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quarta-feira, 12 de junho de 2013

A morada do arco-íris

Nos anos 70, quando o governo brasileiro decidiu acabar com o salto das sete quedas foi uma gritaria geral. Era ditadura militar, mas mesmo assim todo mundo reclamou, afinal aquela maravilha da natureza daria lugar a um lago estéril para construção da usina hidrelétrica de Itaipu, entre o Brasil e o Paraguai.

Eu também fiquei bravo na época, porque achava que algo fantástico estava sendo perdido para que nós pudéssemos, hoje, acender a luz de casa numa boa. E estava mesmo. Mas os generais decidiram, as sete quedas foram inundadas e milhares de animais e plantas morreram.

Ontem, no entanto, conheci as incríveis cataratas do Iguaçu, no Paraná, e concluí, tardiamente, que, apesar dos danos ecológicos lamentáveis, não havia como salvar as sete quedas. Estaríamos hoje sem energia elétrica, assim como nossos vizinhos guaranis.

E, como descobri com meus próprios olhos, sobraram muitas outras quedas gigantes, de até 80 metros, que fazem das cataratas paranaenses uma das maravilhas desse nosso mundo. É incrível, acho que nenhum  brasileiro deveria morrer sem ver de perto tão impressionante manifestação da força da natureza. É como se um tsunami fosse exposto na vitrine para contemplação sem riscos. De repente, descortina-se na nossa frente um maremoto domesticado.

Foto: Marcelo Migliaccio


O parque é muito bem cuidado, limpo, tem ótima infraestrutura e, pasmem, cobra entradas bem mais baratas do que as do bondinho do Pão de Açúcar ou da estátua do Cristo Redentor.

Foto: Marcelo Migliaccio


Os mais radicais se aventuram em passeios de barco para sentir, literalmente no lombo, a força das águas.

Foto: Marcelo Migliaccio



Todo mundo aqui tem seu lugar ao sol. E quem disse que urubu não toma banho?

Foto: Marcelo Migliaccio



Ao ouvir o som dos milhões de litros de água do Rio Iguaçu se derramando abruptamente sobre o Rio Paraná, o visitante fica extasiado. Por isso, certamente, havia gente de todas as partes do mundo, de chineses a israelenses, de ingleses a peruanos, todos boquiabertos e com suas máquinas de fotografar e filmar a registrar aquele espetáculo.

Foto: Marcelo Migliaccio


Mas há dois moradores do parque que chamam a atenção. Os quatis, sempre à cata de alguma guloseima dada pelos visitantes...

Foto: Marcelo Migliaccio

...e as borboletas, muitas, muitas borboletas que, nesse período do ano, estão por toda parte.

Foto: Marcelo Migliaccio



Com a proibição expressa de se alimentar os quatis, que vinham até atacando turistas para conseguir alimento, esses animais ficam a perambular pelas trilhas, em pequenos grupos, farejando farelos pelo chão. Na lixeiras, sempre encontram algo... aliás, nem sempre, já que pilhas e baterias não fazem parte do seu cardápio...

Foto: Marcelo Migliaccio


Já as borboletas oferecem um curioso contraste entre a força das águas e a delicadeza de suas asas tênues. Como que a nos mostrar que nós, humanos, é que somos os intrusos, os vulneráveis, elas voam a apenas alguns metros da torrente aquática fenomenal. Um pingo seria suficiente para aniquilar tão frágeis criaturas, mas elas desafiam a lógica e desconhecem o medo, como que a nos mostrar que quem destoa ali é o homem.

Foto: Marcelo Migliaccio

14 comentários:

  1. As cataratas do Iguaçu, como diz o nome, são quedas do Rio Iguaçu, que mais adiante deságua no rio Paraná - é a foz do Rio Iguaçu, que dá nome à cidade. Já a usina hidrelétrica de Itaipu foi construída represando as águas do Rio Paraná, no qual existiam as Sete Quedas.
    Assim, não está correto dizer "o Rio Paraná se derramando abruptamente sobre o Rio Iguaçu".

