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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Favela do Aço

No Dia do Repórter, lembrei de quando era "repórti" do jornal O Dia. A foto é de 1990, na escaldante favela do Aço, em Santa Cruz. Lembro que andamos infinitamente pela Avenida Brasil até ela virar uma estrada de terra. Quando nossa equipe chegou, fomos cercados e saudados como se tivéssemos acabado de ganhar uma Copa do Mundo. Mas não havia motivo para festa.

Segundo os moradores, um tenente do RPmont havia acabado de matar o marido da moça morena da foto abaixo. Todos estavam revoltados especialmente contra o tal tenente, a quem acusavam de costumeiramente tocar o terror na comunidade. Disseram que a vítima "era trabalhador". Sua mulher, apelidada de Índia, nem chorava. Seu filho, de uns cinco anos, estava ali, no meio daquela confusão.

A multidão gritava ao meu redor, todos contando a história ao mesmo tempo. Eu, suando em bicas, tentava entender a mecânica do que havia se passado. Inútil. Um pandemônio.

Saindo dali, fomos ao Regimento de Polícia Montada da PM, em Campo Grande, também na Zona Oeste. O tenente acusado pelos moradores nos recebeu serenamente. Posou orgulhoso ao lado de um carregamento de drogas que afirmou ter apreendido durante a operação na Favela do Aço. Sobre o homem morto, disse que "era traficante".

A revolta não deu em nadam. O tenente seguiu sua carreira e, anos depois, ocupava um alto cargo na PM...

Foto: Paulo Araújo

2 comentários:

  1. Ainda bem que este tipo de violência não acontece mais...tá tudo pacifikkkkkkdo .Finalmente evoluímos e não existe mais este imperdoável e insustentável abismo social (nem louco acredita, né?rs).

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  2. Quando Brizola proibiu a PM de subir o morro para esculachar os moradores, muita gente criticou. O Brasil foi ingrato com Brizola.
    Cury

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