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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O banqueiro e o faxineiro

Imagine você sair de um colégio onde estudam filhos de banqueiros e ir para um outro estudar com a filha da faxineira.

Foi essa mudança radical que eu vivi aos 8 anos de idade, quando a minha família se mudou de Ipanema para a Urca. Saí do Instituto Souza Leão, uma escola particular e cara, para o Colégio Minas Gerais, que era público.

Não sei se foi por falta de grana dos meus pais ou se era apenas uma questão geográfica decorrente da mudança de bairro. Francamente, isso pouco importa uma criança. A única coisa que me deixava chateado era não poder mais jogar futebol porque na nova escola não havia quadra. Aliás, nem aula de educação fisica havia para alunos do segundo ano primário como eu. A compensação era que perto da minha nova casa havia uma praça em que jogavam bola os garotos que se tornariam meus colegas por todo o resto de infância e adolescência. Parei de levar uma hora e meia no ônibus do colégio para chegar ao Souza Leão e caminhava três minutos de casa até o Minas Gerais.

Bom, mas voltando à mudança radical. Entre os meus colegas de classe no Souza Leão estavam a filha do dono do Banco Econômico, o filho do dono da H. Stern etc. Eu devia ser o aluno mais pobre, porque meus pais faziam um sacrifício para que eu estudasse num bom colégio. Economizaram depois, quando passei para uma universidade pública, uma das discrepâncias brasileiras que o sistema de cotas busca atenuar: quem  estuda em colégios particulares e bons passa para a faculdade que deveria acolher os que não têm recursos. Sou a favor das cotas porque é um resgate social histórico e porque vai obrigar aos filhos da classe média a estudarem mais para passar para a faculdade gratuita.

Voltando. Meus colegas no Souza Leão chegavam de chofer. Havia aula de teatro e de música. Do outro lado do muro ficava o maravilhoso Parque Lage. Muitos anos depois, o colégio seria vendido e o prédio, demolido para dar lugar à sede de uma grande empresa. E até hoje, quando passo por ali e sinto o cheiro de mato do parque, é como se viajasse no tempo e voltasse a um recreio no Souza Leão.

Na escola pública, havia merenda na hora do recreio e eu adorava quando tinha sopa de feijão com macarrão. Antes da aula, diariamente, alunos e professores perfilados cantavam o Hino Nacional, e até hoje só sei a letra da primeira parte, mesmo assim sujeito a pequenos erros. Era 1972, ditadura militar. Passei dois anos lá e depois voltei para o colégio particular. Já conhecia, porém, os dois lados da moeda.

No Souza Leão, só um negro em toda a escola. No Minas Gerais, muitos na minha sala, inclusive dois gêmeos, chamados Cosme e Damião, filhos de uma empregada doméstica de uma casa na Urca. Não eram idênticos, Cosme era gordinho e extrovertido, Damião, magro e contido. Eles tinham uma irmã mais velha: Rosemary, que era muito bonita. No colégio anterior, também havia um par de gêmeos, Marco Antonio e Mario André. Eram diferentes também, mas só pra chatear quando eles chegavam eu e outros colegas perguntávamos quem era quem.

Tive bons professores em ambos os colégios, e também professores ruins nos dois.

Tanto numa escola como em outra, pulei, corri, caí, levantei, ri e chorei.

Mas o fundamental foi que aprendi que as crianças eram todas iguais, independentemente da condição econômica de seus pais.

Não existe sangue azul.

13 comentários:

  1. marcelo,

    eu fiz o caminho inverso de você.estudei antes em escola pública(rotary,ilha do governador,e depois ana frank,ao lado do palácio guanabara),para aí sim ir estudar em colégio particular,o santo antonio maria zaccaria,no catete,e aconteceu comigo o mesmo com você,entre todos os amigos que tive não estava nem aí para a classe social deles.abs.roberto vianna.

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    1. É, depois é que os preconceitos nos assolam... abraço

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  2. As fotos, como sempre, arrasam!!!

    O post arrasa também e destaco : "E até hoje, quando passo por ali e sinto o CHEIRO de mato do parque, é como se viajasse no tempo e voltasse a um recreio no Souza Leão" para comprovar que talvez seja a nossa melhor ou mais marcante memória da infância...a olfativa (no meu caso não tenho dúvida).

    Na minha modesta avaliação, o cerne ou foco do recado bem dadíssimo e plenamente atingido e com o qual compactuo radicalmente é:"Mas o fundamental foi que aprendi que as crianças eram todas iguais, independentemente da condição econômica de seus pais.Não existe sangue azul".

    Para ilustrar ou colocar molho rs, acrescentaria: não existe cor de pele, sexo, e sexualidade superior. Não por acaso viemos e iremos todos-igualmente filhos do mesmo PAI-, e sem exceção, para o mesmo beleléu rs.
    Abraço
    Marcos Lúcio

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    1. Sempre estudei em colégio público (Albert Schweitzer em Laranjeiras e Amaro Cavalcanti no Largo do Machado, também fiz o pré vestibular (cursinho) no Hélio Alonso)

      Nos anos 70 não haviam tantos colégios particulares como hoje em dia, e crianças ricas estudavam com crianças pobres que moravam em favelas e havia muita harmonia entre elas, e principalmente respeito pelos professores.
      Mas infelizmente isso está acabando.