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  2. Concordo pletoramente:"É incrível, acho que nenhum brasileiro deveria morrer sem ver de perto tão impressionante manifestação da força da natureza", acrescentando:todos os seres humanos que tiverem condições, não podem deixar de ver este que considero O MAIOR SHOW DA TERRA,de fato... e com direito a exuberante arco-iris (e olha que tive a felicidade de ver muitos outros). As fotos estão maravilhosas e falam por si.Talvez por esta característica do meu signo: paixão por águas, tenho este como o mais marcante e inesquecível espetáculo da minha vida.
    Marcos Lúcio

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  3. Com essas fotos maravilhosas, realmente visitar a Foz do Iguassu é uma das 500 coisas que se deve fazer antes de morrer. Curta bastante esse privilégio. Yves.

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  4. Os leitores viajam com as viagens do Marcelo.

    Cury

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  5. Esses Quatis sao demais, verdadeiros comediantes da natureza.
    Parabens Marcelinho

    Torelly

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  6. Não existe assim uma relação direta de causa e efeito do tipo "algo fantástico estava sendo perdido para que nós pudéssemos, hoje, acender a luz de casa numa boa". Nada feito da forma como a ditadura fazia passando por cima de tudo e de todos deve ser aceito como natural. O Brasil tem um grande potencial hidrelétrico e certamente haveria outras alternativas para produção de energia que não precisasse acabar com um patrimônio natural como era sete quedas. Imagine que alguém dissesse que a forma mais barata de produzir energia seria acabando com o Corcovado e o Pão de Açúcar? Obviamente que teríamos que avaliar qual a importância destes monumentos para o País e se valeria a pena trocar isso por alguns kW de energia. Lembro-me que na época eu era estudante de biologia da Rural e o fato originou até uma música com a qual participamos do FEMURJ (Festival de Música da Rural) disputando com o Paralamas do Sucesso. Se esquecermos o quão nociva foi a ditadura vamos acabar como o Lobão dizendo que tudo isto contra a ditadura é muito barulho por conta de "algumas unhazinhas arrancadas".

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    1. Discordo, Alexandre, toda a energia do Sudeste vem dali

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  7. Marcelo, eu teria que explicar como funciona o nosso sistema eletrico central. Resumidamente, a energia produzida em qualquer hidreletrica cai neste sistema e depois disso pode ir para qualquer lugar do Pais e nao necessariamente onde foi produzida. Mas essa parte tecnica eh chata e prefiro criticar o Lobao rsrsrs...Abraco.

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    1. A informação oficial passada por Itaipu Binacional é de que a energia gerada lá vai para os quatro estados do Sudeste. E para isso o Brasil ainda compra o excedente paraguaio a US$ 360 milhões ao ano. Abraço

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  8. Pois eh, mas na verdade isso quer dizer que a energia gerada la em kW eh suficiente para abastecer os estados do sudeste, mas esta nao necessariamente vem de la. Lembre-se que algum tempo atras a regiao estava seca e nem por isso o sudeste ficou sem energia. Se ha uma queda de producao em alguma regiao do pais imediatamente aumenta-se a producao em outra e vida que segue. Mas o mais importante eh ressaltar que uma hidreletrica deve ser construida com o menor impacto possivel depois de um processo de negociacao entre os empreendedores e a populacao afetada pelo empreendimento.

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  9. Faz bem para a alma ler nos jornais a seguinte notícia:

    Eike se previne (desespera) diante da ruína de seu patrimônio. (JB online).

    Cury

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  10. Fóz do Iguaçu pra mim tem uma energia ( que não é a gerada pelas turbinas da hidrelétrica ) diferente e boa.
    Eu tenho uma casa numa vila residencial ao lado da Itaipu. Quase todo ano vou pra la. Minha familia mora lá.
    Gostaria que meu corpo fosse enterrado em meio às florestas e cachoeiras que tem por lá.
    Sergio.

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    1. Eu queria que minhas cinzas fossem jogadas no Maracanã, onde vivi alguns dos melhores momentos da minha vida, mas naquele Maracanã, não nesse de agora...

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