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terça-feira, 31 de maio de 2016

O buraco é mais embaixo

A menina tem 16 anos. Não é miserável. Desde nova saiu para o mundo. Pariu aos 13. Pistoleiras do showbiz e heroínas vadias de novela devem ter feito sua cabeça. Os que a rodeiam não dispensam uma "novinha". Ela não estuda nem trabalha. Só pensa em baile funk, shortinho, sainha e top. Passa dias sem aparecer em casa. Rebola até o chão nas madrugadas. Não tem medo de favela. Namora bandidos, convive com pistolas e fuzis. Participa da endolação na boca de fumo em troca de droga. Fuma, bebe, cheira loló até desmaiar. Como ela, há milhares de garotas a fim de emoção por aí.

De repente, ela aparece na internet, desacordada numa cama imunda. Marmanjos em volta, apalpando e fazendo piadas, tudo filmado e postado. Um deles diz que mais de 30 "engravidou". A polícia, em polvorosa, prende sete. Imprensa unida contra a "barbárie". O delegado que questiona a versão inicial, encampada prontamente pela opinião pública como verdade, é afastado. A delegada que assume garante o estupro mesmo contra o laudo pericial. Convicta, ela dispensa até acareação entre os detidos, um absurdo. O ministro que não ligou para o estupro no metrô de São Paulo coloca-se à disposição. O governador que não faz nada pede pena de morte para os "monstros".

Não se trata de "criminalizar a vítima", como dizem os ingênuos, os que não querem ir fundo nas causas dessa sexualização precoce e exacerbada da molecada. O que ela esperava encontrar, um príncipe encantado? Claro que não.


Comportamento nenhum justifica qualquer ato de violência, quanto mais a inominável agressão sexual. A maior violência que essa jovem sofreu, no entanto, foi na cabeça, antes de ser abusada. Como milhões de crianças e jovens vêm sofrendo diariamente.

Como sempre, preferimos a mentira porque a verdade dói demais. Sem trocadilho, o buraco é mais embaixo. Que meninos e meninas estamos formando? A cultura do estupro está na mídia, na Popozuda dançando no programa infantil, na mãe e no pai que vestem a filhinha como puta desde os cinco anos, na novela em que a menina leva uma bofetada e na cena seguinte está na cama com o agressor... é contra isso que as feministas deveriam se revoltar.

Querem discutir seriamente a cultura do estupro, não se baseiem nesse caso, que já era previsível pela autoexposição irresponsável da menina diante da bandidagem. Investiguem as razões de alunas do Pedro II e da Universidade Rural estarem sendo violentadas pelos próprios colegas de sala. Isso sim mostra como a coisa está feia.


Se querem discutir a cultura do estupro, extensão da cultura da violência, vamos falar sobre educação, não só na escola mas principalmente em casa, onde muitos pais costumam delegar a tarefa mais importante de suas vidas à nefasta babá eletrônica, fonte inesgotável de preconceitos, agressividade e sexismo.

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9 comentários:

  1. Muitas mulheres se ofendem com o teor do texto e acusam o autor de "criminalizar" a vítima. Ela é vítima, sem dúvida alguma, mas vítima não só do estupro sofrido. Vítima da ausência e da negligência dos pais e educadores, questão esta crucial e alvo da discussão proposta.

    Sem dúvida nenhuma é preciso sim ter o discernimento de não se colocar em situações de vulnerabilidade, como a vítima em questão. Não sejamos hipócritas a ponto de achar que tudo é permitido em nome da causa feminista. Ser feminista é antes de mais nada defender a vida, com a responsabilidade de assumir os riscos inerentes às atitudes que tomamos.

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  2. Não vejo que a necessidade de investigar o caso da Rural (onde estudei) e do Pedro II, e da necessidade de buscar a fundo as causas da violência contra a mulher deva excluir a possibilidade de investigar o caso da menina na favela. Se ações de longo prazo são mais importantes no caso, não devemos por isso abrir mão das ações de curto prazo.