      Cury

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  3. Verdade. Enquanto crianças, estabelecemos relações interpessoais com pessoas de classes sócio-econômicas, distintas, para mais ou menos, das nossas, sem inveja, rancor ou soberba. Quando adultos, muito dessa pureza relacional esvai-se. Caso desatentos de nós, corremos o risco de relações baseadas em falsos poradigmas valorativos,muitas vezes, inconscientes dessas motivações.
    Abraço

    ANTONIO CARLOS

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    1. Criança não tem preconceito, deveria ser modelo para os adultos mas acabamos fazendo com que elas se tornem iguais a nós.

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  4. Notícia de hoje: Homicídios de negros crescem 5,6% em 8 anos, enquanto de brancos caem 24,8%. Todos os dias vemos notícias sobre isso, ou sobre o desemprego maior entre negros, salários menores para negros, entre outras mazelas. Se não existisse cor da pele, não existiriam fatos como este, ou mesmo a necessidade de cotas raciais, ou de passeatas contra a homofobia se não houvesse diferentes opções sexuais, etc. Marcelo mais uma vez nos orgulha com seu texto e suas posturas ao longo da vida. Acho que em nenhum momento ele quis dizer que não existem diferenças, o que aconteceu é que ele sempre soube conviver bem com elas.

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    1. Sinceramente...quando leio no comentário do Clistenes sobre opções sexuais não entendo o que isto significa e para quem.O significado de opção é:

      sf.
      1 Ação ou resultado de optar, escolher.
      2 Cada uma das possibilidades pelas quais se pode optar; ALTERNATIVA.

      Quem, em são consciência, iria querer desagradar os pais, a religião e à sociedade quase sempre intolerante e até homofóbica quanto à homossexualidade.Seria masoquista, no mínimo. E para ganhar o quê? Ainda não ouvi um pai ou mãe dizer: gostaria que meu filho fosse homo. Não conheço um gay que tenha escolhido este imperativo biológico...aceitá-lo é outra história, de lucidez. Também nao coheço hétero que tenha escolhido...simplesmente a gente se descobre assim ou assado ou cozido.Sem exceções.

      Se algum diz existir um optante sexual, ele certamente terá uma natureza desejante dupla, aí sim, com a potencialidade de decidir se prefere este ou aquela ou este e aquela.
      Quem acredita em escolha ou opção sexual está dizendo inconscientemente, que sente atração por ambos os sexos, mas escolheu se aproximar daquele que menos problemas poderá trazer, ou seja, a heteronormativade. O resto é conversa pra boi dormir.

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  5. Acredito que existam coisas muito mais importantes a discutir quando o tema principal eh o preconceito do que questoes semanticas. O negro eh discriminado independentemente de ser chamado de preto, escurinho ou afrodescendente. Assumo minha ignorancia ao definir termos relacionados aa sexualidade e deixo para os estudiosos do assunto definir de que formas o tema podera ser mais palatavel para as familias e para a sociedade.

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  6. Marcelo,

    Sou baiano, após a revolução meu pai quebrou e mudamos para o RJ, num fusquinha, saímos de um interiorzinho da Bahia, pais, um irmão duas irmãs e uma empregada negra, chamada Aurelina que casou anos depois, pedi completamente o contato, mas sou padrinho do filho dela.
    Quebrado mas homem de visão e guerreiro, fomos morar em Capacabana, na Leopoldo Miguez, rua da classe media alta e estudamos no Dr. Cocio Barcelos, pertinho.
    Meu pai dono passou de fazedeiro a dono de táxi. Meus amigos de rua tinham bicicleta, clubes, bons colégio. No Cocio fiz um grande amigo, filho do porteiro de um prédio próximo. Meu pai conseguiu uma bolsa de estudos e fui para Instituto Souza Leão, por ter dois funcionários que eram do mesmo interior da Bahia na secretaria, Alberto e Antonio. Estudei ate o 3o. Cientifico e passei para a Candido Mendes, precisava trabalhar. No ISL fiz meus grandes amigos da vida, que preservamos os contatos e amizade até agora.
    Hoje moro em João Pessoa e acabamos de passar um fim de semana muito legal com um amigo irmão desde o ISL que por acaso era filho de banqueiro. Na verdade caráter, idoneoade, comportamento, lealdade, sinceridade, comprometimento, carinho, amor, amizade... Não dá para o pai comprar e presentear seus filhos, são valores que sempre procuro para alimentar meu de bons amigos. Sou mais velho que você, minha turma é de 76. Valeu, Abraço jose carlos moreira

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    1. Pois é, José Carlos, outro dia estive no Parque Lage e lamentei que o velho prédio do ISL não exista mais fisicamente ali do lado. Mas na nossa lembrança ele está bem vivo, e concretamente vivo nessa sua amizade de tantos anos. Um grande abraço!

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