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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Cena carioca

Foto: Marcelo Migliaccio
Depois de ganhar um autógrafo do poeta maranhense, a moça trôpega se afastou e comentou com um amigo: "Não sabe quem aquele, não? É o João Goulart!"



Se eu fosse paparazzo estaria perdido. Pra começar, a foto ficou fora de foco, porque tive que tirar discretamente devido ao teor explosivo do local. Em segundo lugar, a personalidade que flagrei não faria qualquer dessas revistas de fofoca pagarem um tostão furado pela imagem.

Poetas não interessam no mundo do Big Brother e das amigas popozudas do Adriano, mesmo que ele seja Ferreira Gullar, um dos maiores do Brasil.


Pouco passava das seis da manhã na Avenida Atlântica, e eu lá, na minha pedalada matinal. Várias vezes já cruzei com o Ferreira Gullar no bairro. Ao andar por Copacabana, das duas uma: ou você esbarra nele ou no Fausto Fawcett (sem a Kátia Flávia). E o mais curioso é que o poeta maranhense está sempre impecável, mesmo nas primeiras horas do dia. Enquanto quem não virou a noite exibe aquela cara amassada de sono, o Ferreira não, parece que já acordou há horas e que acabou de resolver um assunto no banco. E o dia nem bem começou... mistérios de poeta.


Bom, eis que o vejo admirando um artesanato feito com latinhas de cerveja e refrigerante perto de um conhecido bar onde americanos parecendo ter saído da base afegã de Restrepo encontram garotas brasileiras que adoram se estrepar em troca de uma mixaria.


Mas o Ferreira não tinha nada a ver com aquela pegação de fim de noite. Estava apenas de passagem, admirando a arte popular do artista anônimo.


Enquanto eu contemplo tão cândida cena num cenário tão encapetado, ouço uma voz pastosa atrás de mim.


_ Dem um babel aí?


_ O quê? _  pergunto.


_ Um babel, cara, eu preciso de um babel implora a garota muito mais pra lá do que pra cá.


Quando decifrei que um babel era uma folha em branco, não entendi nada, pois, devido às condições locais de temperatura e pressão, pensei que ela queria outro tipo de papel, o papelote, tão presente nas noites cariocas.


Mas a moça só desejava um autógrafo do poeta, imagine!


Arranjou um babel e chegou-se a ele, tímida, evergonhada. Solícito e atencioso, Ferreira Gullar assinou e conversou um pouco com ela, educadamente e desinteressadamente, diga-se. Depois, continuou a examinar os cavalos e bicicletas feitos de latinhas de alumínio.


Para cororar a historinha real, deixo um clássico da poesia de Ferreira Gullar, Traduzir-se, que está para a sua obra como a música Emoções está para a do Roberto Carlos.





Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

12 comentários:

  1. Obrigada por você não perder a oportunidade de divulgar o que é bom e bonito, nem o momento de apontar o que ferve e fede na cidade.
    Obrigada pelo poema de Gullar. Há muito tempo não o lia, e não é que chegou na hora certa?

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  2. No mundo de BBBs o poeta não interessa. Ferreira Goulart estava certo. O poeta não fede nem cheira...

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  3. o sonho é popular
    eu li isso em algum lugar
    se não me engano é Ferreira Gullar
    falando da arquitetura de um Oscar

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  4. Que bela Cena Carioca!
    O poema então ...beijos

    Isabel Muniz

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  5. Este poema na voz de Nara Leão e Fagner é uma das mais belas canções brasileiras que ouvi.

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  6. Marcelo, você tem um jeito delicioso de contar histórias. Dou boas risadas.

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  7. Marcelo,eu daria tudo da minha vida,para ver a cara do Ferreira Gullar,sendo confundido com o João Goulart. rs vou trabalhar,um bom dia pra você.

    Monica.

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  8. Lembro-me de Ferreira Gullar em dois momentos: o primeiro, na abertura do show Brasileirinho da Bethania, quando sua imagem é projetada na cortina transparente, recitando um poema que não é de sua autoria, mas que sua voz envelhecida contrasta com a melodia da selva amazônica, numa pequena mostra do belíssimo espetáculo que vem a seguir; o outro é quando em uma entrevista, conta do drama de ter dois filhos esquizofrênicos, do sofrimento e dificuldades de lhe dar com a doença, de como a sociedade fecha os olhos para os doentes mentais;

    Fico pensando se a poesia não tenha sido a válvula de escape para dor, o remédio para manter a sanidade e coração pulsante.

    “Uma parte de mim
    pesa, pondera:
    outra parte
    delira.”

    E tão por acaso esse flagrante matinal deu origem a crônica, como também a poesia para o poeta, porque originalmente pensou em ser pintor e considera-se mais um crítico de arte que um literato.(vide documentário "Por Acaso Gullar")

    O acaso transformando vidas...

    Na folha de papel, o autógrafo e o autorretrato:

    “Não quero assustar ninguém.
    Mas se todos se escondem no sorriso
    na palavra medida
    devo dizer
    que o poeta gullar é uma criança
    que não consegue morrer”

    (Ferreira Gullar, “Detrás do rosto”)

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  9. Gostei. Muito bom. Seu blog está em meus "Favoritos". É ótimo ver pessoas criando blogs assim com conteúdo.

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  10. Com o Fausto Fawcett esbarrei muito no balcão do Cervantes, ao lado da colônia de Kátias Flávias da Prado Júnior. Ainda lamento nunca ter encontrado o Gullar. Show de bola seu blog, Marcelo. Sempre passando os olhos por aqui. Abs.

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