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sábado, 10 de novembro de 2012

Onde a coruja dorme

Se há um documentário que eu gostaria de ter feito é Onde a coruja dorme, sobre o sambista Bezerra da Silva (1927-2005), que cantou como ninguém a realidade, a alma e a inteligência do povo pobre do Rio de Janeiro. Além de mostrar Bezerra cantando seus sambas e dizendo as maiores verdades, o filme joga luz sobre os compositores de suas músicas Tem bombeiro, pedreiro, carteiro, camelô, técnico em refrigeração, moradores de favelas que do estado brasileiro só conhecem as botas da polícia.

As letras das músicas saem da cabeça dessa gente, com quem nós da elite branca dominante cruzamos diariamente sem conhecer sua visão de mundo sagaz, lúcida e bem-humorada. Ri muito durante o filme com as declarações de 1000tinho (essa grafia diz tudo sobre esses personagens), Adezonilton, Popular P, Barbeirinho, Pedro Butina, Roxinho, Claudio Inspiração e do próprio Bezerra, entre outros.

_ Navio não sobe morro e não tem aeroporto no morro, então como chegam essas armas importadas? Ninguém da favela vai em Miami ou no Golfo Pérsico buscar fuzil.

_ Se é preto e pobre chamam de macumbeiro, se é branco de olho azul é espiritualista, kardecista.

_ Malandro é uma coisa, bandido é outra. Malandro no dicionário quer dizer inteligente, mas para o pobre virou um termo pejorativo.

_ Nêgo fala que vai fazer amor, eu queria saber onde é a fábrica, se é em Bangu...

Cada samba tem uma história, contada em mesas de bar, entre garrafas de cerveja, batucada e muitas gargalhadas. Tem a sogra com bigode e costeleta, o delator maneta que aponta com o dedão do pé e planta bananeira no orelhão pra ligar pro disque-denúncia. O pai de santo picareta que joga búzios com tampinhas de garrafa amassadas e apela ao Zé Pilantra (e não Pilintra), a pomba gira que roda bolsinha.

A entrevista que me deu mais prazer de fazer (e foram inúmeras em 26 anos de jornalismo) foi com Bezerra, em 1996, para o jornal O Estado de S. Paulo. Sempre sério mas muito espirituoso, Bezerra só esboçou um sorriso quando viu que eu sabia as letras de quase todos os seus sambas. Num escritório em Copacabana, com a mulher dele, Regina do Bezerra, ao lado, dei muitas risadas e fiquei espantado com a visão de mundo absolutamente realista de quem sempre esteve à margem da sociedade de consumo, das panelinhas intelectualóides e da estética americanizada das novelas de TV.

Mas chega de blá-blá-blá. Com vocês um apertivo desse filme que eu recomendo entusiasticamente.


5 comentários:

  1. Minha ex sogra deu aula, durante os anos 80, para o filho do Bezerra da Silva, todo dia ela tinha um causo novo para contar sobre a turma e principalmente sobre o menino, eu a d o r a v a ouvir.
    Curti muito suas músicas.
    Salve Bezerra da Silva !!

    Cury

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    Respostas
    1. Quando o entrevistei, se não me engano, ele disse que o filho morava nos Estados Unidos.

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    2. Na época de criança, o menino estudava na Escola Municipal Joaquim Nabuco, em Botafogo, onde ela deu aula durante anos.

      Cury

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  2. Oi Marcelo,

    Gosto muito do Bezerra, também.
    É samba mesmo né? Dá gosto ouvir. Dá muito gosto ouvir.

    E tem, também, aquela música dele, que é ótima, mas que talvez não seja muito de "bom tom", comentar aqui.

    Beijos,
    Sandra

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