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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

E ainda dormem tranqüilos

A bandeira do posto é Petrobras, mas até bem pouco tempo era Shell. Só não mudaram os cerca de 20 empregados, entre frentistas, gerentes, funcionários da loja de conveniência, e os quatro donos, que não sei como conseguem deitar a cabeça no travesseiro e dormir à noite.

Enquanto abasteço o carro, um dos frentistas começa a desfiar suas queixas:

_ Não temos horário de almoço.

O colega dele se aproxima. Como o outro, também sai de casa às 4h para estar no posto às 6h. Um pão com manteiga e café com leite é tudo que comerão até as 15h.

_ Meu salário este mês foi de 800 e poucos reais, porque não teve nenhum desconto.

_ E fazemos uma hora extra todo dia que ele também não paga _ emenda o outro.

Eu ouço estupefato aquele relato de semi-escravidão na área mais nobre do Rio de Janeiro.

_ Tem quatro domingos que eu não folgo _ continua o homem enquanto a mangueira joga um pouco mais de gasolina no meu tanque.

São 200 mil litros de combustível vendidos ali mensalmente. Ainda assim, os patrões não se furtam a roubar seus empregados.

_ Tivemos o dissídio mas eles não pagaram os dois meses retroativos. São 50 reais, pra nós faz diferença. Dá pra comprar dois quilos de frango...

_ Mas vocês não reclamam.

_ Se reclamar tá na rua, ele manda embora na hora.

Me veio na cabeça que a maioria das pessoas, principalmente os trabalhadores subalternos, se sujeitarem às condições de trabalho mais desumanas, que contrariam até as leis trabalhistas, pois precisam desesperadamente daquele minguado salário para viver. Lembrei daquela máxima cruel do capitalismo: quem não trabalha não come. O que caracteriza o escravo é a falta de qualquer outra opção de sobrevivência.

No caso dos frentistas ainda pensei em como eles estão expostos ao risco permanente de assalto, pois trabalham literalmente no meio da rua. Insisti:

_ Por que vocês todos não se juntam e falam com os donos.

_ Tem um monte de puxa-saco do patrão aí, aceita tudo, não reclama de nada e ainda dedura os outros.

Os carrões importados que desfilm pela Zona Sul da cidade maravilhosa entram e saem do posto e eu tento uma última cartada na tentativa de arrefecer a minha própria indignação.

_ E o sindicato de vocês, não faz nada?

Foi o único momento em que um deles riu... uma risada que misturava deboche, raiva e conformismo.

_ O sindicato não faz nada!

Diante disso, nem me animei a sugerir que ligassem para a Delegacia Regional do Trabalho para denunciar a exploração.

Só caprichei na gorjeta.

9 comentários:

  1. Já instalei muitas máquinas de auto atendimento bancário (ATM), sempre tinha um funcionário elogiando as máquinas, achando que o dia a dia deles iria melhorar, eu era enfático em dizer que a intenção dos banqueiros era substituir os funcionários, como ele, pelos novos ATMS e que essa raça (banqueiros) só trabalha para eles.

    Muitos ficavam assustados com meu papo direto.

    Cury

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  2. Qual é a Localização do bendito Posto

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    1. Não importa muito, isso ocorre em quase todos os postos do Brasil.

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  3. Trabalhei no posto ipiranga da lagoa o dono obrigava veder gasolina aditivada se voce nao colocase era demitido

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  4. Trabalhar em posto de gasolina nao e ruin dificio e conviver com os colegas puxasaco

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    1. Puxa saco tem em todo lugar, é a praga universal.

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  5. Trabalhei muitos anos no posto ipiranga enfrente o clube militar mudou a direcao os socios mada os funcionarios vender aditivada quando o cliente ver voce tem que pedir desculpas falar que pegou o bico por engano tem cliente que faz voce tirar a gasolina

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  6. os donos de postos de gasolina deveria tratar os funcionarios com respeito com dignidade com simpatia e uma clase que ganha tao pouco eles nao dao um lanche se quer nao fazem um refeitorio voçe e obrigado a lanchar ou almoçar denttro do banheiro isso e um absurdo onde estao as fiscalizaçoes

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