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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A bisavó de 48 anos

Morreu Oscar Niemeyer, um gênio da arquitetura mundial, apesar de seus projetos sempre com poucas árvores e, consequentemente, nenhuma sombra.

Mas seu modo de fixar alicerces diagonais, com aquelas pilastras elípticas, parabólicas, sem dúvida, mostra um talento único e inovador. Acho o Palácio do STF sua construção mais bela entre tantas. Seu obituário estava pronto nas redações de jornais e revistas há pelo menos três décadas. Hoje, finalmente foi publicado.

Aos 104 anos, perdeu sua única filha do primeiro casamento há pouco tempo. Ela morreu com mais de 80... antes dele.

Teve ainda netos, bisnetos e trinetos.

Niemeyer foi uma das poucas pessoas que pôde chegar para um neto e perguntar:

_ Meu neto, cadê teu neto?

É muito tempo de vida... ele já devia estar de saco cheio de tanto carnaval, de tanto Natal, de tanta oferta de supermercado, de tanta mensagem de fim de ano da TV Globo...

Chega uma hora que a vida enche o saco, né não? Pode demorar cem anos, mas chega. O problema é a rotina, a falta de prazer a que o sistema nos condena. Niemeyer viveu muito, seu tempo, seus amigos, sua moda, seus passatempos, todos passaram. Tudo passa. Acho que já não se encontra pelas ruas ninguém que tenha votado em Getúlio Vargas. E um dia nós passaremos também. Não haverá mais ninguém vivo que tenha assistido à série Jeannie é um Gênio na televisão (até o major Nelson já foi pro espaço).

E as coisas mudam. Ainda ontem, numa praça da cidade, ouvi uma mulher contando que uma amiga dela se tornou bisavó aos 48 anos! Isso mesmo, a netinha da dita cuja, de 15, acabou de ter um bebê. A jovem é apenas outra vítima da lavagem cerebral sexista despejada pela mídia em cima de crianças e adolescentes. Esse sim é um crime grave, cujos responsáveis deveriam estar sendo julgados no Supremo Tribunal Federal.

E a bisavó de meia idade deve estar fula da vida, pois ainda vai ter idade para tomar conta dos trinetos quando a bisneta for para o baile funk.

O mundo que Oscar Niemeyer conheceu morreu muito antes dele.



Lei também:

A paisagem do museu


10 comentários:

  1. Mandou bem Marcelo:
    "O mundo que Oscar Niemeyer conheceu morreu muito antes dele"

    Visitei algumas de suas obras, mas a Catedral de Brasilia (pela beleza) e o Mac (pela localização) se destacam.

    Cury

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  2. Muitíssimo bem lembrada a lavagem cerebral sexista da mídia (mais fortemente daquela com nome de biscoito...que não assisto mas sei: é a de maior ibope)que incentiva ou possibilita o absurdo de uma jovem mulher ser bisavó aos 48 anos. Mais pasmado do que estou, e com pena..."tá difirce".

    O mais trágico disto tudo, é que as condições emocionais, habitacionais, culturais e, logicamente, financeiras, desta que suponho, conceitualmente-preconceito é falta de respeito, no mínimo, além de ignorância- pobre mulher (mora onde?! e como?!)seriam, em condições mais civilizadas e razoáveis, totalmente impeditivas para tal descalabro.Jamais ouvi falar de mulher rica ou classe média em semelhante e insustentável ou surreal condição, nem como exceção.

    O desfecho é mais trágico ainda: vai tomar conta dos trinetos para a bisneta ir para o baile funk. Seria cômico se não fosse trágico em demasia. E esse povaréu todo-perpetuando a pobreza em progressão geométrica- vai trabalhar onde e em quê??? É mais do que preocupante e lamentável (e sem culpá-los, não sabem ou não dimensionam o que fazem)... é fhoda (com ph mesmo!),é funk!!!. Continuo pasmado.
    Abraço
    Mrcos Lúcio

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  3. Truísmo, afirmarmos que a alma de Nimeyer, está imortalisada nas curvas de concreto de beleza e originalidade singulares, que disseminou pelo mundo.
    Quanto a longevidade de sua criativa passagem pela terra, nos ultimos anos, foi marcada pale inevitável decadência física.
    Longe de estabelecer qualquer paralelo entre minha vida e a dele, considero terrível, viver tanto tempo, mesmo sendo o gênio que foi. Prá mim, pesoalmente, espero nâo ultrapassar os setenta e cinco anos, ainda assim, apenas, se ainda tiver plena autonomia sobre minha vida e não alternando, internações hospitares com períodos em casa, pois em meu entendimento, isso, já configura a morte.