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  3. Considero evidente como estupradores desvalorizam e desrespeitam e inferiorizam a mulher, antes de tudo. Imperdoável esta barbárie . Infelizmente a Igreja e a Bíblia deram e ainda dão sustentação à perversão dos machos irracionais/bestiais.A mulher, durante grande parte da história das civilizações, foi tida como o ser inferior, sujeito subordinado ao homem. Eva representou o símbolo da inferioridade e pecado, já que foi gerida de parte do corpo do homem, associando assim a sua dependência e subordinação ao mesmo. É claro que essa interpretação nos foi contada pelos homens que escreveram a história à sua maneira falocrática.
    A Idade Média projetava a imagem da mulher em dois modelos distintos, sendo Eva o modelo da mulher naturalmente ostentadora dos diversos vícios (mentira, luxúria, feitiços, etc). Por outro lado, temos o modelo da mulher virtualmente ideal, Maria, aquela que virgem (pura) gestou o ser símbolo da divindade e aproximação do céu à terra, Jesus.
    Assim, a trajetória da história da mulher , objetificada, é reflexo do que queriam nos contar, de maneira tendenciosa, manipulada e controladora... os homens que a escreveram.

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  4. Este caso lamentável e vergonhoso lembrou-me de um estudo. Um grupo de cientistas canadenses se reuniu para fazer uma revisão de toda a literatura existente sobre o tema. O resultado é o livro The Causes of Rape: Understanding Individual Differences in Male Propensity for Sexual Agression ("As Causas do Estupro: Entendendo Diferenças Individuais e a Propensão Masculina para a Agressão Sexual").

    De acordo com o grupo, liderado pelo psicólogo Martin Lalumière, da Universidade de Lethbridge, estupro e coerção sexual aparecem em homens com conduta anti-social. Eles são indiferentes aos interesses de outras pessoas, tendem a desvalorizar as mulheres e não raramente estão envolvidos em outros tipos de crimes e agressões.

    Uma conclusão surpreendente do grupo é que, ao contrário do que muitos estudiosos acreditam, esses homens não têm dificuldade para conquistar mulheres. Muito pelo contrário, apresentam forte tendência ao que se define como "esforço reprodutivo" - ter o maior número de parceiras sexuais possível com relações curtas e rápidas.

    Os pesquisadores apontam três tipos de homem que se encaixam nesse perfil: rapazes no fim da adolescência e começo da vida adulta que contam não só com uma impulsividade sexual natural, mas também com uma noção de risco relaxada, agressores que persistem com esse comportamento a vida inteira e os psicopatas. O problema é que esses mesmos traços costumam ser característicos de outros criminosos. O que gera a pergunta: por que nem todos estupram?

    A equipe de Lalumière encontrou o caminho para a resposta em testes de laboratório que checam o grau de ereção dos homens diante de relatos de sexo. No estudo, estupradores, criminosos e pessoas comuns ouviram histórias de sexo consensual e forçado. Nos relatos de estupro, o sofrimento da vítima era enfatizado.

    Em todos os testes, os estupradores ficaram igualmente ou mais excitados com o sexo forçado que com o consensual. Na comparação com outros homens, o grau de excitação diante dos relatos de violência sexual foi maior. Essa diferença ficava mais marcante quando o estupro envolvia brutalidade extrema.

    Diante desses resultados os pesquisadores questionaram se o estupro poderia ser um tipo de desordem psiquiátrica sexual como o sadismo, por exemplo. Mas não parece ser o caso, uma vez que boa parte das relações sádicas é consensual. O mais provável, defende o grupo canadense, é que essa excitação seja mais um reflexo do comportamento anti-social. Em suma, estupradores não são necessariamente atraídos pela violência, mas incapazes de serem inibidos por ela. Afinal, eles não se importam com o sofrimento da vítima.

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  5. Marcelo, sua lucidez me revigora.

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