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terça-feira, 5 de março de 2013

A greve de ônibus na grande imprensa

A cobertura que a grande imprensa do Rio fez da recente greve de motoristas e cobradores de ônibus foi, como sempre, parcial e favorável aos empresários do setor de transportes, que estão entre os que mais lucram no cenário econômico.

Para se ter uma idéia do volume de dinheiro líquido que esses empresários amealham diariamente no estado do Rio, só na capital eles comercializam 2,7 milhões de passagens por dia. Essa dinheirama, aliás, fez com que os donos de empresas de ônibus se tornassem vítimas preferenciais de sequestros nos anos 90, época em que esse tipo de crime proliferou por aqui.

Nem é preciso dizer que as empresas de ônibus estão entre os maiores financiadores de campanhas políticas, o que explica o alto preço das passagens e a passividade de governadores e prefeitos diante do péssimo serviço prestado aos usuários em vários pontos da estado (notadamente  a Zona Oeste e a Baixada Fluminense), onde vivem os trabalhadores que precisam acordar mais cedo e percorrem maior distância para chegar aos seus locais de trabalho.

Amigos do poder, os empresários de ônibus nunca perdem. Se o preço da passagem com o bilhete único ficou mais barato, é porque o governo do estado subvenciona, com o dinheiro dos nossos impostos, a diferença.

Se o metrô é ineficiente e caro como é hoje, isso de deve em muito ao lobby feito pelas empresas de ônibus junto aos políticos que ajudam a eleger. Nossas cidades seriam muito mais silenciosas e menos poluídas se esses milhares de monstrengos fossem retirados das ruas e o povo pudesse se locomover nas composições subterrâneas.

Nos noticiários da TV, porém, os vilões da greve são sempre os rodoviários. As reportagens só se preocupam em mostrar os transtornos causados aos usuários pela paralisação. Filas, reclamações de populares... o roteiro é sempre o mesmo, parece até matéria do desfile do Galo da Madrugada no Fantástico do domingo de Carnaval narrada pelo Francisco José...

Não se fala da intransigência dos patrões, que, apesar de seu lucro estratosférico, relutam em dar os 16% de reajuste pedido pelos empregados, oferecendo a metade e negando uma melhora nas cestas básicas. Devem estar sonhando em entrar na lista da revista Forbes dos mais ricos do planeta.

Nenhum intrépido repórter jamais vai poder mostrar na TV, por exemplo, como motoristas são obrigados a cumprirem jornadas de trabalho imensas e estressantes, elevando os riscos de acidentes. Nem os engarrafamentos gerados pela retirada dos cobradores de centenas de ônibus, o que faz com que o condutor precise receber o dinheiro de cada passageiro e dar-lhe o troco antes de seguir viagem com o coletivo. Em contrapartida, piquetes e eventuais pedras atiradas contra veículos dirigidos pelos fura-greve são superdimensionadas.

É assim há muito tempo. No final dos anos 80, ao cobrir uma greve de ônibus em Brasília, ouvi pessoalmente do empresário Wagner Canhedo que os ônibus não lhe davam lucro, só prejuízo. Poucos meses depois, ele comprou a empresa aérea Vasp...

Quinta-feira, parece, a greve, suspensa no domingo, pode recomeçar no Rio.

E os empresários dos ônibus terão, novamente, a ajuda de seus parceiros da TV para colocar a opinião pública contra os rodoviários.

Assim como poupam sempre o governador e o prefeito amigos quando são obrigados a noticiar o caos nas barcas, trens, vans etc... o tom é sempre aquele, de que "tudo vai melhorar" e que as concessionárias, também amigas do peito, não são tão gananciosas assim.


12 comentários:

  1. Poxa, Marcelão! Não é à toa que te admiro pra caramba. Tenho 28 anos e é a primeira vez que vejo alguém falando sobre o outro lado da moeda de uma forma sensata. Eu já trabalhei no setor de transportes interestadual (2006-2007) e sei como as coisas funcionam. No RJ o motorista e empregados do setor rodoviário são tratados iguais a cachorros, os direitos são mínimos. Um exemplo prático: em Juiz de Fora os motoristas tinham na garagem: refeitório com self-service (ambiente limpíssimo), direito a sobremesa e um local de descanso. No RJ, NADA, isso mesmo, NADA. Era dado um ticket (isso em 2006) de R$ 5,00, onde o motorista se alimentava em um "pé sujo" perto da garagem. a revolta era total. Mas sabe como são as coisas por aqui, infelizmente. O lucro da empresa era enorme, porém quando se falava em alguma melhoria, os diretores alegavam que a empresa não conseguiria se sustentar e poderia até quebrar. A população tem um péssimo serviço e os trabalhores do setor um péssimo ambiente e condições de trabalho.

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  2. Sem falar que as Barcas e a Ponte estão nas mãos de uma só empresa,e a mídia amestrada nunca toca nesse assunto. Embora o direito de greve não justifique impedir de trabalhar quem assim deseja. Sempre me perguntei por que o povo tem de pagar por isso. Será que não daria mais resultado liberar as roletas para o povo andar de graça? Se há uma coisa a que empresário tem alergia é a prejuízo. Acredito que dessa forma eles iriam negociar no dia seguinte. Cansei de ver greves reivindicando o fim do absurdo da dupla função,e esse objetivo nunca foi conseguido. Essa última greve não resolveu absolutamente nada,tudo continuou como está e quem mais sofreu foi a população.Como sempre.