    Abraço.

    ANTONIO CARLOS

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  4. É merecedor de destaque a afirmativa "O mundo que Oscar Niemeyer conheceu morreu muito antes dele", como já o fez o leitor Cury. Acho que uma das mais lúcidas frases a respeito do Oscar Niemayer que li hoje. Claro que é preciso reverenciar esse Brasileiro com B maiúsculo. Não que seja melhor ou maior que aqueles brasileiros que dedicaram suas vidas a construção em concreto das sinuosas da prancheta do arquiteto, mas é que estamos ficando carentes desses Brasileiros, aqueles que amam essa terra e dela fazem o seu propósito de vida, que levam o nome Brasil para os quatro cantos do mundo, e que acreditam que esse é o mais belo dos belos, oh, pátria amada.

    O sonho do homem acima de suas convicções.

    E o ateu ergueu uma catedral, diferente de todas, para que o ato de contrição fosse realizado olhando para céu, e o fiel se conectasse a seu Deus sem intermediários.

    E festa boa é na praça, onde o povo reunido, se esbalda de alegria, canta, samba, chora, esquece do trabalho, das tristezas, decepções, dificuldades, onde todo mundo junto e misturado, comunga da apoteose do carnaval. A arte universalizando direitos.

    E voar na nave espacial sem tirar os pés da terra? É quase um modo de experimentar a imortalidade de forma consciente.

    Os meios de comunicação falaram hoje exaustivamente de sua obra, do seu traço revolucionário, da preferência pelas curvas que lembravam as montanhas do Brasil, as ondas do mar, o corpo da mulher desejada. E ai, lembrei-me das linhas, daquelas que foram desenhadas pela natureza na palma das mãos.

    Da linha do coração, talvez só os mais chegados soubessem, quem sabe somente as estrelas dominaram esse saber;

    Da linha da cabeça, muito foi revelado, revirado, questionado, discutido;

    Quanto à do destino, ninguém soube, pois só a ele pertenceu;

    E da linha da vida, desenrolou todo o carretel, e esticou-a até o último fiapo, num belo e rebuscado bordado.

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    1. Parabéns, anônimo...que bela e tocante e merecida homenagem para este gênio!!!
      A frase do Marcelo que vc também destacou, é, de fato, supimpa!!!

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  5. O genio está nu...?
    Comentaram na TV que o projeto dos Brizolões teve de ser revisado, pois Niemeyer nao teria levado em conta o quão barulhentas as crianças são. Hipocrisia de nossa imprensa prostituta, que não quer dizer que as crianças do tempo de Niemeyer eram crianças normais e não como as atuais que em sua maioria desconhecem o que seja educação, diciplina, respeito pelos pais e professores, etc etc etc. Foi com isso que Niemeyer na realidade não contou, que o instinto animalesco tomaria forma até em nossas crianças. Mas como nada é por acaso, tudo isso é fruto de interesses maiores, aos quais a nossa imprensa tristemente se vende e arrasta a todos nós. Torelly

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  6. Muito bom o texto.
    Duilio

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  7. Torelly tem razão, as crianças de hoje são diferentes das crianças de ontem.

    Por isso que sou muito a favor das escolas passarem a dar aula de cidadania, para prepararmos melhor socialmente as nossas crianças.

    Até enviei e-mail para a secretaria de educação sugerindo aula de cidadania e expliquei a sua importância, mas eles nem responderam !!

    Na minha época, tínhamos aula de meio ambiente/ecologia, as crianças eram um VIMA (vigilante do meio ambiente) com carteirinha e tudo.

    Sobre a genial ideia do Darcy Ribeiro & Brizola junto com Niemayer de criarem o CIEP, seria melhor as crianças se adaptarem a nova escola ao invés de modificar o projeto original.

    Ainda sonho que o Brasil vai importar de Portugal a Escola da Ponte, uma escola sensacional.

    Cury

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  8. Pois é, que as crianças sejam simplesmente crianças...

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  9. Eu sei que o assunto não é esse, mas vale a pena dar uma lida no texto que Leonardo Boff escreveu sobre a Veja, depois que um de seus colunistas fez duras críticas ao Oscar Niemeyer.

    Basta acessar o link abaixo:

    http://amaivos.uol.com.br/amaivos09/noticia/noticia.asp?cod_noticia=22462&cod_canal=85

    Cury

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