Tem uma instância aí do inexplicável, que a gente não entende mesmo.
    Muito bem lembrado pelo Marcos Lúcio, com o poema da Clarice Lispector.

    Torcemos mesmo por você Marcelo. Que Deus o proteja sempre. Eu ainda prefiro acreditar que tem um Deus lá em cima zelando pela gente. Senão, não tem tarja preta, lícitas ou ilícitas certas.

    Beijos,
    Hanna

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  8. Sabe como eh... Quem morre na vespera eh o peru. Voce esteve la um pouco antes e, mais importante, foi embora antes. Ja eu nao tive a mesma sorte. Eu estava dentro! Nao, nao falo do predio pois se estivesse la dentro estaria sendo psicografado no lugar de escrevendo.
    Lembra o que escrevi sobre o "bbb"? No final digo que volto para o frio de New York. Pois eh, voltei. Estava dentro de um MD88 da Delta, ja sobrevoando LaGuardia (o Santos Dumont daqui) quando um som seco de metal batendo ocorreu. Como ex triplulante foi facil deduzir o que havia ocorrido: uma turbina tinha ido para o beleleu (e o aviao soh tem 2...) Procurei por sinais como a navegabilidade da aeronave (curso foi mantido. Nao houve movimento brusco), fogo (nao havia cheiro na cabine) e sons (nao havia sido uma explosao: nao escutava sons de que parte da turbina tivesse se movido ou arrancada, produzindo arrasto aerodinamico). Fiquei calmo e comecei a esplicar isso todo para a minha esposa que escutava sem modificar a fisionomia de pavor. Havia um grupo de brasileiros proximo a nos. Escutava a moca dizer: "So tenho 28. Nao quero morrer". Foi interessante ver as reacoes das pessoas (sem querer ser sadico) pensando no pior.
    Para fazer a situacao um pouco mais complicada, era de noite, chovia e a visibilidade era minima.
    Nao deu outra. Apos um aviso do piloto, fomos para um pouso de emergencia no JFK (o Galeao daqui). Nesse momento chamei uma comissaria, me apresentei e coloquei-me a disposicao para ajudar, se necessario. Nao foi!
    O pouso foi normal (longo pois nao se pode usar o reverso, apenas os freios) e, interessante, o apoio ao pouso de emergencia por parte da estrutura do aeroporto: contei 28 caminhos/utilitarios de bombeiros, ambulancia, etc. Tudo pronto para o pior, preparado em menos de 10 minutos, tempo entre o incidente e o pouso!!
    Enquanto isso, na Terra Brasilis, corpo eh descartado como lixo e 60 horas apos o desabamento os bombeiros vao usar caes farejadores e o jogo de empurra entre as partes "responsaveis" ja comecou. Aqui, a coisa acabou bem. Ai, vai ser saborosa: vai acabar em pizza!
    Ariel, o sobrevivente.

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    1. Eu nunca tive medo de avião, mas ultimamente ando ficando, não sei por que. E, além do mais, acho que andei tanto que não tenho mais disposição, é cansativo. Ainda bem que não aconteceu o pior... abraço

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  9. Não chegou a sua hora Marcelo.
    Bom para os leitores desse blog, e continue gostando das crianças pois elas trazem sorte.
    Sergio.

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