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  3. Greves adiantam e muito e a depender dos interesses o efeito pode ser catastrofico. Vejam o caso da Bahia onde as greves dos professores e dos policiais militares foi muito bem explorada no sentido de desestabilizar o governo petista e como consequencia, pasmem, culminou com a eleicao de ACM Neto. Cabe ressaltar que a Globo na Bahia pertence aos carlistas e esta sob o controle dos DEMOS.

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  4. Lembro-me que no governo Brizola, as empresas de ônibus eram encampadas por ele, pelo péssimo serviço prestado a população, quando o gato angorá (Moreira Franco) assumiu o governo, as empresas encampadas foram devolvidas aos seus donos.

    Sobre a fiscalização que a agetransp deveria fazer, uma pessoa da minha família foi motorista de um diretor de lá, ele contava horrores sobre suas idas e vindas com o tal diretor que frequentava a casa do presidente do metrô, da supervia, etc. E sempre recebia um saco com dinheiro, na maior cara de pau, ainda comentava quanto havia no saco .
    Só não fui a diante com essas denúncias, porque além de prejudicar o motorista, sabia que não iria dar em n a d a !!

    Cury

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  5. Quase tudo está dito. Greves, geralmente, objetivam conquistas que extrapolalam a pauta de negociações. Eleição para cargos políticos é amais evidemte, sendo exemplo emblemático o dadquele SR, eleito e reeleito para presidir o país. Foram anos no comando de greves, algumas, sem qualquer sentido, aderida por trabalhadores idiotisados e alccoolisados., como , amiúde, era o estado de seu líder. Enquanto movimento restrito ás pautas(ficção) , é justo e pertinente, desde que , principalmente, para áreas vitais, seja mantido o mínimo qualitativo e quantitativo, para não penalisar a sociedade(nós). É criminosa a paralisação total de Saúde, Segurança e transporte, a atual. A grande mídia demoniza os trabalhadores, sem dúvidas. Alguns trabalhadores, por outro lado, criminalisam o movvimento, com agressões físicas e morais aos dissidentes.
    Enquanto profissional de Saúde, em hospitais e Empresas privadas e estatal, participei de várias greves, geralmente, aderindo, totalmente. Exceções, houve na estatal, onde um líder, pouco educado, formal e sócio politicamente, PETISTA CUTISTA, tinha o prazer mórbido de levar a classe que representava, à greves suicidase idiotas, como ele próprio. Pois bem, essa triste figura elegeu-se por quatro mandatos consecutivos, Deputado federal. Na quinta tentativa, foi desmistificado, rejeitado pela classe que iludiu por desesseis anos, não conseguindo o quinto mandato. Creio que no momento, deva ocupar alguma sinecura bem remunerada, no PT RIO.

    ANTONIO CARLOS

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  6. As greves do ABC nas decadas de 70 e 80 se nao resolveram todas as mazelas dos trabalhadores conseguiram modificar em muito as relacoes patrao/empregado gerando inumeras conquistas para a classe trabalhadora. Uma das consequencias mais notaveis foi fazer surgir o maior lider oriundo dos movimentos populares que depois de varias tentativas contra candidatos da elite, conseguiu se eleger e reeleger com folga. Uma vez como presidente, Sua luta como trabalhador permitiu ao presidente entender as necessidades dos menos favorecidos e com isso desenvolver programas de distribuicao de renda e de diminuicao da pobreza copiados em varias partes do mundo e reconhecido pela ONU, independentemente do que acha a elite brasileira. Hoje o momento eh outro e muita coisa precisa ser aperfeicoada, mas querer negar a importancia do movimento dos trabalhadores do ABC e do Lula eh no minimo desconhecer a historia recente do Brasil.

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  7. Mais uma oportuna e bem traçada denúncia. Nada a acrescentar.
    Marcos Lúcio

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  8. Eh... Uma coisa nao se pode negar: de "distribuicao de renda" ele entende bem...

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  9. Eu já trabalhei numa empresa de ônibus. Na qual, frequentei reuniões de sobre gastos e o filho do dono meu chefe nunca falou o quanto entrou. Somente falava de gastos. Eles visam esbanjar os carros q conforme os meses passam, vão trocando de carro. Empresas contratando motoristas para fazerem função dupla e dobrar. Absurdo! Eu trabalhei internamente a noite e escutava cada coisa q os motoristas tinham q pagar por avarias q terceiros faziam no ônibus.

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  10. Infelizmente, e apesar de não ter dado certo, o capitalismo é assim mesmo e dificilmente os trabalhadores levam vantagem nestes embates. Normalmente as reinvindicações não atingem a classe dominante do País, pois, em nada interessa a luta por transporte de qualidade (eles andam de carro), educação básica pública para elite (estudam em colégios particulares) e por uma polícia mais eficiente (eles têm seu próprios seguranças). Uma criança rica que nasce em São Paulo pouco tem contato com a pobreza, pois, em seu carro blindado não precisa ir até a periferia que é bastante separada dos bairros ricos, diferentemente do Rio de Janeiro onde há favelas em todos os cantos da cidade. Se os objetivos da revolução separatista de 32 não foram alcançados por São Paulo, a divisão entre a parte rica da cidade e a periferia é bastante clara e ratifica a separaração entre pobres e ricos.

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