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segunda-feira, 20 de julho de 2015

Biografia não autorizada.

Quem é você para escrever sobre mim se eu mesmo nem sei direito quem sou?

E se você tão pouco sabe quem é você, como tem a pretensão de dizer quem eu sou?

Como quer contar coisas que eu há muito tempo deixei de lembrar para que os pesadelos parassem de me atormentar?

E você nem sequer estava lá...

Coisas que eu fiz questão de esquecer, outros vão certamente contar por mim. Talvez alguém que também nem estava lá, mas que vai inventar alguma coisa só para aparecer. E os que estavam lá não estavam dentro de mim para conhecer qualquer razão ou desatino.

E, por seu intermédio, alguém que está ainda mais longe vai me julgar como se tivesse esse direito. Não, minha história não é uma estória.

Não venha querer fotografar minha alma como se eu fosse uma estátua de praça qualquer. E depois pregar um selo qualquer embaixo do meu nome para me colocar numa prateleira medonha. Fascista, comunista, santo, sacana, honesto, ladrão, sábio, burro... qual será meu rótulo no fim das contas se eu posso ser tudo isso e muito mais.

Isso sim é ser obscurantista: querer transformar um ser humano numa estátua.

Minha vida não é para principiantes.


Foto: Marcelo Migliaccio





Um comentário:

  1. Recado bem dado.Relembrei-me desta poema do genialíssimo Fernando Pessoa. Parece-me oportuno, se não estou equivocado, como quase sempre rs.

    Não sei quantas almas tenho

    Não sei quantas almas tenho.
    Cada momento mudei.
    Continuamente me estranho.
    Nunca me vi nem acabei.
    De tanto ser, só tenho alma.
    Quem tem alma não tem calma.
    Quem vê é só o que vê,
    Quem sente não é quem é,
    Atento ao que sou e vejo,
    Torno-me eles e não eu.
    Cada meu sonho ou desejo
    É do que nasce e não meu.
    Sou minha própria paisagem;
    Assisto à minha passagem,
    Diverso, móbil e só,
    Não sei sentir-me onde estou.

    Por isso, alheio, vou lendo
    Como páginas, meu ser.
    O que segue não prevendo,
    O que passou a esquecer.
    Noto à margem do que li
    O que julguei que senti.
    Releio e digo : "Fui eu ?"
    Deus sabe, porque o escreveu.


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